Serra contra imagens e lendas, por VINICIUS TORRES FREIRE

Publicado em 15/08/2010 10:18 358 exibições
Tucano terá de enfrentar recordes econômicos, boa recepção inicial a Dilma e a mitificação popular de Lula

DILMA ROUSSEFF não teria muita sorte no vestibular da escola de arte dramática ou num "casting" de novela. Não tem pinta de que seria figura popular no balcão de padaria ou na roda de cerveja. Não se encaixa numa conversa sobre futebol, não apela a sentimentos religiosos populares, pareceria esquisita no Carnaval, no axé, num show sertanejo ou do Calcinha Preta. Seria sem dúvida alienígena num baile funk.
A recepção da imagem de Dilma era um dos maiores riscos para os sonhos de continuidade do lulismo-petismo. Era possível que Dilma se descolasse negativamente da onda de satisfação com Lula.
Sabe-se lá se o povo "foi com a cara" de Dilma. Pelo menos, o jeitão da candidata parece não ter atrapalhado. Nos primeiros dias em que foi regularmente exposta ao público fora de ambientes muito controlados, os da propaganda, Dilma subiu na preferência do eleitorado, segundo o Datafolha. De agora em diante, será mais vista no ambiente plastificado e asséptico do horário eleitoral.
Treinada, ensaiada e politicamente maquiada, tende a fazer melhor figura que a de suas aparições em debates e entrevistas. Depende agora mais dos marqueteiros do que de si. Mas os marqueteiros das grandes campanhas são bons no que fazem. Improvável haver crise por aí.
Nada disso tem a ver com as qualidades da candidata, ocioso dizer. Tem a ver com o futuro da campanha de José Serra (PSDB). Uma das sortes decisivas dos tucanos seria a desgraça da imagem de Dilma.
O tucano evita enfrentar os 80% da popularidade de Lula. Fala a um eleitor que não via o seu padrão de vida melhorar tanto em décadas -desde 1970. Desde então, o PIB não crescia tanto. Mas o consumo cresce ainda mais que o PIB -terá crescido assim por seis anos ao final de 2010. Com renda mais bem distribuída, além do mais. O que fazer?
Serra dirige, pois, sua campanha para o futuro. Mas essa imagem do além-Lula ainda não apareceu. Digamos que a oposição ainda possa recuperar o tempo perdido, pois hibernou politicamente e não apresentou nenhuma crítica ou alternativa nos anos Lula. Digamos que a oposição invente agora um mote qualquer para sua campanha, o que ainda inexiste. Vai fazer efeito?
A oposição não vai se bater apenas contra a parede da sensação de bem estar material. É possível que a passagem de Lula pelo governo tenha provocado aquelas transformações duradouras do imaginário popular, como aconteceu com parte do operariado no getulismo ou com metade da Argentina com o peronismo. Não, não se está comparando o governo Lula à ditadura de Getúlio Vargas ou ao quase-fascismo de Perón, mas com essas lendas políticas.
Não importa a qualidade política de sua pregação, de suas políticas, sua "sorte" ou o gosto do freguês. Lula "cumpriu um compromisso" político: falou insistentemente aos mais pobres. Sua falação ecoou na realidade. Mal ou bem, "incluiu" parte considerável dos mais miseráveis; levou ao mundo do consumo moderno um terço da população. Era uma gente abandonada, em discursos, teoria e prática.
FHC foi uma ruptura histórica com um modelo econômico e com o excesso de desrazão. Lula foi uma ruptura na imagem que os deserdados fazem do poder e da política. Sua fama e virtude é da ordem das paixões. Difícil lidar com isso.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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