Denúncias de corrupção na Casa Civil de Lula esquentam o debate da Record

Publicado em 27/09/2010 08:53
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O questionamento sobre as denúncias de corrupção na Casa Civil, "a poucos metros do gabinete de Lula", partindo dos candidatos Plinio Arruda, do PSol, e de Marina, do PV, dirigidos à candidata do PT, Dilma Roussef, marcaram os momentos de maior tensão no debate de ontem na Tv Record. As denúncias de tráfico de influência, envolvendo a ex-ministra da Casa Civil, por exemplo, vieram à tona no primeiro bloco. Coube ao  candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, introduzir o tema."No último debate, você ficou nervosa com o meu comentário sobre Erenice. A verdade é que o escândalo bateu na sala ao lado. Você é incompetente ou conivente. Você vai escolher outra Erenice por aí?, perguntou Plínio, rispidamente.

A petista rebateu as críticas e disse que "ninguém está acima de qualquer suspeita". "O importante é que não se deixe nada sem apurar. Asseguro que se eu for eleita e até lá o governo não concluir a apuração da Receita e da Casa Civil,irei até o fim nas investigações".

O candidato do PSOL, aliás, encarnou o papel que desempenhou durante toda a campanha: o de franco atirador. Também criticou a verde Marina Silva, chamando-a de "ecocapitalista", acusou de "rotular as pessoas transversalmente" e disse que Marina "está fazendo demagogia" para ir para o segundo turno. Marina, como de praxe, evitou alimentar o atrito. "Aapesar de você  me rotular, continuarei tratando você bem, Plínio", respondeu. Mais à frente foi a vez de Marina tocar no assunto delicado, com a mesma virulencia, e Dilma, ao tentar responder, fugiu do debate.

Loteamento - Na primeira pergunta que dirigiu à oponente Dilma Rousseff, Serra escolheu  falar sobre as agências reguladoras e acusou o governo Lula de loteamento.  Dilma, por sua vez, se disse favorável à "meritocracia" e ao profissionalismo nas agências e ministérios".

Lembrou o racionamento de energia que aconteceu no governo Fernando Henrique, quando Serra era Ministro do Planejamento."O país passou por  um racionamento de oito meses porque o ministro do Planejamneto não fez planos adequados. Isso aconteceu quando você era o ministro da pasta", disse Dilma.

Papel da imprensa - O segundo bloco teve a temperatura um pouco mais elevada. Não houve embate direto entre os candidatos, já que jornalistas formularam as perguntas. Um dos momentos mais quentes foi quando a jornalista Ana Paula Padrão perguntou para a petista se ela seria capaz de "controlar o PT", citando escândalos que marcaram o governo Lula. Em resposta, Dilma afirmou que não vai "varrer nada para debaixo do tapete". Irônico, Plínio disparou: "Ela não vai controlar o PT, porque ela nunca foi do PT", Dilma foi fabricada pelo Lula".

Depois de diversas críticas feitas pelo presidente Lula nas últimas semanas, a cobertura das eleições acabou também entrando em pauta. A jornalista Adriana Araújo indagou ao candidato do PSOL se ele considerava a imprensa "imparcial". "Jesus Cristo", respondeu ele. Já Dilma preferiu baixar o tom. "Prefiro ouvir as vozes múltiplas do que o silêncio das ditaduras".

Dilma x Marina - As candidatas do PT e do PV protagonizaram um embate mais forte no terceiro bloco, quando as denúncias envolvendo a Casa Civil voltaram a ser mencionadas. Marina Silva lembrou que Dilma assumiu o ministério após denúncias envolvendo o ex-titular da pasta José Dirceu, réu no processo do mensalão - o maior escândalo do governo Lula. "Não houve nenhum processo de corrupção que eu tenha tomado conhecimento". "Por muito tempo o Brasil perdeu condições de gestão e planejamento porque diminuiu investimentos. É muito fácil se queixar por não haver profissionalismo nos governos. A gente recompôs a máquina pública", disse a petista.

Marina rebateu: "Esses investimentos parecem não ter dado resultado". A verde, que até então levantava a bandeira das propostas e criticava a perguntas ofensivas, acrescentou que "tudo se repetiu" quando Dilma assumiu o cargo de ministra da Casa Civil. Tráfico de influência, fisiologismo, tudo de novo, acusou Marina, indagando da rival o que fez quando soube das denúncias e o que fari para evitar novos casos de corrupção.

"A mesma coisa que você quando era ministra do Meio Ambiente", disparou Dilma,afirmando que houve casos de integrantes do ministério à época comandado por Marina envolvidos na compra de madeira de desmatamento. E que chegou a lembrar: "Participamos do mesmo governo".

AUDIENCIA

Segundo dados preliminares do Ibope, a Record  alcançou uma média de nove pontos de audiência na Grande São Paulo. Ainda que o debate esteja registrando menos da metade do ibope do Fantástico, é o de maior audiência da campanha eleitoral até aqui. Os dois outros, da Band e da RedeTV!, não passaram dos três pontos.

COMENTÁRIO DE REINALDO AZEVEDO

Marina está roubando uma coisa de Lula e dos petistas de antigamente: a inimputabilidade, benefício que, tudo indica, Dilma não terá se eleita para o bem da República, diga-se. Marina teve ontem o que muitos chamariam o melhor momento do debate. Curiosamente, a seres, digamos, racionais, foi o seu e do debate pior momento. Explico-me.

Em meio à pletora de bobagens que diz por causa do seu socialismo, Plínio de Arruda (PSOL) tem lá suas tiradas de humor e se lembra, de vez em quando, de que é, afinal, um homem que já leu um par de livros. Disse a Marina o que qualquer pessoa razoável diria não estou transcrevendo, mas dando o sentido: a candidata nunca se posiciona sobre nada; quando há uma bola dividida, lembra-se logo de convocar um plebiscito. Belo Monte é um erro? Mas ela vai parar a obra ou dar continuidade? Afinal, o que ela pensa?

