Com quem estão os valores Republicanos? Com Barbosa ou com Sarney e Dilma?

Publicado em 09/12/2012 16:03 e atualizado em 22/05/2013 15:52 1687 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

Marcos Valério e Lula – O que Dilma não deveria fazer e o que ela está fazendo

A presidente Dilma Rousseff não deveria confundir o seu governo com o PT. Segundo os fundamentos de uma República, ela é presidente de todos os brasileiros — até de Marcos Valério, não é mesmo? Também não deveria confundir a administração com investigação policial ou apurações levadas a efeito pelo Ministério Público. Mas está fazendo as duas coisas. Mobilizou o primeiro escalão e governadores da base aliada para que  socorram Lula e o defendam.

Quando escrevo “deveria”, refiro-me a um mandamento que já foi descumprido. Não estou dando conselhos a Dilma, já que tenho senso de ridículo. Não pretendo dizer o que é melhor pra ela. Pode até ser, não estou muito certo a esta altura, que, no que respeita à sua popularidade, especialmente entre petistas, o melhor seja tentar blindar o antecessor. Ora, quem lhe dá conselhos dessa natureza são seus marqueteiros, não eu.

O meu “dever”, tornando “deveria”, no futuro do pretérito, diz respeito às questões comezinhas da República. Existe o PT para defender Lula. A máquina é grande o bastante para fazer barulho e para pautar um monte de gente. Existem lideranças da base aliada. À presidente caberia, no máximo, um testemunho pessoal, sem entrar no mérito da acusação, deixando o resto para o Ministério Público. Mas não foi o que ela fez, informam Natuza Nery e Valdo Cruz na Folha Online. Leiam trecho.
*
Após novas denúncias do empresário Marcos Valério sobre o mensalão, a orientação da presidente Dilma Rousseff é para que o governo federal defenda o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com veemência. (…) Dilma coordenou uma operação de defesa que envolve de ministros a governadores aliados. Ela inclusive telefonou para o governador Jaques Wagner (PT-BA) e pediu que ele conversasse com colegas de outros Estados.

Em Paris, a presidente falou sobre o assunto com Lula antes de fazer uma defesa pública de seu mentor. O recado presidencial, segundo assessores, foi mostrar que ela não perde a confiança em seu antecessor e jamais irá romper com ele. Além disso, parlamentares da base aliada foram orientados por Dilma a sair a campo.
(…)
Lula
Também em Paris, onde participa de encontro com o presidente francês François Hollande, Lula classificou como mentirosas as afirmações do empresário Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República.”Isso é mentira”, disse Lula na saída do primeiro dia de seminário organizado por seu instituto e a Fondation Jean-Jaurès, ligada ao Partido Socialista francês, em Paris.

A ser assim, daqui a pouco algum governador da oposição vai ser chamado a dar seu testemunho pessoal.

Texto publicado originalmente às 23h37 desta terça

Por Reinaldo Azevedo

 

Leiam o que segue e digam: Com quem estão os valores Republicanos? Com Barbosa ou com Sarney e Dilma?

No post anterior, trato das relações Lula-Sarney e afirmo que cada um deles considera o amigo acima da lei. Pois é… Sarney é presidente de um dos Três Poderes da República, o Legislativo. Outro é Joaquim Barbosa (Judiciário), que está sendo tratado na subimprensa do “protesto a favor” (com dinheiro estatal) como se fosse um tirano, um ditador!!! E há Dilma Rousseff, a chefe máxima do Executivo. Também ela decidiu, a exemplo de Sarney, sair em defesa de Lula. Trato aqui das figuras máximas de cada um dos Poderes para relevar as pressões que Barbosa deve estar sofrendo. Com efeito, não são pequenas. Ele tem dado evidências de firmeza e lucidez. Os plantadores de vento devem estar decepcionados. Tanto é assim que precisam recorrer a falsas questões para ver se colhem alguma tempertadezinha…  ”Ah,. se o ministro fizer alguma coisa que o desagrade, você o criticará, né, Reinaldo?” Ora, claro que sim! Elogio quando aprovo e critico quando reprovo.  Querem um exemplo? Quase sempre elogio FHC. Outro dia, ele deu uma entrevista ruim: eu o critiquei. Entenderam? Adiante.

Disse Sarney: ninguém tem moral equiparável à de Lula, logo… Disse Barbosa: cabe ao Ministério Público investigar. Disse Dima: trata-se de uma conspiração contra Lula. Julguem os senhores leitores! Com quem estão os valores republicanos? Com Barbosa ou com Sarney e Dilma?

Lamentável reação
Foi lamentável a reação da presidente da República, lá da França, às revelações publicadas no Brasil sobre o depoimento prestado por Marcos Valério ao Ministério Público. Antes que se investigue qualquer coisa — e Dilma sabe muito bem que, nesse caso, tudo o que parecia ser era só uma versão pálida do que de fato foi —,a presidente tratou de acusar uma espécie de conspiração.

Segundo o Estadão, ela considerou “lamentável” a suposta  tentativa de “destitui-lo [Lula] da imensa carga de respeito que o povo brasileiro lhe tem”. É mesmo?

Alguém com a responsabilidade de Dilma não pode se pronunciar nesses termos sem dizer, então, quem engrossa esse caldo conspiratório. A imprensa — no caso, o furo foi do Estadão — limitou-se a fazer o que sempre fez quando as personagens envolvidas pertenciam a outros partidos, e o PT estava na oposição: tendo acesso a um documento ou depoimento, publica-o. Quantas vezes esse mesmo procedimento não só serviu aos interesses objetivos do PT — E POUCO IMPORTAVA QUE ASSIM FOSSE; A IMPRENSA NÃO TEM DE SE OCUPAR DESSA QUESTÃO — como teve um petista na condição de fonte? Quando o partido estava na oposição, o que se tinha era só busca da verdade; agora que é poder, tudo não passa de conspiração.

Não sou ingênuo. É evidente que Dilma sairia em defesa de Lula, mas há modos de fazê-lo. Sugiro um, bem derramado, no limite do aceitável, mas ainda… aceitável. Atenção! Estou apenas imaginando uma fala para Dilma: “Lula merece o voto de confiança dos brasileiros. Antes de julgar, é bom que se apurem essas coisas todas. É bom lembrar que aquele que acusa pode ter interesse pessoal em fazê-lo”.

Pronto! Lula estaria preservado, a suspeita sobre a fala de Valério teria sido lançada, mas não haveria uma agressão ao bom senso e aos fatos. Porque o bom senso e os fatos apontam o óbvio: não há conspiração nenhuma contra Lula, contra o PT, contra o governo. Supremo, Ministério Público e imprensa cumprem o seu dever. Nada além.

Informa o Estadão:
“Ao término de sua declaração, a chefe de Estado foi aplaudida pelos demais membros do governo brasileiro, entre os quais os ministros Antonio Patriota, Celso Amorim, Guido Mantega, Fernando Pimentel, Aloizio Mercadante e Marco Aurélio Garcia, que acompanhavam a entrevista”.

Percebo aí um certo tom de desagravo, como se houvesse uma conspiração contra a honra da pátria. Isso tudo é uma grossa bobagem.

Operação Porto Seguro
Já se sabia que Marcos Valério havia dado esse depoimento ao Ministério Público, e os jornalistas o queriam. Parte substancial dele, no que concerne ao conteúdo, foi antecipado por reportagem de capa da VEJA, que publicou o que Valério andava dizendo a seus interlocutores.  Mais dia, menos dia, os jornalistas teriam acesso a seu depoimento ao MP.

