CACHOEIRA, “VEJA” E A VERDADE SOBRE O GOVERNO PARALELO DE JOSÉ DIRCEU NUM QUARTO DE HOTEL. OU: ACABOU A FARSA, ZÉ!

Publicado em 29/04/2012 13:01 e atualizado em 01/08/2013 16:07 1929 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

CACHOEIRA, “VEJA” E A VERDADE SOBRE O GOVERNO PARALELO DE JOSÉ DIRCEU NUM QUARTO DE HOTEL. OU: ACABOU A FARSA, ZÉ! TENTE OUTRA VEZ!

O subjornalismo a serviço de José Dirceu e da escória do mensalão mudou um pouquinho de tom. Teve de revelar a sua real face. O objetivo é mesmo proteger aquele que é chamado de “chefe de quadrilha” pelo Procurador Geral da República.

Muito bem! Até ontem, a escória fazia marola na rede: “O jornalista da VEJA fez isso e aquilo; está de conluio com Cachoeira…” O inquérito, agora tornado público, deixa claro o que as pessoas decentes já sabiam: o profissional da VEJA atua em busca de informações que interessam ao público. Tanto não estava a serviço de Cachoeira que reportagem da revista sobre a Delta preocupa o grupo. Diálogos entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres flagram os dois se articulando para abafar a repercussão da notícia. SABEM QUEM ESTAVA, NA PRÁTICA, QUERENDO OU NÃO, ATUANDO EM FAVOR DE CACHOEIRA? AQUELES QUE IGNORARAM A REPORTAGEM DA VEJA.

Nota à margem: pessoalmente, sou favorável ao fim do sigilo de justiça em inquéritos por uma razão simples: sempre há vazamento, e quem opera para isso fica impune. Como não se conhece o conteúdo do inquérito, alguns canalhas escrevem o que bem entendem. O que há mesmo lá contra a VEJA? Nada! Só há coisas a favor. Ou então vamos ver.

1: José Dirceu é ex-deputado, cassado por corrupção.
2: José Dirceu é acusado de chefe de quadrilha em processo que tramita no Supremo Tribunal Federal.
3: José Dirceu é “consultor” de empresa privadas nacionais e estrangeiras.
4: José Dirceu é chefão informal — não tem nem cargo na Executiva — do PT.

Muito bem! Se alguém com esse currículo está se encontrando, de forma clandestina, com autoridades dos Poderes Legislativo e Executivo em quartos de hotel, em meio à crise que resultou na queda do chefe da Casa Civil, pergunta-se:
a) isso é ou não é notícia?
b) isso deve ou não vir a público?

Nota: nem Dilma Rousseff sabia das atividades clandestinas de Dirceu, que atraía para seu cafofo também subordinados da presidente. O “chefe de quadrilha” (segundo a PGR) e seus esbirros no subjornalismo a soldo tentam agora, inutilmente, transformar em crime a divulgação da notícia.

No inquérito que já vazou na íntegra, a turma de Cachoeira comemora a notícia, sugere que está na origem da divulgação da fita — fita, notem bem!, que é do circuito interno do hotel. Não foi especialmente produzida por ninguém.Isso é apenas um fato! SE A FITA TIVESSE SIDO PASSADA À VEJA POR UM SANTO, O CONTEÚDO SERIA AQUELE. SE A FITA TIVESSE SIDO PASSADA À VEJA POR UM BANDIDO, O CONTEÚDO SERIA AQUELE.

“Aquele, qual, Reinaldo?”
Este: um deputado cassado por corrupção, lobista de empresas privadas, acusado de ser “chefe de quadrilha”, mantendo encontros secretos com autoridades do Legislativo e do Executivo.

VEJA publicou? Publicou e fez muito bem! Folha, Estadão, O Globo e Época, para citar alguns veículos, agiriam da mesma forma. Qualquer veículo tomaria essa decisão? Não! Aqueles que dependem da boa vontade de terceiros para sobreviver usariam o material para fazer negócio. Os que precisam da ajudinha do governo federal e das estatais para existir também a esconderiam. E haveria certamente quem se visse tentando a usar o material para fazer chantagem.

“Pôr fogo na República”
“Ah, mas Cachoeira e sua turma dizem que a fita iria pôr fogo na República…” E daí? Que dissessem que iria incendiar o mundo! Cada um usa as metáforas e as hipérboles que forem do seu gosto. Os diálogos deixam claro que ele é chegado, com frequência, a afetar um poder que não tem, o que certamente despertava a admiração dos seus subordinados. Isso é irrelevante. Atenção para o que vai em caixa alta. Depois, dirijo uma pergunta aos petistas: SEMPRE QUE ALGUÉM CASSADO POR CORRUPÇÃO, LOBISTA DE EMPRESA PRIVADA E ACUSADO DE SER CHEFE DE QUADRILHA ESTIVER SE ENCONTRANDO COM AUTORIDADES DA REPÚBLICA, A OBRIGAÇÃO DA IMPRENSA, SE SABE DO FATO E TEM A PROVA, É DENUNCIAR.

O resto é conversa de criminosos e de seus assalariados — TODOS ELES, INVARIAVELMENTE, PAGOS COM DINHEIRO PÚBLICO OU DE ESTATAIS — para tentar esconder os próprios crimes.

A pergunta aos petistas
Venham cá: se Dirceu estava lá, no seu cafofo, recebendo autoridades do Executivo e do Legislativo para tratar apenas de assuntos republicanos e do interesse do país, por que tanto drama? Por que haveria, nas palavras do contraventor, o risco de se “pôr fogo no país”? Aquilo tudo não era, na visão de vocês, legítimo, correto, moralmente aceitável? Da próxima, sugiro que reuniões desse tipo sejam noticiadas no site do PT. Assim:
“Ontem, no Hotel X, o companheiro José Dirceu se encontrou com o ministro do Desenvolvimento Industrial e com o líder do governo na Câmara, demonstrando que continua a ser um dos homens mais influentes do PT e da República. Perseguido pela imprensa burguesa, o agora mediador dos interesses entre o trabalho e o capital discutiu com as autoridades uma pauta que é do interesse (…)”

Essa gente perdeu a noção do ridículo e ficou sem discurso. Está comprovado: o único interesse é mesmo defender o “chefe de quadrilha” (segundo a PGR) e… a quadrilha.

Para encerrar - Alguns cretinos estão tentando ressuscitar a mentira comprovada de que um repórter da VEJA tentou invadir o santuário de José Dirceu naquele hotel. O Ministério Público nem sequer aceitou a denúncia porque não se conseguiu nem mesmo apresentar um indício de que isso tenha acontecido.

A esperança de Lula e da quadrilha do mensalão era a de que o inquérito sobre Demóstenes desmoralizasse a imprensa, contribuindo para livrar a cara dos quadrilheiros. Se o STF vai livrar ou não, isso eu não sei! O que resta comprovado é que foi para o brejo mais essa tentativa do PT de matar o jornalismo para restar como única instância da verdade no país.

Imaginem, meus senhores, a verdade a cargo de José Dirceu. Quando menos, ela teria duas caras.

PS - Ah, sim, independentemente de você ser professor de Educação Moral e Cívica ou não: caso tenha alguma fita que mostre José Dirceu ou outro qualquer mantendo reuniões suspeitas com autoridades da República, faça a fita chegar à imprensa digna desse nome. Isso é do interesse público e tem de ser conhecido pelo público.

PS2 - A propósito: quem vinha vazando a conta-gotas o conteúdo do inquérito sobre Demóstenes? Quem o vazou agora na íntegra? Nao me digam que foi uma freira do convento das Carmelitas Descalças… A farsa desmoronou, Zé! Tente outra vez!

PS3 - E cumpre jamais esquecer as palavras tornadas históricas por Carlinhos Cachoeira e Jairo, um de seus auxiliares. Relembro:
CACHOEIRA - Nós temos de ter jornalista na mão, ô Jairo! Nós temos que ter jornalista. O Policarpo nunca vai ser nosso…
JAIRO - É, não tem não, não tem não. Ele não tem mesmo não. Ele é foda!

PS4 - Fantasia final
Consta lá no inquérito que a fita teria sido cedida à VEJA em troca de uma reportagem sobre bingo eletrônico. A canalha a soldo repete isso por aí.
Cadê a reportagem?
Onde foi publicada?
Quando foi publicada?
Essa gente não cansa de se desmoralizar?

Por Reinaldo Azevedo

 

O TRIUNFO DA VERDADE: e os ratos pariram… mais ratos! Inquérito sobre Demóstenes vaza na íntegra e evidencia o que os decentes já sabiam: jornalista da VEJA estava apenas fazendo seu trabalho. Ou: como senador tentou abafar repercussão de reportagem da revista sobre a Delta a pedido de Cachoeira

Leiam com muita atenção!

O ministro Ricardo Lewandowski autorizou o envio à CPI da íntegra do inquérito que investiga as relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com Carlinhos Cachoeira. A investigação corre em sigilo de justiça. A imprensa publicar informações que estão nessa condição NÃO É NEM DEVE SER crime. Mas vazá-las é, sim, ato criminoso! E, no entanto, se as informações chegam aos jornalistas, a sua obrigação é divulgá-las. Nesse caso —  curioso, não? —, ninguém indagou: “Qual é a fonte?” Gente que respeita a lei é que não é, certo? Mas a informação veio para o bem. Os ratos, mais uma vez, pariram, como lhes é natural, ratos. Atenção! NÃO HÁ, PORQUE NÃO HOUVE, E VOCÊS PODEM VER POR CONTA PRÓPRIA, UMA SÓ INFORMAÇÃO, UMA SÓ CONVERSA, UM SÓ DIÁLOGO que revelem o jornalista da VEJA a fazer qualquer outra coisa que não buscar informações que eram do interesse público. Não há uma só sugestão que deixe o profissional da revista em situação incômoda, vexatória ou algo assim. Muito pelo contrário.

AQUILO QUE OS VAGABUNDOS PROMETERAM — O FIM DOS TEMPOS, O SUPOSTO CONLUIO ENTRE A REVISTA E ALGUNS CRIMINOSOS — ERA, EVIDENTEMENTE, FALSO! Ao contrário: nas vezes em que a reportagem de VEJA falou com Carlinhos Cachoeira ou alguém de seu esquema, estava interessada em obter informações que protegiam os cofres públicos da ação de larápios. É uma fantasia idiota a história de que ele era a única fonte. Quando chegou a vez de o próprio Cachoeira virar reportagem, a revista não hesitou. Foi a primeira a publicar matéria sobre os vínculos do senador Demóstenes Torres com o bicheiro. E isso é apenas fato, que petralha nenhum consegue eliminar da história.

