Terra agora é um ativo cobiçado nos EUA

Publicado em 02/03/2011 08:05 865 exibições
Bons ventos para culturas como a soja nos Estados Unidos: em Iowa, Illinois, Michigan, Indiana e Wisconsin, preços de terras agrícolas subiram 12% em 2010.
A expressão "ativos imobiliários" e "boom" tornaram-se quase um tabu nos EUA nos últimos quatro anos. Agora, porém, elas estão ressurgindo, mas não relacionadas a condomínios na Flórida, apartamentos de luxo em Nova York ou comunidades com histórico de crédito de segunda linha na Califórnia. Em vez disso, um dos pontos mais "quentes" no mercado imobiliário americano está no Centro-Oeste, relacionado com terras agrícolas.

Mais especificamente, num momento em que os preços das commodities agrícolas em todo o mundo estão em espiral ascendente, fomentando turbulência no Oriente Médio, os agricultores do Meio-Oeste estão silenciosamente desfrutando um momento de prosperidade. Isso tem provocado um aumento no preço da terra, e agentes imobiliários, agricultores e seus banqueiros estão comemorando.

O Federal Reserve Bank de Chicago calculou, no mês passado, que na região - incluindo Iowa, Illinois, Michigan, Indiana e Wisconsin - os preços de terras agrícolas subiram 12% em 2010. Foi a segunda maior alta em 30 anos e um contraste gritante com os preços imobiliários constantes ou em queda em outras regiões.

E os banqueiros dizem que em alguns bolsões os preços da terra estão subindo a um ritmo ainda mais aquecido, à medida que fazendeiros locais e investidores apostam que a bonança das commodities continuará em 2011 e 2012 devido a uma doloroso descompasso entre a oferta e a demanda agrícolas. "Os preços das terras agrícolas estão atravessando o telhado por causa do boom das commodities - a coisa está muito louca", disse um banqueiro sênior durante um jantar em Minneapolis, recentemente.

Ou, como Jeffrey Conrad, do Hancock Agricultural Investor Group comentou: "As pessoas estão mais otimistas e agressivas".

Bem-vindo a uma das tendências mais politicamente sensíveis de 2011 - não apenas nos EUA, mas no palco geopolítico.

A inflação nos preços dos alimentos parece ter sido um fator chave por trás da turbulência social no Oriente Médio. E mesmo nos EUA, a questão da inflação dos alimentos começa a provocar mais inquietação política, porque as famílias defrontam-se com elevado desemprego e tendências de salários constantes.

O que torna a questão duplamente sensível, do ponto de vista político, é que essas pressões sobre os preços tendem a piorar, e não melhorar. Em sua conferência anual em Washington, na semana passada, o Departamento de Agricultura dos EUA advertiu que os preços nominais no portão da fazenda deverão atingir um recorde para o milho, trigo e soja na safra que começa com as colheitas de 2011, apesar de os agricultores estarem empenhados em plantar mais.

Isso pressionará os preços dos alimentos ao consumidor nos EUA para cerca de 3% a 4% ou mais no segundo semestre deste ano, à medida que a escassez caminha ao longo da cadeia de suprimento, segundo Joseph Glauber, economista-chefe do USDA. Mas economistas alertam que fora dos EUA os preços deverão registrar um salto bem maior.

Embora essa tendência possa ser má notícia para os consumidores, está transformando muitos agricultores EUA em "vencedores" - embora não de uma maneira que os diplomatas ou os políticos estejam ansiosos para anunciar aos não americanos.

O Egito, por exemplo, é o oitavo maior mercado importador dos EUA, em larga medida porque consome uma grande quantidade de trigo: de fato, o Oriente Médio como um todo tem se constituído numa das principais fontes de demanda por exportações agrícolas americanas. É por isso que a alta nos preços do pão no Cairo estão caminhando de mãos dadas com o aumento dos preços da terra no centro-oeste.

E à medida que o "boom" se intensifica, não são apenas observadores do Oriente Médio que se preocupam com o risco de consequências não intencionais.

Algumas agências regulamentadoras americanas começam a temer que um aumento excessivo nos preços da terra no país poderá terminar sendo desestabilizador também para os EUA.

Afinal, como observou Sheila Bair, da Federal Deposit Insurance Comission (FDIC), a última vez em que os preços dos terrenos subiram dramaticamente nos EUA, nos anos 80, o boom foi seguido de colapso dramático.

O lobby agrícola nos EUA insiste ser improvável semelhante colapso neste momento, uma vez que os níveis de alavancagem estão relativamente baixo. No entanto, a FDIC teme que um salto nos juros ou uma queda no preço da terra poderia prejudicar o 1,6 mil bancos agrícolas do país. "Essa situação [com o preço da terra] continuará a exigir uma monitoração muito detida", advertiu.

É uma observação que pode ser aplicada a cada etapa da cadeia alimentar mundial.

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Fonte:
Valor Econômico

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