Oposição vai gerir mais de 50% do PIB

Publicado em 02/11/2010 09:16
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Com outras 4 vitórias no segundo turno, PSDB e DEM agregam mais R$ 125 bi à sua fatia da riqueza nacional

O "corredor de oposição" conquistado nos dois turnos pelo PSDB e pelo DEM nas disputas pelos governos estaduais em 2010, que corta o País na direção sul-noroeste, reunirá Estados que, juntos, somam mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O resultado, de certa forma, contrabalança a derrota da chapa tucano-demista na disputa pela Presidência, anteontem - a terceira desde 2002 -, e pode ajudar seus integrantes a montar uma aliança forte para brigar pelo Palácio do Planalto em 2014. 

Há, contudo, limites nessa estratégia, porque o controle das máquinas administrativas estaduais não resulta, necessariamente, em vitória eleitoral. Foi o que ocorreu agora, quando o PSDB, mesmo governando São Paulo e Minas Gerais há mais de um mandato, foi derrotado por mais de 12 milhões de votos no segundo turno da eleição presidencial pela candidatura da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT).

Com os resultados de 2010, o PSDB e o DEM somarão no ano que vem ao controle sobre Estados que têm respectivamente o primeiro PIB estadual do País (São Paulo, mais de R$ 900 bilhões) e o terceiro (Minas Gerais, acima de R$ 240 bilhões), e ainda administrações de Estados que conquistaram este ano. São o Paraná (quinto PIB, mais de R$ 160 bilhões) e Santa Catarina (sétimo, mais de R$ 100 bilhões. Até o fim deste ano, o controle sobre as administrações paranaense e catarinense ainda estará com o PMDB, partido que se divide entre apoiar, se opor ou ficar neutro em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os oposicionistas também amealharam para seu campo os governos de Goiás (PIB acima de R$ 60 bilhões), Tocantins (mais de R$ 11 bilhões), Pará (em torno de R$ 50 bilhões) e Roraima (mais de R$ 4 bilhões). Fora do "corredor da oposição" iniciado, que vai de Santa Catarina (será governada pelo demista Raimundo Colombo) a Roraima (com mandado, a partir de 1 de janeiro, do tucano Anchieta Júnior), também são relacionados dois Estados: Rio Grande do Norte (mais de R$ 22 bilhões, a ser governador pelo DEM) e Alagoas (mais de R$ 22 bilhões, a ser administrado, em reeleição, pelo tucano Teotônio Vilela Filho).

Partidos da base do governo federal controlarão os governos de boa parte dos Estados mais pobres. Uma das exceções, o governo do Rio, que tem o segundo maior PIB da Federação, perto de R$ 300 bilhões e elegeu, para mais um mandato, Sérgio Cabral Filho (PMDB) para governá-lo.

Outra é o Rio Grande do Sul, em quarto lugar no ranking da produção de riqueza, em torno de R$ 170 bilhões, e que foi reconquistado pelo PT no primeiro turno, quando Tarso Genro foi eleito. Outro Estado que continuará com um governo estadual alinhado ao Palácio do Planalto será a Bahia, cujo PIB se aproxima de pouco mais de R$ 100 bilhões e é o sexto do País. Lá, o governador Jacques Wagner (PT) foi reeleito com facilidade no primeiro turno.

A esse Estados de PIB notável que já controlava, o PT conseguiu somar o governo do Distrito Federal. Apesar de ter precisado do segundo turno para derrotar Weslian Roriz (PSC), Agnelo Queiroz conseguiu vencê-la com facilidade. Com seus funcionários públicas bem-remunerados, a capital federal tem um PIB em torno de R$ 100 bilhões - o oitavo do Brasil.

Aécio, Alckmin e Richa vão tomar o lugar do trio FHC, Serra e Tasso

 O PSDB sai destas eleições com o comando nacional renovado. Abertas as urnas, um time tradicional de tucanos sai de cena e entra em campo uma nova geração de dirigentes. O núcleo do poder, no entanto, deverá continuar nas mãos de um triunvirato. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador Tasso Jereissati, ex-presidente do partido que perdeu a disputa pela reeleição no Ceará, e o candidato José Serra passam à reserva. Dão lugar a um trio mais jovem, composto pelo senador eleito Aécio Neves (MG), 50 anos, e os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, 57 an os, e do Paraná, Beto Richa, 45 anos, o caçula da turma que ingressou na vida pública aos 29 anos, como deputado estadual.

