Agro cobra mudança nos livros escolares: “Aluno não pode aprender sobre um Brasil que já não existe”
A próxima gestão federal deveria rever a forma como o agronegócio brasileiro chega às salas de aula, aproximando materiais didáticos da realidade científica, tecnológica e produtiva do campo e criando mecanismos permanentes para sua atualização.
A proposta é da associação De Olho no Material Escolar, que coloca a educação entre os temas que deveriam entrar na agenda do próximo presidente da República, independente de qual seja, e defende mudanças nos critérios de avaliação dos materiais, formação continuada dos professores e maior aproximação entre estudantes e o setor produtivo.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas para a série “E Agora, Presidente?”, a presidente da entidade, Letícia Jacintho, afirma que a prioridade deve ser garantir que conteúdos relacionados ao agro estejam baseados em informações científicas atualizadas e acompanhando a velocidade das transformações do setor.
“Os livros e recursos do Plano Nacional do Livro e do Material Didático também precisam acompanhar o dinamismo do agro moderno, que hoje é referência global em produtividade e sustentabilidade”, afirma e almeja Letícia.
Para ela, entretanto, a discussão não deveria se restringir ao agronegócio. Ela defende que a melhora da aprendizagem seja tratada como política de Estado e que o país avance na execução e governança das políticas educacionais.
“O Brasil possui um dos maiores ecossistemas educacionais do mundo, mas peca na execução das políticas públicas e na governança, entre outros grandes desafios. O reflexo disso está nos principais índices e exames que medem o pulso do setor, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgado em agosto de 2026, e mais ainda no recente Pisa 2025, e que mostraram que não estamos avançando na velocidade que deveríamos, inclusive na comparação com outros países, em disciplinas como matemática, português e ciências”, detalha Letícia.
QUEM DECIDE O QUE CHEGA AOS LIVROS?
Atualmente, a avaliação pedagógica dos materiais do PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) é coordenada pela Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação. O programa mantém um banco de avaliadores e uma plataforma específica para o processo. A legislação prevê, entre os critérios de avaliação, “correção e atualização de conceitos, informações e procedimentos”.
É justamente sobre esse processo que a De Olho no Material Escolar quer ampliar a discussão.
A principal demanda apresentada pela associação ao próximo governo seria criar canais permanentes de governança e participação da sociedade civil e dos setores produtivos na atualização dos materiais didáticos públicos.
Para Letícia, a velocidade das transformações tornou ainda mais importante encurtar a distância entre a realidade e aquilo que chega ao estudante. “Diante da velocidade da inteligência artificial, das novas tecnologias aplicadas ao campo e da evolução da agricultura tropical, esperar quatro anos significa condenar o aluno a aprender sobre um país que já não existe.”
O argumento dos quatro anos encontra respaldo no atual edital do PNLD do ensino médio: o ciclo vigente abrange 2026 a 2029.
CIÊNCIA OU DISPUTA DE NARRATIVAS?
A discussão ganha uma camada particularmente sensível quando chega ao conteúdo que efetivamente deve estar nos livros. A posição defendida pela De Olho no Material Escolar é de que a aproximação entre agro e educação não deveria significar substituir uma visão ideológica por outra, mas estabelecer critérios baseados em evidências científicas.
A entidade desenvolve, em parceria com a Unesp, um estudo destinado a identificar possíveis defasagens e incorreções sobre o agronegócio nos materiais atualmente utilizados nas escolas. A intenção, segundo Letícia, é usar os resultados para dialogar com governo, gestores públicos, editoras e comunidade escolar.
Esse ponto também merece ser colocado em perspectiva: o sistema atual do PNLD já prevê avaliação pedagógica, com critérios de atualização conceitual e adequação metodológica. A proposta da associação, portanto, não parte de um sistema sem avaliação, mas busca alterar e ampliar a forma de participação e atualização desse processo.
FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO DOS PROFESSORES E DOS JOVENS
“O próximo governo precisa encarar a formação de professores como um gargalo estrutural de competitividade”, alerta a presidente da DONME.
E a associação defende ainda que a atualização dos livros, isoladamente, seria insuficiente sem uma política de formação dos educadores. Dados oficiais do Enade das Licenciaturas 2025 reforçam o tamanho desse desafio: 42,2% dos concluintes avaliados foram classificados como não proficientes. Entre os estudantes de cursos a distância, esse percentual chegou a 53,1%.
“O professor precisa de apoio prático para avançar em sua qualificação e traduzir a complexidade do mundo moderno em sala de aula, incluindo o agro”, diz Letícia. A De Olho no Material Escolar afirma que seu programa Mestres no Agro, iniciado em 2024, já alcançou quase mil educadores em seis estados, com debates, formação e visitas técnicas destinadas a aproximar professores das tecnologias e práticas utilizadas no campo.
Outro eixo apresentado pela entidade é aproximar estudantes urbanos do agronegócio não apenas pela discussão sobre produção de alimentos, mas também pelas oportunidades profissionais relacionadas à tecnologia, inovação e sustentabilidade.
“A conexão entre a escola e a realidade produtiva do país é a chave para resolver um paradoxo social grave. Dados da PNAD Contínua apontam que o Brasil possui mais de 8,2 milhões de jovens (entre 15 e 29 anos) que não estudam e não trabalham. Ao mesmo tempo, um estudo da CNI mostra que as indústrias brasileiras sofrem com a escassez de mão de obra qualificada, afetando diretamente a produtividade pós-pandemia”, lamenta Letícia.
Assim, ela acredita que mostrar aos estudantes as diferentes atividades existentes no agro pode ampliar seus horizontes profissionais. “Aproximar a juventude urbana do agro moderno é abrir as portas para carreiras de alta tecnologia, inovação e sustentabilidade que muitas vezes são invisíveis para esse grupo social. A gestão federal deve usar as metas de aprendizagem do PNE para incentivar essa aproximação, focando sempre na ciência”.
A associação afirma que o projeto Vivenciando a Prática já levou quase 80 mil estudantes e professores, de redes públicas e privadas em 15 estados, a propriedades rurais, agroindústrias e eventos do setor desde 2022.
O QUE A ENTIDADE PEDIRIA AO NOVO GOVERNO EM SEU PRIMEIRO DIA EM BRASÍLIA?
Questionada pelo Notícias Agrícolas sobre qual seria a medida emergencial que colocaria sobre a mesa caso fosse recebida pelo presidente eleito em 1º de janeiro, Letícia Jacintho foi direta. “A nossa demanda número um seria a assinatura de um ato normativo criando canais permanentes de governança e participação ativa da sociedade civil e dos setores produtivos na atualização dos materiais didáticos públicos.”
A entidade também defende que o acompanhamento das políticas comece já nos primeiros 100 dias do próximo governo.
O desafio colocado para o próximo presidente, portanto, vai além de decidir como o agronegócio será retratado nos livros escolares. Passa por definir quem participa da construção e revisão desses conteúdos, com que frequência eles são atualizados e quais critérios determinam se aquilo que chega à sala de aula acompanha a transformação tecnológica, científica, econômica e ambiental do país.
“Esse pacto nacional pela transparência e modernização pedagógica contribuirá decisivamente para que o conhecimento de qualidade chegue às escolas. É a única forma de transformar a educação em uma estratégia real de desenvolvimento, gerando oportunidades para os jovens através do diálogo e da ciência”, conclui a presidente da De Olho no Material Escolar.