Fusão Pão-de-Açúcar/Carrefour: "Se houve participação da presidente Dilma, o caso é ainda mais grave"

Publicado em 29/06/2011 19:04 1139 exibições
Em entrevista à revista Veja o economista Sérgio Lazzarini prova de que houve ingerência política, o que tornaria indefensável o envolvimento do BNDES na fusão de Carrefour e Pão de Açúcar


Sergio Lazzarini, professor do Insper

Sérgio Lazzarini: Não há sentido em criar um 'campeão nacional' do varejo (VEJA)

BNDES não deveria participar da operação do Pão de Açúcar por estimular a concentração setorial; porque existe risco de estímulo à inflação; por ser uma operação arriscada, com risco de ser seriamente restringida pelo Cade; e por envolver conflito societário

O aval da presidente Dilma Rousseff para o aporte de 1,7 bilhão de euros do braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o BNDESPar, à proposta de fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour, coloca novamente a atuação do banco em xeque. Não bastasse a atuação questionável do BNDES ao auxiliar uma operação privada, sem nenhum retorno social e fora de qualquer setor estratégico para o país, a decisão ainda teve cunho político. Abílio Diniz – grande amigo da presidente Dilma, como ela mesma afirmou em discurso, e personagem central da operação– é um claro exemplo de como uma parcela do empresariado tem convidado o estado a se imiscuir no setor privado. “É uma tendência forte no Brasil haver uma movimentação empresarial influenciada pelo governo”, afirmou ao site de VEJA o economista do Insper Sérgio Lazzarini, autor de Capitalismo de Laços, livro fundamental para compreender a peculiar imbricação entre os setores público e privado no capitalismo brasileiro. Em seu estudo, Lazzarini relata as principais operações que contaram com auxílio público e explica como governo e empresariado se relacionam politicamente. Sobre o banco de desenvolvimento, o economista escreve: “As participações do BNDES continuam sofrendo críticas porque falham em demonstrar os benefícios (em comparação aos custos) de seu envolvimento em consórcios e grupos. Vale a pena fazer essas alocações, dadas as inúmeras necessidades da economia brasileira?”

Qual recado o envolvimento da presidente Dilma Rousseff na proposta de fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour passa para o mercado?

Se a participação da presidente for confirmada, configura-se um problema muito grave. O BNDES, como órgão técnico, tem de ter autonomia para julgar quais são as melhores alocações, e não atuar por determinação da Presidência. O banco existe para executar políticas de investimento que tragam benefício para o país. Não é isso que está acontecendo quando se analisa essa proposta.

Quais são os principais problemas da entrada do BNDES nessa operação?

Posso resumir em quatro. Primeiro, ele irá estimular a concentração setorial. Em diversas microrregiões, o consumidor poderá ter menos opções de compra. Em segundo lugar, nós estamos em um momento de controle inflacionário, e o governo vai apoiar uma negociação que poderá desestimular a competição em muitas regiões, o que pode gerar aumento de preços. Tem também a questão da análise antitruste. Como o BNDES vai investir em uma operação que ele não sabe se será aprovada pelo Cade? O negócio poderá ter muitas restrições e isso poderá tornar o investimento desinteressante após o julgamento do órgão. E, por fim, o banco irá se envolver em uma história séria de conflito societário. É uma operação polêmica e que foi descoberta de forma conturbada. Como um banco de desenvolvimento social vai dar aval para isso? Se fosse um fundo privado, tudo bem. Mas sendo um fundo de participações público, não faz sentido.

Não há sentido nem mesmo na ideia de criar um campeão nacional de varejo?

Nenhum. O varejo é um setor muito peculiar e regionalizado. O Walmart e o Carrefour, por exemplo, são muito grandes em seus países, mas têm dificuldades em diversos locais, como a Ásia, por exemplo. Então a internacionalização do Pão de Açúcar não justifica nada. É um contrassenso. Não há benefício visível nessa alocação do governo.

A operação para criar o Novo Pão de Açúcar pode ser considerada um exemplo prático de “capitalismo de laços”?

Sem dúvida. Há uma tendência de movimentação do governo para fazer a junção de grupos privados e criar “campeões nacionais” com capital público, por meio do BNDES ou dos fundos de pensão. Isso não é novo, mas tornou-se mais frequente.

Essa tendência remonta a quando?

Já na época das privatizações, na década de 1990, houve uma interação muito grande do governo com o setor privado, por meio dos fundos de pensão, para concessões e leilões nos setores de telefonia e energia, por exemplo. Contudo, não havia esforço para consolidar setores da economia, como houve nos últimos anos nos casos de VCP e Aracruz, de Sadia e Perdigão, e agora com essa possibilidade de fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour.

