Sabores e sons de uma colheita de bons lucros

Publicado em 23/03/2011 07:48 179 exibições
Gostoso é sentir nos pequenos municípios do "Brasil profundo" o cheiro de uma safra lucrativa. Mesmo carentes de informações agronômicas e mercadológicas, as pessoas, mesmo as mais simples, já sabem perfeitamente bem que os lucros da produção de grãos irrigarão as economias locais. Hotéis, postos de gasolina e restaurantes já têm mais movimento ou preparam-se para isso, a depender do estágio das colheitas. E torcem, como os agricultores, para que clima, demanda e preços colaborem.

Em Cabeceiras, cidade de pouco mais de 7 mil habitantes no leste de Goiás, Eleniza Soares da Silva já vende 40 refeições por dia no restaurante da família e acredita que o movimento ainda pode crescer um pouco mais. Agrônomos estabelecidos na região ou apenas de passagem prestigiam o Ki Bacana, que também entrega marmitas para uma fazenda próxima. Eleniza chegou a Cabeceiras há 24 anos e não há ao alcance da vista opção ao bom tempero da comida que serve. Na parede do restaurante, os prêmios de melhor restaurante da cidade - "os juízes são de fora daqui", afirma - expõem as dificuldades da concorrência.

Bem perto dali, na também goiana Pires do Rio, Alexandre Souza, sócio do Panela de Ferro, faz as contas e diz que as cerca de 100 refeições diárias que vende normalmente quase dobram na colheita. Como o Ki Bacana, o restaurante também só funciona no almoço, e Souza afirma que há sete ou oito anos não via uma safra boa como a atual. "É bom para todo mundo, e com os ganhos de agora pretendemos expandir o negócio".

A conversa é interrompida pela chegada de David Dou, que nesta época não tem tempo a perder. Ao avistar o movimento no Panela de Ferro, mostra logo o que tem a oferecer e até se irrita um pouco com a demora. Os CDs, piratas, surgem às centenas como uma bênção para quem tem de percorrer dezenas de quilômetros sem que uma estação de rádio dê sinal de vida. "O Gusttavo Lima está vendendo como água", tenta acelerar. E Gusttavo Lima a apenas R$ 4 não é todo dia que aparece.

Longe da estrada, os postos de combustíveis sentem menos as benesses da colheita, mas comemoram o ânimo dos comerciantes. Nas rodovias principais, caminhões e picapes se alternam nas bombas, e nos postos maiores os pátios servem de hotéis - que também se desdobram para atender o número maior de viajantes.

Foi mais ou menos esse o cenário nas 15 localidades dos Estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia visitadas pelo Valor nos seis dias (14 a 19 de março) em que participou do Rally da, expedição técnica organizada pela Agroconsult. E, a esta altura da safra, apenas as fortes chuvas previstas para algumas regiões podem alterar o cenário. No geral, é verdade que pouco. Mas o que pode significar apenas "traço" nas estatísticas nacionais muitas vezes é fatal nessas pequenas comunidades.

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Fonte:
Valor Econômico

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