Agricultores da Espanha reintroduzem ovelhas e vacas nativas para que comam plantas inflamáveis
VINCIOS, Espanha, 23 Jul (Reuters) - Uma raça bovina com características semelhantes às de cabras está retornando à paisagem na região da Galícia, no noroeste da Espanha, à medida que comunidades reintroduzem animais nativos para reequilibrar ecossistemas e reduzir incêndios florestais em uma área que foi o epicentro do pior ano de incêndios no país em 2025.
O plantio em massa de pinheiros e eucaliptos -- altamente inflamáveis -- para fins industriais afastou raças nativas como a “Cachena”, menor raça de vaca da Península Ibérica, deixando grande parte do terreno sem cuidados e coberto de vegetação, ao mesmo tempo em que as populações rurais migram para as cidades.
As vacas da raça Cachena são conhecidas localmente como “vacas-cabras”, pois comem quase tudo e são capazes de transitar por terrenos montanhosos onde vacas maiores não alcançam.
Um incêndio em 2017 que assolou a paróquia de Vincios levou as associações comunitárias que administram coletivamente as terras a optar por uma técnica secular de prevenção de incêndios florestais -- a criação de gado nativo, incluindo cabras, ovelhas e as ágeis vacas Cachena de chifres longos, que ajudam a limpar a vegetação rasteira inflamável ao pastar na região.
Seus esforços, juntamente com os de outras associações em toda a Galícia, aumentaram a população de gado nativo de pouco mais de 1.800, no final da década de 1990, para mais de 30.000 no início de 2026, de acordo com a associação regional Boaga -- incluindo cerca de 8.000 vacas Cachena, contra as 400 de antes.
O governo regional concedeu incentivos aos agricultores para que mantivessem novilhas em vez de vendê-las, e um centro zoológico local forneceu touros a baixo custo para facilitar a reprodução.
“O gado nativo mantém a vegetação rasteira em uma altura adequada, para que ela não se torne perigosa”, disse José Taboada, coordenador da cooperativa de terras de Vincios.
Ele apontou para uma área de terra limpa de arbustos inflamáveis, como amoreiras silvestres, tojo e giesta, que contêm óleos que queimam intensamente e podem levar o fogo do solo até a copa das árvores.
PASTANDO COM GPS
As vacas mantêm a vegetação sob controle sem erradicá-la por completo, explicou Taboada, acrescentando que os animais usam coleiras com GPS, o que elimina a necessidade de cercas e permite que eles circulem livremente.
“Elas estão perfeitamente adaptadas a terrenos como o nosso”, disse Taboada.
Vincios é uma das cerca de 3.000 comunidades da Galícia que, como cooperativas, administram cerca de 700.000 hectares -- um quarto das terras da região --, em uma prática que remonta à época medieval formalmente legalizada em 1989.
A região é uma das mais afetadas na Espanha por incêndios florestais, com quase 119.000 hectares queimados no ano passado, uma área com cerca do dobro do tamanho de Madri.
Cientistas associam as temporadas de incêndios florestais cada vez mais severas em todo o sul da Europa às mudanças climáticas. Terceiro país mais florestado da Europa, a Espanha registrou até agora, em julho, temperaturas médias 5,6 graus Celsius acima dos níveis de 1961 a 1990, de acordo com o Reuters Climate Monitor.
Proprietários de terras e cooperativas em outras regiões espanholas, como a Andaluzia, a Catalunha e Castela-La Mancha, também optaram pela criação de gado para prevenir incêndios.
A técnica é respaldada por estudos científicos, mas deve ser utilizada em conjunto com outras estratégias, como o desbaste mecânico e a poda da biomassa, além da queima controlada de terras realizada por pessoal especializado, afirmou o engenheiro florestal e professor José Vicente Oliver.
(Reportagem de Miguel Vidal e Victoria Waldersee)