Cuba recebe as reformas dos Castro com raiva e desalento

Publicado em 19/09/2010 19:24
696 exibições
Uma semana após anúncio das demissões, ninguém sabe qual apoio será dado aos que perderem emprego - Na cidade, são comuns os casos de servidores do Estado que faturam muito mais cobrando por serviços "por fora" , por LAURA CAPRIGLIONE, da Folha. ENVIADA ESPECIAL A HAVANA (CUBA)

Roberto G., 54, trabalha em uma relojoaria estatal vizinha a um dos melhores e maiores hotéis de Havana.
Especialista em marcas de luxo, como Breitling, Bulgari, Cartier e Jaeger-LeCoultre, ele se acostumou a receber do governo o salário mensal equivalente a 17 pesos conversíveis (cerca de R$ 32,65), ao mesmo tempo em que embolsa quase tudo o que recebe dos seus clientes endinheirados.
Taxistas que trabalham em um ponto próximo dizem que o "por fora" de Roberto pode superar em 10 vezes o que ele ganha "por dentro".
Roberto está revoltado com a decisão do governo cubano de demitir meio milhão de funcionários públicos, quase 10% da população economicamente ativa.
Sabe que é um dos fortes candidatos a estar na rua até o fim do primeiro trimestre de 2011 -este é o prazo dado para a realização dos cortes.
"É incrível que o Estado cubano seja hoje o recriador do exército industrial de reserva", diz o homem, evocando um dos conceitos mais caros do marxismo, para o qual o tal "exército industrial de reserva" seria uma forma de o capitalismo rebaixar o valor do trabalho.
Mas é gente como o relojoeiro Roberto que faz com que muitos cubanos vejam nas demissões uma medida quase inevitável.
"Como é possível que o Estado continue pagando salários a quem não lhe dá nada em troca?", pergunta o professor de inglês Alejandro N..
Refere-se à imensa economia informal que se criou desde os anos 90, quando o país teve de se abrir para o turismo, depois do desabamento da União Soviética.
A loja em que Roberto trabalha como relojoeiro é oficial. Como um patrão descuidado, entretanto, o Estado deixa que o empregado se aproprie dos rendimentos. "É assim que funcionam também os táxis da Cubataxi, de propriedade do Estado", afirma Thomaz A..
O sujeito recebe um fixo por mês (19 pesos conversíveis). Mas basta o telefonema de um turista para que ele se aproprie do veículo.
Aí, sem que o governo tenha qualquer possibilidade de controle (não há taxímetro ou GPS, por exemplo), cobra do turista uma base de 25 pesos conversíveis por hora.
"Vai direto para o bolso dele. É o melhor negócio do mundo. Sem investir um tostão, sem pagar aluguel ou manutenção, o cara embolsa em uma hora mais do que recebe em um mês do governo. É roubo. É desaforo", diz Thomaz.

"DESALENTO"
A maioria dos entrevistados pela 
Folha em Havana diz estar "desalentada". "Não é tristeza, não é revolta. É desalento mesmo. Parece que, em vez de corrigir os problemas, o Estado se verga a eles", disse Hector, revolucionário de primeira hora.
Ele se lembra de quando, em 1968, Fidel Castro nacionalizou todo o setor de varejo da ilha. Em nome da chamada "Grande Ofensiva Revolucionária", 58.012 pequenos negócios passaram para as mãos do Estado.
Na ocasião, Fidel proferiu um discurso célebre contra os proprietários de carrinhos de cachorro-quente, dizendo que "95,1% deles eram contrarrevolucionários".
(Os donos dos "perros calientes", que até hoje fazem um sucesso danado na ilha, representavam todos os pequenos varejistas.)
Uma semana depois de anunciadas as demissões, ninguém sabe ainda quem será demitido, quais setores o governo permitirá que passem para o pequeno empreendedor privado, que apoio será dado a quem perder o emprego. Cuba está na expectativa.
Mas, seja nos bairros turísticos, como Havana Vieja, seja nas vizinhanças pobres, como Guanabacoa, San Miguel del Padrón ou o bairro Operário, passa de mão em mão uma listagem de 124 atividades, supostamente aquelas que poderiam virar "negócios privados".
O governo não confirma que a lista -já colocada na internet- seja mesmo a que vai valer. Entre as atividades "privatizáveis" consta a de aguadeiro, engraxate, manicure, borracheiro, cabeleireiro, relojoeiro, faxineira, babá e lancheiro.
Exilados cubanos em Miami, muitos dos quais fugiram de Cuba a bordo de balsas, não deixam por menos: "Lancheiro, esta sim é uma atividade econômica com demanda permanente", escreveu Milan López em um blog direto da Flórida.