Um repórter honesto pode falar com uma fonte suspeita 10, 20, 200 vezes (esse número, aliás, é uma fantasia!). E NÃO se corrompe nas 10, nas 20, nas 200 vezes. Se Lula falou alguma vez com Carlinhos Cachoeira, isso eu não sei. O que é fato? Na CPI dos Bingos, Rogério Buratti, amigo de Antônio Palocci, denunciou que o PT recebeu R$ 1 milhão do contraventor pelo caixa dois — os tais recursos não-contabilizados. A fonte é um petista!

O caso Delta, Demóstenes e VEJA
Os ratos se deram mal. O inquérito evidencia justamente o contrário do que eles vinham alardeando. E de modo muito impressionante! Prestem atenção! A revista que começou a chegar aos leitores no dia 7 de maio de 2011 trouxe a primeira grande reportagem sobre o fantástico crescimento da Delta (aqui e aqui). Aliás, é a revista em que dois empresários denunciam a “promiscuidade total” entre Sérgio Cabral e Fernando Cavendish — as fotos de Paris são muito eloquentes a respeito, não?  Pois bem… Basta ler o inquérito para notar que Carlinhos Cachoeira e seus rapazes se mobilizaram para “abafar” a repercussão da reportagem. E quem se encarregou da operação abafa, embora, publicamente, parecesse fazer o contrário, foi justamente Demóstenes Torres. Leiam este trecho do diálogo (em vermelho).

RESUMO
Conversam sobre a reportagem da VEJA relacionada à DELTA. CARLINHOS orienta DEMÓSTENES a evitar tocar no assunto.

CARLINHOS: oi, doutor.
DEMÓSTENES: fala professor. E aí tudo bem?
CARLINHOS: bom demais, a sogra não resistiu.
DEMOSTENES: é (… )
CARLINHOS: viu a matéria da DELTA aí?
DEMÓSTENES: isso, estou te ligando por isso, avisar o pessoal que está todo mundo em cima, ALVARO DIAS, não sei que, pan, pan…. E o que vai acontecer lá não tem jeito de aprovar nada, certo?, nós vamos fazer um requerimento, mas requerimento é convite, o cara pode recusar, agora o grande negócio é que chama a atenção do ministério público prá cima deles.
(…)
CARLINHOS: é mas eu não gosto da (…) A coisa é o seguinte: eu convivo com eles direto, não tem essa ligação com o ZE DIRCEU, ele comprou a empresa daqueles dois bandidos lá. E os caras dizendo que ele não pagou, e fez isso aí.
DEMÓSTENES: eles vão fazer barulho, vai sair um requerimento prá convidar, talvez o FERNANDO se antecipasse soltando a nota, dizendo que isso é mentira, que é um problema empresarial, que nunca teve isso e tal, tal. E pula fora, melhor alternativa. Agora o grande assunto no congresso vai ser isso, tentando chamar, tentando fazer isso e tal, já avisei a imprensa que não tem jeito de convocar, só tem jeito de convidar, porque não é autoridade, numa dessa aparece esses dois bandidos querendo palco e faz o regaço.
CARLINHOS: mas parece que eles não vão…

Voltei
O que o diálogo acima evidencia é justamente Carlinhos Cachoeira infeliz com uma reportagem da VEJA que punha em maus lençóis os seus amigos da Delta. E a razão é simples: QUEM EDITA A VEJA NÃO SÃO AS SUAS FONTES, SEJAM ELAS PESSOAS DE ÍNDOLE DUVIDOSA OU AS CARMELITAS DESCALÇAS. Das fontes, VEJA quer informações. Ponto.

O que me impressiona nessas conversas, confesso, mesmo depois de tudo o que sabemos, é a atuação de Demóstenes. O diálogo acima é do dia 8 de maio de 2011. No dia seguinte, a imprensa noticiava, como se vê abaixo, num trecho do jornal O Globo, que o senador iria pedir investigação. Leiam (em azul):

Os líderes da oposição no Senado querem ouvir os empresários Fernando Cavendish, presidente da Delta Construções, e os ex-donos da Sigma Engenharia,José Augusto Quintella Freire e Romênio Marcelino Machado, para que ele falem sobre o suposto tráfico de influência do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em reportagem da revista Veja desta semana, Freire e Machado afirmam que Dirceu foi contratado por Cavendish, para que o ex-ministro o aproximasse de pessoas influentes no governo do PT.
A reportagem afirma ainda que Cavendish teria dito que, com “alguns milhões seria possível comprar um senador” para conseguir um bom contrato com o governo.
O líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), vai procurar o PSDB e o PPS para, numa ação conjunta da oposição, apresentarem requerimento de convite aos empresários. Para Demóstenes, caberia requerimento à Comissão de Constituição e Justiça ou à de Fiscalização e Controle.”Vamos conversar com os senadores da oposição, para tentar um requerimento conjunto. O problema é que não temos número suficiente para aprovar na comissão, caso o governo queira impedir. Se nada vingar, vamos pedir que o Ministério Público averigue as denúncias”, disse Demóstenes.

Não é impressionante? Eu mesmo reproduzi trecho da matéria do Globo no clipping do blog. Ocorre que o senador estava dando um jeito, como revelam as conversas, justamente de impedir qualquer investigação. No dia 9, em nova conversa com Cachoeira, ele mostra satisfação porque a matéria da VEJA “não deu em nada” e faz alusão justamente à reportagem do Globo, que reproduzo acima:

RESUMO
CARLINHOS diz que DEMOSTENES vai trabalhar nos bastidores do SENADO para abafar a reportagem da VEJA relacionada à DELTA.

DEMÓSTENES: ah num deu em nada não cê viu né? Eu arrumei um… uma maneira de fragilizar o discurso. Eu… Única coisa que saiu foi no GLOBO dizendo que eu ia procurar o PPS e o PSDB, pra fazer um convide pros empresários, mas eles rumaram no DIRCEU. Todo mundo, e o resto num saiu porra nenhuma, e hoje eu num vou lá, é capaz que esse trem daqui pra quarta morre, falou?
CARLINHOS: é, ta bom. Eles viram a reportagem do GLOBO e me ligaram já.
DEMÓSTENES: É, num saiu nada, fala pra eles que num saiu nada que o trem era. Eles queriam um barulhão, falou?
CARLINHOS: tá bom. Obrigado aí.
DEMÓSTENES: um abraço, tchau.

E então? O senador parece orgulhoso de ter levado a imprensa no bico, de ter enganado todo mundo. Como se vê, a relação de Carlinhos Cachoeira com a cúpula da Delta é de absoluta proximidade. Ele foi procurado pelo comando da empresa — conversaram até sobre a matéria do Globo. E um dado relevante: notem que o contraventor estava garantindo que os dois empresários que denunciaram Cavendish e que acusaram a proximidade da empresa com Zé Dirceu, se convidados, não iriam ao Senado. Isso é preocupante. Dois dias depois de a matéria da VEJA ter sido publicada, a conversa sugere que ambos já tinham sido “contatados”…

Eu me orgulho de dizer que acreditei em Demóstenes ao ler no Globo, naquele dia, que ele queria investigar o esquema da Delta. Orgulho-me porque todos os valores que ele enunciava e anunciava no Senado estavam e estão corretos. Eu e milhões de pessoas achamos isso. Parece que ele não levava aquelas convicções a sério, o que não depõem contra elas, mas contra ele. Como resta evidente das duas conversas, também o seu empenho em investigar não era verdadeiro. Ao contrário: ele estava atuando a pedido de Cachoeira para impedir que a apuração prosperasse. Fui o único enganado??? Acho que não… Chego a duvidar de que ele tenha noção do mal que fez e que está fazendo não exatametne à oposição, mas aos valores da democracia liberal que ele dizia encarnar.

Agora, a imprensa
Mais uma vez, fica evidente que a tentativa de linchamento de jornalistas da VEJA é obra de obscurantistas, que odeiam, na verdade, a liberdade de imprensa. Algumas estrelas do jornalismo investigativo, que têm até uma associação, deveriam vir a público para dizer se fontes que revelaram algumas das maiores falcatruas destepaiz, como diria aquele, estavam no convento das Carmelitas Descalças. Aliás, uma personagem emblemática estará na CPI do Cachoeira: o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Eram anjos aqueles todos que forneceram aos petistas, que os vazaram para a imprensa, documentos contra o governo? São decentes alguns “companheiros” infiltrados em bancos públicos, que quebram o sigilo de desafetos do partido? Jornalistas que passaram anos sustentado a veracidade do Dossiê Cayman estavam dialogando com professores de Educação Moral Cívica? VEJA só publica reportagens depois de apurar os fatos.

Eurípedes Alcântara já escreveu um detalhado texto a respeito dos procedimentos da revista. A qualidade moral da fonte não faz a qualidade da informação. Como eu já havia escrito anteriormente neste blog, falar com o papa não nos faz santos; falar com bandidos não nos torna criminosos.  Em qualquer dos casos, há de haver apuração. As de VEJA são rigorosas — ou Dilma, supõe-se, não teria demitido seis ministros e uma penca de funcionários do Dnit. Mas é compreensível, claro!, que Lula, cuja campanha recebeu R$ 1 milhão de Cachoeira pelo caixa dois, segundo revela um companheiro seu, esteja empenhado agora em tirar a Delta da CPI para investigar a imprensa… Investigar por quê? O inquérito já é público. Qual é acusação? Qual é a suspeita? O que há além da tentativa de intimidação?

“Ah, segundo a Polícia Federal, foi o pessoal do Cachoeira que forneceu a fita do circuito interno do hotel em que Zé Dirceu aparece se reunindo com autoridades da República…” E daí? Se foi ou não, a Constituição protege o sigilo da fonte. Que jornalista nestepaiz, de posse daquela fita, não a tornaria pública? Se um ex-deputado, cassado por corrupção, chamado pelo Procurador Geral da República de “chefe de quadrilha” e hoje notório lobista — o nome politicamente correto é “consultor” — despacha com figurões do governo e do Congresso, em reuniões clandestinas, a informação deveria ser amoitada, ainda que tivesse mesmo sido fornecida por alguém de índole suspeita? Ora…

O profissional de VEJA não precisa que um inquérito da Polícia Federal ateste que faz o seu trabalho dentro das regras do jogo e de acordo com a ética da profissão. Durante alguns dias, no entanto, a vagabundagem a soldo especulou à vontade. Eis aí!