Veio a público agora, depois da Operação Porto Seguro? Veio, sim! Mas a imprensa, a oposição e os supostos “conspiradores” em geral não têm nada com isso. Quem a deflagrou foi a Polícia Federal, não um covil de sabotadores. O próprio ministro da Justiça, em depoimento ao Congresso, não teve como negar que houve lambança. O caso atingiu Rosemary Noronha, a tal “amiga íntima” de Lula, chamada pela PF de “braço político da quadrilha”, mas há sinais de que pode ser bem maior do que ela.

Diga-me, Soberana! Também a operação da PF seria parte do esforço “para destituir Lula da imensa carga de respeito que o povo brasileiro lhe tem”??? Nesse caso, presidente, quem está no comando da tramoia? Seria gente infiltrada em seu governo? A suposição, convenhamos, é ridícula!

O presidente François Hollande estava ao lado de Dilma e decidiu dizer algumas palavras. Informa o Estadão:
“Sobre o presidente Lula, quero dizer que ele tem na França uma imagem considerável. É um homem que defendeu constantemente o princípio de Justiça e da igualdade, assegurando ao Brasil um desenvolvimento econômico absolutamente excepcional. Aqui o presidente Lula é visto como uma referência”.

Dilma agradeceu: “Obrigado, senhor!”. São palavras protocolares de um socialista francês, que não se referem ao caso em espécie. Quem nega que Lula seja uma personagem mundialmente conhecida? A questão é saber se isso também deve colocá-lo acima da lei.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula e Sarney: um considera o outro acima da Constituição e das leis. Ou: Um governo da nova Aristocracia Absolutista

Vocês já leram o que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), declarou sobre Luiz Inácio Lula da Silva? Antes de chegar lá, algumas considerações.

Já escrevi vários textos neste blog demonstrando como o PT “modernizou” a velha impunidade no Brasil. Surgido com a aura de partido operário, uma vez no poder, consolidou a sua maioria no Congresso juntando-se ao que havia de pior na política brasileira. Aquela reputação, então, de partido das massas serviu para lavar a reputação de gente como José Sarney e Fernando Collor e para tentar macular a honra de pessoas decentes que decidiram resistir ao partido. É nesse ambiente que a República assistiu a um pacto realmente histórico, que não tinha o Brasil como preocupação central: entre Luiz Inácio Lula da Silva e José Sarney. O primeiro queria a influência do segundo para consolidar a hegemonia de seu partido; o segundo queria a lavanderia de reputações do primeiro para “limpar” a própria biografia e um salvo-conduto que mantivesse seus próprios interesses e os de seu grupo protegidos do escrutínio legal e democrático. Cada um recebeu do outro aquilo de que precisava: um para continuar no poder, ainda que não mais hegemônico e como peça subordinada da nova força; o outro para se consolidar como a nova metafísica influente, porém dialogando, à sua maneira, com a “tradição” — na verdade, tratou-se de preservar as estruturas arcaicas da República.

Nesse encontro, ou nesse conluio histórico, ambos saíram ganhando, e só o Brasil e os brasileiros perderam, é evidente. Um tem a certeza de que o outro está acima da lei. Fundou-se, assim, uma estranha Aristocracia Absolutista.

Em 2009. José Sarney enrolou-se no escândalo dos atos secretos do Senado. Descobriu-se que a Casa tinha duas gestões: aquela que se dava à luz do dia e a outra, a real, que se movia nas sombras. Naqueles tempos, dois notórios moralistas —o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o então senador Aloizio Mercadante (hoje ministro da Educação) — se tornaram célebres pelas críticas a Sarney. O primeiro, com o estilo circense de sempre, deu ao peemedebista um cartão vermelho na tribuna do Senado. Mercadante, líder do PT na Casa, exigia que o partido apoiasse a moção para levar Sarney ao Conselho de Ética. Como não conseguiu, anunciou, estimulado por seus seguidores no Twitter, a renúncia à função de líder em “caráter irrevogável”. Lula o chamou, deu-lhe uma carraspana, ele continuou líder, parou de pedir que Sarney fosse investigado e ainda admitiu que errou ao afirmar que renúncia era “irrevogável”. Um pequeno grande passo para a revolução do caráter e da língua, que viu o significado de uma palavra se converter no seu contrário.

Lula se manifestou publicamente em defesa de Sarney e da maneira mais indecorosa que conseguiu. Estava ali mesmo, nas terras do Cazaquistão. Nosso Borat estava cuidando de espalhar mundo afora seu entendimento superior sobre política externa e tudo o mais que há de grandioso em “sua” humanidade. Indagado sobre Sarney pelos repórteres brasileiros, deu a seguinte declaração:
“Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois não acontece nada. O Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.”

Está tudo dito aí. Segundo Lula, alguns homens, pela sua história, não podem ser tratados como “pessoas comuns” diante da lei. Em todo o mundo democrático, os heróis costumam ser aqueles que lutaram justamente para que TODOS PASSASSEM A SER HOMENS COMUNS. No Brasil, Lula nos ensinou que o certo é o contrário.

Amor com amor se paga
Hoje foi a vez de Sarney, presidente do Senado — e do Congresso — pagar literalmente na mesma moeda. Referindo-se à reportagem do Estadão sobre o depoimento que Marcos Valério prestou ao Ministério Público, disse o “homem incomum”:
“Primeiro eu não li [a reportagem], e, se existiu [o depoimento de Valério], é uma profunda inverdade porque a pessoa que disse não tem autoridade para falar sobre o presidente Lula, que é um patrimônio do País, da história do País, por sua vida e tudo que ele tem feito”.

Vamos pensar
Sarney poderia ter-se limitado a desqualificar Valério como fonte confiável de informação. Já seria um procedimento complicado (direi por quê), mas vá lá… Notem, no entanto, que ele foi adiante. Valério não seria o único homem carente de moral para criticar Lula; os demais, todos nós, também o são. Sarney está a dizer que este “patrimônio do país”, “por sua vida e tudo que ele tem feito”, está acima da régua com que se mede a moralidade comum — e notem que não se está aqui e em nenhum lugar a falar da vida pessoal. Sarney está a dizer, em suma, que “Lula não é um homem comum”.

São duas falas escandalosas numa República. É espantoso que homens públicos digam isso já na segunda década do Século 21. Já se passaram mais de dois séculos do Iluminismo Inglês (quem preferir a versão com sangue pode escolher o francês…).

Esse é o espírito que se colhe na rede suja da Internet, financiada por estatais, especialmente bancos públicos. Não se quer saber o que se fez ou que se deixou de fazer com a coisa pública — é mentira que se esteja escarafunchando a vida privada de Lula; quando se toca nessa franja, é porque uma das personagens investigada era de seu círculo de relações íntimas, mas estava incrustada no escritório da Presidência, em São Paulo.

E quem negociou com Valério? Esse é qualificado?
Sarney desqualifica Marcos Valério. Huuummm… É, eu também não acho que se deva acreditar cegamente na sua palavra. Ele é quem é e fez o que fez. Foi condenado a mais de quarenta anos por oito crimes.

