CTNBio libera cultivo de algodão transgênico no Pará após estudos da Embrapa

Publicado em 16/03/2026 14:16
Embrapa Algodão concluiu não haver risco relevante para a diversidade de algodoeiros presentes no estado

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) decidiu retirar o estado do Pará da zona de exclusão para o cultivo de algodão geneticamente modificado (GM).

A decisão foi baseada em análises técnicas que avaliaram a ocorrência de espécies de algodoeiro no território paraense e o risco de cruzamentos com variedades transgênicas. Os pesquisadores concluíram que não há evidências da presença de algodoeiros silvestres no estado. As plantas encontradas estão associadas principalmente a ambientes modificados pela ação humana, como quintais, jardins, áreas urbanas e margens de estrada. 

De acordo com o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, a abertura da nova fronteira para o cultivo de algodão é uma oportunidade para que os agricultores do estado possam diversificar suas culturas e fortalecer a cadeia do algodão no estado. “Atualmente, o Pará é um dos estados brasileiros que produz algodão de alta qualidade no Brasil. Essa atualização da zona de exclusão abre a possibilidade da cadeia do algodão se expandir localmente, e se tornar uma alternativa dentro da rotação de cultura para os produtores de soja e milho, por exemplo.”  

Algodão presente em quintais

O pesquisador da Embrapa Algodão, Paulo Barroso, explicou que as espécies cultivadas atualmente no Pará são de alto valor histórico e cultural, mas são insuficientes para desenvolver o algodão como atividade agrícola comercial. “A espécie mais comum no Pará é o Gossypium barbadense, historicamente cultivada na região e é atualmente mantida sobretudo como planta medicinal em residências urbanas e rurais. Outra variedade encontrada foi o chamado algodoeiro Verdão, pertencente à espécie Gossypium hirsutum, também mantido em pequena escala e fora do sistema agrícola comercial”. 

Para atualizar o conhecimento sobre a presença dessas plantas, pesquisadores realizaram cinco expedições ao estado, totalizando 78 dias de trabalho de campo. Foram avaliados 686 pontos em 86 municípios, com registro de mais de 2,5 mil plantas de algodoeiro. Nenhum indivíduo foi localizado em ambientes naturais, reforçando que a presença da cultura no estado depende essencialmente do cultivo ou manutenção humana para persistir. 

Baixo risco de cruzamentos

De acordo com Barroso, outro ponto central para a tomada de decisão por parte do CTNbio foi o baixo potencial de fluxo gênico entre variedades transgênicas e os algodoeiros não cultivadas comercialmente. “Os pesquisadores observaram que, mesmo após décadas de coexistência entre diferentes tipos de algodão no Pará, a integridade genética das populações permanece elevada”, pontuou.

Isso ocorre porque o algodoeiro apresenta taxas naturalmente baixas de fecundação cruzada e porque as plantas normalmente são mantidas isoladas em quintais ou separadas por barreiras físicas, como construções e árvores. 

Testes realizados em milhares de plantas também mostraram que nenhuma delas apresentava proteínas associadas a eventos transgênicos, o que indica ausência de introgressão genética proveniente de cultivos comerciais. 

Potencial produtivo

Na prática, a decisão da CTNBio abre espaço para o desenvolvimento da cotonicultura em regiões com vocação agrícola, especialmente no sul e sudeste paraense, onde já existem áreas consolidadas de produção de grãos, sem a necessidade de abertura de novas áreas.

Para o gerente sênior de algodão da BASF Soluções para Agricultura, Warley Palota, a retirada do Pará da zona de exclusão é uma ótima oportunidade para a cadeia produtiva. “Esta liberação para todo o estado representa a abertura de uma nova fronteira agrícola e aumenta o potencial de produção paraense com o uso de biotecnologias. Como indústria de sementes, vemos de maneira positiva esta ampliação do mercado, e para o produtor é a possibilidade de utilizar sementes que facilitam o manejo e contribuem no aumento da produção com as melhores ferramentas disponíveis no mercado”, afirma.

O gerente explicou que “as sementes geneticamente modificadas são resistentes às lagartas e aos herbicidas e colaboram com o manejo em relação às ervas daninhas e às pragas presentes no campo, o que pode elevar a produtividade por proteger o potencial produtivo das variedades”.

Desenvolvimento econômico

Palota também lembrou que o aumento da produtividade, gerada em parte pelas sementes geneticamente modificadas, também contribui para o desenvolvimento socioeconômico das regiões produtoras.

“Há quase duas décadas, quando ocorreu a autorização da comercialização de algodão geneticamente modificado no Brasil, foi observado um incremento exponencial da produtividade e isso também se deve à adoção da biotecnologia nas unidades produtoras de algodão. Este crescimento de produção tem gerado impacto positivo em toda a cadeia e contribui para que o país seja um grande produtor da fibra”.

Fonte: Abrapa

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