Justiça Federal quebra sigilo de acusada de violar dados da família de Serra

Publicado em 09/09/2010 04:28 e atualizado em 09/09/2010 09:12
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PF quer saber com quem a servidora investigada falava - Polícia de SP também pediu abertura de sigilo do falso procurador que retirou da Receita dados da filha de José Serra.
A Justiça Federal autorizou a quebra do sigilo telefônico de Adeildda Ferreira dos Santos, servidora federal cedida à Receita responsável pelo computador no qual foi violado o sigilo fiscal de dirigentes tucanos e de Veronica Serra, filha do presidenciável José Serra (PSDB).

A Justiça já havia liberado à Polícia Federal acesso ao disco rígido (memória) do terminal, usado por ela na agência do fisco de Mauá (Grande São Paulo).

Do terminal de Adeildda, que já foi devolvida pela Receita ao Serpro (o serviço de processamento de dados do governo federal), também foram acessados os dados do genro de Serra, Alexandre Bourgeois.

A PF pediu à Justiça Federal de Brasília, na qual tramita o inquérito sobre o caso, acesso aos extratos telefônicos de Adeildda entre agosto e dezembro de 2009, quando ocorreram as quebras de sigilo de tucanos em Mauá.

Pretende, assim, descobrir com quem Adeildda falou antes, durante e depois dos acessados sem autorização.

Além das informações de dirigentes tucanos, Adeildda é investigada por acessar dados de 2.949 contribuintes que não pertencem ao domicílio fiscal de Mauá -o que, em tese, é ilegal.
Adeildda usava a senha da chefe da unidade Antonia Aparecida Neves Silva.

Em depoimento no processo disciplinar a que responde, Antonia declarou que também disponibilizava seu código secreto à servidora Ana Maria Caroto Cano.

As três estão sob investigação da Corregedoria do fisco. Em entrevista à Folha, Adeildda afirmou que a senha de Antonia era "socializada" e que acessava dados a pedido de sua chefe, de Ana Maria e também do servidor Júlio Bertoldo.

Em nome de Adeildda, o advogado Marcelo Panzardi diz que sua cliente errou ao descuidar de seu terminal.

Afirma, porém, que a Receita está empurrando para ela a responsabilidade por acessos feitos por ela por determinação de seus chefes.

Por meio dos advogados do Sindireceita, Antonia diz que cedia sua senha para distribuir trabalho na unidade.
A Folha não localizou o advogado de Ana Maria.

NOVAS QUEBRAS

A Polícia Civil de São Paulo pediu ontem à Justiça a quebra do sigilo telefônico de outros dois envolvidos.

O primeiro é o contador Antonio Carlos Atella Ferreira, que usou uma procuração falsa para retirar da Receita dados de Veronica Serra.

O segundo, o office-boy Ademir Estevam Cabral, apontado pelo contador como um dos responsáveis pelo pedido dos dados.

Segundo Atella, foi Cabral quem lhe entregou a procuração de Veronica já falsificada em meio a outros pedidos de informações.

Desde segunda-feira, a polícia tenta localizar o office-boy para que ele possa esclarecer sua participação.

Os policiais acreditam que Cabral seja apenas um intermediário e que o registro das ligações poderá levá-los aos verdadeiros interessados nos dados da filha de Serra.

A polícia esperava ouvir Atella ontem, mas ele não compareceu ao depoimento a que havia espontaneamente combinado ir.

Gênese da delinquência, (CLÓVIS ROSSI)

SÃO PAULO - Vinicius Torres Freire, que, como Gardel, "cada día canta mejor", disse em sua coluna de ontem em "Mercado" quase tudo o que eu gostaria de dizer sobre o mais recente escândalo da escandalosa política tapuia.

O foco, a meu ver, foi a frase "Lula e o lulo-petismo (...) apadrinharam malfeitores". Bingo.
Faltou apenas explicitar a gênese do apadrinhamento. Está na frase de Lula sobre o mensalão, na famosa entrevista dada em Paris: "O PT fez o que todo mundo faz".

O que todo mundo faz, segundo Lula, seria caixa dois. Circunscrever o mensalão a caixa dois não teve aval do então procurador-geral, que acusou um lote de petistas graúdos de, entre outros crimes, "formação de quadrilha". O STF acolheu a argumentação do procurador.

Muito bem. Mesmo que tivesse sido apenas caixa dois, resta o fato de que "caixa dois é coisa de bandido", frase de ninguém menos que Márcio Thomaz Bastos, então ministro da Justiça.

Não há, até agora, a bala de prata que prove que o PT, como instituição, e a campanha Dilma estejam envolvidos na quebra de sigilo de tucanos. Mas a frase de Lula, aceitando que o PT fez o que seu ministro disse ser "coisa de bandido", equivale a apadrinhar malfeitores, como escreveu Vinicius.

Apadrinhamento que o ministro Guido Mantega trouxe para o tempo presente, ao dizer que "vazamentos sempre ocorrem". Todo o mundo sabe que ocorrem, mas, ao conformar-se com a delinquência, o ministro do PT está também apadrinhando-a por omissão.

Nada a ver com o discurso de posse (a primeira) de Luiz Inácio Lula da Silva, que dizia: "O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes de meu governo. É preciso enfrentar (...) e derrotar a verdadeira cultura da impunidade que prevalece em certos setores da vida brasileira".
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Fonte: Folha de S. Paulo

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