Mas me digam aqui: e os que fizeram negócios escusos  com ele? Esses merecem crédito? E as reuniões palacianas? Não foram só estas, não! A banqueira Katia Rabello, em depoimento em juízo, narrou encontros com Dirceu e Valério na Casa Civil. Sarney tem de dizer em que Dirceu, por exemplo, é melhor do que o empresário que operou o esquema.

Encerro
Agora já sabemos — e Dilma, infelizmente, quase diz as mesmas palavras de Sarney — por que os petistas estão tão furiosos; agora já sabemos por que a rede suja decidiu chafurdar na lama: toda essa gente considera um absurdo que Lula esteja submetido às mesmas leis dos homens comuns.

Por suas ditas grandes obras, ele teria conquistado o direito à inimputabilidade e à impunidade. E ai daquele que ousar dizer o contrário! Ele partem pra cima: xingam, mentem, insultam, aviltam, ameaçam. Tudo com dinheiro público.

Por Reinaldo Azevedo

 

Supremo bate o martelo nesta quarta sobre mandato de deputados condenados. Ou: Choque entre Poderes é crise artificial inventada por petistas

O Supremo retoma nesta qujarta a votação sobre a cassação dos mandatos dos deputados condenados no processo do mensalão. Escrevi ontem um post sobre a absurda declaração do ministro Ricardo Lewandowski, que decidiu transformar o Supremo Tribunal Federal numa obra aberta. Pior: dedica-se a adivinhar os votos dos ministros que há e do ministro ou ministra a haver. Dilma Rousseff ainda não indicou nome nenhum, o Senado ainda não o sabatinou, mas o revisor está certo de que a Incógnita concordará com ele. Nem Cícero tinha tanta certeza do seu poder de convencimento. A menos que sua certeza ou não seja coisa deste mundo ou seja coisa de um mundo que não está à luz do dia. Qual é?

A votação recomeça com o voto de Celso de Mello, o decano, e está empatada em quatro a quatro. Dos que votaram, metade (além de Lewandowski, Rosa Weber, Dias Toffoli e Carmen Lúcia) acha que cabe à própria Câmara votar a cassação do mandato, e outra metade (Joaquim Barbosa, Luiz Fux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio), que a Constituição autoriza o Supremo a tomar essa decisão — e é como entendo, já expus aqui os meus motivos.

Se não mudou seu ponto de vista, Celso de Mello deu pistas de que formará a maioria absoluta (e não relativa, viu, ministro Lewandowski) com o grupo liderado pelo relator. E aí, dizem, estaria criado um impasse. Qual impasse??? Impasse nenhum, a menos que Marco Maia, presidente da Câmara, mande demolir o prédio do STF — um dos que Oscar Niemeyer desenhou com a sua metade gênio a depender do ângulo em que seja visto. Mas sei que há controvérsias, e não são poucos os que discordam de mim e não veem metade nenhuma.

Qual é a tese exótica que querem impor goela abaixo da nação?

Admitem, então, alguns ministros do Supremo a possibilidade — porque ela existiria — de haver parlamentares sem direitos políticos? Ou por outra: os direitos políticos estariam suspensos, mas só a partir do fim do mandato em curso? Com base em que dispositivo legal? Alguém é capaz de citar a lei? Ou seria esse apenas um jeitinho? Sim, é fato, a Câmara poderia cassar os mandatos. Mas e se não o fizer?

O ministro Gilmar Mendes pôs a nu a tese estupefaciente. Quer dizer que um grupo de ministros do Supremo flerta abertamente com a possibilidade de haver — e seria esse o caso de João Paulo Cunha (PT-SP) se seu mandato fosse preservado por seus pares — um deputado exercendo seu mandato na prisão, em regime fechado? Suponho que, em regime fechado, a imunidade parlamentar estaria algo prejudicada… Tenham pena dos brasileiros, ministras e ministros!

O Artigo 15 da Constituição é claro a mais não poder quando estabelece que os direitos políticos de alguém condenado em instância definitiva estão suspensos pelo tempo que durar a condenação. E o Artigo 55, no caso da suspensão de direitos políticos, diz que cabe à Mesa da Câmara apenas o ato declaratório, anunciando a cassação. Isso tudo quando o acórdão estiver publicado.

Artigo 92 do Código Penal
Um mandato tem de ser cassado segundo a Constituição e a lei. Houvesse alguma dúvida do resultado da combinação dos artigos 15 e 55 da Constituição, há o Artigo 92 do Código Penal, que não foi revogado. Ele foi muito bem lembrado pelo ministro Marco Aurélio Mello. Transcrevo:
Art. 92 – São também efeitos da condenação:
I – a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;
b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.

“O Reinaldo está querendo dizer que o Código Penal é superior à Constituição!!!” Errado! O Reinaldo está dizendo que o Artigo 92 do Código Penal fornece a lei que permite a aplicação segura, sem ambiguidades, de forma hígida, do princípio constitucional. A Carta continua a reger a decisão. O Código Penal é apenas seu instrumento — ou os deputados teriam, agora, poder de revoga-lo?

Voltemo-nos, então, ao Artigo 55 da Constituição:
Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:
I – que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;
II – cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;
III – que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;
IV – que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;
V – quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;
VI – que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.
§ 1º – É incompatível com o decoro parlamentar, além dos casos definidos no regimento interno, o abuso das prerrogativas asseguradas a membro do Congresso Nacional ou a percepção de vantagens indevidas.
§ 2º – Nos casos dos incisos I, II e VI, a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.
§ 3º – Nos casos previstos nos incisos III a V, a perda será declarada pela Mesa da Casa respectiva, de ofício ou mediante provocação de qualquer de seus membros, ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.

Reparem que o Inciso IV está no parágrafo 3º: a cassação será apenas DECLARADA pela mesa. “Ah, mas a lei é omissa para tratar do caso de um parlamentar condenado por um acidente de trânsito… É razoável que perca os direitos políticos?” Tá…

AINDA QUE ALGUNS MINISTROS QUEIRAM ESPECULAR A RESPEITO, SERÃO OBRIGADOS A ADMITIR QUE A LEI, NO ENTANTO, NÃO É OMISSA NOS CASOS DE CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. O ARTIGO 92 DO CÓDIGO PENAL É UM INSTRUMENTO EFICIENTÍSSIMO PARA DAR APLICAÇÃO PRÁTICA AO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL EXPRESSO NO ARTIGO 15.

Corrupção passiva é crime contra a administração pública.
Peculato é crime contra a administração pública.
Lavagem de dinheiro é crime contra administração pública.

Ou há alguma dúvida a respeito?

“Você não é jurista nem estudou direito!!!” Em meio a um monte mentiras que dizem sobre o que penso e escrevo, isso é verdade. Mas sei ler. E li direitinho, em passado nem tão distante, o Artigo 317 do Código Penal, que define a corrupção passiva. Tudo o que afirmei sobre ato de ofício estava certíssimo.

Finalmente
Finalmente, noto o seguinte: tenha-se a posição que se tiver a respeito — e conheço pessoas respeitáveis, é evidente, que acham que a decisão cabe à Câmara —, uma coisa não pode ser posta em dúvida: cabe ao Supremo dar a última palavra em matéria constitucional, não aos amigos de Zé Dirceu ou a Marco Maia. A este restará, quando muito, tentar demolir o prédio do Supremo… Mas recomendo que não tente.  

