Commodities agrícolas recuam sentindo peso da instabilidade do Oriente Médio

Publicado em 23/02/2011 09:20 e atualizado em 23/02/2011 09:54
Movimentos financeiros relacionados à crise no Oriente Médio e no norte da África e incertezas sobre o comportamento da demanda global nos próximos meses derrubaram ontem as cotações internacionais de algumas das principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no exterior.

Dos principais grãos referenciados na bolsa de Chicago, a queda mais expressiva foi a do trigo, ainda que soja e milho também tenham registrado as maiores desvalorizações permitidas em uma única sessão. Os contratos do cereal com vencimento em maio - que ocupam a segunda posição de entrega, normalmente a de maior liquidez - recuaram 7,9% e fecharam a US$ 7,9575 por bushel (27,2 quilos).

No mercado de soja, os futuros de segunda posição (maio) perderam 5,07% do valor e encerraram o pregão negociados a US$ 13,11 por bushel (27,2 quilos). No caso do milho, o tombo da segunda posição (maio) foi de 4,17%, para US$ 6,9025 por bushel (25,2 quilos).

Apesar do tamanho das respectivas erosões, as três commodities, bases importantes para a produção mundial de alimentos e rações, continuam em patamares bastante elevados e, por isso, no alvo das preocupações inflacionárias mundiais. Nos últimos 12 meses, apontam cálculos do Valor Data, o milho acumula alta de 80,34%, o trigo de 54,44% e a soja de 35,29%.

Em Nova York, o destaque foi o limite de baixa da segunda posição do algodão (equivalente a 3,59%), que nos últimos 12 meses ainda aparece com alta de 135,8%.

Nesta quarta-feira, os futuros das principais commodities agrícolas continuam caindo, estendendo as perdas de ontem. Na Bolsa de Chicago, às 8h23 (horário de Brasília) a soja operava com mais de 5 pontos de baixa nos principais vencimentos. Milho e trigo já registravam queda de quase 20 pontos.

Em Nova York, a situação é semelhante. Algodão, café e açúcar trabalham com expressiva baixa, liderados pelos futuros da fibra, que, por volta das 8h25 (horário de Brasília), já perdiam mais de 600 pontos. O café - que ontem fechou em alta na contramão das demais commodities - para o vencimento julho, já marcava um recuo de 535 pontos.


Crise árabe ameaça economia global

(por JAMIL CHADDE, de O Estado de S. Paulo, correspondente em Genebra)

Uma crise política prolongada no norte da África e a manutenção do preço do petróleo acima de US$ 100 podem jogar a economia global mais uma vez em uma recessão. O alerta foi feito nesta terça pelo diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Nobuo Tanaka, que deixou claro que a turbulência pode afetar a recuperação da economia mundial.

Os confrontos na Líbia, o primeiro produtor importante de petróleo a ter sua produção afetada pela revolução social que está se alastrando pelo norte da África e pelo Oriente Médio, e o discurso desafiador do ditador Muamar Kadafi pressionaram o preço do petróleo, derrubaram as bolsas e jogaram para cima a cotação do dólar no Brasil (leia mais sobre a crise no norte da África nas páginas A10 a A14).

O preço do petróleo retomou o patamar de 2008 e fechou ontem em US$ 106,46 (tipo Brent, em Londres). A Bovespa caiu 1,22%, a Bolsa de Nova York, 1,44% e a de Milão, 1,06%. A Itália é um dos países mais expostos à crise na Líbia.

No Brasil, também pressionado pela turbulência nos países do norte da África, o dólar teve alta de 0,30% e fechou o dia cotado a R$ 1,672. No mercado global, houve corrida por ativos tradicionais, como o ouro e o franco suíço. A prata atingiu seu maior nível em 34 anos.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tentou garantir ao mercado que a produção dos demais países seria aumentada para compensar os problemas na Líbia. Já a AIE disse que colocaria à disposição suas reservas estratégicas, em caso de necessidade.

Estagflação. O executivo-chefe da Pacific Investment Management Co. (Pimco), Mohamed el-Erian, afirmou em artigo publicado pelo Financial Times que "devemos nos preparar para um choque no Oriente Médio". Segundo ele, a turbulência política no Oriente Médio e no norte da África deverá ter um "efeito sistêmico" na economia global, provocando um "vento estagflacionário" no curto prazo - uma combinação de estagnação econômica com alta dos preços.

Para El-Erian, o desempenho relativamente fraco do dólar durante esse período de crise é "uma advertência" de que a moeda americana poderá perder seu status de refúgio seguro. Isso indica que as pessoas estão começando a se preocupar com a situação fiscal dos EUA, disse.

"Tomo isso como advertência de que não podemos partir da premissa de que manteremos a posição de principal moeda de reserva, como no passado", disse El-Erian. Ele também afirmou que a alta dos preços do petróleo está reduzindo o poder de compra, enquanto os riscos geopolíticos elevados poderão ter impacto negativo nos investimentos em todo o planeta.

Ele disse ainda que os mercados globais terão de conviver com preços mais altos de petróleo "por algum tempo".

Fonte: Valor/Notícias Agrícolas/OESP

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