Resposta a um ecologista que deseja punir quem desmatou para plantar

Publicado em 08/05/2011 18:27 e atualizado em 11/05/2011 12:33 1495 exibições
Carta de um homem que veio do campo...

Caro Renato!

 

Não sei se o amigo em questão é oriundo do campo ou se nele já labutou, eu e tenho certeza, muitos outros milhões que hoje vivem nas cidades, viemos do campo, brinquei de mergulho no rio usando como trampolim o galho das arvores, acordava muito antes do galo para poder dar conta do recado antes de enfrentar 10, 15 km de estradão de chão poeirento ou lamacento para chegar na escola na cidade, muitas vezes iamos a pé, de carona agarrados nas laterais da carroceria dos caminhões, de bicicleta era mais comum, quando tínhamos condições de comprar... na volta tínhamos de voltar atacando os pomares no caminho para mata a fome, pé de cana não ficava touceira inteira, laranja, manga, goiaba, banana então nem se fala, chegando em casa, lá pelas 2 ou 3 da tarde, corríamos direto pra cozinha, pegar a comida que ficava aquecida num forninho de LENHA que tínhamos de cortar do mato nativo todo dia pra deixar na beira do fogão e facilitar a vida de nossa mãezinha que tinha jornada TRIPLA, comíamos e íamos para a lida, meus pais já estavam lá desde o nascer do sol e lá ficávamos até não se pdoer mais enxergar sem o uso de lampião, muitas e muitas noites ficávamos horas a noite nos barracões escolhendo e selecionando, encaixotando e carregando os caminhões que iriam de madrugada para o CEASA, dormíamos coisa de 5 a 6 horas e olhe lá, eu tinha o que, 7, 8 anos, meus dois irmãos menores, com 4 e 6 que ainda não iam pra escola, já estavam lá colhendo tomate, escolhendo, lavando, limpando, capinando com uma enxadinha menor, cuidando da irrigação dos canteiros, eu chegava e já me assumia o guidão de um tobata para dirigir e arar os canteiros para plantar as mudas de alface e outras hortaliças, meus irmãos mais velhos cuidavam da lavoura maior, tomate, melancia, milho, pepino, etc., trabalho pe sado, coisa de gente grande, trator grande, tínhamos de arar a terra, destocar, DESMATAR, capinar e cuidar constantemente para que pudéssemos transformar áreas improdutivas tomadas de mata e pasto em área de cultivo de ALIMENTOS que após tanto sofrimento, carregávamos nos caminhões e na kombi e íamos madrugando nos domingos para a cidade, levar para vender na feira nos domingos e para o CEASA nas terças e quintas, eu só ia no domingo, eita vidinha ruim a de AGRICULTOR neste país, depois de tanto sacrifício, víamos ser jogado mais de 30% do que colhíamos aos porcos e galinhas da fazenda porque o pessoal da cidade achava que nossos produtos estavam muito CAROS e nos obrigávamos a vender quase de graça pra poder compensar a viagem e o esforço, e ainda tinha de ficar dando produto de graça pra policia rodoviária, fiscal da prefeitura e tudo quanto é larápio que se apresentava como "gente do governo" e que encostava na gente... era uma alegria poder pegar uns trocados e ir comprar uns pastéis que saciavam nossa fome... eu sempre que podia comprava LIVROS, pois meu velho pai, um ex-combatente da segunda guerra e piloto de caças, sempre nos dizia que EDUCAÇÃO ERA A ÚNICA COISA QUE ELE PODERIA DEIXAR PARA NÓS NO BRASIL, porque aqui ninguém valoriza quem PRODUZ ALIMENTOS..., éramos crianças e já conscientizados pelo nosso velho pai, amaldiçoávamos a vida na roça, que era só trabalhar, trabalhar, trabalhar e nada de respeito, nem consideração, nem fartura, nem nada... hoje vivemos todos na cidade, MAS JAMAIS CUSPIREMOS NAQUELES QUE LABUTAM DE SOL A SOL E NOITE A DENTRO para produzir o que comemos, NÃO É NOSSO DINHEIRO QUE NOS GARANTE O QUE COMER, mas sim o sacrifício desta gente corajosa que desbrava, destoca, desmata, ara a terra, planta, colhe e nos agracia com seu fruto do sofrimento, MAS QUE ACIMA DE TUDO CUIDA DO SOLO, PLANEJA, EXPLORA, RECUPERA E DEPENDE deste solo mãe gentil que lhe garante a subsistência, cansei de ver meus pais e irmãos fazendo isso e nunca os ví cuspir na terra que nos dava alimentos, ví meu pai e meus irmãos, eu inclusive, drenar, tratar e fazer um banhadão morto e fedorento de água podre produzir toneladas e toneladas de pepinos, vagens, quiabos, beringelas, gilós, alface... na época pudemos alimentar o povo do bairro e da fazenda de café, cuja população ignorante era composta de descendentes de ex-escravos que só sabiam plantar e colher café, eles nos adoravam e reconheciam nosso trabalho que lhes garantia alimento farto, hoje seríamos presos com certeza... esta mesma gente que vc (penso que no seu caso por mero equívoco ou incosciência quanto a importância maior do produtor rural) e milhares de outros bem ou mau intencionados para com o nosso Brasil e nosso irmãos brasileiros que PRODUZEM ALIMENTOS, podem estar sendo injustos ao apontar-lhes os dedos (certamente irresponsáveis), tratando-os como BANDIDOS!!! mas pode ficar tranquilo, vc não está errado, SIM AMIGO, sob esta óptica SOMOS E SEREMOS SEMPRE MARGINAIS, pois o agricultor em toda a história da humanidade SEMPRE SE SACRIFICOU para abastecer a humanidade E SEMPRE FOI MARGINALIZADO pelas sociedades CULTAS DAS CIDADES, que sempre os tratou como CAIPIRA, JÉCA, ZÉ-DA-ROÇA... 

