Futuro governo vai ter que encontrar novas formas de impulsionar o mercado de máquinas agrícolas

Publicado em 07/09/2026 07:40
Presidente da CSMIA detalha os pilares estratégicos para a competitividade, o financiamento e a sustentabilidade do setor de máquinas agrícolas

O setor de máquinas agrícolas avalia o cenário político e regulatório atual enquanto estrutura propostas para a pauta da indústria nos próximos quatro anos, com foco em previsibilidade e competitividade. Entre as principais expectativas econômicas está a reforma tributária, considerada altamente benéfica por eliminar a cumulatividade de impostos, reduzir custos de produção em até 7% em determinados segmentos e destravar o aproveitamento imediato de créditos tributários sobre investimentos, substituindo o antigo modelo vinculado ao prazo de depreciação.

No que tange ao crédito e à renovação da frota no campo, o Plano Safra disponibiliza um volume expressivo de recursos de cerca de R$ 27,5 bilhões em linhas como Moderinfra, Moderfrota, Pronaf e fundos constitucionais, com taxas que variam de 5% a 12,5% ao ano. Segundo o setor, o ritmo de comercialização não é limitado pela falta de recursos ou juros elevados, mas sim por desafios estruturais ligados à baixa rentabilidade do produtor rural e aos níveis de inadimplência, fatores que tornaram a postura dos bancos mais seletiva.

Em paralelo, a indústria avança no atendimento às demandas de sustentabilidade e eficiência energética, preparando-se para as exigências da Lei nº 15.042/2024 de controle de emissões de carbono e desenvolvendo novas tecnologias em produtos, com destaque para protótipos de motores a etanol com perspectiva de consolidação nos próximos anos, além de opções como baterias, biodiesel e gás metano. Essas diretrizes e análises foram detalhadas por Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq, como parte da série especial "E Agora, Presidente?", produzida pelo site Notícias Agrícolas para debater o futuro da agricultura brasileira com vistas ao horizonte de 2030.

Notícias Agrícolas: Quais são as principais pautas industriais e comerciais que a Abimaq e a CSMIA estão negociando junto ao governo federal?

Pedro Estevão: Neste momento, não temos nenhuma pauta importante em tramitação no governo federal, pois estamos no final do ciclo deste atual governo. Tudo o que tínhamos que negociar foi tratado antes do período eleitoral. Além disso, durante a eleição, o governo fica impedido de lançar novas políticas públicas que possam interferir no pleito.

Portanto, o que estamos elaborando agora é uma carta de sugestões aos candidatos à presidência, detalhando o que a indústria entende que precisa ser feito. Esse documento ainda não é público, mas deverá ser divulgado daqui a cerca de uma semana, permitindo que todos conheçam seu conteúdo. Nós o entregaremos a todos os presidenciáveis; trata-se, por assim dizer, da pauta da indústria para os próximos quatro anos.

NA: De que maneira a reforma tributária e a nova estrutura de impostos sobre o consumo afetarão a competitividade da indústria nacional de máquinas agrícolas?

Pedro Estevão: Nossa avaliação é de que a reforma tributária é altamente benéfica para a indústria de máquinas agrícolas e para o setor produtivo em geral. Em primeiro lugar, há uma redução expressiva na complexidade do sistema atual de tributação. Além disso, o novo modelo corrige distorções em que o imposto pago em insumos não gera crédito, eliminando a cumulatividade (a famosa incidência de imposto sobre imposto).

Dependendo do segmento industrial, o custo do produto pode cair em até 7%, com impactos muito positivos para a exportação. Como o país não deve exportar impostos, a eliminação de tributos embutidos na cadeia remove a carga tributária residual que ia embutida nos produtos vendidos ao exterior. Com isso, o custo de produção da indústria cai de forma consistente devido ao maior aproveitamento de créditos.

Outro ponto fundamental é a mudança no tratamento dos créditos tributários sobre novos investimentos. Atualmente, o aproveitamento do imposto embutido em máquinas e equipamentos fica vinculado ao prazo de depreciação, que pode demorar até 48 meses, o que é muito prejudicial. Com a reforma, essa lógica muda: a empresa poderá apropriar o crédito tributário logo no mesmo mês da aquisição. Isso elimina a retenção prolongada de capital, estimula diretamente os investimentos na indústria e agiliza o processo de modernização do setor. No geral, a reforma tributária será extremamente positiva para a nossa competitividade.

NA: Como o setor avalia o cenário atual de fontes de financiamento para garantir a renovação da frota de máquinas no campo?

Pedro Estevão: Neste ano, temos uma ampla disponibilidade de recursos. O Plano Safra, lançado no final de junho, trouxe diversas linhas importantes. Se somarmos todas elas, temos o Moderinfra, com R$ 10 bilhões disponíveis a 9% ao ano; o Moderfrota, com R$ 5,5 bilhões a taxas de 11,5% ou 12,5%, dependendo do perfil do agricultor; o Pronaf, com outros R$ 7 bilhões a 5%; além dos fundos constitucionais (como FCO e FNE), que somam mais R$ 5 bilhões a uma taxa de aproximadamente 11,5%.

Diante da atual conjuntura econômica brasileira, esses juros não são considerados caros, variando de 5% a no máximo 12,5%. Se somarmos todos esses valores, chegamos a R$ 27,5 bilhões, o que representa cerca de 60% das vendas projetadas para o próximo ciclo.

Portanto, o problema não é a falta de recursos e nem os juros elevados, pois ambas as condições estão presentes. O que tem emperrado o mercado são outros dois fatores: a baixa rentabilidade do agricultor e o nível de inadimplência, que fizeram com que os bancos adotassem uma postura muito mais seletiva na concessão de crédito.

NA: Como a indústria de máquinas agrícolas está respondendo às demandas por sustentabilidade, eficiência energética e agricultura de baixo carbono?

Pedro Estevão: No que diz respeito especificamente à pauta de baixo carbono, já contamos com a Lei nº 15.042, de 2024, com entrada em vigor prevista para 2029, que obriga as indústrias a reduzirem emissões. Pela regra, empresas com produção superior a 10 mil toneladas por ano têm o dever de relatar, enquanto aquelas que produzem mais de 25 mil toneladas anuais precisarão reduzir emissões ou realizar a compra de créditos de carbono. Nesse sentido, a indústria já está se preparando para fazer frente a essa nova exigência legal.

No nível do produto, nossas máquinas já caminham nessa direção ao incorporar diferenciais voltados ao meio ambiente, a exemplo de tecnologias que economizam insumos e reduzem o consumo de diesel. Além disso, no que tange ao combustível dos equipamentos, diferentes rotas tecnológicas alternativas estão sendo avaliadas para substituir o diesel.

O que temos visto com mais frequência no mercado são protótipos de motores a etanol — uma tecnologia que deve virar realidade nos próximos cinco anos, tratando-se de um combustível renovável que promove a descarbonização. O setor também investe em outras rotas alternativas, como o uso de baterias, o biodiesel e o gás metano. Dessa forma, estamos trabalhando ativamente para disponibilizar ao mercado máquinas agrícolas equipadas com motores movidos a combustíveis renováveis.

 

Por: Ericson Cunha
Fonte: Notícias Agrícolas

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