Mercado de Açúcar: À FLOR DA PELE

Publicado em 24/07/2011 22:09 e atualizado em 25/07/2011 13:32 394 exibições
Depois de realizar parte dos ganhos recentes, o mercado de açúcar em NY voltou a fechar a semana com alta significativa em todos os meses de negociação com destaque, evidentemente, ao outubro que reflete à flor da pele os problemas mais profundos dos fundamentos e fechou em 31,34 centavos de dólar por libra-peso, com uma alta expressiva de 237 pontos, ou 52,24 dólares por tonelada. Os demais vencimentos tiveram variações positivas entre 100 e 200 pontos. Se você traduzir isso para as chamadas de margens que as tradings estão tendo, imaginando que permitem às usinas fixar com até 90 dias antes do embarque, podemos estimar uma necessidade de linhas de crédito de aproximadamente US$ 120 por tonelada. Haja dinheiro.

Produtividade em queda, idade avançada do canavial, problemas climáticos, entre outros fatores, fizeram a UNICA estimar a safra 2011/2012 para 535 milhões de toneladas, muito embora o mercado já esteja apreçando 510-515 milhões de toneladas, com uma ATR de 135,70 kg por tonelada de cana. A entidade é cuidadosa, e nem poderia deixar de ser, e só pode falar do que tem de tangível no momento. Mas que o bicho vai pegar, podem esperar, ou melhor, podem sair correndo que ele vai. Um trader ligado à várias usinas confidenciou que o que mais espanta é a ATR, que ele não esperava que fosse tão baixa. E concluiu que “pode levantar as mãos para o Céu se chegarmos numa produção de 515 milhões de toneladas”.

Tomando por base a média do Consecana dos últimos doze meses, bem como o dólar médio dos últimos 30 dias e com uma ATR de 135,70 kg por tonelada de cana e o mix da safra, o novo custo de produção pelo modelo da Archer Consulting se eleva para 21,72 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos. Vale lembrar que o dólar se desvalorizou em relação ao real mais de 6% no acumulado do ano. Cada kg por tonelada de cana de redução na ATR, impacta no aumento do custo de produção em 0,13 centavos de dólar por libra-peso.

Em um mês o anidro subiu pouco mais de 5% enquanto o hidratado (indicadores ESALQ) caiu 1,5%. O açúcar no mercado interno negocia a aproximadamente 500 pontos sobre NY. Uma usina que replicasse exatamente o mix de produção e os valores negociados na sexta-feira para todos os produtos, teria um ganho médio aproximado de 9,85 dólares por tonelada de cana moída. O contrato de etanol BM&F Bovespa apresenta boa rentabilidade comparativamente ao custo de produção. Um retorno em torno de 10% ao ano sobre o custo de produção descontado o custo financeiro. No entanto, dado ao quadro atual de perspectiva de produção, o mais indicado seria fazer uma arbitragem vendendo NY e comprando BM&F Bovespa. Parece-me que NY já absorveu o impacto de uma moagem em torno de 510-515 milhões, mas a BM&F Bovespa não parece refletir o eventual impacto que isso terá no preço do etanol. Vamos acompanhar.

Os fundos entraram com força no açúcar. No acumulado do mês, a commodity foi a que mais subiu (quase 20%) enquanto o algodão foi a que teve maior queda (24%). No acumulado de 2011, no entanto, o açúcar ainda amarga uma queda próxima a 3%, enquanto a prata lidera a alta com quase 30%. O volume negociado em NY acumulado no ano se aproxima a 16 milhões de contratos futuros. Devemos fechar o ano com um volume ao redor de 29 milhões de contratos negociados.

Uma curiosidade: nos últimos 20 pregões o mercado teve uma oscilação de 565 pontos enquanto o volume médio de negócio diário no período foi de 99.000 contratos. No mesmo período anterior, com quase a mesma oscilação tivemos 143.000 contratos. O mercado está oscilando muito mais agora com menos volume. Tradução: pouco volume restando para fixar por parte das usinas, o agravamento da safra de cana, eventuais recompras (via opções) devido à chamada de margem, causam maior volatilidade no mercado, elevando preços e prêmios de opções com maior velocidade.

Coloque-se na posição de um investidor estrangeiro que toma conhecimento por meio da imprensa sobre os escândalos e corrupção que atingem o Ministério dos Transportes, que tem em suas atribuições, por exemplo, a infraestrutura portuária. Quem vai querer lidar com a possibilidade de tratar com larápios que colocam em xeque anos de planejamento e jogam por água abaixo o retorno originalmente viável de um investimento? O CPI (Índice de Percepção de Corrupção) criado pela organização Transparência Internacional, e publicado recentemente, mostra o grau em que a corrupção é percebida entre órgãos públicos e políticos. O Brasil ocupa o “honroso” 72º lugar (dados de 2010), atrás de Gana, Tunísia, Namíbia, Jordânia, Oman e Botswana, por exemplo. Com a classe política podre que temos no país da impunidade, surpreende que não estejamos juntos com o Afeganistão ou a Somália.

Qualquer analista de mercado ou trader que acredita que os preços se movem ao sabor do que sai de sua boca assemelha-se àquele galo da história que julgava que o sol nascia porque ele cantava. O trabalho de análise de mercado baseia-se na disciplina e na interpretação rigorosa dos fundamentos. O mercado é maior do que todos nós, analistas, traders, operadores, galos e pavões. O mercado não erra nunca.

No Fundo Fictício da Archer Consulting, o resultado de sexta-feira dia 15 mostrou um ganho de US$ 395.095,43 e uma posição de 80 lotes vendidos no equivalente delta. Esta semana ganhamos mais US$ 79.146,22, elevando o acumulado em 932 dias para US$ 7.863.697,75 com rendimento anualizado de 135,16%. Estamos vendidos 203 lotes equivalentes no delta e iremos zerar a posição quando chegarmos em 250.

Bom final de semana.

Arnaldo Luiz Corrêa

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Archer Consulting

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