Mão de obra no agro exige qualificação e gestão para sustentar crescimento do setor

Publicado em 13/02/2026 06:36 e atualizado em 13/02/2026 08:32
Produtores, especialista em RH e CNA mostram que a falta de qualificação impacta custos, eficiência e o futuro da sucessão no campo brasileiro.

A falta de mão de obra qualificada no agro brasileiro deixou de ser uma preocupação pontual e passou a ocupar o centro das decisões estratégicas nas propriedades rurais. O desafio não está apenas na quantidade de trabalhadores disponíveis, mas principalmente na preparação técnica para lidar com um setor cada vez mais moderno e tecnológico. Produtores, especialistas em gestão de pessoas e representantes institucionais concordam que o tema exige atenção imediata e planejamento de longo prazo.

Dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com base no Boletim de Mercado de Trabalho do Agronegócio (Cepea/CNA), mostram que a População Ocupada no agronegócio brasileiro alcançou 28,58 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2025, o maior valor da série histórica iniciada em 2012. O número representa 26,35% do total de empregos do país no período. Ao mesmo tempo, o Brasil tem mais de 87% da população vivendo em áreas urbanas, o que reduz o contingente disponível para trabalhar no campo.

Nesse cenário, a questão central passa a ser a qualificação da mão de obra rural. Como resume Jacqueline Lubaski, analista de Recursos Humanos, “não é falta de gente apenas, é falta de formação, gestão, sucessão e visão de longo prazo sobre pessoas em nosso seguimento”. A avaliação é que o agro avançou em tecnologia, mas precisa avançar no mesmo ritmo na formação de profissionais.

Impactos diretos na produção e nos custos

Na prática, a escassez de profissionais preparados já afeta a rotina das propriedades. Em Holambra (SP), a produtora de flores e plantas ornamentais Marisa Granchelli Oude Groeniger relata que o problema impacta diretamente o dia a dia da produção. “Sim, a falta de mão de obra qualificada impacta diretamente a minha rotina”, afirma.

A produtora de flores e plantas ornamentais Marisa Granchelli Oude Groeniger 

Segundo ela, a qualidade das entregas pode ser comprometida quando o trabalhador não tem formação adequada. “Com trabalhadores não qualificados, a qualidade das flores pode ser comprometida, o que afeta a satisfação do cliente e a reputação da produção”, explica. Além disso, atrasos em plantio, colheita e embalagem reduzem a eficiência e aumentam custos operacionais.

A necessidade constante de supervisionar também pesa na conta. “A necessidade constante de supervisionar e corrigir erros acaba consumindo mais tempo e recursos”, relata Marisa. Esse cenário reduz produtividade e exige do produtor uma atenção redobrada à gestão da equipe.

Um problema estrutural e nacional

Para Lubaski, a falta de mão de obra qualificada tornou-se um problema estrutural ao longo dos anos. Ela aponta que a urbanização acelerada e o envelhecimento da população rural contribuíram para o cenário atual. “Hoje, a maioria da população está nas cidades, e o campo deixou de ser visto como um lugar de futuro para os jovens”, observa.

A especialista destaca ainda que o agro exige novas competências. “Não quero nem ressaltar baixa escolaridade e sim falta de qualificação para lidar com um agro cada vez mais tecnológico”, afirma. O avanço da mecanização, da agricultura de precisão e da gestão por indicadores exige profissionais preparados para operar máquinas e interpretar dados.

A CNA reforça essa análise ao destacar que há um “descompasso entre escolaridade e as novas exigências do agro moderno”. Dados do Cepea indicam crescimento da participação de trabalhadores com ensino médio e superior no setor, enquanto diminui a presença de pessoas com menor escolaridade. Isso demonstra que o perfil profissional do campo está mudando.

Dificuldade para contratar e reter

Outro ponto sensível é a contratação e retenção de trabalhadores. Marisa relata que enfrenta dificuldades nas duas frentes. “É muito difícil encontrar trabalhadores dispostos a trabalhar no campo, especialmente com registro em carteira”, afirma.

Ela também aponta desafios na permanência da equipe. “A rotatividade é alta, o que impacta a continuidade e a qualidade da produção”, explica. Segundo a produtora, muitos profissionais comparam as oportunidades do campo com as da cidade, especialmente em relação a condições e perspectivas de crescimento.

Na avaliação de Jacqueline Lubaski, não basta oferecer uma vaga. “É preciso oferecer propósito, organização e perspectiva de crescimento”, diz. Para ela, liderança preparada é fundamental para reduzir a rotatividade e criar vínculo com a equipe.

Tecnologia ajuda, mas exige preparo

A modernização do agro é vista como parte da solução, mas também amplia a necessidade de qualificação. A CNA destaca que a mecanização e a automação elevaram a produtividade, mas também reduziram a demanda por atividades manuais intensivas. Parte dessa mão de obra migra para a agroindústria e serviços ligados ao setor.

A especialista em Recursos Humanos resume a situação de forma direta: “A tecnologia pode ajudar, sim, a reduzir esse apagão de mão de obra, mas ela não resolve sozinha”. Ela reforça que investir em máquinas sem capacitar pessoas pode gerar novos problemas. “Tecnologia sem capacitação vira problema”, alerta.

O caminho, segundo ela, passa por treinamentos simples, práticos e contínuos. “Não é sobre linguagem técnica demais, é sobre ensinar o ‘porquê’ antes do ‘como’”, explica. Quando o trabalhador entende o impacto do que faz, aprende com mais segurança e confiança.

Capacitação e políticas públicas como prioridade

A CNA aponta que políticas públicas de inclusão produtiva são fundamentais para assegurar a permanência no campo. Iniciativas de formação profissional, assistência técnica e incentivo à adoção de tecnologias são consideradas estratégicas. O Sistema CNA/Senar atua com cursos técnicos, programas de educação profissional e formação gerencial voltada ao agronegócio.

Para Jacqueline Lubaski, o investimento principal precisa ser em pessoas. “Treinamento não é custo, é proteção do negócio, é investimento”, afirma. Ela destaca que capacitação reduz erros, retrabalho, desperdícios e dependência de poucos profissionais-chave.

Marisa também acredita que o campo precisa ser visto de outra forma, especialmente pelos jovens. “Os jovens deveriam olhar para o trabalho rural como uma carreira com potencial e oportunidades de crescimento”, diz. Segundo ela, o setor é moderno, movimenta bilhões e tem espaço para áreas como administração, comercial e logística.

Tornar o campo mais atrativo

Ainda na visão da CNA, tornar o trabalho rural mais atrativo exige atuação coordenada em várias frentes. A melhoria da infraestrutura, conectividade e organização das jornadas é apontada como essencial. A atratividade, hoje, vai além do salário e envolve qualidade de vida no meio rural.

A entidade também defende carreiras estruturadas, reconhecimento profissional e valorização da qualificação técnica. A formalização das relações de trabalho e boas práticas de gestão de pessoas são consideradas decisivas para retenção.

Por fim, a combinação entre tecnologia, capacitação contínua e liderança preparada aparece como eixo central para enfrentar o desafio da mão de obra no agro. Como resume Jacqueline Lubaski, “no agro, máquina nenhuma substitui gente bem treinada e bem conduzida”. O futuro do setor passa, cada vez mais, pela valorização e qualificação das pessoas que fazem o campo acontecer.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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