100 dias de Dilma: Tudo o que foi prometido ficou na promessa

Publicado em 10/04/2011 18:47
no site da Vej (veja.com.br)

100 dias de Dilma

A difícil transição das promessas para a vida real

Neste início de governo, quase tudo o que Dilma Rousseff prometeu reiteradamente durante a campanha eleitoral permanece no discurso

Branca Nunes, Bruno Abbud, Felipe Moraes
Dilma Rousseff durante cerimônia para promoção de oficiais das Forças Armadas no Palácio do Planalto, Brasília

Dilma Rousseff durante cerimônia para promoção de oficiais das Forças Armadas no Palácio do Planalto, Brasília(Evaristo Sá/AFP)

Dilma Rousseff prometeu construir 6 mil creches e pré-escolas até o fim do mandato. Se quiser materializar a promessa, terá de construir uma creche a cada 5 horas e 27 minutos.

Ela já recebeu Barack Obama, preencheu a vaga aberta há 6 meses no Supremo Tribunal Federal, enfrentou uma tragédia que deixou quase mil mortos e uma multidão de flagelados na Região Serrana do Rio de Janeiro, conseguiu uma vitória de peso no Congresso ao aprovar o salário mínimo de 545 reais, participou de programas matinais de culinária na televisão e chegou aos 100 primeiros dias no comando do Palácio do Planalto com 56% de aprovação nas pesquisas. Mas o balanço de pouco mais de três meses do governo Dilma Rousseff confirma que cumprir promessas de campanha é bem mais complicado do que discorrer sobre elas num palanque. Das promessas cumpridas integralmente, destaca-se a distribuição de remédios gratuitos para diabéticos e hipertensos. Outras começaram, lentamente, a sair do papel. O déficit, entretanto, supera o saldo. 

Ao longo da temporada eleitoral, Dilma prometeu reiteradamente construir 6 mil creches e pré-escolas até o fim do mandato. Em 100 dias, inaugurou 54 unidades. Faltam 5.946. Se quiser materializar a promessa, terá de construir uma creche a cada 5 horas e 27 minutos (ver infográfico). Os projetos inviáveis não param por aí. Dilma garantiu que entregaria seis mil quadras poliesportivas, ou uma a cada 5 horas e meia – descontados os 100 primeiros dias, já que nenhuma quadra foi entregue até agora –, 2.883 postos de polícia comunitária (um a cada 12 horas), 500 Unidades de Pronto Atendimento (uma a cada dois dias) e 8.600 unidades básicas de saúde (uma a cada 3 horas e meia). 

Na área da saúde, Dilma lançou no fim de março, em Belo Horizonte, a Rede Cegonha, que dá prioridade ao atendimento de gestantes e bebês na rede pública de saúde, e anunciou, num discurso em Manaus, que 4,5 bilhões de seriam destinados ao diagnóstico, prevenção, tratamento dos cânceres de mama e colo de útero reais – 1,15 bilhão de reais já neste primeiro ano. Foram duas promessas de campanha.

Embora Dilma tenha garantido que não faria ajuste fiscal – “Não vou fazer reajuste fiscal em hipótese alguma”, disse em 23 de agosto de 2010 – o governo cortou 50 bilhões de reais do Orçamento. Desse total, 5,1 bilhões contemplariam a segunda etapa do programa Minha Casa, Minha Vida. Ignorou-se, assim, a promessa de que as obras do Programa de Aceleração do Crescimento não seriam afetadas. A candidata prometeu 2 milhões de moradias equipadas com eletrodomésticos e móveis. Como nada foi feito, a presidente terá de contratar 1.470 casas por dia até o fim do mandato. O corte no Orçamento também adiou a compra dos 36 caças negociados por Lula desde 2007, o que deixará a ideia de reequipar as Forças Armadas para os próximos 1.360 dias de governo.

Outro sonho revogado foi a completa erradicação da miséria, prometida durante toda a campanha e reafirmada no discurso de posse. “Posso não conseguir acabar com a miséria nos meus quatro anos, mas eu vou insistir tanto nisso, que esse objetivo vai ficar selado nas nossas consciências”, voltou atrás em 28 de março. Outras ousadias incluídas no programa eleitoral são a de acabar com o analfabetismo – o que significa alfabetizar 9.008 pessoas por dia – e levar internet de banda larga a 49.046.490 domicílios (36.063 a cada 24 horas).

Maioria no Congresso
O preço pago por uma maioria consistente no Congresso, que permitiu a aprovação sem sobressaltos do salário mínimo de 545 reais, comprometeu outros projetos de Dilma. A candidata afirmou que privilegiaria nomeações técnicas, substituindo indicações políticas pela meritocracia. No primeiro escalão, entretanto, existem excentricidades como Pedro Novais, ministro do Turismo. Deputado do baixo clero, o maranhense octogenário é, sobretudo, afilhado político de José Sarney. 

