BB vê indícios de melhora na adimplência do agro, mas ainda monitora setor

Publicado em 23/04/2026 13:40

 

SÃO PAULO, 23 Abr (Reuters) - O Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio, viu no início de abril alguma melhora na adimplência de operações de crédito de custeio, após elevar as garantias, mas ainda monitora com cautela o setor, que vem numa escalada de recuperações judiciais e agora enfrenta os efeitos da guerra.

De acordo com dados apresentados por executivos do banco no BB Day, o fluxo de vencimentos de agro soma R$155,6 bilhões em 2026, com 59,4% deles concentrados de abril a setembro. No montante total para o ano, R$87,8 bilhões são relacionados a crédito para custeio.

O vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar, Gilson Bittencourt, destacou que mais de 80% do que o banco está recebendo do custeio agora em abril foram operações contratadas em abril, maio e junho do ano passado. Assim, boa parte da carteira vencendo em abril ainda tem um reflexo do processo anterior de contratação do banco. 

Mas, acrescentou, numa perspectiva dos primeiros 15 dias do mês, que o BB começa a verificar que a carteira que foi concedida com base nas alienações fiduciárias e melhoria de garantias -- que representa ainda pouco, cerca de 20% do total, no recebimento de custeio -- já tem um resultado bem mais significativo em relação à adimplência.

O vice-presidente de gestão financeira do Banco do Brasil, Geovanne Tobias, afirmou que o BB ainda está observando se a recuperação nas renegociações de crédito da carteira do agronegócio será em U ou W, após o segmento representar o principal detrator dos resultados da instituição no ano passado.

"Ainda estamos observando o comportamento de como as renegociações dentro do agro vão performar, a nova safra que vai ser colhida, se essa recuperação tende a ser uma recuperação em U ou em W. Ainda não sabemos, eu suspeito que talvez seja mais uma recuperação em W", afirmou.

De acordo com o BB, fluxo de vencimento no âmbito do programa da MP 1314, que autoriza renegociações de dívidas, soma R$36,5 bilhões, com 91,8% com garantia de imóvel e mais de 72% com vinculação de alienação fiduciária. No caso da carteira prorrogada, os vencimentos somam R$64,5 bilhões.

"O fluxo de vencimentos (da safra) 2025/26 é mais equilibrado e também traz um saldo associado menor, reflexo da política de melhor originação, de maior qualificação, de vinculação adicional de garantias", reforçou o vice-presidente de gestão de risco, Felipe Prince. "E aí passamos a entregar safras (de crédito) melhores."

Prince também chamou a atenção para a queda nos volumes de novos processos de recuperação judicial, embora ainda não no montante que o banco espera. E citou que há produtores procurando o BB para desistir das recuperações judiciais.

"Eles estão no momento de fazer os investimentos para a nova safra e não encontram crédito. E aí têm nos procurado para que possamos apoiar nesse processo de saída das recuperações judiciais.

O volume de novos processos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026 somava R$1,34 bilhão, de R$1,59 bilhão no quarto trimestre e R$1,84 bilhão no terceiro trimestre do ano passado. Em relação ao fluxo de novos processos, houve 162 registros, ante 158 no quarto trimestre e 209 no terceiro trimestre do ano passado.

Ao comentar potenciais efeitos da guerra do Irã nos custos dos produtores rurais e potencial de pagamentos, Prince ponderou que não há um efeito do custo de produção imediato dos clientes do BB, dado o período em que a guerra eclodiu, com os insumos já nas fazendas e a produção encerrando no fim da safra 2025/26.

"Agora, sim, pode trazer um efeito para a próxima safra", afirmou, acrescentando que o BB está acompanhando os desenvolvimentos no Oriente Médio, para que a modelagem de concessão de crédito para a safra da 2026/27 contemple uma eventual elevação de custos que possa ter em função do prolongamento ou não do conflito.

Bittencourt ponderou que qualquer afirmação feita agora, que a margem vai estar apertada, que os produtores vão estar pagando mais caro, que vão ter dificuldade, "é estudo de futurologia", acrescentando que a maior parte dos insumos será adquirida a partir de junho e julho.

"Pode ser sim, se chegarmos em junho e a guerra ainda estiver em andamento, o bloqueio do Estreito de Ormuz ainda estiver com limitações de transporte, pode sim (ter um impacto) e estamos nos preparando para isso. Da mesma forma que estamos nos preparando para o debate sobre o El Niño", acrescentou.          CONGLOMERADO    Tobias destacou no evento que o BB tem como um dos principais propósitos o financiamento ao agronegócio brasileiro, mas ressaltou que o papel do banco vai muito além do financiamento à agricultura, sendo um conglomerado de mais de 80 empresas (incluindo participações), incluindo BB Consórcios, BB Seguros, BB Asset Management, banco BV, Alelo, Cateno, Tecban, entre outros.

"O Banco do Brasil não é somente isso (agro). O Banco do Brasil vai muito além", afirmou, chamando a atenção para a soma da margem financeira bruta, que reflete basicamente o negócio bancário, com tarifas e o resultado de equivalência patrimonial, que desde 2022 mudou o patamar de crescimento dos negócios.

"Na média, essas empresas vêm somando ao Banco do Brasil 52% do resultado. E foi fundamental essa nossa estratégia... de conglomerado para enfrentar o que nós enfrentamos em 2025."

(Por Paula Arend Laier; edição Igor Sodré e Roberto Samora)

Fonte: Reuters

NOTÍCIAS RELACIONADAS

MBRF expande unidade de carne bovina no Uruguai com investimento de US$70 mi
Brazilian Cattle conecta Brasil e África através da tecnologia
Brasil abre novos mercados nas Filipinas, em Cuba e na República da Coreia
BB vê indícios de melhora na adimplência do agro, mas ainda monitora setor
Defensivos: Mercado tem leve recuperação na moeda nacional, com alta de 3% e movimenta R$ 98,7 bilhões na safra 2024-25
Protesto na Argentina afeta carregamento de grãos de 18 navios em Quequén