Texto publicado originalmente às 5h46

Por Reinaldo Azevedo

 

Vejam quem está de novo na área! O ex-jornalista Franklin Martins! E ele só pensa naquilo: regular a mídia…

Quando ainda jornalista, Franklin Martins era um entusiasta da tese de que o mensalão nunca existiu. Quando a sua luta com os fatos ficou escancarada, foi demitido da Globo. Depois de uma passagem pela Band, encontrou o seu lugar: ministro da Comunicação Social de Lula. Não se duvide de que foi eficiente para fazer aquilo que fez. Centralizava a assessoria de imprensa, a rede oficial de notícias (Agência Brasil e LulaNews) e, sobretudo, a publicidade oficial, inclusive a das estatais.

É no seu mandarinato que ganha impulso essa modalidade exótica de subimprensa: sites, blogs e veículos financiados com dinheiro público para difamar os “inimigos do regime”. Ele saiu, mas a prática continuou. A linguagem ficou ainda mais violenta. As baixarias se exacerbaram. Franklin fazia a “luta” parecer um embate ideológico. Sem a sua orientação, é lama pura.

Franklin voltou à cena, informa o Painel, da Folha. Os amigos de Lula o querem como porta-voz do ex. Mas ele esteve também com Dilma. O homem promete lutar no Congresso para aprovar o seu marco regulatório para a mídia. Será que Dilma não está mais convencida de que basta o controle remoto?

Pois é…  Franklin volta, ainda que informalmente? Quem sabe seja didático em certos casos. Havia gente por aí que parecia convencida de que existe diálogo entre a corda e o pescoço. Eu acho que não há. Leiam as notas do Painel.

O especialista
Preocupados com o abalo na imagem de Luiz Inácio Lula da Silva em razão do Rosegate e do novo depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público, envolvendo o ex-presidente no mensalão e em outras acusações, amigos de Lula o aconselharam a contratar o ex-ministro Franklin Martins como seu porta-voz. A avaliação de petistas é que os atuais assessores de Lula não têm experiência em comunicação e que ele precisa fazer uma declaração mais alentada sobre as acusações.

Na área
Franklin Martins se reuniu no Planalto com Dilma Rousseff há uma semana. Ele disse que irá trabalhar para aprovar o marco regulatório da imprensa no Congresso. Petistas voltaram levantar a bandeira de regulação da mídia após o julgamento do mensalão no STF.

Por Reinaldo Azevedo

 

Um vídeo de Rodrigo Constantino – Sobre a liberdade de expressão, o direito à divergência e o humanismo

Por Reinaldo Azevedo

 

Lewandowski ultrapassa a linha do razoável, atinge a reputação do próprio STF e atua em favor da insegurança jurídica

Pode parecer incrível, mas é verdade: o ministro Ricardo Lewandowski conspira hoje em cena aberta contra a independência e as prerrogativas do Supremo Tribunal Federal, de que é membro. Leio na Folha, em reportagem de Márcio Falcão e Felipe Seligman, que o ministro considera que a decisão que o tribunal deve tomar amanhã sobre a cassação dos mandatos dos deputados condenados é “precária” e pode ser revista com a eventual participação do ministro Teori Zavascki e daquele que vier a integrar o Supremo na vaga aberta com a aposentadoria de Ayres Britto.  Digamos que assim pudesse ser, pergunta-se: cabe a um ministro da corte esse papel? É uma atitude impensável quem qualquer corte suprema do mundo.

Na sessão de amanhã, Celso de Mello deve formar uma maioria de 5 a 4, decidindo que os mandatos dos deputados condenados estão cassados e que tal decisão não está sujeita à arbitragem do plenário da Câmara. Já tratei aqui dos aspectos constitucionais ligados à questão — mas falta ainda falar de muita coisa, que fica para outros posts.

Pois bem. O que se está a decidir, que fique bem claro, é a interpretação do que está na Constituição, redigida com incongruências nesse particular, mas menos ambígua do que se diz. A Lewandowski, que pertence a um colegiado, cumpre acatar a decisão da maioria. Parece, no entanto, que ele acha esse critério válido quando ganha, não quando perde.

Leiam o que disse:
“Ao que tudo indica, amanhã [nesta quarta] a posição do Supremo será no sentido de suprimir essa prerrogativa [a da cassação] do Congresso Nacional. Mas é uma decisão que será tomada por uma maioria relativa e será também uma decisão provisória, contra ela caberão embargos infringentes (recursos). No curto prazo, não vejo nenhuma consequência prática com relação à decisão que se tomará amanhã (….). Os novos ministros evidentemente participarão do julgamento dos embargos. E essa decisão, como eu disse ,de maioria relativa e, portanto, precária, porque cabem ainda embargos infringentes, poderá ser revista pelos novos ministros que integrarão a Corte”.

Trata-se de uma fala absurda de várias maneiras, distintas e combinadas. Vamos a elas.

1: Há uma grave questão de fundo aí. Lewandowski, então, considera “precárias” decisões por maioria que ele chama “relativa”? Bem, comecemos pelo óbvio: dados nove ministros, cinco deles formam maioria absoluta. “Ah, mas é relativa em relação ao total possível: 11!”. A assertiva conduz a dois outros absurdos

2: O que está a dizer o ministro? Todas as decisões do Supremo que não foram e não forem tomadas por pelo menos seis ministros são “precárias” e teriam uma eficácia, então, também relativa? Bastaria, nessa perspectiva, que um ministro da Casa fosse afastado por doença para que se fechasse, então, o Tribunal. A eficácia das decisões do Supremo é função do que estabelece o regimento para definir o que é maioria ou é função dos juízos de valor de Lewandowski? Haverá, a depender do quórum de votação e do placar, decisões do Supremo menos válidas do que outras?

3: Notem, é inescapável concluí-lo, que Lewandowski vai muito além das suas sandálias: ele antevê o voto de Celso de Mello (sim, eu também antevi, mas não sou ministro) e já dá de barato os respectivos votos dos outros dois. Por conta de coisas que andou dizendo e escrevendo, talvez Zavascki se perfilasse com ele nessa questão, mas, reitero, não lhe cabe fazer divagações a respeito. Pior: ele decidiu ser a Mãe Dinah do futuro ministro também, que nem indicado está. Caso este viesse a se alinhar com os que dele divergem, estaria formada a maioria de 6 a 5 contra a sua tese.

O tribunal que Lewandowski tem em mente não decide mais nada sobre matéria constitucional, então, se não estiver completo, com os 11 membros. Ainda assim, suas decisões só serão hígidas se contaram com a adesão de pelo menos oito ministros, ou, segundo ele, viriam os embargos infringentes. O tribunal que Lewandowski tem em mente se transformaria numa eterna corte revisora de si mesma. O tribunal que Lewandowski tem em mente é formado sempre por maiorias precárias e em trânsito; não seria mais a instituição que decide. Nesse ambiente, não se pode nem mesmo falar mais de uma Corte que forma jurisprudência.

Que fique claro: Lewandowski tem o direito de divergir o quanto quiser no tribunal. Haverá sempre, a exemplo de que ocorre com os demais ministros, os que dele discordam e os que concordam com ele. Isso é do jogo. O que não é possível é sair por aí a transformar o STF numa corte de decisões precárias. Até porque já há gente demais atacando a instituição, não é mesmo?

Desta feita, Lewandowski atravessou a linha do próprio absurdo. A sua fala vai além da divergência aceitável — aquela exercida no próprio tribunal, com a mais absoluta liberdade — e afeta a reputação do próprio tribunal que o abriga.

