Código Florestal: Democracia versus baderna, por Kátia Abreu

Publicado em 12/11/2011 06:28 905 exibições
Em artigo publicado hoje na Folha, a presidente da CNa diz que "A minoria ativista confunde liberdade com bagunça, e tenta se impor no grito, por meio da intimidação".

A ainda jovem cultura democrática brasileira enseja equívocos conceituais que frequentemente a ameaçam e a desmoralizam. Não é de estranhar, dada a origem autoritária de nossa República, que emergiu de um golpe de Estado, e a escassa cultura não só de nosso povo, mas também de parte de nossa elite.

O preâmbulo vem a propósito dos acontecimentos que envolvem a discussão, no Senado, do Código Florestal. Além de não se dar ao trabalho de ler a proposta -e lhe imputar acusações absurdas-, a minoria militante que a ela se opõe se arvora em falar em nome do povo, que não lhe deu tal delegação.


Dentro desse equívoco, tratam os que de fato detêm delegação popular -os parlamentares- como intrusos e querem impor sua vontade no grito, quando não na violência.
Assim é que, nesta semana, no curso das discussões, na Comissão do Meio Ambiente, essa minoria ativista, representada por 12 (!) estudantes da Universidade de Brasília, provavelmente ressentidos ainda da acachapante derrota no DCE, invadiu o Congresso e quis impor no grito o seu ponto de vista.
Os senadores foram ofendidos e abordados com violência. Fui pessoalmente ameaçada e insultada, tendo de sair sob escolta policial. Sabemos que o Congresso é a Casa do Povo, que a ela tem acesso para se manifestar, desde que pela ordem e com respeito, como manda a lei. Não foi o que ocorreu.
O pior é que não se tratou de um episódio isolado; ao contrário, vem se tornando recorrente, quase banal em nosso país. Assistimos, já há alguns dias, manifestação semelhante de truculência e vandalismo, na Universidade de São Paulo, onde uma minoria tenta se impor no grito, por meio de intimidação.
Os jornais informam que um punhado de estudantes -pouco mais de 70, num universo de 89 mil-, todos de classe média alta, vinculados a partidos e a organizações de esquerda, depredaram as instalações da USP, patrimônio do povo sustentado com os impostos.
Protestavam contra a presença da polícia, que reprimia o tráfico de drogas no campus. Enquanto a polícia cumpria a lei, fundamento do Estado democrático de Direito, aqueles militantes, travestidos de estudantes, promoviam o caos, impedindo que seus colegas exercessem o elementar direito/dever de estudar. "Vamos fazer a revolução", bradavam, ao mesmo tempo em que invocavam a democracia para legitimar a baderna.
E aí começa a confusão conceitual. Confunde-se liberdade com bagunça, vale-tudo. Democracia é o regime da maioria, com o reconhecimento às minorias, mas não só: é o regime da lei, sem a qual nem as maiorias nem as minorias estão seguras de nada.
Sem o estrito cumprimento da lei, a democracia não sobrevive. Torna-se rito de passagem, presa fácil dos aventureiros que dela se servem para aniquilá-la. O truque é antigo, previsto já por Lênin: usar as facilidades que a democracia oferece como meio de chegar ao poder, para então bani-la. É o que assistimos.
Há anos, o Brasil vive sob o domínio do gramscismo, estratégia de tomada do poder concebida pelo teórico italiano marxista Antonio Gramsci, que defendeu a manipulação da cultura como meio mais eficaz de promover a revolução.
Nessa engenharia maléfica, todos os polos de produção cultural -mídia, universidades, editoras, meio artístico- têm de ser dominados por um pensamento hegemônico. No caso, o socialista. Tudo o que a ele se contrapõe recebe o selo de "direita", que não significa nada, senão a maldição política e moral.
A questão ambiental, há anos, foi encampada por esses grupos, e não porque de fato os interesse. É apenas mais um meio de desestabilizar o país, enfraquecendo uma de suas maiores fontes de receita, o agronegócio, responsável pelos superavit na balança comercial do país e por um terço dos empregos.
Nem sequer conhecem o tema que abordam. Basta ver o que dizem a respeito para constatar que nem leram o projeto que será votado no Senado. O Código Florestal não anistia ninguém nem estimula o desmatamento, muito pelo contrário.
Impõe a recomposição de áreas degradadas e pune quem novamente as degradar. É inútil argumentar. São somente massa de manobra de interesses bem maiores que eles próprios desconhecem.

KÁTIA ABREU, 49, senadora (PSD-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

4 comentários

  • Jéssica Fernanda de Oliveira Diamante do Oeste - PR

    "essa minoria ativista, representada por 12 (!) estudantes da Universidade de Brasília..."

    Isso é uma falácia, pois não considera o mérito da causa lutada, mas sim o número de pessoas que lutam por ela.

    Então, segundo a Sr. Senadora, poderia ser uma causa extremamente absurda, mas se tivesse muitos participantes ela seria válida?

    E os eleitores ainda se iludem com estes e outos tipos de argumentos...

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  • Mauricio Mercadante Brasília - DF

    "O Código Florestal 'não anistia ninguém' nem estimula o desmatamento, muito pelo contrário. Impõe a recomposição de áreas degradadas e pune quem 'novamente as degradar'." Ou seja, quem degradou a primeira vez não será punido, o que caracteriza a anistia. Quem escreveu o texto para a Sra. Katia Abreu não se deu conta da contradição. E a Sra. Katia Abreu assionou em baixo.

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  • Paulo de Tarso Pereira Gomes Brazópolis - MG

    Caro Dalzir Vitoria, Realmente suas palavras são verdadeiras, sindicatos rurais patronais da minha cidade nem sabem o que é reforma do codigo e são ligados a CNA que não os mobiliza, nos produtores realmente somos omissos e não temos lideranças serias, temos sim brasileiros que lutam como Telmo Heinen, Aldo Rebelo, João Olivi, Ciro do blog e mais alguns gatos pingados.

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  • Telmo Heinen Formosa - GO

    Parabéns Sen Kátia Abreu, tenho assistido seus pronunciamentos enfáticos nas Comissões do Senado que examinam o Projeto do Novo Código Florestal. Realmente é patético ouvir alguém, inclusive colegas seus do Senado bem como convidados nas Audiências Públicas, manifestantes nos corredores e sobretudo jornalistas que proferem enormes absurdos sobre a matéria em tramitação, muitos atestando sobremaneira sua ignorancia da matéria. Baseiam-se na midia abobalhante que está a serviço dos inimigos do Brasil. Unica coisa que não concordo com a Senhora é quando a CNA acha que não pode afirmar que a área ocupada com cultivo de grãos no Brasil é de 38 milhões de hectares só porque a estatística do chutômetro oficial do país (o IBGE) diz que são 49 ou 50 milhões.

    Simples, desconta-se 12 milhões de hectares que são plantados duas vezes por ano como feijão, irrigações no Brasil Central, Trigo, cevada, centeio etc... sorgo e milho safrinha. Não me conformo com toda esta grita dos ambientalistas sendo que os grãos ocupam apenas 4,5% do território brasileiro de 851 milhões de hectares. Para quem quer saber mais, o tamanho das cidades (As zonas urbanas), as rodovias, ferrovias, rios, lagos, barragens e represas somam quase 12% dos 851 milhões de hectares do Brasil. Cana, café, todos os reflorestamentos, toda a fruticultura, mandioca e horticultura abrangem 19,5 milhões de hectares ou seja 2,3% do território. 20% são ocupados pela Pecuária e 61% de natureza preservada.

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