Mercado de açúcar: RECEITA PARA MATAR

Publicado em 12/11/2011 05:32 326 exibições
por Arnaldo Luis Correa, da Archer Consulting


O mercado de açúcar fechou em queda pela quarta semana consecutiva. Uma vez mais a pressão foi sobre os primeiros vencimentos. Março, Maio e Julho de 2012 encerram a semana com quedas de 13, 8 e 2 dólares por tonelada, respectivamente. Março encerrou cotado a 25 centavos de dólar por libra-peso. Nos últimos dez pregões, no entanto, o mercado praticamente não mudou, gravitando entre 25 e 26 centavos de dólar por libra-peso. Mas, observe o seguinte, em quatro semanas, os vencimentos de março 2013 em diante, ou seja, meses correspondentes ao início da safra 2013/2014 subiram de 6 a 8%. Sem barulho. O que o mercado está fazendo é bem diferente do que alguns participantes estão pregando.

As commodities agrícolas com pior desempenho este ano são: o algodão, com queda de 31,4%; o farelo de soja, com 16,9% e o açúcar com 16%. Trigo, soja e cacau seguem com quedas próximas de 12%. Na outra ponta estão o milho, com alta de 13,2%; o café com 12,7% e o suco de laranja com 8,3%.

As primeiras tímidas previsões para a safra de cana no Centro Sul para 2012/2013 apontam para números que vão desde a manutenção do volume da safra corrente (em torno de 490 milhões de toneladas) até mais otimistas (560 milhões de toneladas), muitos desses últimos no esteio de que o crescimento nos tratos culturais dos canaviais este ano, da ordem de 15%, vai se refletir numa safra maior. Ainda é cedo, mas o número com o qual o mercado trabalha está entre 520 e 540 milhões de toneladas.

Nos últimos 3 anos a média anual de crescimento do consumo de combustíveis no Brasil foi de 7,39%. Nos últimos doze meses, cresceu 3,83%, quase 1,7 bilhão de litros no total divididos num aumento de 3,6 bilhões de litros de gasolina A (pura, sem anidro) e diminuição do etanol em 1,9 bilhão de litros. Devemos encerrar 2011 com um consumo total de combustível de 46,2 bilhões de litros, acréscimo de apenas 2,86% em relação à 2010.

A produção de etanol no Brasil, atualmente, é insuficiente para atender a demanda potencial no país vinda, principalmente, dos veículos flex. Esse ano mesmo o país teve que importar etanol dos Estados Unidos para fazer frente à necessidade de consumo. Coloca-se a culpa no setor sucroalcooleiro porque os “usineiros não cumpriram seu papel”, dizem alguns burocratas fronteiriços do governo. No entanto, com essa política míope que vemos aí, acenando com o retorno intervencionista do morto-vivo Instituto de Açúcar e do Álcool e a total falta de transparência para com o investidor, não há como haver crescimento sustentado. Ironicamente esse cenário ocorre no momento em que o setor se moderniza e agrega novos participantes com poder de caixa para promover a expansão necessária.

Quanto o país perde no longo prazo pelo, ora descaso, ora interferência, ora a combinação execrável desses dois ingredientes? Se assumíssemos um factível cenário que combinasse a mistura de anidro na gasolina em 18%, o crescimento da venda de veículos leves em 2% ao ano e a escolha por etanol por parte dos proprietários de carros flex em – conservadoramente - 55%, o Brasil chegaria à safra 2019/2020 com uma necessidade de moagem beirando 900 milhões de toneladas. Para alcançar esse patamar, o setor precisaria alocar investimentos de US$ 45 bilhões na construção de pelo menos 40 usinas em oito anos.

Com esses investimentos, em 2020, atenderíamos a um consumo estimado de 83,4 bilhões de litros de combustível dos quais 49,8 bilhões seriam de etanol anidro e hidratado e 33,6 bilhões de gasolina A, que abasteceriam uma frota aproximada de 48 milhões de veículos, 72% dos quais, flex. Infelizmente, esse quadro pintado pelo modelo da Archer Consulting, usando dados da ANFAVEA, Bioagência e Sindipeças na construção dos números, é por demasiado róseo, dada a falta de planejamento de longo prazo e miopia estratégica do governo, que fazem os investimentos desaparecer. Hoje, muitos usineiros e produtores de cana acreditam que esse lamentável estado de coisas vai nos levar ao sepultamento do etanol hidratado e o Brasil passará então a ser um produtor de anidro para atender apenas a mistura do combustível à gasolina. 

Qual o preço desse descaso e da falta de uma voz uníssona no setor? Vamos assumir, sob a mesma visão de longo prazo até 2019/2020, que o Brasil conseguisse crescer em cana e em área, o equivalente a 4% ao ano para as próximas 8 safras. Chegaríamos em 2019/2020 moendo 725 milhões de toneladas de cana. Para que os números batam, evidentemente que o percentual de proprietários de veículos flex que escolhessem etanol teria que baixar pela metade do que é hoje.

Na somatória desse período objeto de nossa análise, o Brasil iria consumir 60 bilhões de litros a mais de gasolina substituindo 100 bilhões de litros de etanol que deixariam de ser produzidos, equivalentes a 1 bilhão de toneladas de cana. Quantos empregos diretos e indiretos são gerados por 1 bilhão de toneladas de cana? Qual o custo para o meio-ambiente da substituição de 100 bilhões de litros de combustível verde renovável por 60 bilhões de litros de gasolina? Qual o custo para a saúde? Qual o custo para o bolso do contribuinte considerando que o Brasil importa gasolina mais cara do que vende na bomba? Qual o custo para o país de se manter o preço da gasolina congelado desde 2005 em detrimento à expansão de um combustível limpo?

O governo parece acertar na receita de bolo de como matar um setor pujante como é o caso do sucroalcooleiro. Os ingredientes sobejam: incompetência, descaso, miopia e falta de planejamento estratégico. A solução é simples, embora politicamente complicada: liberação total do preço dos combustíveis, incentivo à indústria automobilística na pesquisa de melhor desempenho dos motores e política não intervencionista por parte do governo. Se a paridade passasse de 70% para 75%, o etanol remuneraria melhor 7%. Tudo muito difícil. 

Reserve na sua agenda: o XVII Curso Intensivo de Futuros, Opções e Derivativos da Archer Consulting está confirmado para os dias 27, 28 e 29 de março de 2012, em São Paulo. Mais de 500 profissionais do mercado do Brasil e do Exterior já fizeram o Curso.

O Fundo real administrado pela Archer Consulting, que esperamos disponibilizar para mais investidores em um ano, está rendendo para o investidor de 78,5107% líquidos ao ano, em seus 224 dias de existência. 

Bons negócios e um excelente final de semana para todos.

Arnaldo Luiz Corrêa

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Archer Consulting

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