BANANAS E ABACATES
Considerada a capital nacional da "santería", como os cubanos chamam as religiões de origem africana, o bairro de Guanabacoa (12 km do centro de Havana) tem uma concentração notável de negros nas ruas -muitas mulheres andam com vestidos brancos e turbantes, sinal da iniciação religiosa.
No bar Orishas (Orixás), uma mesa comenta as demissões que virão: "Para nós aqui não muda nada. A gente já não tem emprego", diz António R., 35, integrante de um grupo "invisível" para as estatísticas oficiais.
Toda a família dele vive de vender charutos fora das lojas oficiais do governo cubano. Uma grande indústria de tabaco "genérico" floresce na ilha. O produto é vendido para turistas, sem grandes preocupações com a discrição ou com a polícia.
Por todo o bairro, veem-se vendedores de bananas e abacates -também são desempregados, as novas medidas não os afetam.
Um observador atento dos movimentos da sociedade cubana disse à 
Folha que o mais provável é que as 500 mil demissões sejam só mais uma "acomodação" da burocracia do Partido Comunista a uma situação de fato.
"Já existe uma imensa quantidade de negócios privados ou semiprivados. Está-se apenas reconhecendo o que já existe, ao mesmo tempo em que se desonera o Estado de pagar salários para trabalhadores quase improdutivos." 

Após salto chinês, PIB de Cuba patina

Economia cresceu 9% ao ano até 2007, mas deve subir 2% neste ano, menos da metade da média continental

Desaceleração ajuda a explicar as reformas econômicas anunciadas por ditador Raúl Castro nas últimas semanas 

Alejandro Ernesto - 13.set.10/Efe
e1909201001.jpg
Vendedores de abacates, com carrinho, aguardam possíveis clientes em rua movimentada do centro da capital cubana 

ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO 

O governo cubano publica dados relevantes sobre a economia apenas uma vez por ano e com defasagem.
Analistas que acompanham o regime castrista sabem, no entanto, que em tempos de vacas gordas estatísticas vão "vazando" nos discursos de autoridades.
Em 2010, o silêncio em relação a tais informações econômicas tem imperado.
A leitura de especialistas sobre essa falta de referências é consensual: a economia claramente não vai bem.
Depois de crescer em ritmo chinês (a uma média anual de 9%) entre 2004 e 2007, o PIB (Produto Interno Bruto) cubano entrou em desaceleração em 2008.
Isso se acentuou com a crise financeira global de 2009, e tudo indica que o desempenho econômico ainda é fraco.
Os problemas econômicos podem não ter sido o estopim das reformas anunciadas recentemente (a mais drástica é um plano para demitir 500 mil funcionários públicos ao longo do próximo ano). Mas aumentaram o senso de urgência de reforma.
"Eles precisam fazer algo para crescer novamente. Isso é urgente", afirma Emily Morris, diretora do Centro de Pesquisa e Consultoria para o Caribe e a América Latina da Universidade Metropolitana de Londres.
Ela ressalta que a economia do país -ao contrário de outras desenvolvidas e emergentes- não chegou a se contrair em 2009.
Mas deve crescer só 2% em 2010, menos da metade da média esperada para a América Latina, de cerca de 5%.

FUTURO DO REGIME
Muitas dúvidas rondam o futuro de Cuba. A mais perene é sobre a capacidade de sobrevivência do regime.
Segundo analistas, essa resposta só virá em muitos anos -mas o sucesso ou o fracasso das reformas recentes será determinante.
A taxa de desemprego em Cuba é muito baixa, inferior a 2% desde 1996. Mas esse número reflete dois sérios problemas: a existência de um setor público inchado e o excesso de informalidade.
Só são capturados nas estatísticas de desemprego os cubanos que preenchem registro de busca por emprego.
Muitos não o fazem, pois as possibilidades de ganhos no setor informal da economia são maiores do que no setor público ou no mercado privado legal.
As reformas têm visado esses problemas. A intenção é que atividades do setor público sejam transferidas para o privado, que absorveria os que serão demitidos.
Ilustrativo foi o fechamento de cantinas para trabalhadores subsidiadas pelo governo. A ideia é estimular a formação de uma classe de donos de pequenos restaurantes.
Segundo Morris, presume-se que o Estado fornecerá algum tipo de crédito a esses empreendimentos.
O outro lado disso será trazer quem opera na informalidade para o setor privado legal, o que significa fazer com que esses cubanos passem a pagar impostos.
"Os cubanos estão cansados da situação atual. Essas medidas tendem a aumentar as tensões", afirma Irenea Renuncio-Mateos, analista de Cuba da consultoria IHS Global Insight.
Outros problemas, como a dependência do país do níquel, que representa 30% das exportações, também precisam ser atacados.
A queda do preço da commodity em 2008 e 2009 contribuiu para a desaceleração da economia recentemente.
Apesar dos desafios, a aposta de observadores é que o regime dos irmãos Castro consiga sobreviver ajudado por China e Venezuela.
Tags:
Fonte: Folha de S. Paulo

Nenhum comentário