Aliança biodiesel ganha força e mira redução da dependência externa e custos no campo
Na última quarta-feira, 8, em Brasília, Abiove e Aprobio lançaram a Aliança Biodiesel com o objetivo de integrar o setor, ampliar o uso de biocombustíveis e reduzir a dependência brasileira do diesel importado. A iniciativa surge em meio à alta dos preços internacionais e riscos de abastecimento, buscando acelerar testes técnicos e viabilizar o aumento da mistura obrigatória. O movimento reúne indústria, governo e demais agentes da cadeia produtiva em torno de uma estratégia comum para fortalecer a produção nacional.
O Brasil ainda depende de importações para suprir parte relevante do consumo interno de diesel. Segundo dados de mercado, cerca de 25% a 27% do combustível utilizado no país vem do exterior, o que expõe o abastecimento às oscilações internacionais. Esse cenário ficou evidente recentemente, com a elevação dos preços globais do petróleo, impactando diretamente o custo interno.
De acordo com o ex-ministro Francisco Turra, essa dependência representa um peso significativo para a economia brasileira e exige soluções estruturais. “Hoje o Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome, algo em torno de R$ 150 bilhões por ano”.
integração do setor marca nova fase
Ainda segundo Turra, a volatilidade externa tem reflexos imediatos no mercado doméstico, pressionando custos em toda a cadeia produtiva. “Quando o preço sobe lá fora, isso bate direto aqui, Foi o que vimos recentemente, com alta de 20% em poucas semanas”, argumentou.
Ele também ressaltou que medidas emergenciais adotadas pelo governo ajudam no curto prazo, mas não resolvem o problema de forma definitiva. “O governo reagiu com subsídios que podem chegar a R$ 27 bilhões — mas isso não resolve o problema estrutural”.
Nesse contexto, o biodiesel aparece como alternativa viável para reduzir a dependência externa. Segundo Turra, o combustível renovável apresenta vantagem competitiva frente ao diesel importado. “A alternativa já existe: biodiesel nacional, hoje em torno de R$ 5,73/L, contra cerca de R$ 6,75/L do diesel importado”.
Qualidade e alinhamento ganham protagonismo
A criação da aliança também busca eliminar divergências internas e fortalecer a representatividade do setor. O presidente da Aprobio, Jerônimo Goergen, afirmou que a união das entidades consolida uma atuação conjunta nas decisões estratégicas. “Criamos a aliança justamente para reduzir divergências de posicionamento dentro do setor”.
Segundo ele, a iniciativa reúne a maior parte da produção nacional em torno de um mesmo direcionamento, aumentando a força institucional do segmento. Esse alinhamento também contribui para avançar em temas técnicos e regulatórios com mais consistência.
Goergen destacou ainda que a qualidade do biodiesel brasileiro tem evoluído, com resultados positivos nos testes mais recentes. “Os testes com o B20, por exemplo, também vêm comprovando esse desempenho”.
Para o dirigente, consolidar a confiança no produto é fundamental para ampliar o mercado interno e viabilizar exportações. Ele avalia que o setor precisa superar questionamentos internos para ganhar competitividade internacional. “Enquanto houver dúvidas sobre a qualidade dentro do próprio país, fica inviável competir no mercado internacional”.
Testes são principal entrave no curto prazo
O presidente da Abiove, André Nassar, explicou que a aliança é resultado de um processo de integração já existente entre as entidades. Segundo ele, o objetivo é ampliar a cooperação com toda a cadeia produtiva. “A gente precisa atrair os demais agentes da cadeia e trabalhar em conjunto”.
Ele destacou que o principal desafio atual é acelerar os testes técnicos necessários para elevar o percentual de biodiesel na mistura. “A gente tem que aproveitar esse momento de diesel caro e risco de oferta para fazer esses testes o mais rápido possível”.
Para Nassar, o prazo para conclusão pode ser relativamente curto, desde que haja mobilização conjunta. “A gente acha que dá para, em quatro meses, fazer esses testes”.
Impacto direto na pecuária e na produção rural
O aumento da mistura de biodiesel tem efeito direto na cadeia agropecuária. Segundo Nassar, a elevação do teor na mistura amplia o processamento de soja e, consequentemente, a produção de farelo utilizado na alimentação animal. “Cada vez que a gente aumenta o percentual de biodiesel, a gente produz mais farelo de soja”.
Esse movimento contribui para reduzir o custo de produção de carnes, beneficiando especialmente a pecuária de corte. A integração entre energia e alimento reforça a importância estratégica do biodiesel para o agronegócio brasileiro.
O vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que o Brasil já ocupa posição de destaque global no uso de biocombustíveis. “Somos o único país do mundo que tem 15% de bio no diesel”.
Governo aposta em biocombustíveis como solução estrutural
Alckmin afirmou que o avanço na mistura depende do cumprimento de critérios técnicos e testes de qualidade. Segundo ele, o processo está em andamento e deve evoluir gradualmente. “Tem que cumprir todo o rito sobre a qualidade para você ter uma mudança de percentual”.
Ele também ressaltou que o governo adotou medidas para conter os impactos da alta internacional dos combustíveis, garantindo abastecimento e reduzindo pressões infla cionárias. “O governo Lula assinou medida provisória tirando, zerando todo o PIS/COFINS dos biodiesel”.
Por fim, o vice-presidente destacou os benefícios amplos dos biocombustíveis para o país. “É bom para o meio ambiente, bom para o emprego, bom para o investimento”, comentou.