Agronegócio: exportações seguem em alta mesmo com câmbio desfavorável

Publicado em 17/08/2011 16:44 325 exibições
O agronegócio brasileiro segue expandindo suas exportações apesar da forte e prolongada valorização do real, conforme pesquisas do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Pesquisadores destacam que, além da reconhecida eficiência, o agronegócio vem contando com a ajuda dos preços em dólares, que se mantêm em patamares historicamente elevados – o que se repete para as commodities em geral. Esse cenário deve permanecer caso a crise atual não chegue aos extremos ocorridos em 2008. Por outro lado, o petróleo, também commodity, tem sido o contrapeso. Esse produto influencia os custos do agronegócio de forma direta e indireta via fertilizantes e defensivos. Como o aumento dos preços das commodities agrícolas tem sido menor que o do petróleo (observando-se desde 2000), a lucratividade do setor no final do primeiro semestre deste ano estava mais apertada do que em 2000.  

Em junho de 2011, as exportações do agronegócio brasileiro bateram novo recorde de vendas ao exterior, atingindo US$ 8,910 bilhões, 29% acima do mesmo mês de 2010. Só nesse primeiro semestre de 2011, o valor exportado cresceu mais de 23% em relação ao mesmo período de 2010. Cálculos do Cepea indicam que os preços externos (em dólares) têm sido o grande responsável pelo bom desempenho das exportações, já que apresentou alta de quase 26% na comparação das médias do primeiro semestre de 2010 e de 2011. O preço médio de junho foi o maior de todo o período desta pesquisa do Cepea – inicia-se em 2000.
    
De 2000 a 2011, os preços em dólares (IPE) dos produtos exportados pelo agronegócio brasileiro cresceram 128,3%. Os preços de café, açúcar, soja e carne bovina mais do que dobraram a contar de 2000. A tendência de crescimento é observada em todo o período, com pequena queda em torno de 2002 e entre 2008 e 2009, durante o auge da crise financeira. Só no primeiro semestre de 2011, a média dos preços externos ficou 25% acima da média de todo o ano de 2010.

Por outro lado, o câmbio real continua se valorizando, mantendo-se atualmente no pior patamar às exportações da década de 2000. A taxa de câmbio efetiva real do agronegócio (IC) continua seu processo de valorização (que teve início em 2005), atingindo 54% na comparação com 2000. Com isso, os preços em reais, que representam a atratividade das exportações nacionais (IAT), aumentaram apenas 5% no mesmo período, ou seja, o efeito da forte valorização do Real quase compensou o aumento dos preços externos. Mesmo assim, o volume exportado (medido pelo IVE) teve crescimento de 107,6%, comparando-se a média do primeiro semestre de 2011 em relação à de 2000.  

Após a queda no final de 2009, o volume exportado pelo agronegócio brasileiro (IVE) apresentou crescimento consistente até setembro de 2010, caindo a partir de outubro e nos meses subsequentes. Somente em 2011, a partir de fevereiro, o volume exportado voltou a se recuperar – Figura 2. Comparando-se o primeiro semestre de 2011 com o primeiro semestre de 2010, o volume caiu quase 5%, mas o volume exportado em junho de 2011 é 8% superior ao do mesmo mês de 2010.

Apesar das oscilações no decorrer de 2010, os preços em dólares se mantiveram em patamares elevados. A partir de setembro de 2010, as cotações em dólar passaram a apresentar forte e persistente tendência de alta.

Em relação aos preços em reais (IAT), observou-se trajetória de queda de junho de 2010 até fevereiro de 2011, quando, então, a tendência se inverteu, e o índice voltou a se situar em patamares mais elevados. Esse aumento da atratividade no período esteve atrelado ao forte aumento dos preços externos, já que o Real continuou se valorizando: 27,68% de janeiro de 2010 a junho de 2011.

Os pesquisadores do Cepea observam que, embora seja relevante examinar a evolução dos preços dos produtos agrícolas, a análise ficaria incompleta se não incluísse o comportamento dos custos. A exemplo das commodities agrícolas, o preço do petróleo também vem crescendo  persistentemente. A alta do petróleo, por sua vez, eleva o custo de produção agrícola, por meio, especialmente, dos fertilizantes e defensivos (que representam cerca de 40% a 45% dos custos operacionais das lavouras). É preciso não perder de vista que, nos anos 2000, enquanto os preços em dólares dos produtos do agronegócio pouco mais do que duplicaram, os preços do petróleo mais do que triplicaram. Os preços dos fertilizantes em reais no Brasil acompanharam os do petróleo em dólares, também mais do que triplicando. Na média, esses aumentos de receitas e de custos quase se compensam. Felizmente, a produtividade do setor agrícola – considerando-se todos os fatores de produção – segue crescendo, alcançando quase 70% na década. Esse avanço tem feito toda a diferença na competitividade do setor.

Os pesquisadores do Cepea concluem que o agronegócio vem respondendo positivamente ao crescimento da economia mundial num processo em que receitas e custos vão crescendo; porém, graças à produtividade, a lucratividade segue em expansão. Fica claro, assim, que o diferencial do agronegócio brasileiro é o crescimento contínuo de sua produtividade. Essa vantagem precisa ser conservada como garantia para enfrentar os desafios que a crise econômica e financeira certamente irá colocar nos próximos anos.

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Cepea

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