 

Queria ver se o campo parasse de produzir, queria ver o que faríamos com nosso VALOROSO DINHEIRO, veículos, tecnologia, etc., veria-se rapidinho que não dá pra comer, mas dá pra comprar, ENQUANTO TIVER o que comprar e depois??? Só para lembrar: UCRANIA,(lá pelo leste europeu, região próxima da Hungria, de onde saiu refugiado a família do presidente Thomas) = mais de 11 MILHÕES DE MORTOS (DE FOME), porque os comunistas trataram de marginalizar os produtores e roubar-lhes tudo, no campo houve mais SOBREVIVENTES do que nas CIDADES... a razão é óbvia...

 

Agora vemos aqui a lei dos gordos abastados da cidade atazanando a vida do miserável do campo e ainda literalmente marginalizá-lo, nada de mais pra eles, sempre souberam-se marginalizados, sempre a margem da lei, pois eles não conhecem direito das leis, apenas tentam sobreviver, desmatam por falta de orientação técnica (sabemos que existem os que o fazem mau intencionados, estes sim devem ser responsabilizados, mas há que se considerar os motivos e jamais, JAMAIS, tratá-los na mesma forma que se trata um bandido qualquer, pois estes homens do campo são os verdadeiros heróis e é assim que devem ser reconhecidos pela sociedade... eu ví lá no japão, o respeito que a sociedade tem pelos seus agricultores, principalmente o governo e os governantes, RESPEITO É A ÚNICA COISA QUE O HOMEM DO CAMPO DESEJA!!! pois o resto ele não pede, não implora, não reclama, ele se sacrifica e nos garante o pão de cada dia e a fartura nas gondolas e prateleiras das cidades...

 

PENSE NISSO AO SE REFERIR AOS VERDADEIROS E ABNEGADOS HERÓIS DESTE PAÍS E DO MUNDO QUE PRECISA DE COMIDA NA MESA!!!
H.S. Morita - C.E.O

Colecionada e reenviada por Telmo Heinen de Formosa (GO)

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Abrasgrãos

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