Espaço para inovação tecnológica na agroindústria

Publicado em 12/07/2010 07:23 459 exibições
Não estranhe se a argamassa usada na reforma da casa contiver bagaço de cana-de-açúcar, os pães e as massas do domingo forem conservados com extrato de própolis e o biodiesel dos caminhões tiverem a proteção antioxidante do óleo da castanha de caju. Daqui a um ano e meio, o brasileiro deve esbarrar em produtos "exóticos", compostos de matérias-primas agrícolas em busca da cobiçada inovação tecnológica industrial.

As pesquisas, já em andamento, são parte de uma extensa lista de quase 200 projetos patrocinados pelos serviços de apoio à indústria nacional em parceria com empresas e o governo federal. Os mais recentes projetos de inovação selecionados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), cujo desenvolvimento será apoiado com R$ 34,4 milhões em 18 meses, usam como base alguns produtos do agronegócio. "Buscamos a geração de ideias com aplicação prática e incorporação tecnológica na vida das empresas", diz o gerente-executivo de Tecnologia Industrial do Senai, Orlando Clapp Filho. "A inovação tem que chegar à ponta, e não ficar nos laboratórios".

Em seu sexto ano, o programa "Edital Senai-Sesi de Inovação", que exige contrapartidas das empresas e emprega 100 bolsistas em seus projetos, recebeu 336 projetos de 18 Estados. Um quarto das 77 propostas aprovadas vieram do setor de alimentos e bebidas.

São pesquisas aplicadas para o uso de soro de leite de cabra em bebidas lácteas fermentadas, fabricação de alimento funcional a base de trigo, sorgo e cogumelo, além de farinha especial de feijão e barra de cereais com fibras do Pantanal. De 2004 até hoje, 42 projetos foram concluídos com "taxa de sucesso" de 52%. "Como o país não tem modelos de comparação, não sabemos se é muito ou pouco", diz o gerente de Inovação Tecnológica do Senai, Marcelo de Carvalho.

Criada em 1995 para beneficiar calcário, a Brasil Química, de Mossoró (RN), decidiu usar o bagaço de cana para substituir o cimento da argamassa. Atrás de redução de custos, a empresa já usa calcário no lugar da areia. "Usamos menos areia e agora vamos poupar cimento, além de aumentar o rendimento, tirar o bagaço do ambiente e evitar a queima do resíduo", diz o empresário Marcelo Rosado Batista. A tonelada do cimento, disse, passou de R$ 280 para R$ 350 em dois anos. Mesmo vindo de 300 km, o bagaço é mais barato. "O frete é baixo e não temos competição com energia de biomassa".

Do outro lado do país, a paulistana Novo Mel, fundada a partir do apiário da família Rehder, já começou as pesquisas para desenvolver a biotecnologia e uma linha de máquinas para extrair da própolis, resina retirada de plantas pelas abelhas, um poderoso conservante para padarias e panificadoras. A própolis mantém as colmeias livres de fungos e bactérias e serão usadas para prolongar a vida de pães nas prateleiras. "Vamos usar insumos naturais para melhorar a cadeia industrial e aumentar a produtividade na extração do produto", diz o empresário Carlos Pamplona Rehder. Hoje, usa-se aditivos químicos ou térmicos como conservantes. "Teremos um apelo orgânico e funcional".

A Vegeflora Extrações do Nordeste, braço piauiense da indústria Centroflora, de Botucatu (SP), também prepara sua pequena revolução. Estuda como transformar um subproduto da castanha de caju em antioxidante para proteger biodiesel feito de soja. Líder sulamericana em extratos vegetais para alimentos, farmacêuticos, cosméticos, a empresa busca retardar o processo de rancificação do biodiesel. Hoje, o aditivo é importado.

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Fonte:
Valor Econômico

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