A despeito da derrota na disputa presidencial, o partido mantém um quinhão de poder expressivo para dar visibilidade à oposição do ponto de vista nacional.

Além de São Paulo e Paraná, os tucanos também elegeram os governadores de Minas Gerais, Antonio Anastasia, e de Goiás, Marconi Perillo.

O fenômeno da renovação de comando não é exclusividade do PSDB. Afinal, as mesmas urnas que dizimaram expoentes tucanos como o líder no Senado, Arthur Virgílio (AM), impuseram derrota a líderes expressivos do DEM. O presidente Lula elegeu alguns oposicionistas como alvos e abateu, pessoalmente, os senadores Tasso Jereissati, Heráclito Fortes (PI) e Marco Maciel (PE), que foi vice presidente da República na gestão FHC.

Dos líderes tradicionais da cúpula do partido Democratas no Senado, apenas José Agripino (RN) foi bem sucedido e se reelegeu. A nova geração de dirigentes do DEM inclui os deputados Paulo Bornhausen (SC), filho do ex-presidente do partido Jorge Bornhausen, e ACM Neto (BA) - seu pai, o senador ACM Júnior, disputou o Senado na suplência do deputado José Carlos Aleluia (BA) e foi derrotado.

O ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia tentou voltar ao Congresso, mas perdeu a disputa por uma cadeira de senador. Para seu consolo, o filho Rodrigo Maia, que preside o partido, volta a Câmara como deputado federal.

Estreante forte. Ao estrear nas urnas com uma vitória convincente, Antonio Anastasia, 49 anos, engrossa a nova geração de dirigentes tucanos. Alckmin já foi governador, é verdade, mas há uma avaliação no tucanato de que só agora ele ingressará no núcleo de decisão da cúpula nacional. Chega reforçado pela parceria leal e bem sucedida com Aécio.

Como a regional de São Paulo tem sido, tradicionalmente, a mais forte da legenda, a hegemonia paulista no comando partidário foi absoluta ao longo dos 25 anos de PSDB. Agora, no entanto, Aécio e Beto Richa entram para dar o reclamado equilíbrio regional à cúpula tucana.

Aécio traz na bagagem oito vitórias seguidas nas urnas, ao longo dos últimos oito anos, a última delas superlativa. Além de fazer o sucessor e de conquistar uma cadeira no Senado, conseguiu derrotar todos os adversários no Estado. A lista dos derrotados inclui o PT do ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, que disputou vaga de senador e perdeu porque Aécio se elegeu senador em dobradinha com o ex-presidente Itamar Franco, do PPS.

Beto Richa enfrentou e venceu PT, PMDB e PDT no Paraná, e ainda chega à cúpula tucana com a força do sobrenome. O pai e ex-senador José Richa foi fundador do PSDB ao lado de Serra, FHC, Franco Montoro e Mário Covas, e também presidiu o partido. Como ajudou bastante na campanha presidencial, Richa tem a gratidão de Serra e tem a vantagem de não ser considerado um estrangeiro pelos dirigentes paulistas.

Oposição tem de cobrar desde já

Para Maia, PSDB, DEM e PPS precisam entender que 2011 não será o 1º ano do governo Dilma, mas sim o 9º ano de Lula

Presidente nacional do DEM, o deputado Rodrigo Maia (RJ) defende que a oposição se una desde o primeiro dia do governo de Dilma Rousseff para cobrar promessas de campanha e questionar sua eficiência. Para Maia, PSDB, DEM e PPS precisam ver 2011 não como primeiro ano da gestão Dilma, mas sim o "nono ano do governo Lula". "Ela foi gestora no atual governo dos programas que prometeu realizar como presidente", diz. Maia exime o mineiro Aécio Neves (PSDB) pela vantagem obtida por Dilma em Minas. Para ele, o problema foi o partido não ser atrativo às classes D e E.

A oposição perdeu pela terceira vez seguida a eleição. Dessa vez, não foi para Lula, mas para uma candidata praticamente inventada por ele. Qual é sua avaliação sobre esse processo?

Serra fez o que estava ao seu alcance. Na reta final, o eleitor decidiu pela continuidade do governo Lula e Dilma recebeu a migração de indecisos e de eleitores das classes D e E que havia perdido no primeiro turno por conta da questão religiosa.

Por que não foi possível conter essa migração?

Governos têm ciclos de 8, 12 anos. Esse ciclo ainda é o mesmo, até porque ela foi gestora no atual governo dos programas que prometeu realizar como presidente. Dilma se propôs a continuar o governo Lula e as pessoas concordaram.

