No Dia do Agricultor, AgriHub lança Radar de Oportunidades e aponta os principais desafios do campo em MT
Há mais de três décadas, o produtor rural Alexsandro Dias acompanha de perto a transformação de Guarantã do Norte, no norte de Mato Grosso. Ele chegou à região ainda criança, quando os pais vieram para o estado atrás de novas oportunidades. Cresceu no campo, assumiu a administração das propriedades da família e, hoje, trabalha com pecuária de cria e recria. Mas, mesmo em uma região consolidada na produção agropecuária, os desafios continuam fazendo parte da rotina.
O alto custo de máquinas, implementos e insumos tem adiado investimentos importantes para a propriedade. “Sei que determinados maquinários facilitariam muito o trabalho, mas o valor dos equipamentos e os juros elevados tornam a compra inviável”, relata.
Outra preocupação é a dificuldade para encontrar mão de obra qualificada. Sem funcionários fixos, Alex, como é conhecido, afirma que toda a operação depende dele. “Hoje minha atividade depende 100% de mim. Se acontecer alguma coisa comigo, praticamente tudo para”, conta.
A insegurança jurídica também aparece entre os obstáculos enfrentados pelo pecuarista. “As questões relacionadas à regularização fundiária e ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) impactam diretamente a gestão da propriedade, a valorização do patrimônio e até mesmo o acesso ao mercado.
A realidade vivida por Alex está entre os principais gargalos identificados pelo Radar de Oportunidades do Agro de Mato Grosso, lançado neste Dia do Agricultor, 28 de julho. A publicação é do AgriHub, a rede de inovação do Sistema Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Sistema Famato) voltada à inovação no agro.
O relatório faz parte do projeto AgriHub Conecta 2026, desenvolvido pelo AgriHub e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar MT), com patrocínio da Deloitte e apoio da Famato. O estudo reúne informações que ajudam a orientar startups, investidores, pesquisadores, empresas e instituições sobre onde estão as oportunidades para desenvolver soluções voltadas ao agro mato-grossense.
Os dados foram construídos a partir de uma pesquisa com 1.096 produtores rurais, que geraram 1.403 respostas válidas em 75 municípios, envolvendo 58 Sindicatos Rurais. Ao todo, mais de 82 mil dados foram processados por meio da metodologia Gravidade, Urgência e Frequência (GUF), utilizada para priorizar os desafios apontados pelos produtores.
De acordo com o AgriHub, o levantamento mostra que existe um “descompasso” entre o avanço da produção agrícola e a oferta de soluções tecnológicas disponíveis no mercado. Mesmo após Mato Grosso alcançar 111,9 milhões de toneladas de grãos na safra 2024/25, demandas consideradas críticas ainda não contam com ferramentas consolidadas para apoiar os produtores.
Entre as principais oportunidades identificadas pelo Radar estão três áreas consideradas prioritárias. A primeira delas envolve crédito, seguro rural e serviços financeiros, principalmente pela dificuldade de acesso ao financiamento.
Na sequência aparecem os desafios relacionados à infraestrutura, logística, armazenagem e políticas públicas, com destaque para o alto custo do frete, problemas no fornecimento de energia e carga tributária.
O terceiro eixo reúne questões ligadas à educação, comunicação e inclusão digital no campo, onde a escassez de mão de obra qualificada e a dificuldade na adoção de novas tecnologias aparecem entre as principais preocupações dos produtores.
Ainda segundo o AgriHub, o estudo também aponta que muitos problemas começam antes mesmo da produção, envolvendo acesso a crédito, regularização e aquisição de insumos. Dentro da porteira, ganham destaque a falta de trabalhadores qualificados e a gestão das propriedades. Já depois da produção, logística e transporte seguem entre os principais entraves.
Os problemas das regiões produtoras
O levantamento apresenta ainda um panorama regional dos desafios enfrentados no estado. No Norte e Noroeste, regiões como Alta Floresta e Juína, predominam problemas ligados à regularização fundiária, energia elétrica, mão de obra e pecuária leiteira.
No Araguaia, os maiores desafios estão na logística, no custo do frete e no acesso ao crédito. Já no Médio-Norte e Parecis, importantes polos agrícolas, produtores apontam como principais dificuldades a carga tributária, a escassez de trabalhadores qualificados, os altos custos logísticos e o licenciamento ambiental.
Nas regiões Sudoeste e Centro, aparecem questões relacionadas à sucessão familiar, custos operacionais e incentivos para produtores sustentáveis. Enquanto isso, no Sul e Sudeste, os desafios mais citados envolvem os altos custos de máquinas e implementos, gestão de pessoas e indicadores zootécnicos.
Além do diagnóstico, o Radar busca orientar o desenvolvimento de novas soluções tecnológicas, aproximando produtores rurais, startups e instituições de inovação para enfrentar os desafios identificados no campo.