O que sai de relevante do inquérito no que diz respeito à VEJA é o esforço de Carlinhos Cachoeira para abafar reportagem da revista sobre a Delta. Sempre a Delta — a construtora que os petistas não querem investigar. Petistas, sempre os petistas — aqueles que, confessadamente, receberam R$ 1 milhão pelo caixa dois de Carlinhos Cachoeira.

E o joio, Reinaldo? E o trigo? Ah, terei de fazer mais um post. Este já foi longe demais.

Por Reinaldo Azevedo

 

28/04/2012 às 6:17

Com Cachoeira, Demóstenes combina “bater” em Gurgel, um “sem vergonha”

Por Alana Rizzo e Fábio Fabrini, no Estadão:
Investigado pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) chamou o procurador-geral, Roberto Gurgel, de “sem vergonha” durante o escândalo do caso Palocci, em 2011. Áudios obtidos pelo Estado mostram que, em conversa com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o parlamentar afirmou que tinha de “bater” em Gurgel para ele não se animar a investigá-lo.

Segundo a Polícia Federal, a interceptação foi feita na manhã seguinte a um pronunciamento no Senado em que Demóstenes criticava a atuação do procurador-geral, que arquivou a investigação contra o ex-ministro da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, Antonio Palocci, por enriquecimento ilícito a partir de consultorias supostamente prestadas por sua empresa, a Projeto. A representação foi feita pelos partidos de oposição. Na ocasião, o senador foi um dos maiores críticos à postura de Gurgel.

“Se não der nele, ele (Gurgel) começa a pegar a gente também, você entendeu? Agora, se ele está cumprindo obrigação do governo, agora ele inocenta o governo e depois pega um da oposição. Isso é sem vergonha. Se não bater nele, ele anima”, disse Demóstenes, em conversa às 10h06 do dia 7 de junho de 2011. Cachoeira elogiou o discurso do parlamentar e ressaltou que o procurador ficou “desmoralizado” depois da fala do senador.

Na época em que Demóstenes criticava Gurgel, a PF já havia remetido ao procurador peças do inquérito da Operação Vegas, que demonstravam a proximidade entre o senador e Cachoeira. Nos grampos, o parlamentar pede dinheiro ao contraventor para pagar suas despesas. Contudo, mesmo de posse do material desde 2009, o procurador só pediu autorização ao STF para investigá-lo em 2012, após a crise provocada pela Operação Monte Carlo.

Na quarta-feira, dia da primeira sessão da CPI do Cachoeira no Congresso, o senador Fernando Collor (PTB-AL) propôs a convocação de Gurgel, mas o requerimento foi rejeitado. Questionado pela imprensa sobre por que não pediu autorização para investigar Demóstenes em 2009, Gurgel afirmou que o inquérito daquele ano dependia de informações que só viriam a ser obtidas na Monte Carlo, deflagrada há dois meses.

‘Fumaça’. As interceptações mostram que o senador e Cachoeira cogitavam representar ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) contra a recondução de Gurgel ao cargo. O procurador teria, segundo Demóstenes, deixado de cumprir sua obrigação funcional. “Seria uma ótima representar contra ele no Conselho,” diz o senador, animado com a proposta de Cachoeira de fazer um ato contra a recondução de Gurgel ao cargo.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

28/04/2012 às 6:15

Senador recebeu R$ 3 mi do grupo, afirma procurador

Na Folha:
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, diz que o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) recebeu R$ 3,1 milhões do esquema do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. “O valor total repassado para o parlamentar foi de R$ 3.100.000″, diz Gurgel. Segundo relatório do Ministério Público Federal a que a Folha teve acesso, interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo indicam que “R$ 1 milhão foi depositado na conta de Demóstenes”.

Para a defesa do senador, a conclusão do procurador é “irresponsável e falsa”. Gurgel afirma que ao longo da apuração “fica evidente que os vínculos que unem o senador a Carlos Cachoeira extrapolam em muito os limites éticos exigíveis na atuação parlamentar, adentrando a seara penal”. Ele sustenta que Demóstenes agiu para favorecer economicamente o empresário.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

28/04/2012 às 6:11

Senador foi acionado para transferir presos

Por Fernando Mello, Natuza Nery e Leandro Colon, na Folha:
Um diálogo gravado pela Polícia Federal no dia 3 de março de 2011 mostra que o empresário Carlinhos Cachoeira pediu ajuda ao senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) para transferir policiais militares acusados de integrar um grupo de extermínio no Estado.

A interceptação telefônica reforça a suspeita da PF sobre um possível envolvimento do esquema Cachoeira com o crime organizado. Os policiais estavam detidos no presídio federal de Campo Grande (MS), após serem presos em uma outra operação da PF realizada em fevereiro de 2011, a Sexto Mandamento. A ação da polícia apontou, à época, a existência de um grupo de extermínio entre PMs goianos.

Na conversa, Cachoeira pede que Demóstenes ligue para o governador de Goiás, Marconi Perillo, para que interceda em favor dos presos por meio de Ronald Bicca, ex-procurador-geral do Estado. No diálogo, o senador responde que o Ministério Público precisaria dar um parecer aprovando a transferência, e que era “só esperar o procurador assumir, que ele já falou com a turma para dar parecer favorável”.

Dez dias depois, o irmão de Demóstenes, Benedito Torres, assumiu o cargo de procurador-geral do Ministério Público Estadual, ou seja, chefe dos promotores que atuaram na operação e que deveriam dar o parecer. Todos os pareceres, porém, foram contrários à transferência, que, mesmo assim, foi autorizada pela Justiça. Os presos foram transferidos para Goiânia em junho de 2011.

Por Reinaldo Azevedo

 

28/04/2012 às 6:09

Demóstenes avisou Cachoeira de ação contra caça-níqueis

Por Leandro Colon, Fernando Mello e Breno Costa, na Folha:
Relatório da Polícia Federal mostra que o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) informava com antecedência o empresário Carlinhos Cachoeira de operações a serem realizadas pelo Ministério Público contra o grupo do contraventor. Segundo o inquérito que está no Supremo Tribunal Federal, às 23h11 do dia 20 de junho de 2011 o senador, que é procurador de Justiça, avisou Cachoeira de uma ação de combate ao jogo ilegal: “Eu fui informado é que o MP [Ministério Público] Federal aí em Goiás vai fazer operação conjunto com o MP Estadual, é, em cima de caça-níquel viu? Parece que tem, eles tinham uma investigação independente, independente mesmo daquela outra que foi pra Justiça Federal, certamente eles vão usar a PF né, então você fica de olho aí”.

“Quem te falou?”, perguntou Cachoeira. “O de sempre”, disse o senador, que acrescenta: “Bom ele falou, eu num sabia que eles tinham investigação, então ele num sabe o tamanho que é né, chamaram pra fazer operação, possivelmente eles já tem tudo pronto né.” O procurador-geral de Justiça de Goiás, Benedito Torres, é irmão do senador. Ele nega saber de irregularidades e diz ter rompido com o senador por conta do caso Cachoeira. Três minutos depois, Cachoeira e Demóstenes voltam a falar pelo telefone, quando o senador disse: “Turma de baixo informou que foi pedido pra fazer uma operação conjunta”. Encerrada a conversa, Cachoeira telefonou ao delegado da PF Fernando Byron, apontado pela Operação Monte Carlo como informante do esquema ilegal.

O empresário de jogos então repassou ao delegado a informação que recebera de Demóstenes: “O MP Federal avisou o Estadual que vai ter uma operação, cê tá sabendo?”. “Não, não, vou ver”, respondeu o delegado. Cachoeira então deu mais detalhes e indaga Byron: “É nessa área sim, queria que você desse uma olhada, não é nada que você pediu, não?”. O delegado, que seria informante do esquema, acalmou o empresário: “É reunião de rotina mesmo, não de operacionalidade”. Segundo a investigação, Fernando Byron, que trabalhava em Goiânia, era consultado por Cachoeira toda a semana para saber sobre as atividades da PF na região. As gravações mostram ainda que o grupo de Cachoeira soube, ainda em janeiro, que poderia haver operação no Distrito Federal e em Goiás.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Discurso anti-imprensa “perde força”, diz Álvaro Dias

Por Gabriel Castro, na VEJA Online:

O vazamento do inquérito da operação Monte Carlo comprova que o suposto conluio entre a imprensa e a quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira nunca passou de uma invenção de grupos hostis à liberdade de expressão - o que inclui setores do PT e seus aliados. A íntegra das investigações reforça o óbvio: o jornalismo investigativo cumpriu o seu papel sem se sujeitar à máfia.

Em um dos trechos interceptados pela Polícia Federal, o senador Demóstenes Torres diz a Cachoeira que tentará esvaziar os efeitos de uma reportagem de VEJA sobre a empresa Delta, publicada há cerca de um ano. O senador diz que o assunto vai esquentar no Congresso. Afirma que alguns colegas, como Alvaro Dias (PSDB-PR), já tentavam levar os representantes da construtora para falar ao Congresso.

O trecho revela que a quadrilha e seu mais fiel aliado político foram atingidos pela denúncia contra a companhia, que atuava como um braço da máfia, e tentaram minimizar o estrago e esvaziar o discurso da própria oposição. Em uma segunda conversa, dias depois, Demóstenes afirma ter cumprido o objetivo. Eis a transcricão feita pela Polícia Federal: “Ah num deu em nada não cê viu né? Eu arrumei um… uma maneira de fragilizar o discurso”.

O senador Alvaro Dias afirmou neste sábado ao site de VEJA que as revelações do inquérito devem amenizar o ímpeto dos parlamentares que pretendiam usar a CPI do Cachoeira para agredir a imprensa: “Agora esse discurso perde força. Mas que houve uma tentativa de avançar sobre a imprensa, houve”. Ele chama de “fascista” a ofensiva sobre os meios de comunicação e diz que a explicação para o rancor está clara: “São os adeptdos do mensalão tentando se vingar dos algozes deles”.

Líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR) também acredita que o vazamento do inquérito deve colaborar para desmoralizar o discurso anti-imprensa. “Da nossa parte, isso não vai prosperar. É um vezo autoritário, uma tentativa de constranger o jornalismo investigativo”, afirma. O parlamentar diz que os ataques aos meios de comunicação são uma tentativa de tirar o foco do essencial: as ramificações políticas da quadrilha de Cachoeira.

Jogo duplo
Na conversa com o contraventor, Demóstenes revelou preocupação com a cobrança feita pelos oposicionistas depois da reportagem de VEJA: “Estou te ligando por isso, avisar o pessoal que está todo mundo em cima, Alvaro Dias, não sei que…”

Mencionado na conversa,  o senador Alvaro Dias conta que, na época, a estratégia de Demóstenes não ficou clara. Mas ele diz ter notado, mais de uma vez, um comportamento intrigante no colega: “Ele avançava e recuava. Batia onde podia e recuava em outras situações. Agora é que a gente começa a entender”, diz ele.

Por Reinaldo Azevedo

 

Se a imprensa brasileira quisesse ser sensacionalista, seria a melhor imprensa sensacionalista do mundo. Ou: Classe política brasileira seria quase dizimada pelo jornalismo americano, britânico ou italiano

Agora que o inquérito sobre Demóstenes Torres foi tornado público — e vou aqui insistir para que se acabe com o falso sigilo de coisas assim: há sempre vazamentos selecionados por escroques — e que resta evidente que a “grande munição” contra a imprensa, com a qual Lula prometia o fim do mundo, era só pó de traque, cumpre fazer algumas considerações sobre a imprensa brasileira.

Desde que o PT chegou ao poder, a imprensa está sob ataque. Tudo ficou muito pior depois que veio à luz o escândalo do mensalão e que acadêmicos do PT, liderados por Marilena Chaui, inventaram a falsa tese da tentativa de golpe de estado. A maior contribuição desta estudiosa de Espinoza foi abrigar o pensamento de Delúbio Soares. O partido resolveu mobilizar contra a imprensa seus esbirros na Internet e montou um verdadeiro aparelho para intervir em portais, sites, blogs, redes sociais etc. Anúncios da administração direta e de estatais financiam a intervenção, o que é um acinte à democracia. É por isso que não publico aqui aqueles que chamo, desde sempre, “petralhas”. Não são indivíduos se manifestando, mas funcionários de uma organização. Alguns são remunerados. Outros não!

A campanha de difamação é intensa, embora os propósitos da canalha não tenham se realizado. Quem liderava antes continua a liderar — e com a mesma folga. O que há de novo na era petista é essa pistolagem que tenta contrastar a verdade dos fatos com uma “verdade alternativa” — que é um outro nome para a mentira.

Aqui e ali, de modo despropositado, falso mesmo!, diz-se que a imprensa brasileira não sabe distinguir o joio do trigo, que escolhe o caminho do sensacionalismo, que é injusta com o poder e com os poderosos. Isso é falso de várias maneiras combinadas. Se algum mal há no setor, é seu alinhamento meio burro, automático, com teses de esquerda — mas deixarei este aspecto de lado agora. A verdade é que a imprensa brasileira está entre as mais bem-comportadas do mundo democrático; talvez seja a mais compreensiva de todas.

Explico-me. A grande imprensa brasileira faz uma distinção radical, sem zonas cinzentas, entre o que é privado é o que é de interesse público. No texto em que trata dos princípios da VEJA, Eurípedes Alcântara, diretor de Redação, esmiúça o comportamento da revista — e, na verdade, de toda a grande imprensa — quanto a esse particular. Assim, se um jornalista recebe um arquivo com informações escabrosas sobre a vida sexual de um político por exemplo — refiro-me mesmo a evidências, provas —, isso não é publicado se o dito comportamento não estiver relacionado a algo que diga respeito ao interesse da coletividade ou que fira esses interesses.

Todo mundo sabe disso. Lula sabe disso. José Dirceu sabe disso.

Por que é assim? Porque se considera, no que eu chamaria de “cultura da imprensa brasileira”, que tal fato não é “político”. Se a grande imprensa brasileira quisesse ser sensacionalista, seria a maior — e melhor — imprensa sensacionalista do mundo. Por um bom tempo ao menos, até que houvesse uma mudança de hábitos. Olhem aqui: quem já se hospedou em alguns hotéis de Brasília — e não estou me referindo a puteiros, não! —, sabe que a capital federal rende quilômetros de textos sobre, como posso chamar?, desregramentos dos costumes de casados, solteiros, anfíbios… O mesmo vale para alguns restaurantes. E, no entanto, há uma espécie de compromisso tácito entre os políticos e  funcionários graduados e o jornalismo de que nada daquilo será notícia. Peçam a um congressista american que deixe um restaurante embrigado para vocês verem o que acontece. Em Brasília, isso é rotina. Tudo questão pessoal!

A grande imprensa brasileira tende a considerar que isso tudo é o joio. Para ser trigo, tem de envolver o interesse público. O jornalismo só se ocupou do filho que Renan Calheiros tinha fora do casamento quando se descobriu que era uma empreiteira que pagava a pensão à mãe da criança. Como ele era presidente do Senado, restava evidente que havia uma dimensão coletiva no que parecia ser apenas uma questão pessoal. Então se publicou.

Lula ficou furioso quando os negócios de Lulinha, o seu “Ronaldinho”, vieram a público. Disse que estavam mexendo com a sua família. Errado! Era a sua família — no caso, um de seus filhos — que estava mexendo com o estado ao receber alguns milhões da Telemar, uma concessionária de serviço público, de que o BNDES era sócio. Não fosse isso, ninguém se importaria se aquele ex-monitor de jardim zoológico tinha ou não se tornado um milionário.

José Dirceu, o consultor de empresas privadas que se esgueira em quartos de hotel, ficou bravo com as imagens que VEJA publicou na revista. Ora, estivesse ele recebendo, naquele ambiente, pessoas sem quaisquer vínculos com assuntos da República, ninguém teria dado um pio. Mas não! Com a sua folha corrida, mantinha encontros com o presidente da Petrobras, com o ministro do Desenvolvimento Industrial, com o líder do governo na Câmara… O Zé sabe muito bem que nem VEJA nem outro veículo qualquer teria publicado uma linha a respeito caso ele estivesse por ali para, sei lá, estripulias sexuais. No Brasil é assim. Mas não é assim no mundo, não!

No mundo
Lembram-se do “bunga bunga” de Berlusconi? Antes que surgissem as suspeitas sobre a idade e a procedência de algumas meninas — o que toca em questões de estado —, a vida dissoluta do então primeiro-ministro, estivesse ou não o interesse público envolvido, era alvo de constantes reportagens, com fotos, artigos, especulações etc. Algumas fotos tiveram que sair com aquele quadriculado ali na região entre o umbigo e as coxas…

Na Inglaterra, então, nem se fale. O escândalo que envolveu o ”The News of the World” não mudou a rotina dos tabloides, não. Aquele jornal cometeu crimes para fabricar notícia, coisa muito diferente de noticiar o que se sabe da vida pública ou privada de personalidades da política, da realeza e do mundo do espetáculo. Um arquivo que chegasse a uma redação com folguedos sexuais de um político seria simplesmente notícia. Ponto! Nem se discute se um político ou funcionário graduado flagrado em intimidades num hotel ou num restaurante com namorada (o) ou amante é ou não notícia. É.

Boa parte do establishment político brasileiro não sobreviveria  à imprensa americana, bem mais comedida do que a inglesa ou italiana, mas muito distante da nossa no que concerne a essa separação rígida entre o público e o privado. Os bacanas que reclamam do nosso jornalismo não sabem, na verdade, o paraíso em que vivem. Na maioria das democracias, compreende-se que o homem público praticamente não tem direito a algumas prerrogativas dos cidadãos privados. Um exemplo: se o “Indivíduo A” tem uma amante, isso só interessa a ele, a ela e à mulher traída. Se, no entanto, ele for um político, isso passa a ser, sim, do interesse coletivo porque se considera que ele representa uma coletividade. Como tal, não pode reivindicar o direito à privacidade. Nos EUA, sabemos, a categoria que mais fulmina pré-candidatos à Presidência são as amantes.

Fico cá me perguntando se, por exemplo, os americanos não acertam mais do que nós. Fico cá pensando se Brasília — refiro-me à Brasília como capital administrativa, não aos brasilienses — não seria um lugar de mais trabalho, de mais seriedade, de mais moralidade se os homens públicos soubessem que os jornalistas contarão tudo o que sabem e pronto! Sempre há a alternativa, é óbvio, de o sujeito de vida complicada decidir se manter na esfera privada, hipótese em que se ninguém tem de se meter com seus assunto.

Talvez isso, mais do que o Ficha Limpa — que tem muitas portas abertas para o drible e até para a chantagem (trato disso outra hora) —, contribuísse para melhorar a política. O candidato a homem (e mulher, claro) público teria muito claro: “Se a minha história não for reta e se eu não viver conforme digo que vivo, sei que vou quebrar a cara”. Sim, sempre haverá, na democracia, a possibilidade de alguém se apresentar ao eleitorado justamente como aquele que enfia o pé no jaca. Mas, nesse caso, o eleitor será previamente avisado. Se votar, votou. Notem que não há lei proibindo que um sujeito com amante ou que tenha feito uma suruba se candidate nos EUA. Pode se candidatar. Provavelmente, não será eleito. Uma certeza ele tem: se teve amante ou fez suruba e se a imprensa ficar sabendo, isso será notícia. No Brasil, nunca!

Generosa
A imprensa brasileira, a verdade é esta, está entre as menos sensacionalistas do mundo. Na verdade, ela acaba sendo tolerante em excesso com certos comportamentos que, embora privados na aparência, mesmo não estando relacionados a dinheiro público ou a princípios da administração pública, revelam, no entanto, o político de duas caras, o anfíbio, aquele que diz uma coisa e que faz outra. Há certos comportamentos individuas que são sintomas de mau-caratismo. No homem privado, problema dele e de quem com ele se relacionar; no homem público, pode ser indício de baixa qualidade da representação e de degradação da política.

“Mas me diga, Reinaldo, não pode haver um santarrão, com comportamento ilibado no terreno moral, que é, no entanto, um contumaz ladrão do dinheiro público?” Ora, gente, claro que sim! Assim como é possível existir um fauno, com uma penca de amantes, vivendo uma vida dissoluta, que não toca em um centavo do que é alheio. Mas acho que essa é tal curva do sino, entendem? Existe a minoria nos dois extremos. Mas me estendi demais nas eventuais virtudes de termos uma imprensa que conta tudo o que sabe sobre o homem público. Quero voltar ao ponto.

