Por que o Brasil ainda discute o B16 enquanto a Indonésia já está no B50?

Publicado em 19/08/2026 07:15
Enquanto programa brasileiro testa progressivamente misturas de até 25% de biodiesel, país asiático elevou mandato para 50%; diferenças nas matérias-primas, logística e condições brasileiras ajudam a explicar os ritmos

Enquanto a Indonésia já adota uma mistura de 50% de biodiesel no diesel, o Brasil mantém o percentual obrigatório em 15% e testa misturas entre B16 e B25. Se o B50 já é utilizado em outro grande mercado de biocombustíveis, por que o Brasil ainda precisa validar percentuais muito menores?

A resposta do Ministério de Minas e Energia (MME) está nas particularidades da cadeia brasileira. Segundo a diretora do Departamento de Biocombustíveis da pasta, Lorena Mendes, diferenças de matérias-primas, logística, clima e condições de operação exigem uma avaliação própria antes que percentuais maiores sejam transformados em política nacional obrigatória.

Enquanto a Indonésia utiliza essencialmente biodiesel produzido a partir do óleo de palma, o mercado brasileiro é mais diversificado e emprega matérias-primas como óleo de soja e sebo bovino, que apresentam características químicas distintas.

“Porque a realidade, tanto logística quanto de matérias-primas, de clima no Brasil é completamente diferente, e isso interfere na qualidade do produto. A gente tem as exigências mínimas de qualidade na produção e na distribuição ao longo da cadeia, mas tem no Brasil um sistema logístico completamente distinto, um país de dimensão continental”, explicou Lorena.

A diferença aparece inclusive nas características dos óleos utilizados. Segundo a diretora, o óleo de soja é uma matéria-prima insaturada, enquanto o sebo bovino é saturado, o que resulta em propriedades diferentes para o biodiesel produzido.

“Então a gente tem todas essas complexidades no nosso mercado de biodiesel e tudo isso precisa ser avaliado para a gente avançar com segurança técnica”, afirmou.

A justificativa do MME, portanto, não é que misturas maiores sejam necessariamente inviáveis no Brasil, mas que seu desempenho precisa ser validado dentro das condições específicas do país.

Programa testa misturas até B25

Atualmente, o percentual mínimo obrigatório de biodiesel no diesel brasileiro é de 15%, o B15.

O Programa Nacional de Testes de Biodiesel foi estruturado para avaliar inicialmente misturas entre B16 e B20. Em uma segunda etapa, serão testados percentuais entre B21 e B25.

Os ensaios começaram em agosto e, segundo o MME, devem seguir até fevereiro de 2027. É nesse momento que o governo espera ter o primeiro relatório capaz de indicar se a adoção do B20 é tecnicamente viável ou se dependerá de ajustes nas especificações do combustível ou nas regras regulatórias.

O plano foi construído com participação de produtores de biodiesel, empresas de combustíveis fósseis, distribuidores, usuários, montadoras, sistemistas e outros agentes da cadeia.

Segundo Lorena, foram definidas de forma conjunta as metodologias, os motores, os ensaios físico-químicos e as avaliações mecânicas que fariam parte do programa.

O plano de testes foi formalizado pela Portaria 133 de 2026 e agora está em fase de execução, com certificação de amostras, preparação de veículos e motores e encaminhamento dos combustíveis aos laboratórios.

“Então a execução vai até fevereiro de 2027, quando a gente tem condições de ter o primeiro relatório: é viável ou não é? Existe viabilidade, mas está condicionada a algum ajuste de especificação ou regulatório? Então a gente vai fazer essa avaliação em fevereiro”, explicou a diretora.

E por que a Indonésia já chegou ao B50?

É justamente nesse ponto que a Indonésia aparece como contraponto.

O país elevou em julho de 2026 sua mistura obrigatória de B40 para B50, utilizando principalmente biodiesel produzido a partir de óleo de palma.

Durante os eventos da Ubrabio, lideranças do setor brasileiro citaram repetidamente o avanço indonésio para questionar a velocidade de expansão do mandato no Brasil.

A comparação, porém, não significa que a Indonésia tenha simplesmente dispensado avaliações técnicas. O país também realizou testes antes do avanço e ajustou o cronograma de implementação do B50 antes da entrada em vigor da nova mistura.

