Reuters: Analistas veem impacto limitado de taxa zero do Brasil para etanol e óleo de soja

Publicado em 22/03/2022 12:13

A isenção de tarifas de importação anunciada na véspera pelo governo brasileiro para etanol, açúcar e óleo de soja é avaliada neste primeiro momento como inócua para negócios e teria motivações mais políticas, com o Brasil buscando alternativas para uma alta nos preços das commodities e efeitos da guerra na Ucrânia, segundo especialistas.

No caso do etanol importado, o cálculo da arbitragem, mesmo com tarifa zero, indica que o produto importado ainda chegaria 8% a 10% acima do preço doméstico. E a entrada da safra de cana do centro-sul em abril tende a pressionar as cotações no país, limitando ainda mais qualquer janela para compras externas.

"Estamos às vésperas do início da nova safra, em que o preço vai cair, a nossa estimativa é que a arbitragem fique fechada mesmo com tarifa zero", afirmou à Reuters o presidente da Datagro, Plinio Nastari, acrescentando que o etanol já é mais competitivo que a gasolina nos principais Estados produtores do Brasil.

No anúncio da isenção da tarifa, o secretário de Comércio Exterior, Lucas Ferraz, disse que estimativas apontam que a redução de 18% a zero da tarifa do etanol poderia reduzir em 20 centavos o preço do litro da gasolina na bomba.

Mas Nastari apontou ainda outras dificuldades para efetivação de negócios, como fatores sazonais nos Estados Unidos, o país que teria etanol para exportar ao Brasil.

"Tem o início da demanda de verão nos Estados Unidos, aumenta o consumo de gasolina e os preços sobem, com o aumento da gasolina, o preço do etanol também sobe. Além do efeito da guerra da Ucrânia (nos preços de combustíveis), tem um fator sazonal que é o período de verão dos EUA", acrescentou Nastari.

O analista Júlio Maria Borges, da JOB, concorda. Segundo ele, o etanol dos EUA "está caro". "O imposto zerado não deve ter efeito no curto prazo", disse ele, ressaltando que a janela de importação está fechada.

Para Nastari, da Datagro, a tendência é que a competitividade do etanol brasileiro frente à gasolina aumente nas próximas semanas, com queda do preço ao produtor, com a chegada da safra.

"Aí a gente tem que contar que essa queda seja transmitida ao consumidores", afirmou.

Sobre impacto da isenção de tarifa para importação de açúcar, o analista disse que a medida também não deve ter efeitos práticos, uma vez que o Brasil, maior exportador global, é o país com menor custo do mundo.

ÓLEO DE SOJA

O governo ainda zerou a taxa para café moído (de alíquota de 9%), margarina (10,8%), queijo (28%), macarrão (14,4%), açúcar (16%) e óleo de soja (9%), uma vez que considera que esses itens estão entre os componentes que mais pesam no INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).

No caso do óleo de soja, o impacto da tarifa zero para impulsionar importações parece ser "muito pequeno", disse o analista da Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque.

Ele avaliou que não há um problema de oferta --embora os preços do óleo de soja estejam mais altos--, porque o Brasil está adotando uma mistura menor de biodiesel.

"Já tem demanda menor por óleo e pode até diminuir exportação de óleo, se necessário. Não acredito que essa abertura vai trazer grande importação de óleo", disse ele, lembrando que a Argentina, maior exportadora global, já negocia ao Brasil com tarifa zero por ser parceira do Mercosul.

Ele disse que eventuais compras dos EUA dependeriam também de a conta fechar.

"Acho que é medida mais política, porque o preço do óleo está subindo muito... no farelo, uma redução da taxa seria mais interessante", acrescentou.

O mercado de soja no Brasil tem sido sustentado por uma severa quebra de safra no país e, mais recentemente, por efeitos da alta nas commodities em função de temores sobre a oferta pela guerra na Ucrânia.

Durante evento da Safras & Mercado nesta terça-feira, Roque lembrou que a oferta de soja deverá terminar o ano em níveis historicamente baixos no Brasil, o que poderia até eventualmente resultar em importações do grão norte-americano, visto que a colheita também quebrou em função do clima na Argentina e Paraguai.

Mas esse movimento ocorreria em um segundo momento, não agora durante o processo de colheita no Brasil.

Neste cenário, os prêmios para a soja do Brasil sobre as cotações da bolsa de Chicago devem seguir firmes, com exportadores e indústria disputando a oferta menor da oleaginosa.

Fonte: Reuters

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Roberto Rodrigues avalia que a falta de recursos para o seguro rural deixa o Plano Safra incompleto
Na mira da União Europeia, falta de gestão sobre as emissões de carbono pode limitar exportações brasileiras
Podcast NA #114 - Cadeia produtiva do feijão vive uma das maiores transformações da história
Membro do BCE faz alerta sobre inflação subjacente apesar da queda do petróleo
Crescimento do setor de serviços dos EUA desacelera em junho; emprego se recupera
Setor que movimenta mais de 25% do PIB brasileiro vira porta de entrada para profissionais do mercado financeiro; evento gratuito em Curitiba mostra como