A grande imprensa brasileira é generosa, tolerante e paciente. Permite que o fauno se passe por santarrão se considerar que isso é só um problema privado. Uma coisa é certa: a classe política brasileira seria quase dizimada se tivesse de enfrentar uma imprensa americana ou inglesa. E ouso dizer que, num primeiro momento, nem seria por causa do trabalho disso que se convencionou chamar “jornalismo investigativo”, que tenta desvendar as artimanhas dos ladrões de dinheiro público. Bastariam uma câmera fotográfica e alguns arquivos que chegam às redações e que são descartados.

E eu lamento constatar que a nossa democracia não é melhor do que a democracia americana ou britânica. Só por causa disso? É claro que não! Mas também por causa disso. Se, amanhã, os grandes veículos anunciarem: “Vamos contar tudo”, aí vocês conhecerão o que é pânico.  E eu posso garantir que não farão mal nenhum aos brasileiros se forem pra casa.

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:49

Attuch sai em defesa de Agnelo Queiroz, que financia seu site, e decide me tirar para uma contradança. Pois não!

Leiam até o fim. É divertido.

O site 247, apelidado no meio jornalístico de “171″, resolve, mais uma vez — e isso sempre lhe rende visitas —, responder a um post que publico aqui, citando o meu nome em vão e me atacando. Muitos leitores me recomendam que não responda a coisas assim. Dizem que o cara só quer chamar a atenção, aparecer mais na rede e tal. Eu sei. Mas, às vezes, fico com vontade. Ademais, queridos, quem migrar para aquele troço e gostar merece ter o troço como referência, certo? Quem lê Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim até corre o risco de achar Leonardo Attuch um estilista da língua. Sigamos.

Num dado momento, Attuch, em pena oculta, escreve: “Não deve ser fácil ser Reinaldo Azevedo nestes dias…” Por que não? Ele próprio costumava achar não só fácil como, quem sabe?, glorioso! A frequência com que classificava de “brilhantes” meus artigos em e-mails que me enviava é até um pouco constrangedora. Já publiquei alguns — não todos. Ser Reinaldo Azevedo é bem fácil. Ser Lenardo Attuch é que é o “x” do problema.

Tivesse ele um mínimo de decoro, estaria envergonhado. Mas pertence à categoria dos que não coram nunca — não de constrangimento ao menos. Alardeou que o inquérito sobre Demóstenes Torres era devastador para um jornalista da VEJA, e o que se vê lá é só um atestado de correção profissional. Ficou mal pra ele. Então tem de inventar teorias novas: a mais recente é a de que a revista tentou derrubar Agnelo Queiroz (PT), governador do Distrito Federal.

Coitadinho do Agnelo, não é, Attuch? VEJA não tentou derrubar ninguém porque nunca tenta. Mas, se tiver informações que levem à sua queda, vai publicá-las. Quem demite ministros é o (a) presidente. Quem demite políticos eleitos é o povo. VEJA só conta o que sabe.

Como? Leonardo Attuch saiu em defesa de Agnelo? Saiu, sim! Faz sentido. O governo do Distrito Federal é um dos financiadores do 247. O site é mais um “veículo independente” que depende de publicidade oficial e de estatais para existir. No inquérito sobre Demóstenes, há farta munição contra os governos do Distrito Federal e de Goiás. Attuch é um homem justo: é implacável com Marconi Perillo e defende Agnelo Queiroz. No seu ramo, é preciso ser justo com quem paga a conta.

"Livre como um táxi", Leonardo Attuch se dedica à defesa de Agnelo Queiroz, cujo governo é anunciante do site que ele comanda

É uma piada! Até outro dia, esse rapaz era um grande admirador daquele que ele chamava “caro Reinaldo Azevedo”. Chamava por sua conta. Nunca fui seu amigo — ele, parece, forçava a amizade, convidando-me para um café. Não fui, claro! Seria mágoa? Não! É coisa pior. De repente, passou a me tratar como o demônio da Internet. Descobri logo a razão: José Dirceu e Delúbio Soares tinham virado colaboradores de sua página. E estatais mais o governo do DF tinham virado “colaboradores” na área publicitária.

Dirceu, o

Dirceu, o "chefe de quadrilha", segundo a PGR, é um dos pensadores do "247", do isento Leonardo Attuch. Pensador Global, ele analisa as eleições na França. Ulalá!!!

Delúbio, que integra a quadrilha do outro, segundo a PGR, também é pensador do

Delúbio, que integra a quadrilha do outro, segundo a PGR, também é pensador do "247". A base dele é Goiás. Seria isso só uma coincidência? Dizem que não! Ah, sim: também os números de Delúbio são mentirosos

Não é mesmo engraçado que o defensor de Agnelo Queiroz e colega de site de Dirceu e Delúbio tente posar de moralizador e grande crítico da mídia? Dizendo-se um democrata, um tolerante, coisa que eu não seria (Attuch descobriu isso recentemente), alega que o tucano Arthur Virgílio também escreve em sua página. Virgílio não foi cassado por corrupção, não organizou o mensalão, não é acusado de ser chefe de quadrilha. Poderia escrever em quaquer site. Quem escreve só no de Attuch e em outros de padrão semelhante são José Direceu e Delúbio Soares…

A propósito: vocês não estão doidos para ver Attuch defender o máximo rigor com os mensaleiros no STF? Cuidado, rapaz! A depender do resultado, seus articulistas terão de enviar os artigos da cadeia.

Rancores e afinidades
Da VEJA, é bem verdade, Attuch não gosta faz tempo. Em 2005, reportagem da revista informava que relatório da Polícia Federal o apontava como um dos homens que colaboravam com a empresa de espionagem Kroll, que trabalhava para Daniel Dantas. A revista publicou o seguinte:
“O relatório da Polícia Federal lista ainda outras três reportagens publicadas pela IstoÉ Dinheiro, sempre com um tom favorável a Dantas e à Kroll, de acordo com a PF. Diz um dos trechos do documento: ‘Da mesma maneira, coincidência ou não, logo após a prisão de Tiago Verdial, IstoÉ Dinheiro, em reportagem noticiada na capa, divulgou outra matéria e uma entrevista realizada com Jules Kroll, criador da agência Kroll, o qual dá sua versão sobre os fatos, apontando contradições no então chamado caso Kroll’, descreve o relatório. A Polícia Federal também chama atenção para o fato de que ‘o autor de todas as citadas matérias, dentre outras com o mesmo direcionamento, é Leonardo Attuch, jornalista de IstoÉ Dinheiro’. E completa: ‘Há indícios de que Leonardo Attuch favoreceria a quadrilha investigada no procedimento criminal, elaborando matérias que vão ao encontro dos interesses da organização criminosa’. Attuch afirma que nenhuma de suas reportagens foi contestada por quaisquer das partes envolvidas e que um pedido de quebra de sigilo telefônico, feito pela PF à Justiça, foi negado sob a justificativa de que não existiam indícios de crime contra ele.”

kroll-leonardo-attuch

No meio jornalístico, há quem afirme que Daniel Dantas, QUE NUNCA FOI BRIGADO COM A ALA DIRCEUZISTA DO PT, É BOM QUE SAIBAM, é a mão que balança o berço do “247″. É o que afirma, por exemplo, Mino Pedrosa em seu site. A acusação é pesada:
“Humberto Braz, “o mala”, era responsável mensalmente pela felicidade de Attuch. A imprensa , na época da Operação Sathiagaha, denunciou Attuch de receber propinas e presentes de Daniel Dantas, como por exemplo uma confortável casa no bairro classe A, de São Paulo, o Alphaville.
A quadrilha de Daniel Dantas até hoje sustenta o “jornalista”. Montaram um site www.brasil247.com, onde Attuch atua sem se identificar, a serviço não só da quadrilha de Dantas, como também cuidando dos interesses de empresários  como José Batista Junior, da Friboi, que se filiou ao PSB em Goiás para disputar o governo com Marconi Perillo (PSDB), e empresas como a Odebrech, apadrinhada pelo deputado cassado e personagem central no Mensalão do PT José Dirceu e o Banco BVA.
O site de Attuch ataca os políticos de Goiás preparando o terreno para as eleições de 2014, quando o dono do Frigorífico Friboi sairá candidato ao Governo do Estado. Attuch também abocanha verba na Secretaria de Comunicação do governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz. Parte desses contratos Attuch não pode receber pelo site, porque são propinas pagas através de Caixa 2.”

Voltando
Quem gosta desse tipo de jogo é Leonardo Attuch. Eu me limito a constatar que ele era um feroz crítico do petismo — acusando, inclusive, a tentativa do PT de criar um estado policial no Brasil (tenho um e-mail seu encantador a respeito) — e um fanzaço de Reinaldo Azevedo. Agora que virou parceiro de Dirceu e Delúbio e que tem o financiamento de Agnelo Queiroz e de estatais, passou a ver o partido com outros olhos e descobriu que não sou um cara bacana… Não quer mais tomar café comigo! Ah…

De uma coisa eu sei: a admiração que ele tinha por mim era gratuita. Já a fase do ódio parece ser muito bem-remunerada.

Mas esperem…

Eu sempre fui um duro crítico da Operação Satiagraha, que era comandada pelo agora deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) — aquele que foi pego conversando com Dadá, assessor de Cachoeira, e que teve um encontro com um diretor da Delta intermediado pessoalmente pelo bicheiro. Não obstante, estará na CPI… Adiante! Era crítico porque repudio ilegalidades. Ponto final! Protógenes pintava Dantas como o demônio do Brasil. Se bem se lembram, parte da esgotosfera chegou a me acusar de proteger o banqueiro. Não é uma delícia eu poder dizer: “Acusei, sim, as ilegalidades de que Dantas foi vítima e quero mais que Dantas se dane!” Escrevi o que achava certo.  Coincidência ou não, enquanto a tal operação estava em curso e enquanto eu era seu crítico, Attuch me puxava o saco. Seria a mando de Dantas? Será que nem a pretérita admiração de Attuch por mim era gratuita??? Não sei! Uma coisa é certa, não é? Os dois sabem que não faço parte desse pântano.
ESCREVO O QUE QUERO.
CRITICO QUEM QUERO.
ELOGIO QUEM QUERO.

