Petrobras já vende fertilizantes a diversos Estados e mitiga riscos com guerra

Publicado em 02/03/2026 14:15

Por Marta Nogueira

RIO DE JANEIRO, 2 Mar (Reuters) - Com a retomada recente da produção, a Petrobras já vende fertilizantes nitrogenados de suas fábricas do Nordeste para clientes em diversos Estados, reduzindo riscos de oferta ao Brasil em momento de uma nova guerra no Oriente Médio, uma região que supriu cerca de 35% da demanda externa brasileira de ureia em 2025.

A unidades da Bahia e Sergipe voltaram a operar nos últimos meses e já atingiram 90% da capacidade, disse a companhia em email à Reuters. Juntas, as fábricas têm capacidade de produzir 12% da demanda de ureia no Brasil, uma potência agrícola que importa a maior parte de suas necessidades.

A venda de ureia da Petrobras está sendo realizada a granel e em "big bags" para clientes da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo.

Já a venda de amônia atende principalmente ao polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, e a clientes da região, explicou.

Antes de voltar ao controle da estatal no ano passado, as fábricas estavam arrendadas pela Unigel e ficaram hibernadas desde 2023 por dificuldades financeiras.

"O aumento da produção de ureia no Brasil pode ajudar a amortecer choques externos, e reduzir um pouco das incertezas que existem no mercado de nitrogenados, dada a nossa dependência das importações", disse o analista de inteligência de mercado da StoneX Tomás Pernias, à Reuters.

Entretanto, o especialista ponderou que o país continuará dependente das importações de nitrogenados, e, portanto, eventos que impactem o fluxo comercial internacional de fertilizantes provavelmente continuarão a ser determinantes para os preços dos adubos no Brasil.

A retomada da Petrobras ajuda a mitigar riscos de suprimento de fertilizantes após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã que começaram no fim de semana e perturbam fluxos de comércio globais.

No ano passado, o Brasil importou aproximadamente 7,7 milhões de toneladas de ureia, segundo dados oficiais do governo, sendo apenas cerca de 2% do Irã.

Em contrapartida, quando somados volumes vindos do Oriente Médio como um todo, o país comprou cerca de 2,7 milhões de toneladas de ureia de Omã, Catar, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

O analista de inteligência de mercado da Agrinvest Commodities Jeferson Souza apontou incertezas, pontuando que o poder de compra do produtor agrícola já estava fragilizado antes mesmo do novo conflito, devido a uma relação de troca desfavorável entre o milho e fertilizantes, como a ureia.

"O poder de compra do produtor já não era bom antes de tudo isso. Agora, as dúvidas aumentam", disse, ressaltando que o cenário atual é mais desafiador que o de 2022, quando começou a guerra da Ucrânia e os preços das commodities agrícolas estavam mais altos e o crédito era mais abundante.

Em Sergipe, a fábrica iniciou a produção em dezembro de 2025 e já produz com 90% da sua capacidade máxima, que é de 1.250 toneladas por dia (t/d) de amônia e 1.800 t/d de ureia.

Na Bahia, a planta retomou atividades em meados de janeiro e já superou o patamar de 95% da capacidade de produção de ureia, equivalendo a aproximadamente 1.300 t/d do produto.

A retomada das plantas foi uma demanda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como forma de reduzir a dependência externa do Brasil.

OUTRAS UNIDADES

A Petrobras planeja ainda elevar a produção para suprir um total de 20% da demanda de ureia no Brasil com a retomada da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), no Paraná, e chegar a 35% com a entrada em operação da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3 (UFN-3), em Mato Grosso do Sul, nos próximos anos.

A Ansa, que deve retomar suas operações no primeiro trimestre de 2026, abriu nesta semana concurso para preencher 126 vagas de níveis superior e médio, reforçando o quadro de funcionários e avançando no plano de retomada operacional, de acordo com a Petrobras. A unidade paranaense possui capacidade instalada para produzir 720 mil toneladas de ureia e 475 mil toneladas de amônia por ano.

No Mato Grosso do Sul, o projeto da UFN-3, em Três Lagoas, está na fase de contratação para conclusão da fábrica. A aprovação final dos investimentos está prevista para o primeiro semestre de 2026, o que permitirá a retomada das obras ainda este ano, segundo a Petrobras.

(Por Marta Nogueira; com reportagem adicional de Ana Mano)

Fonte: Reuters

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