Tudo isso, ministro, por quê e para quê? 

Por Reinaldo Azevedo

 

Tensão política, baixaria, o livro de Marco Antônio Villa e os nazistoides do dinheiro público

A tensão política cresce vertiginosamente, e olhem que o PT ainda está longe do que imagina ser o cenário ideal para a realização do seu projeto. Na mesma proporção, cresce a baixaria na rede estimulada pelos amigos do regime, todos financiados por estatais: no alvo, a imprensa independente, os ministros do Supremo que atendem à instituição, não ao partido, qualquer força viva que se mova e que não reze segundo a cartilha. Goebbels não tinha a Internet. Por isso apelava aos grandes comícios, ao rádio, à panfletagem. Hoje os fascistas contam com essa facilidade. Mas aqueles foram vencidos com os instrumentos que havia à época. E estes também serão. Um dia essa história será contada direitinho. Já começou.

Estive ontem na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, para o lançamento do livro “Mensalão”, de Marco Antônio Villa. Aconteceu o esperado: a livraria estava lotada. Entre os admiradores da independência intelectual de Villa, havia muitos jovens. Brasil afora, há muita gente que consegue enxergar além das brumas da propaganda encomiástica e da rede criminosa na Internet. Na livraria, fui abordado por vários leitores. As pessoas querem conversar, expressar a sua indignação, manifestar até mesmo seu apoio pessoal.

Não se trata de defender este ou aquele; não se trata de satanizar este ou aquele — isso é o que “eles” fazem com a gente. Trata-se, sim, de não se deixar intimidar pelas hostes criminosas, que usam recursos do estado para defender um partido político; pior do que isso: esses recursos são empregados para defender aqueles que cometeram crimes, já sentenciados pelo STF. E como eles se justificam? Alegam que representam a maioria. Mussolini e Hitler representavam também a maioria. “Então maioria é coisa de tiranos, Reinaldo?” Que bobagem! Isso só quer dizer que a maioria, por si, não faz a democracia. 

O livro de Villa está em primeiro lugar na lista dos “Mais Vendidos”, na categoria “Não-Ficção”, da Livraria Cultura. Ao contrário do que se diz por aí, há, sim, muita gente interessada em saber o que se passou e o que passa no país.

Eles fiquem com a baixaria, revelando, de verdade, quem são. Nós ficaremos com os fatos. Os que perfilam com a calúnia, com a injúria e com a difamação fazem também uma escolha moral.  O que vi ontem na livraria é um país vivo, que não desistiu. É possível que boa parte daquelas pessoas pertença a uma categoria talvez única no mundo democrático: eleitores em busca de um partido — o comezinho é haver partidos em busca de eleitores.

Seja como for, o país respira. Por óbvio, é quando os regimes se sentem ameaçados que eles se tornam mais violentos. A violência, entre nós, é, por enquanto, retórica. Mas os sites e blogs que estão sob o comando do “Partido” liberam comentários que são verdadeiras aberrações morais: contra ministros do Supremo, contra políticos de oposição, contra a imprensa independente. Não são raros — e eu mesmo recebo centenas destes por dia; é que não os publico — que anunciam que vão “pegar de porrada” seus desafetos, “arrebentar-lhes a cara”, entre outras grosserias que evoluem para o mais asqueroso baixo calão.

A exemplo do que faziam as hordas fascistas, eles também sustentam que estão apenas se defendendo da “mídia golpista”. É impressionante a similaridade entre o que dizem e fazem e o discurso de Goebbels, na primeira grande concentração promovida pelos nazistas depois da ascensão de Hitler à Chancelaria. Há só uma diferença, mas nem sempre: Goebbels prometia apelar à violência para combater o que chamava a conspiração da imprensa judaica; por aqui, falam da tal “imprensa de direita” ou “golpista” — mas há, sim, uma corrente razoável que aproveita para acusar a “infiltração sionista” no jornalismo brasileiro…

Não! Eles não têm limites, e todos os instrumentos lhes parecem válidos. Já falei a respeito deste discurso, mas reproduzo um trecho mesmo assim. É uma fala de Goebbels no dia 10 de fevereiro de 1933. Hitler estava no poder havia apenas 11 dias (havia sido declarado chanceler no dia 30 de janeiro). Intelectuais como Gertrude Stein e Bernard Shaw ainda o viam como um benfeitor. Ela chegou a sugerir que  o facínora ganhasse o Prêmio Nobel da Paz. Vamos à fala de Goebbels:
“Há alguns anos, não falávamos da boca pra fora quando dizíamos que vocês, judeus, são nossos professores e que só queremos ser seus alunos e aprender com vocês. Além disso, é preciso esclarecer que aquilo que esses senhores conseguiram no terreno da política de propaganda durante os últimos 14 anos foi realmente uma porcaria. Apesar de eles controlarem os meios de comunicação, tudo o que conseguiram fazer foi encobrir os escândalos parlamentares, que eram inúteis para formar uma nova base política.
(…)
O Movimento Nacional-Socialista vai mostrar como eles realmente deveriam ter lidado com isso, ou seja, quando se faz um bom governo, uma boa propaganda é consequência. Uma coisa segue a outra. Um bom governo sem propaganda dificilmente se sai melhor do que uma boa propaganda sem um bom governo. Um tem que complementar o outro. Se hoje a imprensa judaica acredita que pode fazer ameaças veladas contra o movimento Nacional-Socialista e acredita que pode burlar nossos meios de defesa, então, não deve continuar mentindo. Um dia nossa paciência vai acabar e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!”

Concluindo
Não estou, é evidente, afirmando que o Brasil é a Alemanha de 1933. Estou chamando a atenção de vocês para a similaridade de pensamento, de visão de mundo, de modo de abordar a divergência. Enquanto alguns intelectuais do miolo mole (e é claro que havia os safados) viam em Hitler uma alma genial, ele preparava as Leis de Nuremberg, definidas no 7º Congresso do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores — o partido nazista de 1935. E ali estava todo o horror que se seguiu.

Antes como agora, aos democratas cabe resistir. O que vi na Cultura ontem com “Mensalão” (o livro) e o que tenho constatado Brasil afora com “O País dos Petralhas II” é que há gente disposta a tanto.

Por Reinaldo Azevedo

 

Não deixe de ler a coluna de Diogo Mainardi e de ouvir o seu podcast

Não deixe de ler a coluna de Diogo Mainardi sobre as relações entre Freud Godoy e Lula (post das 15h06) e o de ouvir o seu podcast (15h28) sobre o assunto. Como de hábito, o agora “Oráculo de Veneza” chegou primeiro ao cerne da questão.

Por Reinaldo Azevedo

 

Oposição quer levar Marcos Valério ao Congresso

Por Marcela Mattos, na VEJA.com:
Diante da revelação, feita por Marcos Valério à Procuradoria-Geral da União, de que dinheiro do mensalão foi usado para pagar despesas pessoais do ex-presidente Lula, a oposição quer ouvir no Congresso o empresário, condenado a mais de 40 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal por ter operado o esquema de corrupção petista.

O PPS pediu, na manhã desta terça-feira, a abertura imediata de inquérito para investigar o ex-presidente. Já o líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias, afirmou que, ainda nesta tarde, deve protocolar um convite para que Valério fale ao Senado. Na semana passada os tucanos já haviam protocolado representação pedindo a abertura de investigação sobre a atuação de Lula no esquema do mensalão.

