"Quantos quilos de matéria seca estão protegendo o seu solo?" pergunta o decano Fernando Penteado

Publicado em 03/05/2019 14:24
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NA COMEMORAÇÃO DO ANIVERSÁRIO, FERNANDO PENTEADO CARDOSO ANALISA O TRABALHO DA AGRISUS

Aos 104 anos de idade, formado pela escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em 1936, Fernando Penteado Cardoso instituiu a Fundação Agrisus em 2001, depois da venda da Manah, empresa que fundou e dirigiu por mais de 50 anos. A pesquisa agronômica sempre foi uma de suas preocupações e a família concordou em destinar uma parte do lucro auferido com a transação para a formação de uma entidade com esse propósito.

Privada e sem fins lucrativos, a Agrisus é a única no Brasil a trabalhar exclusivamente com recursos próprios no apoio a projetos educacionais, pesquisa, desenvolvimento e divulgação de novas tecnologias relacionadas à conservação e melhoria da fertilidade do solo. Sua maior conquista foi tornar-se estável e eficiente, sem depender de seus fundadores, com patrimônio próprio cujo rendimento é aplicado em financiamentos previstos em seu estatuto.

Qual foi seu objetivo ao fundar a Agrisus?

Quando você toma uma iniciativa desse tipo tem que se basear em um sentimento de otimismo, se não você não vai fazer uma doação substancial, como foi na época, se você parte de premissas negativas. Nós esperávamos que poderíamos ser úteis para suprir aquela pequena parte da pesquisa agrícola, principalmente, em que os colegas sempre se queixam de falta de verba, de muita burocracia para obter recursos financeiros. Sempre pensei que nós pudéssemos suprir essa lacuna, como realmente aconteceu.

Quando o sr resolveu montar a Fundação com esse formato, o sr tinha ideia da dimensão que ela tomaria, o número de projetos recebidos e aprovados, o papel que essa entidade poderia ter?

Nós esperávamos até mais, esperávamos que houvesse a cocriação de outros fundos privados para projetos maiores mas, dentro das nossas limitações orçamentárias, eu acredito que o número de projetos é realmente satisfatório e nos agrada muito, lembrando sempre que nós estamos focados em solo, em seu melhoramento, na conservação, na melhor lucratividade da agricultura baseada nas lidas com a terra propriamente dita. Acredito que temos tido sucesso nessa direção.

O que chama muita atenção é que chegam projetos do país inteiro, das menores áreas às grandes produtoras.

É um fato extremamente positivo. Se o Brasil é uma grande nação agrícola, com climas tão variados desde o Rio Grande do Sul até o extremo norte de Roraima, me agrada muito, é até um sinal de sucesso que os pedidos e os projetos aprovados alcancem a extensão geográfica do país com suas inúmeras situações de clima, de solo, de lavouras as mais variadas possíveis. Isso significa que nos tornamos muito conhecidos.

Dezoito anos depois, a Agrisus continua sendo a única entidade a financiar pesquisas desse tipo. O que falta? Existe pouco interesse da parte do governo, de outras entidades privadas?

Eu não diria do governo. Em relação a outras entidades privadas eu esperava, temos até no estatuto a possibilidade de executar, patrocinar pesquisas da nossa organização financiadas por terceiros. Isso, infelizmente não veio, só trabalhamos com nossos fundos próprios. Acredito que esses fundos todos têm sido bem aplicados e têm se reproduzidos mas, francamente, eu esperava que pudesse ser o carreador de outros fundos de outras pesquisas agrícolas na mesma direção. É certo que nós fechamos muito o leque das nossas finalidades. Foi de propósito, mas isso reduz a possibilidade de colaboração.

Nós estamos sempre orientados no solo, na fertilidade do solo agora e no futuro, ao passo que a pesquisa agrícola como um todo, o que atrai mais são experiências nem sempre relacionadas ao solo, como as experiências genéticas, as experiências com base nas moléstias, às pragas e outras técnicas agrícolas mas não diretamente no solo. Como nosso leque é pequeno, nós queríamos nos especializar nisso, até agora não ocorreu tanto auxílio de outros fundos privados. Os fundos de governo são das estações experimentais. Nós temos complementado esses fundos mas não os substituído.

Eu vejo que o grande papel da Agrisus tem sido complementar projetos financiados por entidades oficiais mas que falta alguma coisa em certo momento e ele vai a termo, completa a pesquisa, muitas vezes em relação à publicação e divulgação com os fundos que a gente pode prover. Por outro lado, nós temos a finalidade do ensino, principalmente, mas o ensino individual requer uma organização só para isso daí o nosso patrocínio ser, quase que sistemático, para encontros, reuniões de todo tipo de ensino coletivo onde os auditórios, muitas vezes, são de 100, 200, 300, 400 ou mais pessoas ouvindo os palestrantes explicarem tudo o que sabem sobre o assunto. De modo que acredito que nossa grande ideia está sendo bem cumprida.

E como o sr analisa a situação da agricultura no país?