Arrematando
Leonardo Attuch escreva o que lhe der na detalha destrambelhada e não vai conseguir mudar algumas verdades inquestionáveis, documentadas:
1 - Eu não mudei de opinião sobre fatos e pessoas; ele mudou.
2 - O inquérito da Polícia Federal não traz uma vírgula contra a VEJA, para a sua tristeza.
3 - Sua mudança de postura coincide com a sua aproximação com Zé Dirceu e Delúbio e com o financiamento oficial que passou a receber.
4 - VEJA publicou a primeira grande matéria revelando o que era a Delta.
5 - VEJA publicou a primeira matéria sobre os vínculos de Demóstenes com Cachoeira.

O resto é briga de gangue e tentativa desesperada de melar o processo do mensalão.

Repito: a operação deu com os burros n’água, Zé! Tente outra vez!

PS - Attuch não vá ficando assanhado que não é todo dia que tem gorjeta. Não aqui. E faria melhor se me deixasse fora de sua pantomima.

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:47

Agnelo enviou emissários a Cachoeira

Por Fábio Fabrini e Alkana Rizzo, no Estadão:
Assessores do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), figuram como mensageiros do petista em diálogos com Carlinhos Cachoeira e seus aliados, apontam as investigações da Polícia Federal na Operação Monte Carlo. Nas conversas, eles levam supostos recados de Agnelo e tratam de interesses da organização criminosa no governo.

Apontado no inquérito como o “01 de Brasília”, o próprio governador teria enviado, via Cachoeira, um aviso ao senador Demóstenes Torres para que críticas a seu respeito cessassem. A informação aparece no resumo de um dos telefonemas entre o contraventor e o ex-diretor da Delta Construções, Cláudio Abreu, em 6 de julho de 2011.

“Te contei ontem que o coisa… mandou um recado para o Demóstenes (de) que, se bater nele, vai contar que reuniu lá no apartamento dele para pedir obras?”, questiona Cachoeira. “Você comentou ontem comigo. Uai, negar, né, doutor? Chamou o cara de mentiroso, safado”, responde Abreu. A PF diz que os dois, provavelmente, falam de Agnelo e não informa que situação teria motivado a ameaça.

O ex-subsecretário de Esporte João Carlos Feitosa, o Zunga - que pediu demissão após a revelação de que teria solicitado uma conversa entre o governador e Cachoeira - figura nas escutas como interlocutor de Agnelo em outra circunstância. Em 16 de junho de 2011, o contraventor é avisado pelo araponga Idalberto Matias, o Dadá, de que Zunga dissera que o “01, Magrão” precisava lhe falar. Segundos depois, Cachoeira liga para o assessor de Agnelo, querendo saber do que se trata.

De acordo com a PF, Zunga queria saber se Demóstenes trabalhava para convocar o governador a prestar explicações sobre algum caso no Congresso. E pede para Cachoeira interceder junto ao senador. “Parece que o amigo seu aí, o careca, tava com um negócio de fazer um pedido de convocação. Verifica se tem fundamento isso”, solicita.

Questionado sobre qual seria o motivo da convocação, ele responde: “Negócio que estava envolvido um pessoal grande do partido. Vou ‘puxar’ melhor e, se for verdade mesmo, ele (Agnelo) pediu para você se pode ajudar. Fica ruim chamar ele (sic)”, diz.

Segundo a PF, Zunga negociou com a organização de Cachoeira nomeações no Serviço de Limpeza Urbana dias antes da posse de Agnelo e intermediou, junto ao ex-chefe de gabinete do petista, Cláudio Monteiro, conversa de Demóstenes com o então governador eleito. O objetivo do senador seria tratar de interesses do grupo, como indicam as escutas.

Em 30 de dezembro de 2010, Cláudio Abreu cobra de Dadá um retorno sobre conversas com Agnelo, intermediadas por Monteiro, que se afastou do cargo recentemente para se defender de denúncias de que recebeu dinheiro da organização. “É importantíssimo ele fazer essa interface com o governador, ficar falando bem da gente para o governador”, orienta.

Novos grampos da PF indicam que Cachoeira contribuiu em 2010 para a campanha de Monteiro, que se candidatou a deputado distrital. Em maio do ano passado, o próprio Cachoeira se refere a Monteiro como “o cara que eu ajudei muito na campanha”, em conversa com Edivaldo Cardoso, ex-diretor do Detran de Goiás.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:45

Delúbio, o colunista do “247″, em ação. Vejam que maravilha!

Eu e Elio Gaspari somos de enfermarias diferentes, como sabem. Mesmo assim, reproduzo trechos de sua coluna  quando considero que é do interesse público. Esta diz respeito a Delúbio Soares, o colunista do “247″, aquele site “sem preconceitos”.
*
Com vocês, Delúbio Soares 2.0. A Polícia Federal achou-o no restaurante 14 Bis, no Rio, discutindo o fornecimento de lousas digitais para escolas públicas capixabas e goianas. Segundo o empresário interessado, o companheiros disse-lhe que “um pedido do meu deputado é praticamente uma ordem”. Referia-se ao deputado estadual Misael Oliveira (PDT-GO).

Desde que o homo sapiens grafitou a caverna de Altamira, há 15 mil anos, repete-se o costume de usar uma pedra (giz) para desenhar ou, mais tarde, escrever, numa superfície rígida. Desde o século 11 isso é feito em escolas. Os quadros-negros custam pouco, não enguiçam, não consomem energia nem precisam de manutenção.

As lousas digitais, cinematográficas, interativas e coloridas, tornaram-se parte de uma praga estimulada por fornecedores de equipamentos eletrônicos para a rede pública de ensino. Cada uma custa pelo menos o salário-base de um professor (R$ 1.451). Um dos municípios que contrataram lousas da empresa que tratou com Delúbio foi o de Presidente Kennedy (ES). Gastou R$ 2,7 milhões em três escolas, e o endereço da fornecedora era um terreno baldio. O prefeito e seis secretários, inclusive a de Educação, foram presos. Com os royalties da Petrobras, Presidente Kennedy tem uma das maiores rendas per capita do Estado e um dos piores índices de desenvolvimento humano.

O pequeno município não está sozinho nessa febre. O MEC quer comprar 600 mil tablets para que professores preparem suas aulas (como, não diz). Isso e mais 10 mil lousas digitais. O governo de São Paulo estuda um investimento de R$ 5,5 bilhões para colocar lousas e tabuletas em todas as escolas públicas. Gustavo Ioschpe foi atrás da ideia e descobriu que a Secretaria de Educação não tinha um projeto pedagógico que amparasse a iniciativa. Toda a documentação disponível resumia-se a uma carta do presidente da Dell (fornecedor do equipamento), com um resumo de um estudo da Unesco. Pediu o texto, mas não o obteve.

Lousas digitais, tabuletas e laptops são instrumentos do progresso quando fazem parte de uma ação integrada, na qual tudo começa pela capacitação do professor. Hoje, no Brasil, contam-se nos dedos as experiências bem sucedidas na rede pública. Prevalecem desperdícios que poderiam ser evitados pela aplicação da Lei de Simonsen: “Pague-se a comissão, desde que o intermediário esqueça o assunto”.

Quem acredita que Delúbio Soares estava interessado no aprendizado da garotada de Presidente Kennedy vá em frente.

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:43

Cavendish orientava ação de seu diretor no trato com Agnelo Queiroz

Por Breno Costa, na Folha:
O inquérito da Operação Monte Carlo da Polícia Federal indica que o presidente licenciado da Delta Construções, Fernando Cavendish, tinha conhecimento e estimulava a forma pela qual o ex-diretor Cláudio Abreu conduzia os negócios da empresa no Centro-Oeste. Abreu, demitido pela Delta após a operação, é apontado pela PF como integrante do suposto esquema de corrupção comandado pelo empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Na última terça, Abreu foi preso pela Polícia Civil do Distrito Federal sob a acusação de fraude em licitações. O caso Cachoeira envolve o nome de vários políticos e, segundo a PF, tem a participação da Delta, cuja receita bruta com contratos públicos e privados foi de R$ 9,6 bilhões entre 2004 e 2010. Na semana passada, em entrevista à Folha, Cavendish afirmou que desconhecia o que se passava na área de atuação de Cláudio Abreu.

“A empresa tinha um diretor no Centro-Oeste, Claudio Abreu. Sou presidente do conselho, no Rio. Não sei o que está acontecendo em Goiás, no Nordeste, no Norte”, disse ele, emendando: “Nesse período todo de escuta, não tem uma única conversa que dê um indício de que eu tinha conhecimento dessa movimentação. O Claudio, nessa amizade [com Cachoeira], extrapolou os limites da autorização dele na Delta.”

CUIDADO
Grampos da PF que constam do inquérito em tramitação no Supremo Tribunal Federal indicam o contrário. Em meio a uma crise política no Distrito Federal, o diretor da Delta relata a Cachoeira, em janeiro, que Cavendish o orientou a ter “cuidado”, porque estava sendo visado pela imprensa. “O segundo mais visado, disparado em relação a qualquer outro diretor, pela sua audácia e por tudo aí é você, porra. Então você tem que tomar cuidado”, diz Cavendish a Abreu, segundo relato do ex-diretor a Cachoeira. Abreu pergunta a Cavendish, então, se deveria recuar. “Não, não é recuar. Você tem que tomar cuidado e criar uma rede de proteção a isso”, diz Fernando Cavendish, sempre segundo o relato de Abreu a Cachoeira.

Na ocasião, a Delta e o governo Agnelo Queiroz estavam em disputa. A empreiteira cobrava faturas atrasadas relativas a contrato de coleta de lixo em Brasília, mas, segundo as gravações, Agnelo não aceitava acordo devido a rixa com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) -a quem associava à Delta. Cavendish, então, teria ido a Brasília orientar a estratégia que Abreu deveria ter no contato com Agnelo Queiroz. “O Fernando falou para florear mais ainda”, diz Abreu.

