PIB do agronegócio brasileiro deverá crescer 5,8%, diz Cepea

Publicado em 05/11/2011 06:06 497 exibições
Preços elevados no campo capitalizam o agronegócio, por GERALDO BARROS, em artigo publicado nesta sábado na Folha de S. Paulo. Ele é professor titular da USP/Esalq e coordenador científico do Cepea/Esalq/USP.


As previsões para o PIB brasileiro seguem caindo, mal se segurando acima dos 3% (medido em termos de volume) para 2011. Isso acontece em decorrência das medidas políticas de contenção que vinham sendo adotadas no primeiro semestre e também diante do agravamento da crise internacional.
Como estaria se dando a evolução do agronegócio (insumos, agropecuária, agroindústria e distribuição) diante desse cenário?
O Cepea da Esalq/USP, com o apoio da CNA, avalia a geração de valor do agronegócio sob duas óticas.
Uma é o produto do setor, que mede seu valor adicionado em termos dos volumes produzidos, que são agregados mantendo-se constantes os preços dos produtos e dos insumos utilizados.
A outra é o PIB (ou renda), que conjuga o comportamento do volume aos dos preços reais, que estão em permanente variação sob efeito das forças da oferta e demanda.
O crescimento do produto (volume) é bem-vindo pela sociedade em geral, pois aumenta a disponibilidade de bens nos mercados interno e externo. O crescimento do PIB, por sua vez, beneficia os envolvidos na produção do setor, remunerando melhor tanto patrões como empregados, tanto o capital como os recursos naturais.
Dados preliminares disponíveis permitem projetar expansão de cerca de 2% do produto do agronegócio em relação a 2010, enquanto o PIB deverá crescer perto de 5,8%, devido aos preços reais mais altos tanto de insumos como de produtos.
Entre os segmentos que compõem o agronegócio, o destaque, em termos de volume, vai para o de insumos, cuja expansão pode chegar a mais de 5%. Devido à recuperação de preços, seu PIB poderá vir a avançar mais de 10% em 2011.
Quanto ao segmento agropecuário ("dentro da porteira"), o volume de produção poderá crescer perto de 4%, sendo 4,4% para as lavouras e 3,3% para a pecuária. Já seu PIB (correspondente à renda rural) poderá crescer em torno de 9,5% para o conjunto agropecuário, com cerca de 12% para as lavouras e 6,5% para a pecuária.
Conclui-se que o agronegócio provavelmente terá expansão quantitativa aparentemente modesta -de 2%-, mas que se situa próxima de sua média nos últimos 15 anos. Sua renda (PIB) poderá ter avanço mais expressivo (5,8%), que poderá se mostrar relevante para financiar os altos investimentos para atender às demandas futuras interna e externa por alimentos, fibras e energia.
Já para o próximo ano, a alta mais significativa de renda do segmento primário (9,5%) poderá estimular um aumento mais expressivo da safra 2011/12 do que vem sendo previsto até o momento.

GERALDO BARROS é professor titular da USP/Esalq e coordenador científico do Cepea/Esalq/USP.

Na Folha:

Protecionismo e soja responsável, por ROBERTO RODRIGUES

Nos últimos dez anos, a produção de soja teve aumentos de 82% no Brasil e de 72% na Argentina

Embora a China já seja o maior comprador mundial de soja, a União Europeia ainda é um grande importador do grão, do farelo e do óleo. E, cada vez mais, tem exigido que a soja seja produzida, especialmente no Brasil e na Argentina, segundo critérios rigorosos de sustentabilidade.
Esse tema aponta para mecanismos de verificação e certificação, de modo que é muito importante analisar os obstáculos que os produtores de soja dos dois países precisam superar para não perder o mercado europeu.
Brasil e Argentina, somados, já produzem mais da oleaginosa do que os Estados Unidos.
Nos últimos dez anos, o Brasil aumentou a produção em 82% e a Argentina, em 72%, basicamente devido a aumentos de produtividade e pela inclusão de novas áreas cultivadas.
O Icone (Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais), respeitado e sério "chapéu pensador" do agro brasileiro, com apoio e financiamento do IDH (Iniciativa Holandesa para o Comércio Sustentável) e do IFC (Corporação Financeira Internacional), fez um estudo nessa direção, a "Análise Estratégica para Produção de Soja Responsável", tomando por base os critérios da Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS).
Para tanto, o Icone realizou entrevistas nos dois países com produtores rurais, ONGs, traders, órgãos públicos estaduais e federais, além de associações de classe. Depois organizou workshops para validar as entrevistas e ampliar o escopo da análise.
O estudo considerou cinco temas fundamentais: o uso das boas práticas agrícolas, os aspectos ambientais, as relações dos produtores com a comunidade, as relações de trabalho no campo e a certificação.
E, como era esperado, foram encontrados alguns problemas para adequar a produção de soja à ideia de sustentabilidade.
1) Em primeiro lugar, verificou-se que há uma boa dose de desconhecimento sobre o quesito de certificação, seus critérios e seus custos, inclusive quanto à legislação reguladora do assunto.
2) Como consequência, não há clareza sobre as vantagens ou os benefícios da adequação a esses critérios.
3) É necessário incluir os pequenos e médios produtores no projeto, uma vez que eles são os menos preparados para adotar as técnicas necessárias.
4) Há morosidade por parte dos órgãos públicos na institucionalização dos processos de certificação. Devido a esses gargalos, o Icone preconiza as seguintes ações para que o modelo funcione melhor e mais rapidamente nos dois países analisados: 
a) Identificar as necessidades de cada região -não dá para estabelecer os mesmos critérios para um produtor do Rio Grande do Sul e outro de Mato Grosso ou do Piauí. Que dirá do Brasil e da Argentina! São mundos diferentes que demandam estratégias distintas;
b) Criar parcerias, principalmente em nível local -trata-se de formalizar a integração dos diversos elos da cadeia produtiva, dos insumos às indústrias e às tradings.
c) Disseminar a informação -sem clareza de custos e benefícios, ninguém se lançará no programa. Treinar e capacitar é o caminho;
d) Investir em adequações -aqui entra desde a logística e a infraestrutura até o cumprimento das legislações trabalhista e ambiental;
e) Dar incentivos aos produtores -premiar quem aderir aos métodos indicados, seja por mecanismos de mercado, seja fiscais. É sempre melhor estimular do que castigar;
f) Engajamento das lideranças no sistema de certificação -sair do conservadorismo e olhar para o futuro com mais consistência técnica.
É um estudo muito interessante, que mostra, entre outras coisas, que há uma enorme diversidade no nível de informação e do compromisso com a certificação, objeto final da produção da "soja responsável".
Mas que também evidencia o trabalho sério que vem sendo feito no Brasil e na Argentina, objetivando a permanência em um mercado cada dia mais competitivo, no qual os compradores sempre irão colocar mais dificuldades para os produtores.
Na prática, trata-se de impor barreiras de todo tipo! E de superá-las.

ROBERTO RODRIGUES, 69, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Depto. de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula).
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Fonte:
Folha de S. Paulo

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