UE pode dar mais apoio fronteiriço ao Marrocos, diz Von der Leyen à Espanha após crise em Ceuta
Por Lili Bayer e Amina Ismail
BRUXELAS, 3 Ago (Reuters) - A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs nesta segunda-feira que a União Europeia fortaleça ainda mais suas fronteiras e aumente o apoio a Marrocos para ajudar a evitar que se repita o afluxo caótico de 50 mil migrantes ao enclave espanhol de Ceuta, ocorrido na semana passada.
O afluxo, que começou na quinta-feira em uma das duas únicas fronteiras terrestres da UE com a África — sendo a outra a fronteira de Marrocos com o enclave espanhol de Melilla —, causou alarme em todo o bloco.
A migração tem sido uma das questões políticas mais polêmicas da União Europeia desde a crise migratória de 2015-16, quando mais de um milhão de refugiados e migrantes, muitos fugindo da guerra na Síria, chegaram à Europa.
O afluxo alimentou o apoio a partidos anti-imigração e de extrema-direita em todo o bloco e intensificou anos de disputas sobre controles de fronteira, regras de asilo e repartição de encargos.
Cada vez mais, a UE depende de acordos migratórios com países do Norte da África para conter as chegadas irregulares.
“Marrocos é um importante parceiro estratégico, especialmente em nossos esforços para combater o tráfico de migrantes e a migração ilegal”, escreveu Von der Leyen.
“Em cooperação com a Espanha, especialmente em tudo o que se refere a Ceuta e Melilla, poderíamos aprimorar os sistemas de alerta precoce para a gestão de fronteiras e melhorar nosso apoio técnico e financeiro a Marrocos.”
CEUTA: PRIMEIRO TESTE DO NOVO PACTO DE MIGRAÇÃO DA UE
Marrocos afirmou no domingo que as recentes travessias em massa para Ceuta e Melilla foram alimentadas por desinformação nas redes sociais, redes de tráfico de pessoas e interpretação equivocada de uma decisão judicial espanhola.
No fim das contas, a maioria das pessoas que violaram a barreira de fronteira não encontrou comida nem acolhimento e voltou ao território marroquino.
No entanto, a Itália suspendeu por um mês o regime de livre circulação no espaço Schengen com a Espanha, embora esse regime não se aplique a Ceuta, enquanto 22 dos 27 países-membros da UE pediram uma ação coordenada para fortalecer as fronteiras externas do bloco.
O incidente de Ceuta é o primeiro grande teste ao Pacto de Migração da UE, que entrou em vigor em junho após anos de negociações com o objetivo de criar regras comuns de migração e uma solidariedade mais forte entre os Estados-membros.
“A ideia do pacto é o controle e a solidariedade entre os Estados-membros da UE. No entanto, vimos exatamente o contrário”, disse Bram Frouws, diretor do Mixed Migration Centre.
“Se o primeiro grande incidente mostrar que o pacto não está fazendo muita diferença, isso é politicamente arriscado”, disse Frouws, argumentando que isso poderia minar a confiança nos líderes europeus e servir de “combustível para a extrema-direita”.
Com as eleições se aproximando em vários países da UE, a migração continua sendo uma das questões politicamente mais delicadas do bloco.
DILEMA DA MIGRAÇÃO NA EUROPA
Os críticos argumentam que a estratégia de depender dos países de trânsito deixa a Europa vulnerável a pressões caso esses países relaxem os controles de migração — ou ameacem fazê-lo — em busca de concessões políticas ou econômicas.
“A crescente dependência da Europa em relação aos países vizinhos para o controle da migração pode reduzir o número de chegadas no curto prazo, mas também pode proporcionar a esses países uma influência política significativa”, disse Alberto-Horst Neidhardt, analista sênior de políticas do European Policy Centre.