Fechou-se o cerco, por ELIANE CANTANHÊDE

Publicado em 31/10/2010 09:34
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Foi-se o tempo em que o petróleo era nosso. Agora, o petróleo é de Lula. As fotos do presidente mais popular da história, de capacete da Petrobras, num macacão cor de abóbora e com as mãos sujas de óleo da nova bacia são a principal imagem da campanha de 2010 e o símbolo da simbiose do Estado com um projeto de poder.
Como ensina o marqueteiro do rei, João Santana, campanhas não trabalham com a realidade e a verdade, mas com símbolos e com a emoção e o imaginário coletivos.
Foi por isso que as estatais e até o BNDES -que não é banco de varejo nem presta serviço- entraram na dança da propaganda subliminar, veiculando durante meses na TV, antes e durante a campanha, um paraíso onde tudo é lindo e todo o povo, feliz e satisfeito. Mas nada se compara ao uso da Petrobras. E assim foi-se definindo a eleição.
Dilma assumiu cedo a dianteira e só veio caindo desde o final do primeiro turno sob pressão da entrada em cena de Erenice Guerra. Serra passou a subir no segundo, herdando parte dos votos de Marina.
O ponto de equilíbrio, com ambos batendo no teto, chegou antes do cruzamento das duas linhas. Daí à certeza da vitória de Dilma, à desmobilização da oposição, à praia do eleitor tucano no feriadão. Com dez pontos de diferença, o resultado está praticamente definido.
Hoje, a eleição acaba e muitas perguntas começam: Lula se contentará em ser o líder mundial contra a fome, ou vai continuar presidente de fato do Brasil? Dilma assumirá de vez a fantasia da candidata ou voltará a ser a gerentona? Quem, e como, vai controlar o PT, o PMDB e PSB (além dos menos cotados)?
Com o cenário externo a favor e a casa arrumada em 16 anos, Dilma tem tudo para fazer um bom governo. Mas torcendo para não haver sobressaltos na economia. Ela, a economia, deu a liga para a imensa aliança vitoriosa a favor de Dilma. O carisma de Lula, o marketing e a falta de prurido fizeram o resto.


Vilma, por FERNANDO CANZIAN

Em meados de abril, a reportagem da Folha teve o seguinte diálogo com Sueli Dumont, chefe de uma família de 17 pessoas em uma favela de Pernambuco:
"A sra. sabe que haverá eleições neste ano?"
"Para prefeito?"
"Não, para presidente. A sra. conhece os candidatos ou sabe em quem vai votar?"
"Em Lula!"
"Mas ele não pode ser candidato desta vez..."
"Meu Deus! Pode não?"
Ao que a filha de Sueli interveio: "Ô, "mainha", é a mulher de Lula que vai entrar no lugar dele."
"E como é o nome dela?"
"É Vilma" -disse a filha.
"Vou votar em Vilma" -emendou Sueli.
Na época, Serra estava em seu auge, segundo o Datafolha. Tinha 40%, ante 29% de Dilma.
Abril também sucedeu o trimestre em que o Brasil mais cresceu em décadas. O país "rodava" a mais de 11% ao ano, em ritmo chinês.
No mesmo período, o aumento médio da renda per capita já retornava ao ritmo pré-crise de 2009. Subia cerca de 5,5% ao ano na média do país; e 7,5% no Nordeste. A classe C voltava a crescer nesse embalo.
Naquele abril, a taxa nacional de ótimo/bom de Lula era de 73%. No Nordeste, região que mais crescia, 83% o aprovavam. O Nordeste também era a única área do país em que Dilma já estava à frente de Serra.
A partir daí, Dilma passou a subir, sempre no vácuo da popularidade de Lula. E Serra, a cair.
Hoje, dia em que conheceremos o resultado da eleição presidencial, Lula tem nacionalmente a mesma aprovação que detinha apenas no Nordeste lá em abril: 83%.
Um último ponto sobre aquele mesmo abril, quando o jogo virou: 14% dos pesquisados diziam que votariam em quem Lula indicasse. O mesmo percentual, que corresponde a 18 milhões de eleitores, nunca tinha ouvido falar de Dilma.
Eles farão a diferença hoje.

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Fonte: Folha de S. Paulo

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