Como impedir que isso se repita na próxima eleição?

A oposição precisa compreender que a mensagem dos eleitores é que esse não será o primeiro ano do governo Dilma, mas sim o nono ano do governo Lula. Devemos cobrar desde já as promessas como a construção de 2 milhões de casas no Minha Casa, Minha Vida. É isso que devemos falar e cobrar desde já.

O senhor fala em nono ano de governo, mas Lula e Dilma são muito diferentes um do outro...

Mas ela centrou toda a campanha na continuidade. A oposição aposta que vai haver um choque entre os dois modelos. Lula era palanqueiro. Rodava o Brasil transformando compromissos de presidente em palanque. A outra é gestora. Vai passar muito tempo no gabinete.

A oposição é criticada por ter sido dócil no governo Lula. Isso pesou no resultado de agora?

Não acho que a oposição foi macia demais. Foi um erro recuar no pedido do processo de impedimento do presidente Lula durante o mensalão. Não significa que o presidente fosse cair, porque ele usaria a popularidade e influência política para se segurar. Mas teria sofrido um desgaste maior. Mas tivemos grandes acertos também. Nossa reação impediu que prosperasse a tese de se aprovar a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente. Conseguimos derrubar a cobrança da CPMF. No saldo, a oposição teve papel positivo. Mesmo com Lula tendo mais de 80% de aprovação, tivemos nosso melhor resultado nas três últimas eleições e vamos governar dez Estados.

Serra foi derrotado por Dilma em Minas no segundo turno. O ex-governador Aécio Neves poderia ter ajudado mais?

Nenhum dos Estados, nem Minas, nem São Paulo, individualmente, resolveriam a nosso favor. Aécio se empenhou como podia, comandou nosso melhor evento no segundo turno, em Copacabana. Geraldo Alckmin e Alberto Goldman fizeram o que podiam em São Paulo. O eleitor entendeu que o governo deveria continuar. Especialmente os mais pobres.

Regionalmente, Dilma venceu com facilidade no Nordeste e no Norte. A vantagem de 500 mil votos obtida em Manaus foi maior, por exemplo, que a conseguida por Serra na capital paulista. Não é preciso haver um trabalho específico nessas regiões?

Nenhum de nossos candidatos vai ganhar a eleição com o desequilíbrio que está havendo não apenas por serem regiões específicas como Norte e Nordeste. Existe uma concentração de eleitores mais pobres nessas áreas e esses, sim, votaram de novo no PT. Se pegarmos cidades do Sudeste que concentram eleitores de menor renda, sempre perdemos por mais de 30 pontos. Isso anula qualquer vantagem em outros lugares. Precisamos de uma mensagem eficiente para esses eleitores.

A oposição é vista como elitista por esses eleitores?

Não se trata disso. É uma questão de acertar a comunicação que Lula faz muito bem. Demonstramos nossa preocupação com os eleitores mais pobres no governo Fernando Henrique, lançando programas que foram base para a maioria das iniciativas do atual governo. Foi um erro nosso? Não. Lula é que foi competente ao passar sua mensagem.

O DEM lançará candidato próprio em 2014?

A princípio, digo que sim. Talvez seja importante para a oposição ter mais de uma candidatura para garantir segundo turno. Depois da eleição municipal, a proposta é que PSDB, DEM e PPS apresentem nomes para correr o Brasil e debater ideias. Talvez façamos prévias entre esses nomes para escolher o candidato.

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Fonte: O Estado de S. Paulo

1 comentário

  • Telmo Heinen Formosa - GO

    "A Presidente" Dilma Rousseff foi eleita presidente da República do Brasil, em segundo turno, com o apoio de apenas 55 milhões de eleitores, supostamente o limite de simpatizantes das teses esquerdistas. Em inferioridade ante os cerca de 76 milhões de eleitores que se negaram a dar-lhe o voto, Dilma teve que lhes estender a mão direita, pedindo por apoio e concórdia.
    Que o gesto lhe sirva para fazê-la lembrar-se, todos os dias de seu mandato, que governará para uma larga maioria conservadora e não apenas para uma minoria petista.
    · 43,7 MILHÕES VOTARAM EM SERRA;
    · 2,5 MILHÕES VOTARAM EM BRANCO;
    · 4,7 MILHÕES VOTARAM NULO;
    · 25,1 MILHÕES NÃO VOTARAM.

    55 MILHÕES DE ELEITORES VOTARAM EM DILMA...

    ... E 76 MILHÕES DE ELEITORES NÃO VOTARAM EM DILMA

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