Tropa da mídia, por FERNANDO DE BARROS E SILVA

Publicado em 27/11/2010 07:38 394 exibições

Há um triunfalismo exorbitante na cobertura jornalística dos acontecimentos gravíssimos no Rio de Janeiro. Na sua primeira página de ontem, o jornal "O Globo" estampou, em letras garrafais: "O Dia D da guerra ao tráfico".


A comparação, ou "semelhança simbólica", entre a ocupação da Vila Cruzeiro, anteontem, e o desembarque das tropas aliadas na Normandia, impondo a derrota aos nazistas, é um despropósito, um disparate histórico, além de factual.


Vale lembrar: no dia 21 de abril de 2008, o Bope pendurou na parte mais alta da mesma Vila Cruzeiro a sua bandeira preta com a caveira no centro. A tropa de elite da polícia comemorava uma semana de ocupação na favela. Falava-se então na apreensão de "três mil sacolés de cocaína e 480 pedras de crack". Já vimos, pois, esse filme antes.


O que aconteceu desde então? As coisas agora são diferentes? Parece que sim. A começar pelo emprego de armamentos de guerra e de efetivos das Forças Armadas no cerco ao tráfico. Os bandidos também mudaram de patamar: passaram a patrocinar ações típicas da guerrilha e do terrorismo pela cidade.


Até prova em contrário, esses parecem ser sintomas do agravamento de um problema, e não da sua solução. Curiosamente, o secretário de Segurança do Rio mostra ter mais noção disso do que a mídia.


Por toda parte -TVs, jornais, internet-, há uma tendência compulsiva para transformar a realidade em enredo de "Tropa de Elite 3", o filme do acerto de contas final. A dramatização meio oficialista e meio ficcional do conflito parece se beneficiar de uma fúria coletiva e sem ressalvas dirigida aos morros, como quem diz: sobe, invade, explode, arregaça, extermina!


É quase possível ouvir no ar o lamento pela ausência de traficantes metralhados diante das câmeras. Até o momento em que escrevo, foram incendiados 99 veículos e mortas 44 pessoas. Quantas eram marginais? Quantas eram só pobres-diabos? E que diferença isso faz?


Estranha normalidade, por 
FERNANDO RODRIGUES

"O comando do Exército no combate à criminalidade e ao tráfico de drogas no Rio é apoiado por 86% dos moradores do Estado, segundo pesquisa Datafolha realizada nos dias 7 e 8 deste mês", dizia o primeiro parágrafo de um texto da Folha publicado no longínquo 13 de novembro de 1994.
Suspeito que hoje, a julgar pelo tom eufórico de alguns telejornais, o apoio dos fluminenses à presença dos militares esteja próximo dos 100%. Há 16 anos, como agora, o governo do Estado do Rio de Janeiro havia firmado um convênio com as Forças Armadas.
Ainda não havia TV a cabo com noticiário brasileiro transmitido 24 horas para produzir o impacto atual, mas a operação tinha magnitude semelhante à de agora. Estava autorizado o uso de blindados, helicópteros e armamentos pesados. Produziu-se um sucesso relativo, com pacificação eventual das regiões dominadas pelo tráfico.
Passada uma década e meia, a situação se repete -de maneira mais fluída. Quase inexiste pudor sobre o uso de soldados do Exército em áreas urbanas. Tudo parece muito natural. "É um exemplo para outros Estados?", perguntava ontem a GloboNews. O apoio inicial dos fuzileiros navais foi dado como vital para desbaratar as quadrilhas e colocar bandidos em fuga.
Há, por sorte, uma diferença essencial de hoje para 1994: a existência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Se a experiência for replicada com rapidez, talvez seja possível haver uma consolidação do Estado nas áreas degradadas pelo crime. Seria uma forma (não a única, por óbvio) de evitar o retorno da bandidagem.
Quando há uma guerra, é difícil julgar todas as ações no momento em que ocorrem. É compreensível o apoio aparentemente em massa dos cidadãos de bem à ação militar contra os narcotraficantes. Mas não deixa de ser alarmante a estranha naturalidade com que o uso das Forças Armadas é recebido.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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