ENTREVISTA: Entre o clima e o mercado: por que produzir tomate virou um desafio cada vez maior no Brasil

Publicado em 01/02/2026 11:37 e atualizado em 01/02/2026 20:39
Sensível a extremos climáticos, a cultura do tomate sofre com perdas no campo, impacto direto na oferta e reflexos imediatos no preço pago pelo consumidor.

No Dia do Tomate, vale lembrar: produzir essa hortaliça tão presente na mesa do brasileiro é um desafio diário que exige técnica, coragem e atenção constante ao clima. Altamente sensível às variações atmosféricas, a lavoura pode ter meses de trabalho comprometidos por poucos dias de frio intenso, calor excessivo ou chuva fora de hora — impactos que começam no campo e chegam rapidamente ao bolso do consumidor

Para entender como os eventos climáticos interferem diretamente na produção de tomate, na oferta ao longo do ano e na volatilidade dos preços, a equipe do Notícias Agrícolas conversou com Celso Oliveira, agrometeorologista da Tempo, que detalha como cada fase da lavoura responde ao clima, os efeitos de fenômenos como El Niño e La Niña nas principais regiões produtoras do país e por que os extremos meteorológicos tornam o mercado do tomate cada vez mais instável.

A seguir, o especialista explica como o clima pode ser decisivo entre uma safra bem-sucedida ou grandes perdas — e por que, no caso do tomate, o tempo nunca é apenas um detalhe.

NA - O tomate é uma das culturas mais sensíveis ao clima. Quais eventos climáticos mais impactam a produção e em que fases da lavoura esses danos são mais críticos? 

Celso Oliveira/ Agrometeorologista da Tempo - O tomate exige muito cuidado desde o plantio até a colheita, pois em cada fase, algum fator atmosférico pode colocar tudo a perder. Por exemplo, no desenvolvimento vegetativo, o maior perigo é o frio excessivo. Temperatura abaixo dos 10°C já causa problemas no crescimento da planta, mas o pior é a geada, que causa a morte da planta. Na floração, o perigo é o calor excessivo, com temperaturas acima dos 35°C, que podem causar abortamento floral. E na maturação, o problema é o excesso de chuva, que aumenta a incidência de doenças e causa rachadura nos frutos.

NA - Como fenômenos como El Niño e La Niña costumam influenciar a oferta de tomate no Brasil e a volatilidade de preços ao longo do ano?

Celso Oliveira/ Agrometeorologista da Tempo - Pensando em tomate salada, os municípios brasileiros que mais produzem mudam. Normalmente, as cidades goianas de Cristalina e Morrinhos são as que mais produzem tomate, porém eles são destinados à indústria. Por que escrevi isso é importante? Porque dependendo do município, os efeitos do El Niño e La Niña têm intensidades diferentes. 

No contexto do tomate de mesa, temos as cidades de:

Itapeva-SP: no El Niño, há risco de excesso de chuva entre o inverno e primavera, período da colheita do tomate de inverno, diminuindo a qualidade dos frutos e aumentando a demanda e o preço de áreas menos afetadas, como em Mogi Guaçu-SP, mais ao norte e menos atingida pelos efeitos do El Niño.

Ibicoara-BA/Jaíba-MG: no El Niño, a falta de chuva limite a disponibilidade de água para a irrigação, diminuindo a área plantada e, por consequência, a quantidade produzida. A menor oferta pode aumentar os preços em áreas próximas, como o próprio Estado da Bahia, Brasília, Tocantins, Goiás e Minas Gerais.

Caçador-SC: risco de geada no inverno e início de primavera. No La Niña, há risco de frio/geada tardio. No El Niño, o problema é o excesso de chuva. 

Aqui, eu trouxe os problemas que costumam acontecer em cada fenômeno. Não há um que seja melhor para a produção de tomate que outro, pois a produção acontece em uma ampla área, desde o Ceará até Santa Catarina. Como o tomate é irrigado, o maior problema é o excesso de chuva no fim do ciclo da planta. E isso pode acontecer independentemente do fenômeno atuante.

NA - Chuvas excessivas e ondas de calor têm sido mais frequentes. Isso aumenta o risco de perdas e torna o mercado do tomate mais instável?

Celso Oliveira/ Agrometeorologista da Tempo - Ah, sim! Sem dúvida! Os extremos meteorológicos tornam a produção de tomate mais desafiadores, provocando volatilidade nos preços. 

NA- É possível prever períodos de maior risco para a produção de tomate com antecedência? Como o produtor pode usar essas informações climáticas na tomada de decisão?

Celso Oliveira/ Agrometeorologista da Tempo - Sim, é possível prever a tendência climática com antecedência. Com meses de antecedência é possível prever a atuação do fenômeno El Niño ou La Niña e definir quais regiões do Brasil enfrentarão mais desafios meteorológicos. Esta é a chamada previsão qualitativa. Com alguns dias de antecedência é possível dar números aos extremos de calor, chuva e seca e, daí, partimos para a previsão quantitativa.

NA - As mudanças climáticas tendem a tornar a produção de tomate mais cara e imprevisível nos próximos anos?

Celso Oliveira/ Agrometeorologista da Tempo - Não apenas do tomate, mas de todas as culturas. O quanto a produção será mais cara e imprevisível dependerá de quão rápido acontecerá as mudanças climáticas. Vale lembrar que a ciência sempre busca a criação de novas variedades de plantas resistentes à seca, doenças, calor excessivo... Se o ritmo de mudanças climáticas for compatível com o avanço da tecnologia, as perdas acontecem, mas podem ser contornadas. Já se o ritmo de mudança for acelerado, como dá a impressão de estar acontecendo, a tecnologia não conseguirá acompanhar e as perdas podem ser muito significativas, impactando diretamente no preço e eventual mudança de hábito do consumidor.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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