Vale prevê operar com ao menos 20 navios com velas em 3 anos para reduzir exposição a combustíveis fósseis

Publicado em 30/04/2026 10:40

 A Vale planeja mais que duplicar nos próximos três anos sua frota de navios de transporte de minério de ferro com velas, somando ao menos 20 embarcações equipadas com a tecnologia, revelou um executivo da mineradora à Reuters, no porto onde um Guaibamax estava atracado nesta semana.

A iniciativa tem potencial de reduzir em quase 10% o consumo de combustível, dependendo do tipo do navio, e ajuda a amortecer a volatilidade global dos preços do óleo marítimo em suas operações. O custo do frete é importante fator para a Vale, cujas operações estão mais distantes da China do que as concorrentes australianas.

Fruto de uma estratégia que vem sendo elaborada há mais de uma década com foco na redução de emissões e no aumento de eficiência, o movimento ganha tração justamente em um momento em que o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã fez disparar os preços dos derivados do petróleo no mundo, diante de restrições de oferta da commodity.

As velas, que impulsionam os navios com a força dos ventos em viagens transoceânicas, foram incorporadas a oito navios a serviço da Vale desde 2021, ou aproximadamente 40% do total de graneleiros adaptados com a tecnologia no mundo, revelou o gerente-geral de navegação da mineradora brasileira, Rafael Fischer, ao guiar visitantes por um dos navios da frota com velas, no Porto de Tubarão, em Vitória.

"A eficiência energética faz com que a gente dependa cada vez menos do combustível, então isso faz com que a gente tenha impactos menores de qualquer variação do preço do 'bunker' (combustível marítimo)", disse o executivo em entrevista à Reuters.

Ele falava do alto de um mirante no porto, logo após desembarcar de um navio do modelo Guaibamax equipado com velas, com capacidade de 325 mil toneladas, que terminava de ser carregado com minério da Vale para seguir rumo à China.

No Porto de Tubarão, maior exportador de pelotas de minério de ferro do mundo, as velas que têm um formato cilíndrico e altura equivalente à de um prédio de dez andares podem ser avistadas por banhistas ao longo de praias capixabas.    

Com as velas, a frota de oito navios da Vale registrou uma redução de cerca de 4.700 toneladas de CO2 equivalente no primeiro trimestre, associada a uma economia de aproximadamente 1.500 toneladas de óleo combustível pesado, segundo dados da companhia. Uma viagem de ida e volta à China consome cerca de 5 mil toneladas do combustível fóssil.    

Quatro dos oito navios ainda estão em "ramp-up", com expectativa de melhoria de desempenho nos próximos meses, segundo a companhia. 

A primeira implementação de energia eólica em um navio pela Vale ocorreu em 2021, em uma embarcação do modelo Guaibamax, que recebeu cinco velas, com quatro metros de diâmetro e 24 metros de altura.

Já o primeiro Valemax -- de 400 mil toneladas de capacidade -- com a tecnologia começou a operar em 2024, com cinco velas de 35 metros de altura e 5 metros de diâmetro cada. Esse último foi o que teve a economia de combustível mais expressiva da frota no primeiro trimestre deste ano, de cerca de 8%.

Além dos dois projetos com investimento próprio, a Vale coopera com os armadores em outros seis projetos em operação, de forma a incentivar a adoção da tecnologia no setor, disse Fischer. Os últimos três entraram em operação entre outubro de 2025 e janeiro deste ano.

"São mais de mil viagens por ano, centenas de navios diferentes, a Vale não tem a ambição de sozinha bancar todos esses projetos. Os armadores também estão engajados nisso", afirmou. "Fizemos dois projetos e, a reboque, ganhamos seis outros."

"Esse menor consumo de combustível faz com que a gente também reduza o custo do frete", acrescentou. 

A Vale opera simultaneamente uma frota afretada de mais de 200 navios, sendo que os navios de grande porte, e que contam com contratos de longo prazo, somam pouco mais de 100 embarcações. 

FLEXIBILIDADE E COMBUSTÍVEIS ALTERNATIVOS

Com as velas, Fischer explicou que é possível ainda reduzir o tempo de viagem do navio, mas que a Vale tem optado por manter a velocidade e poupar o combustível.

Ele acrescentou que a empresa também busca a adoção de combustíveis alternativos nas embarcações, o que permite menos emissões e mais flexibilidade no abastecimento.

"No futuro, a gente vai ter a possibilidade de pelo menos cinco combustíveis, isso garante flexibilidade para a gente se adaptar às situações, às condições de mercado e utilizar as tecnologias que vão trazer o melhor resultado sustentável para a empresa", pontuou.

No início deste mês, a Vale anunciou um contrato de afretamento de 25 anos com a chinesa Shandong Shipping Corporation que prevê a construção pelo armador dos dois primeiros navios transoceânicos do mundo movidos a etanol e equipados com velas. As embarcações Guaibamax poderão ser abastecidas também com metanol e "bunker" comum e terão a opção de "retrofit" para GNL e amônia.

O acordo recente se somou à contratação de outras dez embarcações Guaibamax bicombustíveis também com velas e movidas a metanol e óleo pesado, junto à Shandong, com entregas previstas entre 2027 e 2029. A mineradora estuda a possibilidade de converter essas embarcações também para o uso adicional de etanol.

Além disso, na frota atual, alguns navios já têm a capacidade para futura adaptação para combustíveis alternativos.

Essas grandes embarcações realizam entre três e quatro viagens por ano, majoritariamente na rota Brasil-China, e seus avanços tecnológicos são essenciais para trazer ganho de competitividade para a Vale frente aos seus principais concorrentes que ficam na Austrália, mais próximos do continente asiático. Para percorrer cada trecho, o navio demanda cerca de 45 dias.

"Temos uma desvantagem geográfica comparada aos nossos competidores, então trazemos aqui inovação como uma alavanca para mitigar esse efeito", disse o executivo.

RESULTADOS ALCANÇADOS

As velas são impulsionadas por um fenômeno físico chamado Efeito Magnus, o mesmo que no futebol explica a curva da bola em um chute de trivela, disse Fischer.

Quando as velas cilíndricas giram, permitem que uma face fique a favor e outra contra o vento. "Essa diferença de velocidade do fluido (ar) gera um diferencial de pressão, assim como em uma vela tradicional, fazendo então esse efeito de propulsão", afirmou. 

No Valemax, a adoção de velas permitiu a redução de emissões em 1,6 mil toneladas de CO2 equivalentes em 2026, ou 7,6% do total, quando a previsão inicial era de cerca de 6%. Desde o início da operação, há um ano e meio, a redução chegou a 6,5 mil tCO2eq, segundo cálculos da empresa.

O resultado contribui para a meta da Vale de reduzir em 15% as emissões do Escopo 3 até 2035, relacionado à cadeia de valor, que inclui a maior parte das emissões do transporte marítimo, dependendo do tipo de contrato. Em média, a navegação é responsável por 3% das emissões de escopo 3, enquanto a siderurgia engloba os demais 97%.

Desde 2020, a Vale investiu cerca de R$7,4 bilhões em iniciativas para reduzir suas emissões de Escopo 1, 2 e 3. "É um esforço que é contínuo, e a empresa segue na trajetória para descarbonização", afirmou Fischer.

 

Por: Por Marta Nogueira
Fonte: Reuters

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