Nós não temos os elementos de análise da agricultura como poderíamos ter. Acredito que na nossa matéria, relacionada à fertilidade do solo, uma das bandeiras para se medir é ver o resultado da pesquisa feita pelo Rally da Safra porque visitaram alguns milhares de locais e anotaram o que estão fazendo no solo nesses lugares. Ter um resultado otimista significa que o nosso papel está sendo cumprido.

Do ponto de vista da Agrisus, qual a principal contribuição que ela pode dar?

Toda prática agrícola pode ser sempre aperfeiçoada e o grande foco, no meu entender, até certo ponto pessoal, é que nós temos uma agricultura tropical, num clima quente, chuvoso, em que todas as atividades do solo são rápidas e evoluem muito bem, inclusive a rapidez do esgotamento do solo.

Então o fato de nós propagarmos muito a cobertura do solo já evoluiu bastante mas pode andar muito mais.

No meu entender pessoal, a agricultura tropical é baseada no solo sempre recoberto de resíduos onde uma planta viva com a finalidade de conservação.

O que o sr ainda gostaria de ver na agricultura brasileira?

Essas práticas eu gostaria de ver mais disseminadas e mais aperfeiçoadas. Por exemplo: eu noto muita falta de quantificar, de ver um número relacionado à cobertura do solo. Nós temos um número hoje expresso simplesmente sobre se a área está ou não coberta mas não há a menor preocupação com a quantidade de resíduos que está depositada no início de cada cultura.

Talvez esse seja um ponto a ser investigado de uma maneira simples e prática, de ter um número quantitativo que dá a qualidade da tecnologia de manter o solo coberto.

Afinal: quantos quilos de matéria seca que estão protegendo o solo no momento de iniciar uma cultura, seja da soja, milho ou do conjunto dos dois?

É preciso ter um número e os poucos números que são divulgados nesse sentido sempre indicam que o ideal é ter, no mínimo, quatro a cinco toneladas de matéria seca recobrindo o solo na hora de iniciar uma nova cultura.

Para os próximos anos, o que o sr espera da Agrisus?

Espero que a Agrisus possa cuidar de projetos mais amplos. É difícil dizer mas se ela continuar com o papel atual já é um sucesso e poderá, eventualmente, promover pesquisas em certas direções que são necessárias. Você veja que hoje em dia está muito na moda, vamos dizer assim, estão se desenvolvendo muito as condições biológicas do solo. São recomendações dos tipos de bactérias, de famílias de bactérias, espécies, que têm um efeito positivo sobre a planta beneficiada por elas.

Nesse sentido, a conservação do solo e a alimentação dessas bactérias por uma boa prática agrícola conduz ao sucesso dos cientistas que estão cuidando desse aspecto biológico da lida com o solo. Também espero que os colegas que estão conduzindo as pesquisas no sentido da conservação do solo, de manter a terra recoberta, possam apresentar projetos de pesquisa para aperfeiçoar o sistema que sempre pode ser melhorado.

Os fundadores da Agrisus, que são eu, meus filhos e também com a participação da minha falecida esposa, estamos satisfeitos com o aproveitamento dos seus fundos. A Agrisus cresceu bastante e ela tem tido uma administração bastante eficiente e coerente e, com isso, os fundadores se sentem realizados com seu sucesso. 

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Fonte: Fundação Agrisus

3 comentários

  • Elvio Zanini Sinop - MT

    Sou Comerciante de Máquinas e Equip.Agric... e Outros Equip. .Contudo Eu e Meus Filhos ;Somos Agricultores e _Pecuaristas; Estou com uma Fazenda de Campo Nativo em Sta. Maria das Barreiras -PA, e Estou cultivando a Brachiara Ruzisziencis Em área que foi cultivado Soja no Primeiro ano e notamos que faltava Cobertura do Solo ,Por existir muito cascalho. A brachiara foi Semeada em Março de 2016; com correção de calcário e fósforo . Certamente analisamos que estamos no caminho certo para a alta produtividade dos Cereais .

    Elvio Zanini - Sinop -MT

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    • Getulio Coutinho

      Correto, Elvio. Mas a brachiara é somente para cobertura, certo ? Um detalhe, principalmente aí no MT (norte em geral), é que vai consumir nitrogênio. Então a cobertura pode ter também o guandu - se não causar doenças na soja - porque vai evitar o pisamento do solo.

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  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Existem pessoas... &... Existem pessoas iluminadas.

    Está aí um exemplo vivo de uma "luz" que ilumina o caminho a ser seguido pelas futuras gerações.

    Dr. Fernando, com certeza, o Sr. honra a classe dos engenheiros agrônomos e, principalmente os Esalqueanos.

    Independente das particularidades o Sr. honra os produtores rurais e os brasileiros.

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  • Vladimir zacharias Indaiatuba - SP

    Dr Fernando, com quem eu tenho a honra de compartilhar da sua amizade, é sem dúvida uma das figuras que mais contribui para a pujança do agronegócio brasileiro.... Sua visão de futuro impressiona.... Além de toda sua importância para agricultura na produção de fertilizantes e na pesquisa, tem também papel preponderante na evolução do nelore nacional.

    Sua obstinada defesa da pureza racial da linhagem Lengruber permitiu um saudável refrescamento de sangue... Hoje praticamente não existe criatório que não tenha participação dessa linhagem no seu plantel.

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