Agro cobra menos dependência externa e acesso a insumos para produzir
O acesso a fertilizantes e defensivos está entre os pontos que devem exigir atenção do próximo governo para manter a competitividade do agronegócio brasileiro. De um lado, a forte dependência de fertilizantes importados deixa o país exposto a crises internacionais de oferta, preços e logística. De outro, o setor de proteção de cultivos defende avanços regulatórios e um ambiente mais favorável à inovação para ampliar o acesso do produtor às tecnologias necessárias no campo.
Na avaliação de Tomás Pernias, analista de inteligência de mercado da StoneX, uma das prioridades deve ser fortalecer a indústria brasileira de fertilizantes e criar condições mais competitivas para a produção nacional.
Entre os gargalos está a disponibilidade de matérias-primas. O enxofre, utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, é um dos insumos que têm enfrentado dificuldades de aquisição pelos importadores brasileiros.
“Assim, assegurar uma oferta adequada de enxofre para a indústria nacional é um objetivo importante para garantir a continuidade da produção no Brasil e reduzir o risco de desabastecimento”, afirma Pernias.
Outro ponto levantado pelo analista é o custo do gás natural, considerado fundamental para ampliar a produção nacional de fertilizantes nitrogenados. Segundo ele, os preços relativamente elevados do insumo no Brasil reduzem a capacidade de competição da indústria doméstica com produtores estrangeiros.
“Portanto, outra prioridade é criar condições para que os compradores brasileiros tenham acesso a gás natural em bases mais competitivas”, destaca.
Dependência externa mantém agro exposto a crises
A dependência das importações é um dos principais desafios para a segurança de abastecimento do país. Fertilizantes utilizados em culturas importantes, como soja, milho, algodão e café, têm forte participação de produtos vindos do exterior.
Para Pernias, essa situação traz três riscos principais: desabastecimento diante de choques de oferta, aumento dos custos quando os preços internacionais sobem e redução da disponibilidade interna caso as importações diminuam de forma significativa.
Em um cenário de oferta internacional mais restrita, o impacto pode chegar diretamente à produtividade das lavouras.
“Com menor disponibilidade de insumos no mercado doméstico, aumentam os riscos de redução da produtividade da produção rural brasileira, caso a oferta caia drasticamente e os agricultores enfrentem dificuldades para adquirir seus insumos”, explica.
Por isso, além de ampliar a produção nacional, o Brasil também precisa reduzir a concentração das compras externas.
“É importante que os compradores de fertilizantes ponderem os riscos de manter relações comerciais e negociações concentradas em poucos fornecedores”, afirma o analista.
A diversificação das origens, segundo ele, aumenta as alternativas disponíveis em momentos de crise e pode ajudar a garantir a continuidade do abastecimento.
Infraestrutura também entra na agenda
A questão não está apenas na origem dos fertilizantes. Em períodos de maior demanda, problemas logísticos também podem dificultar a chegada dos produtos ao campo.
Pernias destaca a necessidade de investimentos em infraestrutura portuária, ferroviária e rodoviária para acelerar tanto o descarregamento dos fertilizantes importados quanto o transporte até as misturadoras e regiões consumidoras.
Na prática, melhorar a logística pode reduzir gargalos justamente nos períodos em que o produtor mais precisa de agilidade para receber os insumos.
Defensivos: inovação depende de segurança jurídica
No segmento de defensivos e demais tecnologias de proteção de cultivos, a principal demanda apresentada pela CropLife Brasil é por um ambiente regulatório mais seguro e eficiente.
A entidade, que representa empresas dos segmentos de defensivos químicos, bioinsumos, biotecnologia, mudas e sementes, defende que inovação e segurança jurídica estejam no centro da agenda do próximo governo.
Para a CropLife, em uma agricultura tropical como a brasileira, a tecnologia é essencial para manter produtividade e competitividade.
A entidade considera necessário avançar na regulamentação das leis de Bioinsumos e dos Agrotóxicos, além de tornar mais eficientes os processos de avaliação e registro.