“Diante das declarações dadas ao Ministério Público não resta outro caminho. É abertura imediata de inquérito”, defendeu Roberto Freire, presidente nacional do PPS. Já o líder do partido na Câmara, Rubens Bueno, criticou o silêncio de Lula sobre o caso. “Agora vem à tona a confirmação do que já sabíamos: ele era o verdadeiro chefe do mensalão. O lamentável é que, em vez de se explicar à nação, Lula se esconde no exterior”, afirmou. O ex-presidente está em viagem a Paris, ao lado da presidente Dilma Rousseff.

Para Alvaro Dias, uma audiência com Valério serviria para, além de esclarecer as informações prestadas pelo operador do mensalão ao Ministério Público, proteger o publicitário, já que o próprio Valério afirma temer pela sua vida. Dias acrescentou que “este é um capítulo do mensalão ainda não escrito”.

Congresso
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), tentou desqualificar as revelações de Marcos Valério: “O senhor que disse não tem autoridade para falar sobre o presidente Lula,  que é um patrimônio do país, da história do país, por toda sua vida, por tudo que ele tem feito”.

Presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS) seguiu a mesma linha. “Dar ouvidos a esse cidadão agora nesse momento seria dar ouvidos a um criminoso”, disse. “Insistir nessa tecla é tentar manter vivo um tema que já foi superado, que já foi discutido à exaustão pelo Brasil, pelo país, pela Câmara, pelo Senado, pelo STF, enfim, por todas as instâncias”.

Revelações de Valério
Conforme reportagem publicada na edição desta terça-feira do jornalO Estado de S. Paulo, no depoimento que prestou em setembro à PGR, Valério afirmou que que Lula não apenas sabia do esquema como se beneficiou dele – tendo, inclusive, avalizado empréstimos ao PT. Segundo o jornal, Valério disse que os valores foram depositados na conta da empresa do ex-assessor da Presidência, Freud Godoy, conhecido como o “faz-tudo” de Lula na época – e ligado ao escândalo dos aloprados. O empresário declarou ainda que o ex-presidente deu “ok” para o PT tomar empréstimos com os bancos BMG e Rural para pagar deputados da base aliada. O aval teria sido dado em um reunião no Palácio do Planalto, que teve a presença do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, ambos também condenados pelo STF.

Na ocasião, Dirceu teria dito que Delúbio negociava em seu nome e no de Lula – o ex-ministro teria autorizado inicialmente pegar um empréstimo de 10 milhões de reais e, depois, mais 12 milhões. Além disso, conforme a reportagem do jornal, Marcos Valério também afirma no depoimento que Lula e o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, negociaram com a Portugal Telecom no Palácio do Planalto o repasse de 7 milhões de reais para o PT – dinheiro que, segundo Valério, foi recebido por suas empresas de publicidade.

Ameaças
No mesmo depoimento, Valério disse ainda ter sido ameaçado de morte por Paulo Okamotto, atual diretor do Instituto Lula e amigo do ex-presidente. “Se abrisse a boca, morreria”, afirmou o empresário à PGR.

“Tem gente no PT que acha que a gente devia matar você”, teria dito Okamotto a Valério, conforme as duas últimas das 13 páginas do depoimento prestado no dia 24 de setembro pelo operador do mensalão ao Ministério Público Federal. “Ou você se comporta, ou você morre”, teria completado Okamotto. Valério disse à subprocuradora da República Cláudia Sampaio e à procuradora Raquel Branquinho que foi “literalmente ameaçado por Okamotto”. Procurado pelo site de VEJA, o Instituto Lula não se pronunciou sobre o caso.

Por Reinaldo Azevedo

 

Rui Falcão já identificou os culpados: a imprensa e o Ministério Público

O presidente do PT, Rui Falcão, já tem os culpados pelas notícias que envolvem seu partido e o esquema do mensalão: a imprensa e o Ministério Público. Leiam o que informa Laryssa Borges, na VEJA.com:

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, mais uma vez atacou a imprensa e o Ministério Público (MP) na tentativa de justificar os atos ilegais cometidos por membros do partido. Ao se pronunciar sobre o depoimento de Marcos Valério à PGR, em que o operador do mensalão afirmou que dinheiro do esquema pagou despesas do ex-presidente Lula, Falcão acusou a imprensa e o MP de promover um “processo de criminalização contra o PT e seus dirigentes.” O conteúdo do depoimento de Valério foi publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Sem se preocupar em dar explicações sobre o envolvimento de Lula no maior esquema de corrupção da República, Falcão se limitou a criticar a publicação do depoimento e acusou a procuradoria de “vazar de maneira inexplicável” informações que “teria a responsabilidade legal de resguardar.” O presidente do PT afirma, ainda, que as declarações de Valério são uma “tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão” recebida pelo empresário mineiro no julgamento do STF. 

Mesmo diante do silêncio de Lula sobre as declarações de Valério, Falcão insiste em classificar o depoimento do operador do mensalão como “mentiras envelhecidas, todas elas já claramente desmentidas.”

Dirceu
Acuado com novas denúncias de que agia em nome do ex-presidente no esquema do mensalão, o ex-ministro José Dirceu, condenado a mais de dez anos de prisão por participar do esquema criminoso, afirmou que “a nova declaração de Marcos Valério não tem qualquer procedência”. O petista voltou a insistir na tese de que “jamais” se encontrou Marcos Valério. Por meio de seu advogado, José Luís de Oliveira Lima, disse que tampouco se reuniu com o ex-presidente Lula e com o então tesoureiro petista Delúbio Soares para discutir financiamentos de campanhas.

Jefferson
Denunciante do esquema do mensalão, o deputado cassado Roberto Jefferson também questionou as revelações de Marcos Valério. “A história contada por Marcos Valério às procuradoras não me pareceu crível”, disse. “Delação premiada para salvar o próprio couro é coisa de canalha.”

Por Reinaldo Azevedo

 

Joaquim Barbosa diz que MP deve investigar Lula

Por Laryssa Borges, na VEJA.com:
Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Joaquim Barbosa defendeu nesta terça-feira que o Ministério Público investigue a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no esquema criminoso do mensalão. O envolvimento do petista, revelado em depoimento do publicitário Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República, aponta que o valerioduto arcou com “despesas pessoais” do ex-presidente. Os recursos no valor de 98 500 reais foram depositados, segundo o do operador do mensalão, na conta da empresa de segurança Caso, de propriedade do ex-assessor da Presidência Freud Godoy.

No intervalo da sessão plenária do Conselho Nacional de Justiça, Joaquim Barbosa disse que o MP deve apurar as novas informações, mas evitou comentar o conteúdo do depoimento. O magistrado disse ter tomado conhecimento do teor das revelações de forma “oficiosa”. Ao ser questionado se o Ministério Público deveria abrir um inquérito sobre o caso, respondeu: “Eu creio que sim”.

Como Lula não detém mais foro privilegiado, as possíveis investigações seriam realizadas na primeira instância. Conforme o depoimento de Valério ao MP, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, o ex-presidente Lula deu aval para que as agências de publicidade do operador do mensalão tomassem empréstimos com os bancos BMG e Rural. Segundo o Ministério Público, esses recursos foram utilizados para corromper parlamentares aliados no primeiro mandato de Lula na Presidência.

