Ucrânia recorre a rotas alternativas de exportação de grãos enquanto Rússia bloqueia portos
Por Yuliia Dysa
KIEV, 4 Ago (Reuters) - As rotas alternativas de exportação de grãos da Ucrânia atingirão a capacidade necessária ao final de agosto, na melhor das hipóteses, afirmou o ministro da Agricultura do país, alertando que elas cobririam apenas metade dos volumes movimentados pelos portos do Mar Negro afetados pelos ataques russos.
A Rússia intensificou os ataques com mísseis e drones contra embarcações civis de bandeira estrangeira no centro portuário de Odessa, no sul do país, que movimenta a maior parte dos embarques de grãos da Ucrânia.
A situação coloca em risco as exportações de cerca de metade do total previsto para este ano, disse Taras Vysotskyi à Reuters.
Em julho, a Ucrânia registrou 35 ataques a navios em portos e 22 a navios no mar, além de 67 ataques a instalações portuárias, segundo o Ministério da Infraestrutura do país. Isso se compara a 14 ataques a navios em todo o ano de 2025.
Como resultado, os armadores suspenderam as escalas nos portos ao redor de Odessa e nenhum navio entrou por quase duas semanas, enquanto a temporada de colheita de verão da Ucrânia entra em pleno andamento.
Moscou afirma que ataca alvos de caráter militar. A Rússia, maior exportadora mundial de trigo, também relatou ataques às suas instalações de exportação agrícola e a navios comerciais no Mar Negro nas últimas semanas.
Os produtores ucranianos já estão sentindo o impacto, já que os preços das sementes oleaginosas e dos grãos caíram em média 30%, segundo Vysotskyi.
"A situação é excepcionalmente complicada. Em certos aspectos, é ainda mais difícil do que em março-abril de 2022", disse ele, referindo-se aos primeiros meses da invasão em grande escala da Rússia.
As perdas diretas para o setor agrícola da Ucrânia podem chegar a entre US$1,5 bilhão e US$3 bilhões este ano, disse o ministro. O valor não havia sido divulgado anteriormente.
Na terça-feira, o governo da Ucrânia aprovou o reajuste dos preços mínimos de exportação, em sua primeira medida de emergência para apoiar os agricultores.
NENHUMA ALTERNATIVA DE LONGO PRAZO
Para a Ucrânia, os embarques pelo rio Danúbio, o transporte ferroviário e rodoviário são as principais rotas alternativas, disse Vysotskyi, sendo o transporte ferroviário a opção principal.
Essas rotas já foram testadas no passado, quando a Rússia tentou bloquear o comércio durante a guerra. Agora, o Danúbio, atingido pela seca e com os níveis de água em mínimos históricos, não terá um papel importante até outubro, disse ele.
Embora as autoridades tenham iniciado os procedimentos necessários e os produtores já possam utilizar as rotas, levaria pelo menos até o final do verão para que elas atingissem "um nível operacional mais ou menos estável", disse Vysotskyi.
Mesmo assim, no entanto, elas poderiam lidar apenas com 50% a 55% da capacidade mensal dos portos do Mar Negro, de cerca de 6 milhões de toneladas, podendo, portanto, servir como uma medida temporária, em vez de uma alternativa de longo prazo aos transportes marítimos, disse o ministro.
As rotas alternativas também representariam um custo adicional de US$45 a US$50 por tonelada, aos preços atuais, para os produtores.
"Não há alternativa aos portos de Odessa se a Ucrânia quiser continuar atuando como garantidora da segurança alimentar”, afirmou Vysotskyi.
PREÇOS DOS ALIMENTOS
Nas últimas safras, a Ucrânia foi responsável por cerca de 6% das exportações globais de trigo e por cerca de 11% das exportações globais de milho, além de ser um importante exportador de sementes oleaginosas e óleos vegetais.
O país exportou 34,4 milhões de toneladas de grãos durante a safra de 2025/26, e autoridades estimaram em 43 milhões de toneladas o excedente que poderia ser exportado na safra atual.
Com a Rússia efetivamente interrompendo o tráfego nos portos novamente, os preços dos alimentos podem disparar, afetando consumidores em todo o mundo, disse Vysotskyi.
"Os alimentos ficarão mais caros e, para as pessoas mais pobres, podem simplesmente se tornar inacessíveis", disse ele.
Vysotskyi pediu aos aliados que ajudem a garantir a segurança no Mar Negro, já que somente um exército ucraniano forte na região pode manter as exportações em funcionamento enquanto os ataques russos continuam.
Mesmo que as escalas dos navios fossem retomadas amanhã, disse Vysotskyi, levaria pelo menos um mês para voltar aos níveis de exportação observados anteriormente.