Jornalista ligado à campanha de Dilma confessa violação de sigilo de tucanos

Publicado em 20/10/2010 12:46 e atualizado em 20/10/2010 14:34
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A investigação da Polícia Federal aponta que o jornalista Amaury Ribeiro Jr. encomendou a quebra dos sigilos fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, da filha de José Serra, Verônica, do genro dele, Alexandre Bourgeois, e de outros tucanos entre setembro e outubro de 2009. De acordo com a PF, na época, o jornalista trabalhava no jornal Estado de Minas, que teria custeado as viagens dele a São Paulo para buscar os documentos. 

O jornalista participou do grupo de inteligência da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2010, quando não tinha mais vínculo com o jornal mineiro. Esteve, inclusive, numa reunião em abril com a coordenação de comunicação da campanha petista para discutir a elaboração de um dossiê contra os tucanos. 

Em depoimento que durou 13 horas na semana passada, Amaury confirmou que pagou R$ 12 mil ao despachante Dirceu Rodrigues Garcia, que trabalha em São Paulo. Mas não contou de onde saiu o dinheiro. Amaury disse à PF que decidiu fazer a investigação depois de descobrir que o deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) estaria comandando um grupo de espionagem a serviço de José Serra para devassar a vida do ex-governador Aécio Neves. Ele afirmou que deixou o jornal no final de 2009, mas deixou um relatório completo de toda a apuração, levando uma cópia consigo para futura publicação de um livro. Na sua versão, a inteligência do PT teria tomado conhecimento do conteúdo de sua investigação e o convidou para trabalhar na equipe de campanha de Dilma.

No ano passado, encomenda de Amaury foi repassada pelo despachante Dirceu Rodrigues Garcia ao office-boy Ademir Cabral, que pediu ajuda do contador Antonio Carlos Atella. Este último usou uma procuração falsa para violar os sigilos fiscais de Verônica Serra e seu marido, Alexandre Bourgeois, numa agência da Receita Federal em Santo André. Por conta da confissão, Amaury pode ser indiciado por corrupção ativa e co-autoria da violação do sigilo fiscal.

Depois de deixar o emprego no jornal, ele participou de uma reunião em abril com integrantes da pré-campanha de Dilma. Presente ao encontro, ocorrido num restaurante em Brasília, o delegado Onésimo de Souza afirmou à polícia que foi chamado para cuidar da segurança do escritório do jornalista Luiz Lanzetta, responsável até então pela coordenação de comunicação da campanha de Dilma. Lanzetta deixou a campanha em junho após a revelação do caso.

Amaury confirmou que durante o período em que ficou em Brasília, em abril de 2010, negociando com a equipe da pré-campanha de Dilma, a despesa do flat onde ficou hospedado foi pago por "uma pessoa do PT", ligada à candidatura governista. A PF já fechou praticamente todo o caso. Resta saber agora de onde saíram os R$ 12 mil e quem é a pessoa do PT que pagou a hospedagem do jornalista.

Acusações de corrupção na Casa Civil paralisam votações no Senado

As acusações de corrupção na Casa Civil paralisaram nesta quarta-feira as votações nas comissões do Senado. Sem acordo com os governistas para votar os convites para a ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil) e a candidata Dilma Rousseff (PT) prestarem depoimentos na Casa, a oposição impediu a retomada dos trabalhos.

Autor dos convites, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) não aceitou recomeçar as votações na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) sem incluir os requerimentos de Dilma e Erenice.

"O que deseja o governo é proteger-se até as eleições. E depois sem a preocupação do desgaste político os governistas tentarão rejeitar a proposta e levar o assunto ao esquecimento", disse.

O presidente da CCJ, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), se mostrou disposto a retomar as votações mesmo sem analisar os convites. Após consultar Dias, porém, a comissão acabou por paralisar os trabalhos. "O Álvaro quis impor um desgaste político, ficamos sem votar de novo."

Sem o compromisso de não votar os convites, os governistas esvaziaram a sessão. A exemplo da CCJ, não houve quorum (número mínimo de senadores) para abrir as sessões nas outras comissões da Casa. Como Dilma e Erenice não são mais ministras, elas podem ser apenas convidadas a falar. Não cabe convocação obrigatória pela Casa.

O filho da ex-ministra e a empresa Capital Assessoria e Consultoria Empresarial, à qual é ligado, são acusados de fazer lobby para ajudar a MTA Linhas Aéreas a obter a renovação de uma concessão da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). A renovação permitiu, depois, que a empresa assinasse um contrato em condições privilegiadas com os Correios.

Reportagem publicada hoje pela Folha mostra que o esquema de tráfico de influência comandado por Israel Guerra usava não apenas a estrutura da Casa Civil mas também a de pelo menos outros dois órgãos da Presidência da República: a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) e o GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Computadores e funcionários dessas outras duas repartições foram utilizados pelo grupo de amigos de Israel Guerra, que era peça central do contato de empresários com negócios do governo --cobrando uma "taxa de sucesso" pelo tráfico de influência.

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Fonte: O Estado de S. Paulo/Folha

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