Por Reinaldo Azevedo

 

Podcast do Diogo: O número da conta é 97257313

Além da coluna (ver post abaixo), Diogo Mainardi contou num podcast o que sabia. No dia 24 de março de 2003, um cheque de R$ 150 mil foi depositado na conta da empresa Acaso Sistemas de Segurança, que pertence ao faz-tudo de Lula. Pretexto: serviços prestados.

O número da conta: 97257313
Banco – Caixa Econômica Federal de São Bernardo

Clique aqui para ouvir o podcast.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula é o PT. Uma coluna de Diogo Mainardi de outubro de 2006

Quem acompanhou as colunas de Diogo Mainardi na VEJA não se surpreende. Leiam o texto publicado no dia 25 de outubro de 2006.
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O procurador-geral da República denunciou quarenta mensaleiros. O mais perto que ele chegou de Lula foi o 4º andar do Palácio do Planalto, ocupado por José Dirceu e seu bando. Agora ele terá de descer um lance de escadas e entrar diretamente no gabinete presidencial. Acompanhe-me, por favor. Cuidado com o degrau. Esta é a sala que pertencia a Freud Godoy, gorila particular de Lula. E aquela é a porta do escritório do presidente. Cerca de dez passos. Toc-toc-toc. Tem alguém aí? Lula saiu? A gente volta mais tarde.

Na última terça-feira, Garganta Profunda me passou os dados de um documento bancário de Freud Godoy, encaminhado pelo Coaf à Polícia Federal. Em 24 de março de 2004, ele depositou 150 000 reais na conta da empresa de sua mulher, Caso Sistemas de Segurança. Importante: 150 000 reais em moeda sonante. No documento bancário, Freud Godoy declarou que o dinheiro era fruto de “serviços prestados a clientes”. Isso contradiz tudo o que ele alegou até agora. Num primeiro momento, disse que sacou os 150 000 reais para comprar equipamentos. Depois, informou que pediu um empréstimo a um amigo. Mentira. Não foi saque nem empréstimo: foi um depósito. O fato é que ninguém sabe de onde saiu tanto dinheiro e por que foi parar na conta do gorila particular de Lula.

Como Robert Redford em Todos os Homens do Presidente, arregacei as mangas da camisa e fui procurar respostas na capital federal. Pedi à CPI dos Correios para fazer o cruzamento dos dados do valerioduto com o depósito de Freud Godoy. Encontrei uma espantosa coincidência. Em 23 de março de 2004, um dia antes de Freud Godoy depositar 150 000 reais na conta de sua mulher, foram sacados 150 000 reais da conta da SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural. Tudo em moeda sonante. Tudo de origem desconhecida. O saque no Banco Rural foi feito pelo policial aposentado Áureo Marcato. Que voltou ao banco dois dias depois e sacou mais 150 000 reais. Onde foram parar?

Na época do depósito, Freud Godoy era assessor direto de Lula. Mas fazia um bico para o PT, montando o esquema de segurança de Delúbio Soares, que transportava malas de dinheiro sujo de um lado para o outro. Freud Godoy alugou para ele um carro blindado, comprou duas motocicletas para seus batedores e contratou uma escolta de seis policiais militares. Os 150.000 reais depositados na conta de sua mulher podem ter sido o pagamento pelo serviço. Os policiais contratados para escoltar o tesoureiro do PT contaram a VEJA que Freud Godoy, entre outras coisas, era encarregado de organizar os encontros secretos entre Lula e Delúbio Soares. Pode-se imaginar o que eles discutiam.

Lula está praticamente reeleito. Os brasileiros o perdoaram. Mas a bandidagem da qual ele se cercou continuará a rondá-lo para sempre. É assim que será recordado. Por mais que tente se esconder, Lula é o PT. Lula é Delúbio Soares. Lula é Marcos Valério. Lula é o golpismo do mensalão e do dossiê Vedoin. Abra a porta, Lula. Toc-toc-toc.

Por Reinaldo Azevedo

 

O humanista que amava Stálin

Texto publicado hoje no Globo  pelo colunista Rodrigo Constantino.

*

Oscar Niemeyer era quase uma unanimidade. A reação à sua morte comprova isso. Mas será que tanta reverência se deve somente às suas qualidades artísticas? Muitos consideram que Niemeyer foi um gênio. Não sou da área, não me cabe julgar. Ainda assim, não creio que tanta idolatria seja fruto apenas de suas curvas.

Tenho dificuldade de entender por que o responsável pelo caríssimo projeto da construção de Brasília, o oásis dos políticos corruptos afastados do escrutínio popular, mereceria um prêmio em vez de um castigo. Por acaso as pirâmides do Faraó eram boas para o povo? Mas divago.

Eis a questão: por que Niemeyer foi praticamente canonizado? Minha tese é que ele representava o ícone perfeito da CHEC (Comunistas Hipócritas da Esquerda Caviar). No Brasil, você pode ser podre de rico, viver no maior conforto de frente para o mar, mamar nas tetas do governo, desde que adote a retórica socialista.

Falar em “justiça social” enquanto enche o bolso de dinheiro público, isso merece aplausos por aqui. Já o empresário que defende o capitalismo, produz bens demandados pelo povo e não depende do governo é visto como o vilão. Os discursos sensacionalistas valem mais do que as ações concretas. Imagem é tudo!

As curvas traçadas pelo “poeta do concreto”, que considerava o dinheiro algo “sórdido”, custavam caro. Quase sempre eram pagas pelos nossos impostos. Foram dezenas de milhões de reais só do governo federal. Muito adequado o velório ter sido no Palácio do Planalto, o maior cliente do arquiteto. Licitação e concorrência? Isso é coisa de liberal chato.

Niemeyer virou um ícone contra o excesso de razão nas construções, mas acabou com extrema escassez de razão em suas ideias políticas. Sempre esteve do lado errado, alimentado por um antiamericanismo patológico. Defendeu os terroristas das Farc, os invasores do MST e o execrável regime comunista, mesmo depois de cem milhões de vidas inocentes sacrificadas no altar dessa ideologia.

Ele admirava os tiranos assassinos Fidel Castro e Stalin, e chegou a justificar seus fuzilamentos. Até o fim de sua longa vida, usou sua fama para disseminar essa utopia perversa, envenenando a cabeça de jovens enquanto desfrutava do conforto capitalista.

No meu Aurélio, há uma palavra boa para definir pessoas assim, que curiosamente vem antes de “craque” e depois de “crânio”. Talvez Niemeyer fosse as três coisas ao mesmo tempo.

Roberto Campos certa vez disse: “No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros.” Bingo!

Para quem ainda não está convencido de que toda essa comoção tem ligação com sua pregação política, pergunto: seria a mesma coisa se ele defendesse com tanta paixão Pinochet em vez de Fidel Castro? A tolerância seria a mesma se, em vez de Stalin, fosse Hitler o seu guru?

E não me venham dizer que são coisas diferentes! Tanto Stalin como Hitler eram monstros, da mesma forma que o comunismo e o nacional-socialismo são igualmente nefastos. Que grande humanista foi esse homem que defendeu até seu último suspiro algo tão desumano assim?

Acho compreensível o respeito pela obra de Niemeyer, ainda que gosto seja algo subjetivo e que a simbiose com o governo mereça críticas. Entendo o complexo de vira-lata que faz o povo babar com os poucos brasileiros famosos mundialmente. Mas acho inaceitável misturarem as coisas e o colocarem como um ícone do humanismo. Não faz o menor sentido.