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:41

À diferença do que dizem por aí, Cachoeira agiu para “acalmar” Pagot

Por Lúcio Vaz e Breno Costa, na Folha:
O grupo de Carlinhos Cachoeira pediu a intervenção de um aliado do ex-diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transpores), Luiz Antônio Pagot, para acalmá-lo e evitar que ele atacasse o senador Demóstenes Torres (ex-DEM). A PF interceptou conversas telefônicas na Operação Monte Carlo, em julho de 2011, quando uma série de suspeitas de corrupção no Dnit levou à queda do então ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, e de Pagot. Escutas telefônicas mostram que Acácio Rozendo, aliado de Pagot, recebeu R$ 24 mil em sua conta, em abril de 2011, repassados por uma empresa do grupo de Cachoeira. O servidor também era ligado ao então diretor da Delta Construções para o Centro-Oeste, Cláudio Abreu. Pagot fora convocado a dar esclarecimentos na Comissão de Infraestrutura do Senado sobre denúncias de superfaturamento em obras do Dnit.

Em 5 de julho de 2011, depois das 23h, Demóstenes avisa Cachoeira: “Pagot hoje tava bravo, mandando recado aqui pra todo mundo”. No dia 11, pergunta se Cachoeira tem novidades sobre Pagot. “Não, lá tá tranquilo. Pode ir lá. Blairo [Maggi, senador] mandou falar que não tem nada não. Blairo que manda nele, uai”, assegura o empresário. Mas liga imediatamente para Cláudio Abreu, da Delta, e relata a situação.

“Nosso amigo está preocupado com Pagot amanhã. Não sabe se vai lá ou deixa de ir”, comenta Cachoeira. Abreu faz uma sugestão: “Ele não faz parte da comissão. Se eu fosse ele, não iria”. Uma hora depois, o empresário informa que Demóstenes faz parte da comissão e orienta Abreu a falar com Blairo para acalmar Pagot. O diretor da Delta afirma que pediu para Acácio falar com Blairo.

Duas horas mais tarde, Demóstenes recebe a boa notícia de Cachoeira. “Professor? O Acácio teve lá com ele [Pagot]. Agradeceu e disse que vai falar só tecnicamente”. No dia seguinte, Abreu faz mais uma recomendação: “O menino [Acácio] falou que pode despreocupar”. Até a conclusão desta edição, a Folha não conseguiu localizar Rozendo nem Pagot.

Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:39

Grupo comprou lote de vinho raro para Demóstenes

Por Fernando Mello, Natuza Nery e Catia Seabra, na Folha:
Caronas em jatinhos, presentes do exterior e vinhos de milhares de dólares faziam parte do arsenal que o empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, usava na troca de favores com políticos e servidores, afirma a Polícia Federal. A íntegra do inquérito que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) e áudios da Operação Monte Carlo mostram que em agosto de 2011 Cachoeira e seu assessor Gleyb Ferreira da Cruz conversam sobre um vinho Cheval Blanc, safra 1947. A bebida, que já teve uma garrafa especial leiloada por mais de R$ 500 mil, seria comprada para o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), ao custo de até US$ 2.950 a unidade. A diferença de preço se daria por causa de algumas “imperfeições” nas garrafas.

Numa ligação a Gleyb, Demóstenes autoriza ligar para Las Vegas (EUA) para encomendar cinco garrafas: “Mete o pau aí. Para muitos é o melhor vinho do mundo, de todos os tempos”. E completa: “Passa o cartão do nosso amigo aí, depois a gente vê”. Gleyb então informa a Geovani Pereira da Silva, contador do grupo de Cachoeira, que comprou cinco garrafas para o “professor” -que a PF diz ser Demóstenes. Eles comemoram o negócio dizendo que as cinco unidades saíram por menos de US$ 14 mil.

Ao comentar que cada garrafa da safra custaria R$ 30 mil no Brasil, demonstram surpresa. “O quê que é isso? Esse povo deve estar louco”, diz um deles. “Sem noção, né?”, responde o outro. Em páginas da internet, o Cheval Blanc, safra 1947, é citado como um dos vinhos mais desejados e mais falsificados do mundo. O inquérito afirma que o grupo de Cachoeira também ofereceu a Demóstenes caronas em jatinhos. Os advogados de Demóstenes e Cachoeira não comentam questões pontuais do inquérito e sustentam que as gravações da PF são ilegais.

LAS VEGAS
Outra que recebeu favores foi Eliane Pinheiro, então chefe de gabinete do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Cachoeira pediu que assessores a levassem ao aeroporto, onde embarcaria para Las Vegas com Geraldo Messias (PP), prefeito de Águas Lindas (GO). Após a viagem, o prefeito agradece a Cachoeira. “Sou fiel a você no pouco e no muito. O que você mandar fazer você tem que pensar duas vezes porque é ordem, tá certo?”, diz Messias.
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Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:37

Advogado de Demóstenes e Perillo: “Ministros do STF precisam de coragem para anular tudo”

Por Andreza Matais, na Folha:
O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro diz que a Polícia Federal produziu provas ilegais contra o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e o governador Marconi Perillo (PSDB-GO) nos inquéritos que levaram o empresário Carlos Cachoeira à prisão em fevereiro. Kakay, como o advogado é mais conhecido, foi contratado para defender Demóstenes e Perillo. Ele afirma que os dois só poderiam ter sido investigados com autorização dos tribunais superiores em que têm foro privilegiado. Segundo o advogado, ao usar as escutas telefônicas feitas pela PF como elementos para pedir a abertura de investigações contra eles, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, deu um “presente” à defesa.

Folha - Por que o senhor defende que as provas sejam anuladas?
Antonio Carlos de Almeida Castro - Já em 2008, na Operação Vegas, o senador [Demóstenes] falava com frequência com Cachoeira. Na Operação Monte Carlo [segunda investigação sobre o caso, de 2010 a 2011], eles continuaram a gravar o senador por centenas de vezes. Você pode ser contrário ao foro de prerrogativa, mas desde que exista pela previsão constitucional você tem que ter a certeza de que ele será aplicado.

Mas há jurisprudência sobre o chamado “encontro fortuito” de provas. Quando alguém com foro privilegiado é flagrado conversando com um investigado sem foro, a prova é válida.
Encontro fortuito não pode ser um diálogo que perdure durante um ano e meio, dois anos. Se fosse direito de família, teria estabilidade [a relação entre Demóstenes e Cachoeira]. É inacreditável o que aconteceu.
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E quanto às demais provas produzidas pelo inquérito?
Só tem uma única prova produzida, que são as interceptações telefônicas. Isso é o mais grave. A pessoa mais importante do processo constitucional brasileiro é o policial que fica escutando as conversas e aí faz um resuminho e dá interpretações absurdas dos fatos.

O vazamento das informações ajuda a anular as provas?
Hoje o Supremo anular tudo é um desgaste muito grande. Tem que ter independência e coragem para anular um procedimento que há 40 dias você tem um vazamento diário na imprensa.

Qual a explicação de Demóstenes para a relação dele com o Cachoeira?
Todas as pessoas de Goiás conviviam com o Cachoeira. Hoje você vê crítico de obra pronta. “Ah, você não poderia falar no Nextel.” Ele não sabia que tinha o clube Nextel. A ele foi dado um telefone com facilidade pra falar [com Cachoeira] e ele aceitou.

Tem momentos que ele faz favores a Cachoeira. Ele pode ter feito isso para outras pessoas?
Eu acho que se você for pegar a conversa de boa parte de deputados e senadores com empresários e apoiadores, evidentemente você vai conversar sobre projetos específicos. Ou você acha que um senador da República não conversa sobre uma determinada obra importante para o seu Estado com empresário? Claro, evidente. Qual o problema? O Perillo não tinha relação com Cachoeira.
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Por Reinaldo Azevedo

 

29/04/2012 às 6:35

“O PT deu um tiro no pé ao apostar que a CPI vai ofuscar o mensalão”

Por Lucas de Abreu Lima, no Estadão:
Diz-se que toda Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) acaba em pizza. Mas o cientista político da Universidade de São Paulo (USP), José Álvaro Moisés, especialista em Congresso, discorda. Um estudo coordenado por ele e publicado, no ano passado, no livro O Papel do Congresso Nacional no Presidencialismo de Coalizão, aponta que, entre 1999 e 2010, 86% das CPIs instaladas no Senado e na Câmara encaminharam relatórios ao Ministério Público e 56% à Polícia Federal. Ele explica que, às vezes, há confusão sobre o papel das comissões: “A CPI não pode punir ou processar. Ela pode fazer inquéritos e pedir o indiciamento”.

Para Moisés, no entanto, a CPI do Cachoeira - instalada nesta semana no Congresso para investigar as relações de políticos com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira - é “eminentemente política”, uma vez que já existem investigações conduzidas pela PF e pelo MP. Ele diz ainda que o PT “deu um tiro no pé” ao apostar que a CPI pode ofuscar o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), previsto para ocorrer ainda no primeiro semestre deste ano.

Por que existe a percepção de que as CPIs acabam em pizza?
Nem sempre fica claro quais são os papéis da CPI com base na Constituição e na legislação. A CPI não pode punir. A CPI não pode processar. Ela pode fazer inquéritos e indiciar. Pode remeter (o relatório final) para o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU). Havendo essa distinção, acho que fica mais fácil para o leitor entender o âmbito de atuação da CPI. Quando se olha longitudinalmente - ou seja, num período mais longo de tempo -, ao contrário da imagem usual de que as CPIs terminam em pizza, as comissões envolvem recomendações para o Ministério Público, para a Polícia Federal, e, em mais de 70% dos casos, consequências no Legislativo. Há outros estudos, no entanto, que mostram que o Brasil, comparado a outros países, como a Alemanha, tem um sistema político em que a minoria tem menos possibilidade de criar uma CPI. No caso brasileiro, são necessárias as assinaturas de um terço dos parlamentares para criar uma comissão. Na Alemanha, basta um quarto dos parlamentares. Uma outra questão é que nós só avaliamos as CPIs que foram implementadas.

O que aconteceu com as outras CPIs que foram propostas, mas não chegaram a ser instaladas?
Elas sempre dependem da coalizão majoritária. O Executivo pode controlar a convocação ou não das CPIs através da sua força majoritária no Congresso.

