União Europeia adia para julho ajuda financeira à Grécia

Publicado em 20/06/2011 08:51 256 exibições
Aprovação depende de aval do Parlamento grego e da definição de papel do setor privado no pacote de auxílio à economia do país europeu (em veja.com.br)

Os ministros de Finanças da zona do euro encerraram a reunião deste domingo sem um acordo para desbloquear o quinto lance de resgate à Grécia, segundo confirmou a ministra de Economia e Finanças espanhola, Elena Salgado.

"Foi impossível decidir hoje sobre o desembolso", disse por sua vez o ministro de Finanças belga, Didier Reynders, em declarações à imprensa depois que o Eurogrupo concluiu sua reunião da segunda-feira após 7 horas de negociações.

"Foi impossível porque precisamos primeiro de uma clara decisão por parte do Parlamento grego. No início de julho decidiremos, e organizaremos o plano de resgate no começo desse mês", explicou Reynders.

Segundo os ministros, devem ser cumpridas três condições antes desse desembolso: a aprovação por parte do Parlamento grego do programa associado à ajuda; avançar na definição do plano de resgate a longo prazo como pede o Fundo Monetário Internacional e definir o papel do setor privado em um segundo programa de ajuda.

"Não posso imaginar nem por um segundo que possamos comprometer a financiar a Grécia sem contar com um compromisso das autoridades gregas com o programa", disse o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, ao término da reunião.

Sobre a implicação do setor privado, Juncker assegurou que nesse aspecto houve "um progresso a respeito das últimas semanas", pois, disse, "o Eurogrupo aceitou o acordo franco-alemão de optar por uma participação 'voluntária'".

A ministra de Economia e Fazenda espanhola, Elena Salgado, considerou, por sua vez, que "seria desejável ter (o dinheiro) hoje" mas explicou que, segundo sua opinião, tê-lo pronto em julho é suficiente.

"Não se põe em questão a quantidade. Mas não se aprova esse desembolso até que não se tenham estudado algumas condições para o novo programa, não se tenha realizado essa sessão do Parlamento e não se tenha reunido as autoridades gregas comprometidas à participação do setor privado de maneira voluntária", disse a ministra espanhola.

O comunicado aprovado pelos ministros explica que "se buscará a participação do setor privado de modo que os credores gregos assinem de maneira informal e voluntária a nova dívida do país". 

Comissário europeu descarta contágio da crise grega para outras economias

Olli Rehn acredita que atraso na liberação do pacote de ajuda financeira não trará maiores problemas à economia europeia

O comissário europeu de Assuntos Econômicos e Monetários, Olli Rehn, reconheceu nesta segunda-feira sua preocupação sobre "um potencial contágio" da crise grega após o atraso do próximo plano de resgate ao país, mas disse confiar que a zona do euro tomará as decisões necessárias para evitá-lo.

Neste sentido, acredita que os ministros de Finanças europeus avançarão durante a jornada desta segunda-feira no impulso do reforço do fundo de resgate para países com problemas de solvência e também sobre a reforma da disciplina orçamentária comum.

"Estou preocupado sobre um potencial contágio", disse Rehn, em declarações ao chegar ao segundo dia de reuniões de ministros de Finanças da zona do euro.

Os ministros concluíram nesta madrugada a primeira jornada de reunião, após sete horas de negociações, sem chegar a um acordo sobre o desembolso do quinto lance do programa de resgate da Grécia, que representa 12 bilhões de euros, 8,7 mil da União Europeia (UE) e 3,3 mil do FMI (Fundo Monetário Internacional).

Rehn explicou que se estão "tomando as decisões necessárias sobre o próximo desembolso", o que permitirá que este se faça "a tempo para evitar a moratória", com a condição prévia que o Parlamento grego aprove antes do final de junho a estratégia fiscal a médio prazo e o programa de privatizações do governo.

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

A crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega deois da capital, os serviços de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.

(Post publicado originalmente dia 17 de junho de 2011, por Ricardo Setti).

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Veja.com.br

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