Ilusão Rural - Mais uma dúzia de anseios [Sonhos?]

Publicado em 30/12/2008 22:26 1600 exibições

(Artigo) - Xico Graziano

Vem aí o réveillon. Nada melhor que o ano-novo, sempre carregado de esperança, para afastar a crise. Na virada do ano, o íntimo desejo de prosperidade arrebata as pessoas. Como num sonho alegre, todos gostariam de acordar em 2009 e encontrar seus problemas resolvidos. Qual mágica.

José Batistela, típico agricultor brasileiro, está nessa. Descendente dos italianos que, naquela época, vieram ajudar a construir a riqueza do café, o velho sitiante, após a ceia da família, recorda-se das agruras, algumas angústias, enroscadas no ano que termina. Que Deus nos ajude, pensa, enquanto escuta o pipocar dos fogos que chamam o amanhã. Adeus, ano velho.

Acomoda a cabeça no travesseiro de pena de ganso. Tem sido difícil a vida do produtor rural, reflete. No passado, todas as histórias de sucesso se originavam no campo. Hoje, parece que sobraram somente as dificuldades. Religioso, seu José inicia, meio sem querer, uma reza, encomendando coisa boa para a turma da roça. Adormece nesse precioso saudosismo.

Desperta feliz e descobre que havia sonhado longamente. Sua impressão, daquelas que permanecem após um sono avoado, era de que contemplara uma utopia, alcançara o paraíso terrestre. Vivera uma ilusão rural.

Rapidamente José Batistela procura uma folha de papel e começa a anotar seus pensamentos esparsos. Aquele Éden, na realidade, expressava um cenário ideal para o campo. Toma um café, bota ordem no raciocínio e redige 12 itens, resumindo sua visão positiva, aquilo que de melhor poderia acontecer na agropecuária em 2009. Uma dádiva dos Céus.

1) O preço dos insumos agrícolas (fertilizante, semente, arame, defensivo, sal mineral) vai despencar, fazendo com que, pela primeira vez, caia o custo da produção rural, sobrando dinheiro no bolso, suficiente para investir na tecnologia e gastar com a família.

2) Os frigoríficos bovinos, as fábricas de suco de laranja e usinas de açúcar e álcool, agroindústrias poderosas, entendendo que na cadeia de produção o elo mais fraco da corrente não pode ser destruído, irão elevar o preço vil que sempre praticaram na compra do boi, da laranja e da cana-de-açúcar.

3) O governo, após infinitas reuniões entre seus economistas, compreendeu finalmente que investir em infraestrutura - estradas, portos, ferrovias, telecomunicação, energia - é assunto de sua responsabilidade, necessário para garantir apoio ao desenvolvimento rural, valorizando o interior do País.

4) As grandes redes de varejo, representadas especialmente pelos supermercados, destarte exercendo enorme poder de compra no mercado, passarão a tratar com respeito seus fornecedores, os pequenos olericultores, deixando de achatar o preço das frutas e dos legumes que comercializam, sem, obviamente, magoar as donas de casa.

5) Uma grande campanha de marketing se iniciará após o carnaval, envolvendo as cooperativas, os laticínios e o governo - semelhante àquela existente há anos nos EUA -, estimulando o consumo de leite e seus derivados, principalmente entre as crianças, viciadas em beber duvidosos refrigerantes.

6) Autoridades de saúde e nutricionistas famosos denunciam os malefícios causados pelo artificialismo na comida, desmentindo, entre tantos exemplos, que margarina seja melhor alimento que manteiga, enfrentando o mal da obesidade, fruto da propaganda enganosa que despreza a comida natural.

7) Economistas rurais, auxiliados pelo sistema financeiro, a começar do Banco do Brasil, implantam um novo sistema de crédito rural, tendo na base o seguro da renda do agricultor, impedindo assim que cresça eternamente a montanha do endividamento, abrindo eternas brechas para os caloteiros de sempre.

8) O Incra, preocupado em assegurar a qualidade de vida das famílias assentadas nos projetos de reforma agrária, decide não promover novos assentamentos até que se assegure qualidade de vida aos projetos já existentes, iniciando um processo de emancipação, com a respectiva titulação, dos novos agricultores.

9) Um acordo inteligente, negociado abertamente entre ruralistas e ecologistas, promove alterações na legislação florestal do País, facilitando a recomposição das áreas de preservação permanente - beirada de córregos, nascentes, declives acentuados - e da reserva legal das propriedades, firmando uma moratória de cinco anos no desmatamento, pois ninguém aguenta mais essa desgraça da fogueira que arde na Amazônia.

10) O MST e a Contag, liderando cerca de 70 pequenas entidades dissidentes criadas à sua semelhança, reconhecem, em grande autocrítica pública, que ajudam a agravar a violência no campo, propondo um processo planejado de reforma agrária, no qual a prévia seleção dos beneficiários - e não a invasão de terra - seja o componente básico para o sucesso do assentamento rural.

11) As velhas lideranças rurais - presidentes de sindicatos, associações, cooperativas, federações -, cujo discurso atrasado mais atrapalha do que ajuda a defender as causas da moderna produção no campo, fazem uma renúncia coletiva e convocam os jovens para participar na política classista.

12) A opinião pública toma consciência da importância da agricultura na sociedade, passando a valorizar e a defender os produtores rurais, esquecendo o desdém de tratá-los como apenas caipiras atrasados, aproximando definitivamente as fronteiras entre o campo e a cidade.

Assim, no amanhecer de 2009, o agricultor José Batistela formula uma espécie de receita para a promoção do desenvolvimento sustentável no campo, representando um desejo comum dos agricultores brasileiros. Um sonho, uma esperança.

Feliz ano-novo.

Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

E-mail: [email protected]   Site: https://www.xicograziano.com.br
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Xico Graziano

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