Commodities agrícolas recuam sentindo peso da instabilidade do Oriente Médio
Dos principais grãos referenciados na bolsa de Chicago, a queda mais expressiva foi a do trigo, ainda que soja e milho também tenham registrado as maiores desvalorizações permitidas em uma única sessão. Os contratos do cereal com vencimento em maio - que ocupam a segunda posição de entrega, normalmente a de maior liquidez - recuaram 7,9% e fecharam a US$ 7,9575 por bushel (27,2 quilos).
No mercado de soja, os futuros de segunda posição (maio) perderam 5,07% do valor e encerraram o pregão negociados a US$ 13,11 por bushel (27,2 quilos). No caso do milho, o tombo da segunda posição (maio) foi de 4,17%, para US$ 6,9025 por bushel (25,2 quilos).
Apesar do tamanho das respectivas erosões, as três commodities, bases importantes para a produção mundial de alimentos e rações, continuam em patamares bastante elevados e, por isso, no alvo das preocupações inflacionárias mundiais. Nos últimos 12 meses, apontam cálculos do Valor Data, o milho acumula alta de 80,34%, o trigo de 54,44% e a soja de 35,29%.
Em Nova York, o destaque foi o limite de baixa da segunda posição do algodão (equivalente a 3,59%), que nos últimos 12 meses ainda aparece com alta de 135,8%.
Nesta quarta-feira, os futuros das principais commodities agrícolas continuam caindo, estendendo as perdas de ontem. Na Bolsa de Chicago, às 8h23 (horário de Brasília) a soja operava com mais de 5 pontos de baixa nos principais vencimentos. Milho e trigo já registravam queda de quase 20 pontos.
Em Nova York, a situação é semelhante. Algodão, café e açúcar trabalham com expressiva baixa, liderados pelos futuros da fibra, que, por volta das 8h25 (horário de Brasília), já perdiam mais de 600 pontos. O café - que ontem fechou em alta na contramão das demais commodities - para o vencimento julho, já marcava um recuo de 535 pontos.
(por JAMIL CHADDE, de O Estado de S. Paulo, correspondente em Genebra)
Uma crise política prolongada no norte da África e a manutenção do preço do petróleo acima de US$ 100 podem jogar a economia global mais uma vez em uma recessão. O alerta foi feito nesta terça pelo diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Nobuo Tanaka, que deixou claro que a turbulência pode afetar a recuperação da economia mundial.
Os confrontos na Líbia, o primeiro produtor importante de petróleo a ter sua produção afetada pela revolução social que está se alastrando pelo norte da África e pelo Oriente Médio, e o discurso desafiador do ditador Muamar Kadafi pressionaram o preço do petróleo, derrubaram as bolsas e jogaram para cima a cotação do dólar no Brasil (leia mais sobre a crise no norte da África nas páginas A10 a A14).
O preço do petróleo retomou o patamar de 2008 e fechou ontem em US$ 106,46 (tipo Brent, em Londres). A Bovespa caiu 1,22%, a Bolsa de Nova York, 1,44% e a de Milão, 1,06%. A Itália é um dos países mais expostos à crise na Líbia.
No Brasil, também pressionado pela turbulência nos países do norte da África, o dólar teve alta de 0,30% e fechou o dia cotado a R$ 1,672. No mercado global, houve corrida por ativos tradicionais, como o ouro e o franco suíço. A prata atingiu seu maior nível em 34 anos.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tentou garantir ao mercado que a produção dos demais países seria aumentada para compensar os problemas na Líbia. Já a AIE disse que colocaria à disposição suas reservas estratégicas, em caso de necessidade.
Estagflação. O executivo-chefe da Pacific Investment Management Co. (Pimco), Mohamed el-Erian, afirmou em artigo publicado pelo Financial Times que "devemos nos preparar para um choque no Oriente Médio". Segundo ele, a turbulência política no Oriente Médio e no norte da África deverá ter um "efeito sistêmico" na economia global, provocando um "vento estagflacionário" no curto prazo - uma combinação de estagnação econômica com alta dos preços.
Para El-Erian, o desempenho relativamente fraco do dólar durante esse período de crise é "uma advertência" de que a moeda americana poderá perder seu status de refúgio seguro. Isso indica que as pessoas estão começando a se preocupar com a situação fiscal dos EUA, disse.
"Tomo isso como advertência de que não podemos partir da premissa de que manteremos a posição de principal moeda de reserva, como no passado", disse El-Erian. Ele também afirmou que a alta dos preços do petróleo está reduzindo o poder de compra, enquanto os riscos geopolíticos elevados poderão ter impacto negativo nos investimentos em todo o planeta.
Ele disse ainda que os mercados globais terão de conviver com preços mais altos de petróleo "por algum tempo".