Seca na China aumenta preocupações com o abastecimento mundial de grãos

Publicado em 31/05/2011 15:48 e atualizado em 31/05/2011 17:26 405 exibições
Uma seca prolongada na China pode atingir a produção de grãos nas principais regiões de
cultivo, apertando ainda mais os estoques globais e exercer uma pressão ascendente sobre os preços, mas os ainda abundantes estoques de trigo da produção nacional vão agir como um amortecedor e manter os volumes de importação baixos, por enquanto.

Os analistas do mercado de grãos estão acompanhando muito de perto o clima na China, buscando indícios para qualquer choque de oferta futura dos mercados de grãos, que poderia
alimentar uma corrida ainda maior nos mercados futuros de milho e de trigo nos EUA (que afeta os preços no mundo todo) e já encontrando suporte no clima muito desfavorável para a safra de grãos nos Estados Unidos e também na Europa, após um inverno  muito rigoroso com excesso de queda de neve no hemisfério norte.

"Algumas regiões da China estão sofrendo com clima muito seco e se houver quebras de safra nessas regiões produtoras deveremos saber para que  parte do mundo eles vão olhar no mercado global de suprimentos para se abastecer", disse Luke Mathews, estrategista de commodities do Commonwealth Bank, da Australia.

"Eles vão ter que olhar para a América do Norte e para a Europa,  e há uma quantidade significativa de preocupação particular se esses países serão capazes de satisfazer essas necessidade", completou. 

O preço do milho na Bolsa de Chicago subiu 80% desde o  início de maio do ano passado, enquanto o trigo aumentou cerca de 50%. Só na semana passada o milho e o trigo saltaram mais de 10% em seus preços com as expectativas de um aperto global de suprimentos de grãos de uma maneira geral.

A semeadura da cultura do milho no tempo oportuno é fundamental para um ótimo rendimento, necessário para repor as fontes e depósitos de grãos dos EUA que são projetadas para o seu nível mais baixo em 15 anos, em  meio à forte demanda dos criadores de gado, os fabricantes e exportadores de etanol. Cerca de 80% da área de milho dos EUA foi plantada, de acordo com o USDA (Departamento deAgricultura dos Estados Unidos), mas a previsão de novas chuvas nesta próxima semana são esperadas com a paralisação do final das semeaduras de milho.

Chuvas no norte da região de Planície nos EUA (que causaram as cheias recordes na bacia dos Rios Missouri/Mississipi) puseram plantações de trigo da primavera em atraso, com a semeadura de apenas 34% concluída no principal estado produtor de trigo, a Dakota do Norte, frente a
um ritmo normal que deveria estar em 85%.

Previsão para o milho, inflação

A previsão de órgãos do governo chinês é de que a produção de milho para 2011 atinja um recorde de produção de 181,50 milhões de toneladas devido ao aumento da área cultivada, mas analistas disseram que será uma meta difícil de alcançar.

"O nível de 180 milhões de toneladas por ano/safra é um gargalo, e a previsão do mercado em geral, que ainda está por vir, deve ser menor do que a previsão do governo chinês", disse um analista da consultoria China Milho. Os preços do milho no mercado doméstico bateram um recorde histórico de alta em março. Isso, junto com as reservas de milho em baixa, tornou difícil para Pequim de neutralizar o aumento de preços dos alimentos, elevando a taxa de inflação do
país para um total de 32 meses seguidos de alta em março.

Os preços dos alimentos caíram 0,4 % em abril, em relação à março,  mas aumentou de 11,5% em relação ao mês anterior. "Os suprimentos globais de milho estão extremamente apertados e os mercados do mundo está apostando em aumentos significativos na produção", disse Mathews. "As autoridades chinesas estavam sugerindo uma elevação da área de produção local e eles vão precisar cada pedacinho de terreno cultivável."

O  Barclays Capital advertiu que os recentes incidentes climáticos extremos criaram riscos ascendentes para a inflação de alimentos para o segundo semestre de 2011, citando a China como uma das áreas de grandes preocupações. "As condições de seca, como na bacia do rio Yangtze e Shandong, no leste, tendem a pesar sobre a produção chinesa de alimentos e um aumento de demanda de importação", disse o banco em um relatório.

"Shangdong recebeu apenas 12 mm de chuva desde setembro de 2010, ou seja, nada. Alguns relatórios indicam que cerca de 40% da colheita da província de trigo já foi perdida." A          produção total de trigo da China ficou em 115 milhões de toneladas no ano passado, mostraram dados oficiais. No entanto, Yang Hai, um analista de trigo da ESunny Information e Technology CO. disse que na China é provável que assistamos a um pequeno aumento na produção de trigo este ano.

Os  níveis de água no meio do rio Yangtze estão 6 metros mais baixo do que eram neste mesmo período do ano passado, com volume de chuvas de apenas um  quinto dos níveis observados em 2010, segundo o jornal China Daily, citando as agências humanitárias locais de controle da seca. A Administração Meteorológica da China disse na quarta-feira que a precipitação média de chuvas em Anhui, Jiangsu, Hunan, Hubei, Jiangxi, Zhejiang e Xangai, que são as principais áreas produtoras de arroz da China, é a menor desde 1954.

A seca persiste e é grave na principal região produtora de arroz na China.

Estoques, irrigação

O mercado ainda não está muito preocupado sobre o abastecimento de trigo na China, com a produção final do ano-safra 2010/11 estimada em 60 milhões de toneladas pelo USDA.  "O clima este ano é provável que seja anormal, com o norte da China provavelmente enfrentando enchentes, enquanto o sul da China provavelmente sofre com a seca", disse Gao Yanrong, analista da  Dalu Futures.

Autoridades na China disseram que as instalações de irrigação irão limitar o risco para a cultura do milho, mesmo se houver seca, mais tarde, nas principais áreas de crescimento do grão. "Temos os poços, e nós podemos irrigar (o milho), mesmo se houver uma seca", disse um funcionário do ministério da Agricultura na província de Shangdong.

A China virou importador de milho no ano passado, com a compra de 1,57 milhões de toneladas, a maior aquisição em 15 anos, e quase tudo veio dos Estados Unidos. Em março, a Sinograin - China Grain Reserves Corp - , que gere as reservas de grãos do governo central da China, comprou 1 milhão de toneladas de milho dos EUA.  O  país também está buscando outras origens e o desenvolvimento de novas fontes de fornecimento. O ministro da agricultura da Argentina,
Oscar Solis, disse em abril que o seu país espera para elaborar um protocolo de saúde e de exportação de 2 milhões de toneladas de milho para a China este ano.

Analistas dizem que o clima em julho e agosto, que é o período crucial de crescimento das culturas, será o fator decisivo para as compras finais.

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Fonte:
Reuters

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