Alimentos e serviços causarão inflação alta pelos próximos 5 meses

Publicado em 28/11/2010 07:29 e atualizado em 28/11/2010 08:00 449 exibições

O brasileiro terá de enfrentar pelo menos cinco meses de inflação alta pela frente. No rol dos aumentos de preços previstos para a virada do ano estão os reajustes das mensalidades escolares, das passagens de ônibus e dos aluguéis, todos numa faixa que deve superar 7%, além da forte pressão dos alimentos que deve continuar até a entrada da safra de grãos, marcada para o fim do primeiro trimestre. 

A inflação acumulada em 12 meses pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que encerrou outubro em 5,2%, pode passar de 6% em dezembro, janeiro e fevereiro, preveem economistas. Se confirmado, o resultado acumulado pode superar no período, em mais de um ponto e meio porcentual, o centro da meta de inflação (4,5%). 

As projeções de inflação para os próximos meses foram revistas para cima na semana passada pelo mercado, depois que o IPCA-15, prévia da medida oficial de inflação, superou as expectativas e atingiu 0,86% em novembro. Metade desse resultado veio da alta dos alimentos, que não deve dar trégua até março. Normalmente, em janeiro e fevereiro, a alta dos alimentos ganha força com a elevação dos preços das hortaliças afetadas pelas chuvas de verão. Só que esse fator sazonal pode agravar um quadro que já não é favorável. 

Alimentos, fator de risco 

A comida é considerada o maior fator de risco da inflação para 2011. Mesmo assim, o grande foco de pressão para manter a inflação em níveis elevados está nos preços dos serviços, que já vêm ao longo deste ano sendo sustentados pelo aumento do emprego e da renda, que mantêm o consumo aquecido. Combustível para essa demanda existe. Em outubro, a taxa oficial de desemprego atingiu 6,1%, a menor marca desde 2002, o início da série histórica. E a renda média real do brasileiro cresceu 6,5% na comparação com outubro de 2009, a maior expansão anual desde junho de 2006. 

"A maior pressão inflacionária para 2011 está nos preços livres (alimentos e serviços), mesmo com a alta de 10% do IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado) acumulada em 2010", afirma a economista do Banco Santander, Tatiana Pinheiro. 

O IGP-M, calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), é usado total ou parcialmente como indexador de vários contratos privados, como aluguéis e mensalidades escolares, e preços administrados, como tarifas de energia e de pedágio, por exemplo. Em 2009, o indicador fechou o ano com deflação de 1,7%. Isso fez com que alguns preços balizados pelo indicador não tivessem reajustes este ano. 

Mas, para 2011, o cenário é diferente. O IGP-M subiu 10,29% até a segunda prévia de novembro, o que chancela reajustes significativos no curto prazo dos preços regidos por esses contratos. "O efeito da indexação será mais forte em 2011 do que foi neste ano", prevê o coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros. Ele pondera que essa pressão da indexação sobre os preços pode ser compensada parcialmente se o governo optar por não aumentar o salário mínimo acima da inflação.

Sem alívio. "Não vejo nada que alivie a inflação nos próximos meses. Dezembro vai ser complicado para a inflação, porque o consumidor tem mais renda no bolso", diz o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, Antonio Evaldo Comune. Ele prevê que o ano comece forte, com inflação mensal na casa de 1%, já contando com reajustes das escolas, das tarifas de ônibus e do imposto predial.

Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, calcula que o IPCA suba, em média, 0,80% ao mês entre novembro e fevereiro. "Vai ser um começo de ano complicado para a nova diretoria do Banco Central." Ele atribui a maior parte da aceleração da inflação à disparada do preço dos alimentos.

"De meados para o fim de outubro, fui surpreendido por um fôlego adicional no preço das commodities agrícolas. E, com os dados da segunda prévia do IGP-M de novembro, ficou claro que podemos ter um início de ano com potencial de alta de preços dos alimentos no varejo", diz Quadros, da FGV.

Mais da metade do IGP-M (60%) vem da variação dos preços no atacado, entre os quais estão os produtos agropecuários, que subiram 4,65% na segunda prévia deste mês. O IGP-M é uma espécie de indicador antecedente e indica o que deve ocorrer com os preços ao consumidor nos meses seguintes.

O movimento de alta dos preços das matérias-primas no atacado, na segunda prévia de novembro, não se trata, segundo Quadros, de algo pontual. O preço da soja, carnes bovina e suína, rações, fertilizantes, metais, como alumínio, níquel e zinco, e produtos petroquímicos estão acelerados. Ele destaca que a alta das matérias-primas este ano está relacionada com uma reação às quedas ocorridas no fim de 2008 e parte de 2009 por causa da crise.