Para o MME, o ponto central é que percentuais utilizados em um país não podem ser automaticamente reproduzidos em outro sem considerar diferenças de frota, matérias-primas, clima, infraestrutura e logística.

Nesse sentido, B15 e B50 não representam apenas números diferentes, mas resultados de cadeias produtivas e condições operacionais distintas.

Setor produtivo quer acelerar

A indústria brasileira de biodiesel, entretanto, considera que o país poderia avançar mais rapidamente, inclusive antes da conclusão de todo o programa de testes.

O presidente do Conselho Superior da Ubrabio, Irineu Boff, avalia que o Brasil está atrasado em relação ao ritmo de crescimento que chegou a ser imaginado quando o biodiesel começou a ser incorporado ao diesel.

Segundo ele, a expectativa original era de crescimento de aproximadamente um ponto percentual por ano. Considerando o início da mistura em 2007, o percentual poderia estar atualmente próximo de 19%.

“O ideal já está atrasado. Quando começou o biodiesel, se falava que poderíamos crescer 1% ao ano. De 2007, quando iniciou a mistura, até hoje já daria 19%. Então a gente está atrasado em 4%”, afirmou.

A proposta defendida pelo setor não é necessariamente saltar imediatamente dos atuais 15% para 20% ou 25%, mas criar uma trajetória mais rápida e previsível de expansão.

Boff considera possível, por exemplo, avançar inicialmente para B16 ou B17 a partir de resultados parciais dos testes, sem necessidade de esperar a conclusão de toda a avaliação envolvendo B20 e B25.

“A gente está trabalhando para alguns testes ficarem prontos neste ano ainda para se conseguir passar para B16. Alguns testes já podem dar conforto para jogar para B16 antes da conclusão de todos os testes que envolvem 20% e 25%. Com bastante testes antes da conclusão do B20, já dá para concluir que 16% é tranquilo. Ou 17%, esse é o alvo”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o histórico de evolução da mistura também sugere que um salto direto para B20 seria pouco provável no curto prazo.

“A gente não acredita que vai ter B20. Vendo o histórico, a gente contava que ia ser 1% ao ano e não aconteceu. Portanto, talvez não dê para acreditar que vai se dar um pulo de 15% para 20% durante um curto espaço de tempo. Acho que para o ano que vem a gente vai para 17%, com possibilidades de 18% em março”, disse.

Mais do que uma disputa por percentuais

O contraste entre Brasil e Indonésia não envolve apenas questões técnicas.

Nos dois países, o biodiesel também aparece associado à segurança energética, à redução da dependência de combustíveis fósseis importados e ao fortalecimento de cadeias produtivas domésticas.

No caso brasileiro, o presidente da Ubrabio, Donizete Tokarski, argumenta que a ampliação do biodiesel permitiria substituir uma parcela maior do diesel importado por um combustível produzido internamente, a partir de matérias-primas originadas principalmente na agropecuária.

“Nós estamos importando mais de 25% do diesel que nós consumimos no Brasil. Então, o setor de produção de biodiesel está pronto para ampliar essa produção”, afirmou.

A Indonésia também associou o avanço para o B50 ao aumento da utilização doméstica do óleo de palma e à redução da dependência de importações de diesel.

Para a indústria brasileira, entretanto, a velocidade de expansão da mistura também tem efeito direto sobre decisões de investimento.

Irineu Boff afirma que uma sinalização mais clara de crescimento do mercado é importante para justificar novos aportes em capacidade produtiva, especialmente diante do custo do capital no Brasil.

“A gente segura se não tem uma boa indicação de que vai ter expansão da mistura. O investimento em uma usina de biodiesel é bastante volumoso e os juros no Brasil são muito caros. Fazer um investimento que não comece a produzir imediatamente põe em risco até o que você já tem”, afirmou.

Assim, a comparação entre B16 e B50 não representa apenas uma corrida por quem utiliza a maior proporção de biocombustível.

Para o Brasil, o debate passa pela diversidade das matérias-primas, condições climáticas e logísticas, desempenho dos motores, segurança técnica, previsibilidade regulatória e capacidade de investimento.

São esses fatores, mais do que a comparação isolada de percentuais, que deverão definir até onde e em que velocidade o país poderá avançar depois do B15.

Por: Guilherme Dorigatti
Fonte: Notícias Agrícolas

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