Situação da Peste Suína na China é calamitosa, alerta Marcos Jank

Publicado em 11/05/2019 18:40 e atualizado em 13/05/2019 09:15
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No longo prazo o Brasil tende a ganhar, mas é preciso mais estratégia e coordenação. (por Marcos S. Jank (*) e Rodrigo C. A. Lima (**)

A China, país que produz e consome mais da metade da carne suína mundial, vem sendo devastada por uma grave epidemia de peste suína africana.

A situação é calamitosa: 

1. Estima-se perda de 134 milhões de cabeças —sobre um total de 684 milhões—, gerando uma queda da ordem de 20% na produção de carne suína, que pode chegar a 35% se o pior cenário desenhado pelo Rabobank se concretizar. O problema se agrava com o grande trânsito de animais dentro da China e com o Sudeste Asiático, além do fato de um quinto da produção doméstica vir da pequena produção de “fundo de quintal”, com alta exposição ao vírus e controle sanitário precário.

2. Para o Brasil, o principal impacto negativo da peste suína se dará sobre as exportações de soja, produto que lidera a pauta exportadora brasileira e componente essencial da ração de suínos e aves em propriedades tecnificadas. Estima-se uma queda de 5 milhões a 10 milhões de toneladas no nosso volume previsto de exportações para a China em 2019/20 (cerca de 10% da previsão inicial), um cenário que pode se agravar no ano que vem, ainda que terceiros países (Europa, principalmente) terão de comprar mais do Brasil para poder ampliar as suas exportações de carnes para a China.

3. Vencida a crise, no longo prazo teremos ganhos importantes com a inevitável mudança do modelo de produção de carnes da China: maior controle sanitário, escala e profissionalização dos produtores com melhoria da genética, manejo e nutrição dos animais, o que favorecerá um maior consumo de farelo de soja.

4. Há também a possibilidade de a China se abrir mais para a importação de carnes, que hoje respondem por menos de 5% do seu consumo. Mas esse segmento não crescerá de forma automática, como alguns querem crer. Ocorre que, ao contrário de commodities agrícolas como soja, algodão e celulose —para as quais o mercado encontra-se totalmente aberto para Brasil—, nas proteínas animais o acesso se dá por meio de um processo moroso e pouco transparente de habilitação de plantas industriais, caso a caso. Apenas 62 unidades brasileiras estão hoje autorizadas a exportar para a China, um número extremamente reduzido, sendo que só três estão autorizadas a exportar carne suína. No curto prazo, quem realmente ganhará mercado são frango e carne bovina, substitutos do suíno.

5. Atualmente, a China consome 84 kg de carnes por habitante/ano. A atual exportação de carnes do Brasil para China e Hong Kong equivale ao volume de 1 kg per capita/ano na China (1,4 milhão de toneladas). Ou seja, com só mais 1 kg/hab/ano, já estaríamos dobrando a exportação.

6. Uma última questão relevante é status sanitário brasileiro. Até aqui o Brasil escapou ileso das duas principais epidemias do mundo atual: gripe aviária e peste suína. Além da necessidade de reforçar todos os controles de defesa sanitária do país, o Brasil deveria pleitear a ampla aceitação de dois instrumentos fundamentais para garantir o acesso aos mercados, mesmo que parcial.

O primeiro é a “regionalização sanitária”, que comporta, por exemplo, o nosso status de área livre de febre aftosa com vacinação. O segundo é a “compartimentalização sanitária”, que é o reconhecimento de sistemas integrados livres de doenças graças à adoção de práticas mais elevadas de biossegurança e rastreabilidade. O Brasil já possui “compartimentos” em que o controle da gripe aviária é extremamente elevado, que hoje servem de exemplo para o mundo.

Todos os pontos aqui apresentados estão ligados a “lições de casa” que precisam ser feitas neste momento: visão estratégica, melhor coordenação do setor privado, medidas suplementares de defesa sanitária e negociação qualificada com nossos parceiros no exterior.

