Capital italiano mira o PIB do Centro-Oeste para se conectar com agronegócios no Brasil
A tradicional rota do capital italiano no Brasil, historicamente concentrada no parque industrial e automobilístico do Sudeste, está passando por uma calibração de rota. O destino agora é o Centro-Oeste. Em um movimento que acompanha o deslocamento do eixo dinâmico da economia nacional, a Câmara de Comércio Italiana de São Paulo (ITALCAM) inaugurou oficialmente sua representação em Mato Grosso, estabelecendo sua nova sede no bairro Santa Rosa, em Cuiabá.
O objetivo é encurtar a distância entre indústria de tecnologia europeia e o estado que lidera a produção de grãos no país, cujo PIB avançou expressivos 6,8% no último ciclo econômico. Para consolidar a sinergia institucional que o movimento exige, o presidente da ITALCAM, Graziano Messana, que acaba de ser reeleito para o seu terceiro mandato, reuniu-se com o governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta.
A guinada geopolítica e comercial da ITALCAM sustenta-se em duas frentes: bioeconomia e a antecipação prática às exigências do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor neste mês de maio.
Sob as novas regras, que preveem o fim de tarifas para 80% das exportações do bloco sul-americano e impõem rígidos critérios de sustentabilidade, grandes companhias italianas já mapearam o mercado mato-grossense. Elas enxergam na necessidade de rastreabilidade, cumprimento de metas ambientais e transição para o desmatamento zero uma oportunidade bilionária. O foco está no fornecimento de maquinário de precisão, inteligência de dados, automação e sistemas de irrigação ecoeficientes.
A estratégia da Câmara prevê a criação de canais diretos e a facilitação de joint ventures em polos agroindustriais. Além de cidades consagradas como Rondonópolis, Sinop e Sorriso, o braço da ITALCAM estenderá sua atuação a Lucas do Rio Verde, referência tecnológica no campo.
A Itália desembarca na região respaldada por suas credenciais econômicas: é o primeiro país da União Europeia em número de empresas manufatureiras (mais de 352 mil sociedades) e líder global em produtividade de patentes. "O Brasil já possui a escala continental e a competência de produção. A Itália detém a tecnologia de nicho e o maquinário de ponta de que esse produtor precisa para elevar ainda mais o patamar de eficiência e segurança jurídica no mercado externo", avalia Messana.
A ofensiva ocorre em um momento de expansão do comércio bilateral. Em 2024, a corrente de comércio entre Brasil e Itália movimentou US$ 10,9 bilhões, com crescimento de 9,1% nas importações brasileiras (majoritariamente bens de capital e tecnologia industrial) e de 9,3% nas exportações rumo à península europeia.
Com a nova estrutura em Cuiabá, o agro do estado ganha uma ponte para a Europa através de portos estratégicos como Trieste e Gênova, conectando a produção brasileira ao mercado consumidor exigente.