Qual é a principal diferença entre os dois modelos?

A articulação política tanto nas privatizações quanto nessas investidas no governo via BNDES recebeu críticas. A diferença é que, quando os veículos de investimento são os fundos de pensão, que controlam o dinheiro de funcionários e ex-funcionários das estatais, o objetivo de investimento é claramente obter lucro. Não há nenhum objetivo de fomento social. Já com o BNDES, é diferente. É o dinheiro público que está em jogo e é preciso haver uma razão muito específica para explicar o aporte. Faria mais sentido, por exemplo, o BNDES investir na Embraer para torná-la uma referência mundial em tecnologia no setor de aviação e defesa.

Operação do Pão de Açúcar não teria dado certo sem aprovação de Dilma

O empresário Abílio Diniz só teria se decidido pela fusão com o Carrefour depois de consultar o BNDES e a presidente Dilma Rousseff

Angela Pimenta
O empresário Abílio Diniz também apoiou a candidatura de Dilma à Presidência

O empresário Abílio Diniz também apoiou a candidatura de Dilma à Presidência (Foto: Leo Caldas)

A aprovação do governo era crucial para a engenharia financeira do novo “Carreçúcar”, que só ficaria de pé com o investimento de 4,5 bilhões de reais a ser feito pelo BNDES

Logotipo Exame.com O empresário Abílio Diniz só teria se decidido pela fusão com o Carrefour depois de consultar o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que por sua vez teria recebido o sinal verde da presidente Dilma Rousseff.

Recentemente, Diniz procurou Coutinho para falar da fusão. Seu argumento principal era a iminente oferta hostil do grupo francês Casino - sócio do Pão de Açúcar e maior competidor do Carrefour. Diniz também teria descrito ao presidente do BNDES o formato da fusão, que conta com a participação do grupo Gama, de André Esteves.

A aprovação do governo era crucial para a engenharia financeira do novo “Carreçúcar”, que só ficaria de pé com o investimento de 4,5 bilhões de reais a ser feito pelo BNDES. Como bons adeptos da escola desenvolvimentista, tanto Dilma quanto Coutinho apoiam a criação de “campeões nacionais”, como deverá ser a nova cadeia de varejo.

Se aprovada pelo Cade, ela deverá abocanhar cerca de 30% do mercado do país. E é bom lembrar também que Diniz, que apoiou a candidatura de Dilma à presidência, goza da admiração dela. Ele é um dos conselheiros da Câmara de Gestão e Competitividade do Planalto, que visa aprimorar a gestão da máquina federal.

Na cerimônia de lançamento da iniciativa, no dia 11 de maio, Dilma fez elogios rasgados ao empresário: “O meu amigo Abilio Diniz dispensa apresentações. Não poderíamos contar com conselheiro mais oportuno do que o maior empreendedor brasileiro do ramo de varejo, distribuição e logística. Atender bem o consumidor, no tempo certo e da forma adequada é ensinamento de grande utilidade para o governo — para qualquer governo —, cuja obrigação mais importante é, justamente, responder adequadamente, sem demora, às demandas dos cidadãos.”

Negócios

Novo Pão de Açúcar: um negócio em que o BNDES não deveria estar

Como entidade que trabalha com dinheiro público, o BNDESPar deveria seguir o interesse público na hora de fazer suas apostas. Não é o caso dessa fusão

Ana Clara Costa e Beatriz Ferrari
Abilio Diniz

Abilio Diniz, do Pão de Açúcar: jogada ousada (Edu Lopes)

A tese fraca da "internacionalização" é a única que pode ser esgrimida para justificar a presença do BNDESPar na transação

A fusão de Pão de Açúcar e Carrefour, em estudo oficialmente desde esta terça-feira, deverá contar, como já se tornou praxe em anos recentes, com a participação bilionária do BNDESPar, o braço de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O aporte, mais precisamente, será de cerca de 4 bilhões de reais (ou 1,7 bilhão de euros). Como todo fundo de investimentos, o BNDESPar rastreia o mercado em busca de oportunidades. Não há dúvida que participar da união de duas gigantes do varejo é uma oportunidade extraordinária. Como entidade que trabalha com dinheiro público, no entanto, o BNDESPar deveria obedecer também ao interesse público na hora de fazer suas apostas. E, a menos que se dê a ele uma definição muitíssimo ampla, esse interesse não entra na equação que reúne Pão de Açúcar e Carrefour. 