A derrota nas urnas transformou-se em critério para o preenchimento de cargos. Aloizio Mercadante fracassou na disputa pelo governo de São Paulo e ganhou o Ministério da Ciência e Tecnologia. O mineiro Fernando Pimentel ficou fora do Senado, mas levou o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Vencida nas urnas em Santa Catarina, Ideli Salvatti recebeu o Ministério da Pesca. E a vice-presidência da Caixa Econômica foi o prêmio de consolação para Geddel Vieira Lima, 3º colocado na eleição estadual baiana.

“O ministério de Dilma é cinzento, não sabe gerir”, observa o historiador Marco Antonio Villa. “Ela sequer se reuniu com todos os ministros nesses 100 dias. É politicamente ruim, que não consegue administrar o cotidiano do país, tampouco seu futuro”.

Dos 37 ministros, Dilma ainda se não encontrou em particular com seis deles. Segundo o jornal O Globo, Jorge Hage (CGU), Pedro Novais, Mário Negromonte (Cidades), Garibaldi Alves Filho (Previdência), Wagner Rossi (Agricultura) e Moreira Franco (Assuntos Estratégicos) não tiveram uma conversa reservada com a presidente. À constelação de gabinetes – a China se limita a 27 ministérios e os Estados Unidos, a 15 – serão acrescentados outros três. Dilma anunciou a criação das secretarias de Irrigação e de Aviação Civil e do Ministério da Micro e Pequena Empresa. O terceiro atende a uma promessa de campanha.

Para Villa, foi a pior idéia em 100 dias. “Isso só aumenta os gastos e pulveriza os mecanismos de decisão”, argumenta o historiador. “Criar mais ministérios é uma desconsideração com a crítica ao inchamento da máquina pública e ao aumento de gastos”.

Trem-bala e outras heranças
Como o PAC, o trem-bala é outra obsessão de Dilma Rousseff desde os tempos de ministra chefe da Casa-Civil. Durante a campanha, insatisfeita com trajeto que ligaria Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro – que Lula anunciou para 2010 – Dilma estendeu os trilhos ao Triângulo Mineiro e multiplicou o número de estações: "A obra deve começar em 2011 e, além desse trem, o governo estuda dois novos trechos: de Campinas a Belo Horizonte e de Campinas ao Triângulo Mineiro", afirmou em 1º de julho do ano passado.

Nesta terça-feira, a Câmara dos Deputados aprovou a medida provisória que autoriza a criação da Empresa do Trem de Alta Velocidade (ETAV) e o empréstimo de até R$ 20 bilhões do BNDES ao consórcio vencedor da licitação. Mas já se sabe que o trem-bala não ficará pronto antes de 2016. Depois dos Jogos Olímpicos do Rio.
Para consumar outras promessas do antecessor, Dilma terá de ampliar três aeroportos – o Galeão, no Rio de Janeiro, o Afonso Pena, em Curitiba, e Guarulhos, em São Paulo – e incorporar uma nova pista ao aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Também anunciou a construção de refinarias cujos alicerces já foram fincados pelo governo Lula. É o caso da Clara Camarão, no Rio Grande do Norte, iniciada em 2009, e da Premium I, no Maranhão (2010). O começo das obras da refinaria Premium II, em Caucaia, no Ceará, está previsto para setembro. Deverá ser inaugurada em 2017. A segunda fase do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro só sairá do papel em 2018.

Ainda mais ousada que o padrinho, Dilma prometeu criar em quatro anos a mesma quantidade de empregos que Lula diz ter criado em oito: 15 milhões. Segundo o Ministério do Trabalho, foram 448.742 novos postos de trabalho com carteira assinada em janeiro e fevereiro desde ano. Faltam 14.551.258. 

Política Externa e economia
No campo da política externa, o silêncio cúmplice de Dilma foi substituído por atitudes que Lula certamente não adotaria. No governo anterior, o Brasil se absteve nas votações que condenaram o Irã por violações aos direitos humanos. Há três semanas, o embaixador brasileiro votou a favor do envio de um relator da ONU para apurar denúncias envolvendo o regime islâmico fundamentalista. As demonstrações de simpatia por ditadores africanos e os afagos em Hugo Chávez, Fidel e Raul Castro também foram temporariamente suspensos. 

Apesar dos sobressaltos provocados por aumentos de preço, o balanço é positivo na área econômica. Marcelo Fonseca, economista da gestora M. Safra, acredita que Dilma está determinada a impedir a volta da inflação. 

