BCs adotam tom "hawkish" ao se reunirem à sombra da guerra

Publicado em 19/03/2026 08:10 e atualizado em 19/03/2026 08:46

Por Promit Mukherjee e Howard Schneider e Leika Kihara

OTTAWA/WASHINGTON/TÓQUIO, 19 Mar (Reuters) - Os bancos centrais dos Estados Unidos, Canadá e Japão adotaram um tom "hawkish" na quarta-feira, embora em graus variados, uma vez que a guerra contra o Irã levou os preços da energia a subirem acentuadamente em meio a uma semana crucial de reuniões das autoridades monetárias globais.

Tendo lutado contra um pico de inflação liderado pelas commodities após a invasão da Rússia na Ucrânia em 2022, as autoridades estão mais uma vez andando na corda bamba - controlando as pressões sobre os preços sem tirara o crescimento dos trilhos.

O Federal Reserve, o Banco do Canadá e o Banco do Japão optaram por manter as taxas de juros, mas seus líderes deixaram claro que estão em alerta, desconfiados de que o aumento dos preços da energia possa desencadear uma nova onda de inflação.

"O Conselho Diretor analisará o impacto imediato da guerra sobre a inflação, mas se os preços da energia permanecerem altos, não permitiremos que seus efeitos se ampliem e se tornem uma inflação persistente", disse o presidente do banco central canadense, Tiff Macklem, no discurso de abertura de uma coletiva de imprensa depois da decisão de manter a taxa básica de juros em 2,25%.

O chair do Fed, Jerome Powell, foi igualmente cauteloso.

"No curto prazo, os preços mais altos da energia aumentarão a inflação geral, mas é muito cedo para saber o escopo e a duração dos possíveis efeitos sobre a economia", disse Powell em uma coletiva de imprensa após a decisão do Fed, por 11 a 1, de manter sua taxa básica de juros na faixa de 3,50% a 3,75%.

Ainda assim, a relutância de Powell em dizer que os riscos de enfraquecimento do mercado de trabalho representam um risco maior para os objetivos do Fed do que a inflação ajudou a empurrar as expectativas de corte de juros do mercado para 2027.

O Banco Central brasileiro foi uma exceção na quarta-feira, ao dar início a um ciclo de afrouxamento há muito esperado com um corte cauteloso de 25 pontos-base na Selic, para 14,75%, que ainda está entre as mais altas das principais economias.

As decisões foram tomadas depois que o banco central da Austrália elevou os juros para o nível mais alto em dez meses e alertou sobre um risco "relevante" para a inflação decorrente do aumento do preço do petróleo.

As ações caíam e os preços do petróleo subiam acentuadamente nesta quinta-feira, depois que uma grande escalada na guerra dos EUA e de Israel com o Irã abalou os investidores, enquanto o Banco do Japão tornou-se o mais recente banco central a alertar sobre o impacto dos custos de energia sobre a inflação.

O presidente do banco central japonês, Kazuo Ueda, disse que a autoridade monetária não descartará um aumento dos juros no curto prazo se o impacto esperado no crescimento devido ao aumento dos custos do petróleo for temporário e não prejudicar o progresso que o Japão está fazendo para atingir de forma duradoura a meta de preços do banco.

"Precisamos estar atentos ao fato de que os acontecimentos recentes ocorrem em um momento em que as empresas já estão aumentando ativamente os preços e os salários, o que sugere que elas poderiam repassar os custos de forma mais agressiva do que após a guerra na Ucrânia", disse Ueda em uma coletiva de imprensa.

Mas analistas esperam que o caminho dos juros para os bancos centrais permaneça acidentado, sem um fim claro à vista para o conflito que pode prejudicar as cadeias globais de suprimentos, além de afetar os mercados financeiros e o sentimento das empresas.

"Essa última escalada parece ser um ponto de inflexão para os mercados, porque o conflito não se trata mais apenas de manchetes militares ou do fechamento do Estreito de Ormuz", disse Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos do Saxo em Cingapura.

"Agora, ele está atingindo a infraestrutura essencial do sistema global de energia. O que está perturbando os mercados agora é o crescente risco de estagflação... Isso significa que não se trata mais apenas de uma história geopolítica, mas de uma história macro."

(Reportagem de Promit Mukherjee em Ottawa, Howard Schneider em Washington e Leika Kihara em Tóquio)

Fonte: Reuters

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