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. 

(**) Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone e especialista em temas sanitários no comércio ([email protected]). 

Rabobank vê até 200 milhões de porcos mortos por surto de peste na China

Criação de porcos em Guangxi, China

PEQUIM (Reuters) - Até 200 milhões de porcos podem ser abatidos ou mortos por infecção à medida que a peste suína africana se espalha pela China, segundo o Rabobank, cuja previsão foi, de longe, a maior já divulgada para o surto, ressaltando a gravidade da epidemia na principal produtora mundial de suínos.

Um número desse tamanho representaria uma grande fatia do rebanho de porcos da nação, que o Rabobank fixou em 360 milhões de animais no final do ano passado. A projeção vem em momento em que muitos membros da indústria afirmam que o avanço da pestesuína no país é muito pior que o divulgado pelas autoridades.

A queda reduziria a produção chinesa de carne suína em 30 por cento em 2019 ante o ano passado, afirmou o Rabobank em comunicado divulgado na noite de quinta-feira, alavancando importações de carne e reduzindo a demanda por rações animais produzidas com commodities como a soja.

"Isso não tem precedentes, e há muitas dimensões da situação que ainda não foram totalmente compreendidas", disse à Reuters o estrategista global para proteína animal do Rabobank, Justin Sherrard.

Segundo analistas do banco, um total de 150 milhões a 200 milhões de porcos morrerão pela infecção com o vírus da peste suína africana ou abatidos na esteira dos surtos.

A China, que produz cerca de metade da carne suína mundial, afirmou nesta semana que havia abatido 1,01 milhão de porcos para controlar a doença. Já foram reportados 124 surtos desde agosto do ano passado.

(Reportagem de Dominique Patton)

China alerta para alta nos preços da carne suína após vírus reduzir oferta

PEQUIM (Reuters) - Os preços da carne suína na China devem subir 70 por cento no segundo semestre do ano, disse uma autoridade nesta quarta-feira, depois que dados mostraram que um surto de peste suína africana reduziu em 10 por cento no primeiro trimestre o número de animais no país, que detém o maior rebanho mundial de suínos.

A produção de carne suína da China caiu 5 por cento nos primeiros três meses de 2019 e quedas muito maiores são esperadas nos próximos trimestres, disseram analistas, enquanto o país luta para conter a disseminação da doença.

A previsão acontece enquanto Washington e Pequim tentam fechar um acordo para encerrar uma guerra comercial que pode incluir a compra pelos chineses de mais carne suína dos Estados Unidos para suprir o crescente déficit de oferta, disseram fontes à Reuters.

"(A produção do) segundo trimestre terá uma queda acentuada em relação ao primeiro trimestre, e no terceiro trimestre poderá ser ainda maior", disse Feng Yonghui, analista-chefe do site setorial Soozhu.com.

A queda na produção de suínos no primeiro trimestre foi atenuada pela demanda durante o festival de Ano Novo Lunar da China em fevereiro, quando agricultores preocupados a baixa nos preços dos suínos levando os animais ao mercado, disse Feng.

Mas um grande declínio no rebanho significaria que a produção da carne mais popular do país continuará a cair drasticamente.

O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais informou na semana passada que o rebanho da China caiu 21 por cento em março em relação ao mesmo período do ano anterior.

A peste suína africana - mortal em porcos, mas inofensiva para os seres humanos - tem se espalhado rapidamente pela China, que responde por cerca de metade da produção mundial de carne suína, desde um primeiro surto em agosto passado.

Até 200 milhões de porcos poderiam ser abatidos ou morrer de infecção pela doença este ano, de acordo com o Rabobank, que estimou que a produção de carne suína pode em cair 30 por cento, embora outros analistas não esperem um impacto tão grande.

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Fonte: Notícias Agrícolas/Reuters

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