Desde 1985, com o fim do regime autoritário, os presidentes têm agido com prudência nessa etapa inicial. A exceção foi Fernando Collor, que não esperou sequer 24 horas para confiscar as cadernetas de poupança com mais de 50.000 cruzeiros (aproximadamente 17.000 reais em valores de hoje). Os 100 primeiros dias são, tradicionalmente, um período de trégua concedido ao chefe de governo tanto pelos opositores, quanto pelos governistas. A fase mais difícil começa agora.

info Dilma 100 dias

Economia desafia a popularidade de Dilma Rousseff

Presidente começa governo com a aprovação de metade dos brasileiros

Carolina Freitas
A presidente é recebida por eleitores em Irecê, na Bahia, em março: melhor popularidade em início de governo desde 1990

A presidente é recebida por eleitores em Irecê, na Bahia, em março: melhor popularidade em início de governo desde 1990 (Roberto Stuckert Filho/Presidência da República)

“Quanto pior a economia, pior a avaliação do governo”, Mauro Paulino, diretor do Datafolha

Dilma Rousseff chega aos 100 dias de governo com aprovação de metade dos brasileiros. O porcentual de entrevistados que avaliou a gestão como ótima ou boa foi de 47% de acordo com pesquisa do Instituto Datafolha e de 56% de acordo com a CNI/Ibope. O feito é inédito entre os últimos quatro presidentes. Após três meses de seu primeiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva tinha 43% de aprovação, segundo o Datafolha, Fernando Henrique Cardoso começou o governo com 39%, Itamar Franco com 34% e Fernando Collor com 36%.
 
Apesar do apoio popular nesse início, Dilma terá pela frente alguns obstáculos a superar. Entre eles, o maior vilão para a popularidade de qualquer governante: economia em zona de turbulência. “Quanto pior a economia, pior a avaliação do governo”, sentencia o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. Talvez o único ato tão impopular quanto aumentar os juros e restringir o acesso ao crédito seja permitir a alta nos preços e a volta da inflação. Dilma, portanto, está numa encruzilhada. Até agora, parece ter escolhido o caminho do combate à inflação. Precisa mostrar, então, como administrará as consequências da restrição ao crédito, com seus efeitos sobre o crescimento da economia.
 
Além das duas altas seguidas na taxa básica de juros, a Selic, o governo Dilma aumentou na semana passada a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoas físicas. Resultado: o crédito ficará mais caro, com efeito direto no bolso da classe média que melhorou de vida nos últimos anos às custas de muitas dívidas.  
 
“Dilma tem aprovação alta entre quem ganha até um salário mínimo e entre quem ganha mais de dez salários mínimos. O desafio dela será conquistar a camada entre esses dois grupos, a classe C”, diz a historiadora e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Jacqueline Quaresmin. “A classe C comprou apartamento e carro, viajou, fez dívidas. Serão justamente eles, agora, os mais afetados pelas decisões econômicas que o governo vem tomando.”
 
Quando a economia vai mal, nem mesmo medidas acertadas garantem a manutenção da popularidade. Foi o que aconteceu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele atravessou crises econômicas internacionais, alta no desemprego e ataques especulativos durante seus oito anos de governo. Salvaguardado por uma forte equipe econômica, fez o que tinha de ser feito para conter a inflação e o desequilíbrio da economia. Terminou o governo com 36% dos brasileiros avaliando a administração como ruim ou péssima.
 
“Fernando Henrique administrou em um contexto de crise. Teve de fazer cortes, medida vista como impopular”, diz Jacqueline Quaresmin. “Isso teve um impacto negativo em sua popularidade. Mesmo assim, ele conseguiu se reeleger bem, pois havia confiança no governo. A política dele foi coerente, dentro de um projeto desenvolvimentista. E o Brasil evoluiu muito.” 
 
Atenção às pesquisas – Sempre comemoradas como grandes conquistas pelos ególatras do governo anterior, as pesquisas de popularidade eram banalizadas e se transformavam em meras peças de promoção pessoal do inquilino do Palácio do Planalto. Bem utilizadas, porém, elas podem ser peças importantes para nortear a adoção das políticas públicas que a população elege como suas prioridades. “Nenhuma democracia vive sem pesquisas de popularidade. Elas são tão importantes que, em ditaduras, são proibidas ou controladas”, diz o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.
 
Além dos estudos divulgados pelos institutos de pesquisa, os presidentes encomendam levantamentos específicos para medir a opinião do povo, especialmente quando têm de tomar alguma decisão controversa. O monitoramento foi feito antes de o governo aprovar a Lei da Biossegurança, em 2005, que autorizou a pesquisa e plantação de alimentos transgênicos. E tem sido feito à respeito da construção da Usina de Belo Monte, no Pará.
 
Um exemplo da atenção dispensada pela equipe de marketing de Dilma Rousseff às pesquisas de opinião foi a aproximação da presidente das mulheres. O grupo sempre teve resistência a Dilma, desde a campanha eleitoral. Cada movimento da presidente foi calculado para agradar a esse eleitorado, a começar pela nomeação de nove ministras. 
 
Nos três primeiros meses de governo, Dilma peregrinou por programas de amenidades apresentados por ícones femininos como Hebe Camargo e Ana Maria Braga. A gerente dura e sem paciência deu lugar a uma mulher que chorou em público a morte do amigo José Alencar e o massacre de Realengo, no Rio de Janeiro. O reflexo desse esforço de humanização veio na pesquisa Datafolha: a aprovação de Dilma entre as mulheres chegou a 51%, contra 43% entre os homens. Dilma tem a confiança do povo nas mãos. Resta saber o que fará com ela.
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