A noite dos desesperados, por RENATA LO PRETE

Publicado em 21/10/2010 09:02
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A luta de 2010, que Lula planejava vencer por nocaute, é dura, feia e será decidida por pontos

O CANSAÇO no semblante de Dilma Rousseff, visível na televisão e ainda mais por quem a acompanha de perto, é talvez a imagem que melhor traduz o atual estágio da disputa presidencial. Existe no ar uma exaustão não limitada aos dois finalistas, cuja agenda deixaria de língua de fora gente com metade da idade e o dobro de preparo físico.
Também o eleitor está cheio, indicam "quális" e "quântis" à disposição das duas candidaturas. Um dos motivos, na opinião de quem sabe analisar pesquisas, é que esta campanha se desenrola há muito mais tempo do que sugere o calendário eleitoral. Num cálculo conservador, o marco zero poderia ser fixado em março de 2008, quando Lula carimbou Dilma como "a mãe do PAC" e transformou a rotina governamental numa sucessão de eventos públicos para garantir visibilidade à sua escolhida.
Do outro lado, foi igualmente longa, apesar do desfecho previsível, a novela da sagração de José Serra como candidato da oposição.
Há pelo menos dois anos e meio, portanto, o público está exposto a doses progressivas de informação sobre esse assunto.
Tanto ou mais do que o efeito cumulativo, contribui para esgotar a paciência do eleitor a escalada, iniciada na reta final do primeiro turno, de beligerância na propaganda de televisão e rádio.
Depoimentos com esse teor são colhidos por qualquer um que se sente para mediar os chamados grupos de discussão, bússola da marquetagem.
Com frequência, participantes desses grupos confessam não assistir mais ao programa de dez minutos -que em praças do Nordeste costuma ser chamado de "guia eleitoral".
Coincidência ou não, desde anteontem as duas campanhas tiraram o pé do acelerador na TV. Mantida a carga negativa de algumas inserções -e a troca de chumbo no noticiário-, os "blocos" retomaram o tônica propositivo-comparativa, com cada candidato mais dedicado a falar bem de si do que mal do outro.
Quando isso acontece, os políticos não demoram a se queixar de que o programa está pouco... político. Notadamente os do PSDB, que parecem ter estabelecido um padrão: enquanto petistas detonam tucanos, tucanos detonam o próprio programa de televisão.
A aflição não deixa de ter um ingrediente compreensível: a esta altura, pesa sobre Serra, e não sobre Dilma, a necessidade de mover a montanha para vencer.
De todo modo, ainda que boa parte do eleitorado esteja pelas tampas com a eleição, nada garante que, com oito dias de propaganda pela frente, o tempo não voltará a fechar na TV.
Pois a luta de 2010, que Lula planejava vencer por nocaute, é dura, feia e será decidida por pontos. Eventualmente, poucos.

RENATA LO PRETE é editora do Painel
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Fonte: Folha de S. Paulo

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