A carne é forte e global, por Marcos Sawaya Jank (*) (na FOLHA deste sábado)

Publicado em 13/04/2017 19:01 e atualizado em 15/04/2017 10:10
O setor de proteínas animais é um dos raros em que o Brasil é referência global. (Jornal “Folha de São Paulo”, Caderno Mercado, 15/04/2017)

A exportação brasileira de carnes cresceu 13% ao ano desde 2000 e atingiu US$ 14,4 bilhões em 2016. Ocupamos o 2º lugar no ranking mundial, exportando carne de aves para 160 países (1º do mundo), bovina para 138 países (2º lugar) e suína para 88 países (4º lugar).

A exportação é volumosa e diversificada em produtos e destinos neste setor, que é um dos mais dinâmicos do agronegócio mundial. Se o Brasil sair do mercado mundial, haverá uma imediata escassez que impactará a segurança alimentar de boa parte da população mundial.

Os principais fatores que explicam o sucesso do Brasil nas proteínas animais são:

a) Disponibilidade de milho e farelo de soja: principais componentes da ração usada para criar aves e suínos, esses dois itens respondem por mais da metade do custo de produção dos animais. A maioria dos países que produzem carne no mundo importa soja e/ou milho das Américas (Brasil, EUA e Argentina), o que encarece o seu custo de produção.

b) Produtividade: genética avançada e uso de insumos modernos garantem elevadas conversões alimentares na produção de aves e suínos (kg de ração por kg de carne). No boi, o melhoramento de capins tropicais e do gado zebuíno (puro ou cruzado com raças europeias) gerou 143% de ganho de produtividade desde 1990.

c) Status sanitário: o Brasil tem sido privilegiado pela ausência de graves epidemias que atingem a pecuária em outros continentes, como a influenza aviária, a doença de newcastle, a peste suína, a diarreia epidêmica porcina e a vaca louca.

d) Coordenação da cadeia produtiva: exemplos notáveis de coordenação e eficiência da cadeia de carnes são:

- o sistema de integração lavoura-pecuária na produção primária de grãos e bovinos;

- a integração vertical entre pequenos produtores de suínos e aves e as indústrias processadoras, sejam elas privadas ou cooperativas;

- a amplitude e a eficiência da cadeia fria, que vai do processamento à geladeira dos consumidores no país e no exterior;

- a grande quantidade de auditorias, certificações e padrões privados que garantem qualidade, sanidade, rastreabilidade e bem-estar do animal.

Vale destacar que a maior parte dos países importadores impõe rígidos sistemas de aprovação de cada unidade industrial brasileira que quer exportar, começando com um acordo sanitário internacional, o preenchimento de longos questionários e auditorias que vão habilitar e monitorar só uma parte das unidades.

Esse processo é moroso e pouco transparente, repleto de travas sanitárias, técnicas e burocráticas, não raro sem base científica e previsibilidade. Nossos frigoríficos são constantemente inspecionados por fiscais, técnicos e clientes dos países importadores: em 2016, só a JBS e a BRF receberam 550 auditorias privadas do exterior.

Curiosamente vários países que hoje restringem a carne brasileira não aplicam internamente os mesmos critérios exigidos nas importações. A realidade nua e crua de grande parte dos países em desenvolvimento é triste: abate de animais vivos em mercados molhados (chamados de "wet markets"), sujeira e contaminações por toda a parte, animais heterogêneos e sem controle sanitário de origem, trabalhadores descalços, sem camisa, luvas ou toucas de proteção, ausência de cadeia fria no mercado e nas casas.

Padrão, sanidade, qualidade e cadeia fria infelizmente são a exceção, e não a regra, para a maior parte dos consumidores do planeta.

O setor de proteínas animais é um dos raros segmentos da economia em que nos tornamos referência global, graças a exportações que agregam volume, qualidade, sanidade e preços acessíveis, além de boas perspectivas. Basta dizer que, enquanto a demanda mundial por alimentos aumentará 46% até 2050, a procura por proteínas animais crescerá 95%, mais que o dobro.

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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