O sr. mostrou que a maior parte das CPIs resultou em inquérito na PF ou no MP. Mas a CPI do Cachoeira não é atípica, pois já existem investigações em andamento nestes órgãos?
Esta é uma observação importante, o que torna essa CPI um caso particular no conjunto das demais CPIs. Já existia processo na Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal inclusive já prendeu envolvidos. Deste ponto de vista, a perspectiva do que essa CPI pode produzir é de outra natureza: ela vai ser eminentemente política. A minha convicção pessoal é de que o PT deu um tiro no pé ao imaginar que, constituindo a CPI, os fatos que serão divulgados serão exclusivamente sobre o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e o governador Marconi Perillo (PSDB-GO). Existem muitas empresas envolvidas com o Carlinhos Cachoeira com grandes contratos no PAC. Na verdade, a CPI muito provavelmente vai mostrar o envolvimento de políticos de um espectro partidário muito mais amplo do que se imaginava de início. A corrupção tem um efeito extremamente perverso, de distorção da democracia, porque ela mina a legitimidade e retira recursos de políticas públicas. Nós estamos vivendo uma fase nova da democracia brasileira: tem opinião pública, tem manifestações contra a corrupção, e a mídia joga um papel extremamente importante de ecoar denúncias e, ao mesmo tempo, produzir novas informações.

O sr. discorda, portanto, da tese do PT de que a CPI poderia reduzir a relevância do julgamento do mensalão?
À medida que a CPI vai mostrar que a corrupção é mais ampla e que atinge diferentes setores, de instituições do governo a partidos que hoje estão na oposição, ficará claro que a corrupção é um fenômeno extremamente importante e que os mecanismos de punição precisam ser aprimorados. Neste contexto, não faz o menor sentido jogar água para amenizar o caso do mensalão. Vai chamar mais atenção e vai ter um efeito de pressão sobre o Supremo para apressar o julgamento.
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Por Reinaldo Azevedo

 

Um editorial contra a decisão do STF, que oficializou a discriminação racial no Brasil

Excelente o editorial do Estadão de hoje, criticando a absurda decisão do Supremo sobre as cotas raciais.

A discriminação racial no Brasil é constitucional, segundo decidiram por unanimidade os ministros do Supremo Tribunal (STF), num julgamento sobre a adoção de cotas para negros e pardos nas universidades públicas. Com base numa notável mistura de argumentos verdadeiros e falsos, eles aprovaram a reserva de vagas para estudantes selecionados com base na cor da pele ou, mais precisamente, na cor ou origem étnica declarada pelo interessado. Mesmo enfeitada com rótulos politicamente corretos e apresentada como “correção de desigualdades sociais”, essa decisão é obviamente discriminatória e converte a raça em critério de ação governamental. Para os juízes, a desigualdade mais importante é a racial, não a econômica, embora eles mal distingam uma da outra.

O ministro Cezar Peluso mencionou as diferenças de oportunidades oferecidas a diferentes grupos de estudantes. Com isso, chamou a atenção para um dos maiores obstáculos à concretização dos ideais de justiça. Todos os juízes, de alguma forma, tocaram nesse ponto ou dele se aproximaram. Estabeleceram, portanto, uma premissa relevante para o debate sobre a formação de uma sociedade justa e compatível com os valores da democracia liberal, mas perderam-se ao formular as conclusões.

O ministro Joaquim Barbosa referiu-se à política de cotas como forma de combater “a discriminação de fato”, “absolutamente enraizada”, segundo ele, na sociedade. Mas como se manifesta a discriminação? Candidatos são reprovados no vestibular por causa da cor? E os barrados em etapas escolares anteriores? Também foram vítimas de racismo?

A ministra Rosa Weber foi além. “A disparidade racial”, disse ela, “é flagrante na sociedade brasileira.” “A pobreza tem cor no Brasil: negra, mestiça, amarela”, acrescentou. A intrigante referência à cor amarela poderia valer uma discussão, mas o ponto essencial é outro. Só essas cores identificam a pobreza no Brasil? Não há pobres de coloração diferente? Ou a ministra tem dificuldades com a correspondência de conjuntos ou ela considera desimportante a pobreza não-negra, não-mestiça e não-amarela.

Mas seus problemas lógicos são mais amplos. Depois de estabelecer uma correspondência entre cor e pobreza, ela mesma desqualificou a diferença econômica como fator relevante. “Se os negros não chegam à universidade, por óbvio não compartilham com igualdade das mesmas chances dos brancos.” E concluiu: “Não parece razoável reduzir a desigualdade social brasileira ao critério econômico”. A afirmação seria mais digna de consideração se fosse acompanhada de algum argumento. Mas não é. O fator não econômico e estritamente racial nunca foi esclarecido na exposição da ministra nem nos votos de seus colegas.

Nenhum deles mostrou com suficiente clareza como se manifesta a discriminação no acesso à universidade ou, mais geralmente, no acesso à educação. O ministro Celso de Mello citou sua experiência numa escola pública americana sujeita à segregação. Lembrou também a separação racial nos ônibus escolares nos Estados Unidos. Seria um argumento esclarecedor se esse tipo de segregação - especificamente racial - fosse no Brasil tão normal e decisivo quanto o foi nos Estados Unidos.

Talvez haja bons argumentos a favor da discriminação politicamente correta defendida pelos juízes do STF, mas nenhum desses foi apresentado. Brancos pobres também têm dificuldade de acesso à universidade, mas seu problema foi menosprezado.

Se um negro ou pardo com nota insuficiente é considerado capaz de cursar com proveito uma escola superior, a mesma hipótese deveria valer para qualquer outro estudante. Mas não vale. Talvez esse branco pobre também deva pagar pelos “danos pretéritos perpetrados por nossos antepassados”. Justíssimo?

Como suas excelências poderão ser envolvidas em outras questões de política educacional, talvez devam dar uma espiada nos censos. Os funis mais importantes e socialmente mais danosos não estão na universidade, mas nos níveis fundamental e médio. Países emergentes bem-sucedidos na redução de desigualdades deram atenção prioritária a esse problema. O resto é demagogia.

Por Reinaldo Azevedo

 

27/04/2012 às 20:34

O ativismo do Judiciário, a reação da Câmara, eu e a VEJA Online. Ou: A hora dos fofoqueiros

Ai, que preguiça!

Vocês já notaram que existe uma súcia na Internet que só tem uma ocupação: falar mal da VEJA? Inventam crises, desavenças e confrontos que jamais existiram. É normal que a turma da rabeira especule contra quem está na liderança, mas há coisas que se tornam obsessão, patologia mesmo.

Escrevi ontem umtexto sobre a PEC aprovada na CCJ da Câmara (de um petista, diga-se) que prevê que o Legislativo suste atos normativos — e não sentenças — do Poder Judiciário que eventualmente avancem sobre prerrogativas que são do Congresso. Deixei claro que não apoiava tal medida, mas que compreendia as circunstâncias em que algo assim vinha à luz. Demonstrei ali, e isto não é segredo pra ninguém, que o Judiciário, muito especialmente o STF e TSE, passou a legislar e a se comportar como um Poder soberano na República. Montesquieu não está sendo chamado nem para o cafezinho.

O texto ficou como a principal chamada do site da VEJA Online durante uma boa parte da manhã de ontem — quem me contou foi Dona Reinalda; eu estava dormindo. Pois bem: o site traz agora um artigo sustentando que a reação dos deputados é um exagero, a despeito de reconhecer a óbvia invasão de competência que está sendo praticada pelo Supremo. E aponta para riscos caso algo assim prospere.

Pois bem: os tontos, os bobalhões, os cretinos já começaram: “Ih, olhem lá, a VEJA Online desautorizando o Reinaldo”. Ah, ocupem-se de suas vidinhas chatas aí na rabeira! O site que abriga meu blog nem me autoriza nem me desautoriza a coisa nenhuma! Escrevo o que quero e o que acho conveniente. Nem sempre concordo com a linha editorial do site ou da revista. Querem um exemplo escancarado? O caso do aborto de anencéfalos. Eu me posicionei radicalmente contra, sabendo que perderia de goleada. Site e revista consideraram que se trata de um avanço adequado e justo. O meu contrato com a VEJA não prevê que concorde com a revista, mas que escreva o que penso.

Quem lida mal com a liberdade, quem lida mal com a divergência, quem está acostumado a receber ordens e a defender qualquer coisa — desde que o “Comitê Central” assim o decida — não entende que um mesmo site possa abrigar visões distintas sobre um mesmo assunto. Querem outro exemplo? Site e revista viram avanços, e compreendo seus motivos, na Lei do Ficha Limpa, que também recebeu endosso ao menos parcial de meu amigo Augusto Nunes, por exemplo. Todos sabem a minha posição a respeito: eu a considero inconstitucional do começo ao fim. É uma das causas que os petralhas dizem que “perdi”.

Esses vagabundos não conseguem ser coerentes nem no seu próprio ódio. Há quem, em tom de escândalo, me acuse, vejam que coisa grave!, de receber da VEJA para escrever este blog! Não brinquem! A única pessoa que conheço que parece viver de luz é Marina Silva. Eu ainda preciso trabalhar para sobreviver. Lamento decepcionar. Recebo, sim, e pago todos os impostos. O meu trabalho é escrever o que penso — e não posso reclamar da sorte por isso. Às vezes, como agora, eles resolvem mudar o disco: no avesso dessa versão, a VEJA Online estaria me mandando um recado: “Não concordamos com você”… Mas seria essa a primeira vez por acaso? Há muitas outras.

Trata-se de uma formidável soma de tolices. Que vida miserável é a dessa gente, que as obriga a ficar especulando sobre a vida alheia, o trabalho alheio, as relações alheias? Fossem questões de interesse público, ok. No caso em questão, nem se trata exatamente de uma divergência. Na essência, há concordância, com a diferença de ênfase: a minha vai para os exageros do Supremo; a do texto da VEJA Online, vai para o exagero da reação da Câmara. No caso do aborto de anencéfalo, aí é diferente: é divergência mesmo, de essência, o que faz parte do jogo. Ou será que todos os que mantêm páginas na VEJA Online pensam a mesma coisa. Fosse assim, por que haver mais de um?

Chato pra vocês! Mas não foi desta vez. Podem inventar uma fofoca nova.

Por Reinaldo Azevedo

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Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

2 comentários

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. João Olivi, veja como são “as coisas; o governo deu ênfase à inclusão de mais de 30 milhões de brasileiros à classe C. Na área política está-se descobrindo uma “nova” classe C. “CÊ” de Cachoeira! ! ....” E VAMOS EM FRENTE ! ! !”....

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  • JUSTINO CORREIA FILHO Bela Vista do Paraíso - PR

    Um Senador da República, que é Procurador de Justiça e se envolve com o crime organizado, jamais deveria ter foro privilegiado. E sim responder pelos seus atos criminosos na justiça comum, bem como, se condenado ter direito a cumprir sua pena numa cela confortavelmente lotada.

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