A batalha do mensalão, por MELCHIADES FILHO

Publicado em 21/12/2010 08:42 263 exibições
Não foi casual o aviso de Lula de que, fora da Presidência, vai se dedicar a desmontar a "farsa do mensalão". Nem a omissão do escândalo (e da grave crise política que ele causou) nas 2.200 páginas dos seis volumes que fazem o balanço oficial dos oito anos de seu governo. Tampouco o doce regresso de José Dirceu ao Planalto, para o ato festivo que lançou os livros.
Lula sabe que o PT terá pela frente um ano decisivo. E não só porque precisará lidar com Dilma Rousseff, uma presidente ausente da história e alheia ao cotidiano do partido.
Em 2011, enfim, o Supremo Tribunal Federal deverá julgar 38 denunciados pelo esquema de compra de apoio político no Congresso.
Mas não é só a "pessoa física" de José Dirceu que estará no banco dos réus. Ou de Paulo Rocha, João Paulo Cunha e dos demais petistas que respondem a acusações como formação de quadrilha, corrupção ativa, peculato e evasão de divisas.
O julgamento do mensalão no STF reabrirá as feridas que o segundo mandato de Lula conseguiu fechar. O noticiário voltará a tratar do caso. Adversários e falsos aliados, hoje intimidados, não deixarão de tirar casquinha -e não de Lula, que sairá com taxas recordes de prestígio e popularidade, mas do PT.
Além disso, é improvável que o tribunal, em plena era do "Ficha Limpa", encerre os trabalhos sem produzir nenhuma condenação.
O PT será a bola da vez, e daí a recaída de Lula -ele, que já se disse "traído pelas práticas inaceitáveis" e "indignado pelas revelações".
Como não pode partir para cima dos ministros do STF, resta agora ao presidente (e ao PT) negar de todo modo os crimes, ressuscitar a tese do "golpismo", reabilitar envolvidos e, sobretudo, desqualificar a imprensa: é urgente, ao menos, influir na narrativa do julgamento.
Se a descoberta do mensalão foi o divisor da era Lula, o desfecho do escândalo tem tudo para ser um marco na trajetória do PT e também no debate do "controle da mídia".

VINICIUS TORRES FREIRE 

Lula, malmequer, bem-me-quer 

Governo termina aprovado por 84% da população; no debate público e intelectual, ainda suscita muitos ódios

ATÉ NOS últimos dias de seu governo, os juízos públicos sobre o desempenho de Lula contêm um teor de raiva, quando não de ódio, que ainda surpreende. É verdade que a fúria do PT e das esquerdas com o governo FHC não é menos contaminada por bílis. Os desastrosos governos de José Sarney (1985-1990) e Fernando Collor (1990-1992) não merecem tanta fúria, talvez porque objeto de desprezo. Até o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) é lembrado com mais complacência.
O país, porém, vive notável calmaria social e política. Lula é elogiado por mais de 80% da população. Em quase nenhum setor da elite empresarial ou financeira há críticas virulentas ao conjunto da obra lulista-petista. Não vem ao caso, aqui, julgar se tal satisfação se deve aos melhores motivos. Chama-se apenas atenção para o fato de o país em geral estar mais pacificado do que sugere o debate público sobre Lula -e sobre a memória restante de FHC.
Note-se que PT e PSDB são primo-irmãos políticos -um primo pobre e um primo rico. Fizeram governos parecidos, nas linhas econômicas gerais, mas não na política. Em muitos aspectos, foram governos complementares, até porque cacoetes ideológicos debilitantes tanto de um partido como de outro os impedem de tratar de certos assuntos -no PT, a racionalização da economia de mercado; no PSDB, a urgente necessidade de atenuar horrores sociais. Claro, tais diferenças se devem também a uma questão de classe.
Ainda assim, espanta a raiva burra de muita crítica que se ouve de parte a parte. Petistas ignoram quase totalmente a influência da economia mundial no destino dos governos FHC (desastrosa) e de Lula (favorável). Tucanos se eximem dos seus maus resultados os atribuindo apenas às crises internacionais que enfrentaram; petistas ignoram a ajuda da bonança internacional.
Uma crítica que parece fácil, líquida e certa é aquela dirigida à "enorme carga tributária", que Lula teria tornado ainda mais escorchante. Mas Lula quase não aumentou impostos; FHC o fez. Lula, porém, não economizou nada do dinheiro extra que seu governo recebeu devido ao crescimento econômico. Nem isso, porém, é o mais importante. A carga de impostos é alta provavelmente porque o país é ainda muito desigual e pobre. Sem impostos para pagar serviços públicos e transferências sociais (metade da carga federal) haveria tumultos e revoltas.
Verdade que parte relevante dos impostos é absorvida por uma elite burocrática e por subsídios para ricos, mas o grosso se destina a suavizar as feridas deste país ainda muito bruto. O dinheiro paga um sistema universal de saúde, ruim mas único entre "países de renda assemelhada", paga aposentadorias e assistência social para pobres.
Parte da elite raivosa, ou seus porta-vozes, abomina o governo Lula pelos piores motivos. Há tantos bons, como sua falta de imaginação ou ignorância do lulismo. Mas o que se vê é uma crítica com gosto de ódio de classe, sem que as classes interessadas se movam politicamente na direção dessas críticas. É curioso. "Este país" ainda não entende quão selvagem e violento ainda é, que mesmo um Estado corrupto e ineficaz oferece o "sossega-leão" que mantém certa paz social. O custo do calmante está no limite, decerto. Mas não parece esse o problema de fato dos odientos ideológicos.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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