Marina não teve dúvida: com aquele seu ar um tanto hierático, de quem fez o download dos sábios da floresta e de outras sapiências telúricas que seres do asfalto não podem alcançar, engrolou lá uma resposta sobre respeitar as divergências, os quem pensam de modo diferente, a pluralidade etc e tal. Bater naquela senhora frágil, com estampa alternativa (também na roupa), não é um bom negócio.

E, no entanto, ela não se posiciona, com efeito, sobre nada. Aborto? Plebiscito. Maconha? Plebiscito. Belo Monte? Veja bem Não obstante, acusa os dois principais oponentes, Dilma e Serra, de não apresentarem propostas, limitando-se atrocar acusações. Bem, é falso como nota de R$ 3. Quem não disse até agora a que veio é Marina e ninguém vai lhe cobrar uma vírgula.

Educação? É preciso preparar as gerações para o conhecimento do século 21. OK, de acordo. Mas isso quer dizer o quê? Meio ambiente e produção? É preciso superar a visão de que são coisas contraditórias etc e tal. Certo! Vamos superar. Mas então ela tem de dizer como conciliar a defesa que faz do inviável Código Florestal com a comida na mesa e na balança comercial! E ela vem ela com soluções mágicas da Embrapa e com, e eu adoro isto, os novos produtos e os novos materiais da economia da sustentabilidade. Ou seja: vento retórico.

Eu poderia me abster de escrever isso, claro, se fosse do tipo que administra opiniões em vez de dizer o que penso: afinal, seu eventual crescimento concorre para o segundo turno, e eu prefiro que ele exista e tal Mas não dá! De todos os candidatos, no fim das contas, é quem recorre a um número maior de truques, embora passe incólume pela crítica.

Querem mais um? Quando um adversário recorre a dados técnicos, Marina o acusa de se comportar como mero gerente, mas isso não a impede de consultar a sua ficha e acusar o adversário, como fez na questão proposta a Serra, de ter cortado recursos da área social o que, de resto, é falso. Marina lastima a troca de acusações, mas avançou sobre Dilma com o caso de corrupção da Casa Civil. Mas não digam que foi agressiva! As propostas de Serra, para ela, são promessômetro; as suas não-propostas de uma vida mais feliz, integrada à natureza, com novos produtos e materiais, são exatamente o quê?

Submetido o seu raciocínio a um rigor mínimo, o discurso não fica de pé. Os escândalos na Casa Civil, diz, são um sinal de que o PT não teria aprendido nada e tal.  Ela pertenciaEra ao PT na época do mensalão e, se fez alguma crítica, considerou a coisa mero debate interno, familiar, insuficiente para deixar o partido e o governo. Ou será que o pecado é  grave só na reiteração?

Vou começar a transcrever as falas de Marina e submetê-las, quando menos, a uma análise sintática. Identificados sujeito, verbo e complementos, talvez a gente consiga capturar, de vez em quando, ao menos um objeto direto.

Chega! Não há mais lugar para inimputáveis na política. Até porque, se Marina vier um dia a ser presidente, vai, evidentemente, governar com o programa alheio.

Delinqüência intelectual
Plínio, ao rebater uma consideração de Serra sobre política externa, atacou os EUA e defendeu o direito de o Irã ter a bomba atômica. Se os EUA têm, por que não os outros? Foi aplaudido suponho que por petistas e psolistas. Isso dá conta do ambiente intelectual miserável em que se dá o debate. Como o Velhinho Maluquinho da disputa, ele pode dizer qualquer porcaria, inclusive essa. Delinqüentes são os que apaludiram o doidivanas.

Por Reinaldo Azevedo

Ricardo Setti sobre o debate da Record: Dilma se afasta de Lula ao se comprometer com a meritocracia

O ponto mais positivo das intervenções da presidenciável do PT, Dilma Rousseff, no debate entre candidatos que terminouo à meia-noite na Rede Record foi seu compromisso solene com a meritocracia no serviço público.

Ou seja, o mérito, as qualidades e capacidades dos servidores públicos, a serem aferidos em concursos, prevalecerão em seu provável governo, segundo ela.

Se assim for, Dilma estará se distanciando enormemente do governo Lula, a que pertenceu até abril passado. E, durante os próximos quatro anos, terá que dar um jeito nos estimados 22 mil funcionários que, sem concurso, e com base em padrinhos políticos e sindicais, e não na competência, ocupam postos importantes na administração, pilotando os chamados cargos de confiança.

Nada impede e tudo aconselha que os funcionários a ocupar cargos de confiança sejam escolhidos entre os servidores de carreira, concursados. Mas não tem sido assim em nenhum governo, especialmente no de Lula.

LIMPAR AS AGÊNCIAS REGULADORAS Além disso, Dilma, se for fiel à sua palavra, precisará limpar as agências reguladoras entidades teoricamente responsáveis pelas normas e políticas, e pela fiscalização de sua execução, em setores fundamentais como petróleo, energia elétrica, gestão dos recursos hidricos, medicamentos ou planos de saúde da sórdida politicagem em que mergulharem durante o governo Lula.

Elas deveriam ser integradas por técnicos independentes, mas na prática foram atulhadas de gente indicada por políticos, e loteadas entre partidos da base governista e seus caciques umas têm como dono o PT ou o PMDB, outras o PC do B, ou o PSB ou o PDT, e assim por diante.

Se Dilma cumprir sua palavra, enfrentará uma grande briga política, mas o país ficará melhor.

Vamos esperar e cobrar.

(Ricardo Setti)


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Fonte: Veja.com

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