No caso dos defensivos, a Lei nº 14.785/2023 trouxe mudanças para o marco regulatório, mas, segundo a entidade, ainda é necessário detalhar sua aplicação, definir responsabilidades e prazos e ampliar a digitalização dos processos.
O setor também defende maior integração entre Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Anvisa e Ibama, que participam da análise dos produtos.
“Quando uma tecnologia atende aos requisitos de segurança, quanto mais previsível for o processo, mais rapidamente ela poderá chegar ao produtor”, afirma a CropLife.
Bioinsumos ampliam espaço, mas exigem regras claras
Entre as tecnologias que mais ganharam espaço no campo estão os bioinsumos. Segundo dados do CropData citados pela CropLife, o mercado movimentou R$ 6,2 bilhões em 2025, crescimento de 15% em relação ao ano anterior. A área tratada chegou a 194 milhões de hectares, alta de 28%, considerando aplicações repetidas ou misturas.
Para a entidade, o Brasil tem uma oportunidade importante nesse mercado, mas o crescimento depende de uma regulamentação que dê segurança para novos investimentos.
A defesa da CropLife é por uma visão integrada da inovação, combinando defensivos químicos, bioinsumos, biotecnologia e genética.
“Não existe uma única tecnologia capaz de responder a todos os desafios da agricultura tropical. O futuro está na complementaridade entre defensivos químicos, bioinsumos, biotecnologia e germoplasma”, destaca.
Combate aos produtos ilegais também é prioridade
Outro problema apontado pela entidade é a circulação de defensivos agrícolas ilegais, que, além de afetar a concorrência, pode trazer riscos para a produtividade, o meio ambiente e a saúde.
A CropLife defende maior integração entre governo, indústria e forças de fiscalização, principalmente nos pontos de entrada desses produtos no país.
Entre as prioridades apresentadas pela entidade está o fortalecimento da rastreabilidade e da fiscalização e o combate ao contrabando, à falsificação e à adulteração.
Crédito e custo pesam na decisão do produtor
A tecnologia só chega ao campo se o produtor tiver condições econômicas para utilizá-la. Por isso, crédito e tributação também aparecem entre as demandas.
O setor defende mecanismos que reduzam ineficiências, estimulem a concorrência e facilitem o acesso aos produtos que cumprem as exigências regulatórias.
Uma das alternativas citadas é o barter, operação em que o produtor utiliza parte da produção futura para adquirir insumos ou serviços necessários ao cultivo. Segundo dados do CropData apresentados pela entidade, essa modalidade movimentou R$ 12,6 bilhões em 2024.
Produção nacional e importação precisam caminhar juntas
Apesar da defesa de uma maior capacidade produtiva doméstica, tanto no caso dos fertilizantes quanto dos defensivos, as respostas indicam que reduzir a vulnerabilidade não significa abandonar as importações.
A estratégia passa por combinar produção nacional, diversificação de fornecedores e abertura comercial, evitando que o país fique excessivamente dependente de poucos mercados.
No setor de proteção de cultivos, a CropLife também defende maior convergência das regras brasileiras com padrões internacionais, desde que sejam preservados os critérios de segurança e qualidade.
Para os fertilizantes, a mesma lógica aparece na diversificação das origens de compra. Quanto maior o número de alternativas, menor a exposição a uma interrupção localizada de fornecimento.
O desafio para o próximo governo
As demandas dos dois segmentos convergem em um ponto: o produtor precisa ter acesso aos insumos no momento adequado e a custos que não comprometam sua rentabilidade.
Para isso, a agenda envolve desde investimentos em infraestrutura e fortalecimento da produção nacional até regras mais eficientes, combate ao mercado ilegal, crédito e estímulo à inovação.
No caso dos defensivos, a CropLife resume suas prioridades em três frentes: excelência regulatória, competitividade e integridade das cadeias e estímulo à inovação.
Já para os fertilizantes, a StoneX destaca a necessidade de ampliar a produção doméstica, garantir matérias-primas estratégicas, buscar preços mais competitivos para o gás natural, diversificar fornecedores e melhorar a infraestrutura.