Prato vazio, por RICARDO MELO

Abafados pelo ruído dos tiroteios no Rio, números impressionantes divulgados pelo IBGE correm o sério risco de cair no esquecimento. Na sexta-feira, 27, informou-se que nada mais, nada menos que 11 milhões de pessoas no país passaram fome em 2009. 
Como no Brasil nunca fica bem chamar as coisas pelo nome, principalmente quando se trata de assuntos de governo, esse contingente foi classificado como portador de "insegurança alimentar grave" (eufemismo por eufemismo, é como dizer que um sujeito, quando morre, não morre: sofre "parada completa das funções vitais que permitem sua sobrevivência"). 
Em termos mais amplos, o tamanho do problema também é de assustar. Quando se soma ao total dos que pura e simplesmente passam fome aqueles que padecem de "insegurança alimentar moderada" (sic) e "insegurança alimentar leve" (sic), chega-se a 65,6 milhões de cidadãos. 
São pessoas que, em algum momento e em algum grau, não sabem se terão condições de comer o que é necessário para, pelo menos, enfrentar o batente do dia seguinte. 
Funcionários da administração petista, ao apresentar os números, obviamente procuraram ressaltar "avanços" obtidos no setor. Comemoraram o fato de que, de 2004 a 2009, o número de brasileiros em estado de "segurança alimentar" (sic) cresceu 15,5%. 
"É um ganho excepcional para um período tão curto. Em cinco anos, as pessoas não só tiveram uma vivência mais positiva de ter acesso ao alimento como aquela memória dos períodos mais adversos começa a desaparecer", pontificou o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Rômulo de Souza. 
Descontando-se o burocratês e supondo que os dados sejam confiáveis, houve, de fato, algum progresso. Mas muito menor do que se poderia esperar de um governo acostumado a alardear aos quatro ventos que iria erradicar a fome e a miséria por aqui. 
Passivo tão impressionante mostra como programas do tipo Bolsa Família podem até alavancar campanhas eleitorais, mas são absolutamente insuficientes. Prova cabal: entre os lugares em que o quadro é de calamidade, aparecem o Maranhão e o Piauí. 
Segundo a pesquisa, nesses dois Estados, situados em regiões mais favorecidas pelo programa, mais da metade das casas não tinham acesso a uma alimentação decente. 
De nada adianta falar em crescimento chinês, exibir números vistosos de empregos ou trombetear supostas conquistas no cenário internacional. Enquanto houver tal quantidade de brasileiros preocupados com questões básicas como a fome (ou em ter "uma vivência mais positiva de ter acesso ao alimento"...), naquilo que interessa o país permanecerá na segunda ou terceira divisão. 

RICARDO MELO é coordenador da Folha.com

Uma história banal de inflação, por VINICIUS TORRES FREIRE 

DUROU MAIS ou menos até setembro a história de que a inflação safra de 2010 era passageira. Em agosto, a inflação acumulada em 12 meses voltara à meta, de 4,5%. Parecia então que poderia ser verdade o argumento de que o repique dos preços no primeiro trimestre do ano seria transitório, tocado por uma alta casual dos alimentos. Poderia ser verdade, mas parece que não é.
Em outubro, o IPCA acumulado em 12 meses foi a 5,2%. Em si mesmo, apesar de acima da meta, o número não diz grande coisa. Uma breve olhada em suas entranhas abertas em outubro, porém, não propicia bons augúrios. O índice de inflação dos produtos ditos "não comercializáveis" foi a 7,1% (sempre no acumulado em 12 meses).
Os "não comercializáveis" são aqueles produtos cujos preços em geral não são influenciados pelo comércio exterior (bens que não são exportáveis ou cujos preços não estão sujeitos à influência direta de bens importáveis). Por exemplo, serviços como educação ou cortes de cabelo. A inflação dos "comercializáveis", que ia pela casa dos 3% em agosto, em outubro foi a 4,7%.
A inflação dos serviços subiu para 7,2% em outubro. Alimentos, a 7,5%. Despesas pessoais, a 7%.
Em suma, o que parece ocorrer é uma história banal. Os preços de "não comercializáveis" sobem devido ao aumento da renda, ao desemprego baixo e cadente e ao estoque de crédito subindo a 20% ao ano. Os preços de bens sujeitos à concorrência internacional e à pressão baixista do câmbio estão mais ou menos sob controle -o país importa cada vez mais, o deficit externo é crescente. Mas a "ajuda" do câmbio na contenção da inflação agora deve ser cada vez menor. O real não deve ficar muito mais forte, se ficar.
A inflação medida pelos núcleos também está estourada -nessas medidas, são expurgados alguns preços que se comportam de maneira exagerada e/ou apresentam variações casuais ou sazonais.
As medidas de utilização da capacidade ociosa da indústria também estão apertadas. O maior salto no uso da capacidade produtiva da indústria ocorreu justamente em alimentos. Alguns setores estão no limite: papel e papelão, material de construção e minerais não metálicos. Como o consumidor está animado, com renda e crédito, está mais fácil repassar aumentos.
O caldo da inflação ainda deve engrossar até o fim do primeiro trimestre de 2011. Trata-se de um período de remarcação de preços, de repasses de custos dos aumentos de salários das categorias que conseguiram aumentos no terço final deste ano e de reajustes fortes de despesas como educação.
De quebra, há o risco de aumento dos preços dos combustíveis, a depender de quão grande será o problema da entressafra do álcool. Ou seja, há um estoque de riscos para a inflação bastante para incomodar o Banco Central e atiçar os povos dos mercados até pelo menos meados de 2011.
O estrago parece mais ou menos feito. A não ser devido a milagres em preços voláteis (alimentos, combustíveis) ou paradas fortes na economia mundial, os juros vão subir.
A nova equipe econômica do governo Dilma Rousseff poderia aproveitar esse 2011 algo mais problemático para fazer "o mal" de uma vez só, cortando gastos públicos com gosto, arrumando a casa e, de quebra, criando condições para derrubar as taxas de juros em 2012.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo/Folha

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