Em comunicado ao mercado, o BNDES procurou explicar as razões por que pretende apoiar o negócio. “Caso o projeto em questão se concretize", diz a nota, "o grupo assumirá uma posição estratégica no Carrefour, um dos maiores varejistas globais, abrindo caminho para maior inserção de produtos brasileiros no mercado internacional.” É um argumento duvidoso. O Carrefour global teria de se transformar, incondicionalmente, na Grande Distribuidora de Produtos Brasil para justificar um investimento tão volumoso de nosso banco estatal de fomento. Isso não vai acontecer. A venda de produtos brasileiros em supermercados estrangeiros da gigante que está nascendo deverá se observar na exata medida em que faça sentido econômico. Nem mais, nem menos.

Infográfico: o passo a passo da operação Carrefour-Pão de Açúcar

A tese fraca da "internacionalização" é a única que pode ser esgrimida para justificar a presença do BNDESPar na transação. Nenhum dos outros argumentos clássicos usados para defender a ideia - por si só questionável - da presença do estado no comando de empresas se aplica. O setor de varejo não traz o chamado "retorno social", ao contrário do de infraestrutura ou comunicações. Não precisa de fomento especial, como o de inovação tecnológica. E tem crescido a taxas expressivas sem ajuda: sua expansão chegou a 10,9% no ano passado - bem acima do crescimento do PIB, que ficou em 7,5%. O Grupo Pão de Açúcar faturou 37,8% a mais que no ano anterior (considerando a aquisição das Casas Bahia), enquanto o Carrefour cresceu 33,7%. 

Qual o tipo de interesse público contemplado pela compra de um naco do Novo Pão de Açúcar pelo BNDES? Segundo o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um órgão do governo, a resposta é: “nenhum”. “Estamos falando de grandes empresas com boa saúde financeira. Não seria difícil encontrar parceiros privados para tomar parte nessa operação", diz Almeida. “Precisamos do BNDES para financiar projetos sociais, ou para ajudar áreas de ponta como a biotecnologia e a TI a progredir. Não para atuar no varejo.” Quando o estado decide ajudar o Pão de Açúcar e o Carrefour a vender papel higiênico, vinho francês, salsicha e televisores, são os donos do Pão de Açúcar e do Carrefour que mais se beneficiam, e não o contribuinte.

Leia também: Carrefour-Pão de Açúcar será desafio para o Cade

Sinal negativo - A operação tem mais um ponto problemático. Atualmente, o Pão de Açúcar tem outro sócio francês, o grupo Casino. Esse grupo não foi informado das negociações com o Carrefour. “Essa operação envia um sinal negativo ao mercado. Mostra que o governo aceita participar de um negócio que, até onde se sabe, foi feito em prejuízo de um investidor estrangeiro", diz o executivo de um banco de investimento que preferiu não ter seu nome revelado.

Teoricamente, a situação do Casino não seria tão ruim. Se o negócio se concretizar, ele poderá ficar com 29% do capital total do Novo Pão de Açúcar – o que o colocaria na confortável posição de maior acionista individual da empresa. No entanto, a proposta ganha ares de emboscada quando imagina que, alinhados na operação, Abílio Diniz e BNDES teriam, juntos, 35% do capital do total da empresa em gestação. Esse percentual seria suficiente para eleger, por exemplo, o presidente do conselho. “O Casino colocou muito dinheiro nessa empresa e agora está nessa situação. Fica uma interrogação na cabeça de que pretende investir no Brasil”, afirmou ao site de VEJA um executivo ligado ao Casino.

Leia também: "Carrepão" seria líder incontestável do varejo brasileiro

O BNDES vinha se reunindo com o Grupo Pão de Açúcar há mais de seis meses, com o objetivo de estudar "alternativas de expansão". Foi nesse período que a consultoria de fusões e aquisições Estáter e o BTG Pactual começaram a estruturar um plano de fusão, com o acompanhamento de Abílio Diniz, presidente do conselho do Pão de Açúcar, e do fundo Blue Capital – acionista majoritário do grupo francês Carrefour. Em maio, a informação das conversas vazou. Nas semanas seguintes, Diniz emitiu diversos comunicados ao mercado negando com veemência qualquer operação. Nesta terça-feira, uma proposta concreta foi anunciada. O desfecho do caso virá em 60 dias – provavelmente, com a participação do banco estatal brasileiro, que se prepara para dar cacife a mais um “campeão nacional”.

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Veja.com.br

1 comentário

  • Jose Francisco Ribeiro Brasília - DF

    Assinem nosso manifesto contra uso do dinheiro público na fusão do Grupo Pão de Açucar do Sr. Abilio Diniz e o Carrefour , Para Ministério Público da União, http://peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=P2011N11868

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