Seu brilhantismo como artista não lhe dá um salvo-conduto para a defesa de atrocidades. É preciso saber separar as coisas, o gênio artístico do homem e suas ideias. E tenho certeza de que não é apenas sua arquitetura que gera essa idolatria toda. Basta ver a reação quando questionamos a pessoa, não o arquiteto.

Sua neta Ana Lúcia deixou clara a confusão: “As ideias que ele tentou passar de humanismo, justiça social, isso é tão importante quanto as obras dele. Acho que a gente tem que preservar e difundir o pensamento dele.” Como assim?

Aproveito para avisar que sou sensível ao sofrimento das vítimas do comunismo, mas sou imune à patrulha ideológica da CHEC. A afetação seletiva da turma “humanista” não me sensibiliza. É até cômico ser rotulado de radical por stalinistas.

Por fim, espero que Niemeyer chame logo seu camarada Fidel Castro para um bate-papo onde ele estiver, e que lá seja tão “paradisíaco” como Cuba é para os cubanos comuns. Talvez isso o faça finalmente mudar de ideologia…

Por Reinaldo Azevedo

 

DEPOIMENTO DE VALÉRIO AO MP: Lula recebeu grana do mensalão e negociou empréstimos dos bancos ao PT; o então presidente e Palocci cuidaram pessoalmente do dinheiro ilegal recebido da Portugal Telecom; Okamotto o ameaçou de morte. Surgem na história Humberto Costa e Luiz Marinho. E há detalhes novos do caso Celso Daniel

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff traçavam o futuro da humanidade em Paris, depois de ela dar algumas lições a Angela Merkel de como crescer pouco culpando os outros, começavam a vir à luz no Brasil as revelações que Marcos Valério fez ao Ministério Público num depoimento de três horas prestado às procuradoras Cláudia Sampaio e Raquel Branquinho no dia 24 de setembro. A coisa vai esquentar, e os petistas sabem disso. Por isso o partido decidiu endurecer a sua retórica contra o Supremo, na esperança de intimidar o tribunal. Por isso também a escória da Internet que serve à causa, financiada por estatais, chega ao absurdo de incitar atos de violência contra os que considera desafetos. E quem são os desafetos? Os que acham que lugar de ladrão de dinheiro público é na cadeia. Eles estão nervosos. Temem que a arquitetura do crime desabe sobre suas cabeças. Do que se trata afinal? Comecemos por uma curta memória.

A VEJA que chegava aos leitores na manhã do dia 15 de setembro, um sábado, trazia uma reportagem de capa com revelações que Marcos Valério andava fazendo a interlocutores seus.  A questão mais importante: Lula não só sabia de tudo como era o chefe do mensalão. O post sobre a matéria da VEJA está aqui. Reproduzo (em azul) título e entretítulos para que tenhamos uma síntese do que lá ia:
“REVELADOS SEGREDOS EXPLOSIVOS DE VALÉRIO, QUE TEME SER ASSASSINADO: 1) Mensalão movimentou R$ 350 milhões; 2) Lula, com Dirceu de braço direito, era o chefe; 3) presidente recebia pessoalmente doadores clandestinos; 4) publicitário se encontrou no Palácio com Dirceu e Lula várias vezes; 5) Delúbio, o tesoureiro, dormia com frequência no Alvorada”
– “O CAIXA DO PT FOI DE R$ 350 MILHÕES”;
– LULA ERA O CHEFE DO ESQUEMA, COM JOSÉ DIRCEU;
– VALÉRIO SE ENCONTROU COM LULA NO PALÁCIO DO PLANALTO VÁRIAS VEZES;
– PAULO OKAMOTTO, ESCALADO PARA SILENCIAR VALÉRIO, TERIA AGREDIDO FISICAMENTE A MULHER DO PUBLICITÁRIO;
– O PT PROMETEU A VALÉRIO QUE RETARDARIA AO MÁXIMO O JULGAMENTO NO STF;
– “O DELÚBIO DORMIA NO PALÁCIO DA ALVORADA”;
– EMPRÉSTIMOS DO RURAL FORAM FEITOS COM AVAL DE LULA E DIRCEU

De volta
Muito bem! Os repórteres Felipe Recondo, Alana Rizzo e Fausto Macedo, do Estadão, tiveram acesso ao depoimento prestado por Marcos Valério ao Ministério Público.  As coisas se complicam ainda mais para Lula e Paulo Okamotto e levam para o centro do imbróglio petistas graúdos como o ex-ministro Antônio Palocci e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. Também o caso Celso Daniel ganha detalhes novos. E volta à baila uma personagem conhecida do noticiário: Freud Godoy. Vamos lá.

Síntese do que disse Valério ao Ministério Público
1- O esquema do mensalão pagou as despesas pessoas de Lula em 2003:
2- dinheiro foi depositado na conta de seu carregador de malas, Freud Godoy (aquele do escândalo do aloprados);
3- Lula participou pessoalmente das operações de “empréstimos” dos Bancos Rural e BMG;
4- os “empréstimos foram acertados dentro do Palácio do Planalto;
5- Valério diz que é o PT quem paga seus advogados (R$ 4 milhões);
6- Paulo Okamotto, que hoje preside o Instituto Lula, o ameaçou pessoalmente de morte;
7- Lula e Palocci negociaram com o então presidente da Portugal Telecom a transferência de recursos ilegais para o PT;
8- Luiz Marinho, agora prefeito de São Bernardo, foi quem negociou as facilidades para o BMG nos empréstimos consignados;
9- o pecuarista José Carlos Bumlai arrumou dinheiro para pagar o empresário Ronan Maria Pinto, que chantageava Lula no caso Celso Daniel;
10 – o senador Humberto Costa também recebeu dinheiro do esquema.

Pois é…
Se Valério estiver falando a verdade – e bastariam algumas verdades –, o diabo é bem mais feio do que se pinta no Supremo, como todo mundo já andava desconfiado. Seguem mais detalhes de seu depoimento. Os verbos não aparecem no modo da incerteza, mas é preciso que se deixe claro que essas são as acusações feitas por Valério. Precisam ser investigadas.

Dinheiro para Lula na conta de Freud
Segundo Valério, foram feitos dois repasses a Lula em 2003 para cuidar de suas despesas pessoais – pessoais mesmo, sabem?, “a nível de Lula”, sem qualquer ligação com a política. Um deles foi no valor de R$ 100 mil. A grana era depositada na conta de Freud Godoy, que ocupou papel de destaque no escândalo dos aloprados. A CPI dos Correios encontrou, com efeito, uma transferência de R$ 98.500 de uma das agências de Valério para o Freud do Lula…

Banco Rural, empréstimos e reuniões no Palácio. Com Lula!
As reuniões que decidiram os falsos empréstimos do Rural para o PT foram feitas dentro do Palácio do Planalto, com as presenças de José Dirceu (olhem ele aí, como sempre) e Delúbio Soares. Aconteceram, segundo o publicitário, numa sala grande, onde se faziam reuniões e, às vezes, algumas refeições. Tudo acordado, o grupo foi até Lula. Informado do combinado, o Apedeuta-chefe disse “ok”. Houve mais de um encontro. Numa primeira etapa, houve autorização para R$ 10 milhões; numa segunda, outros R$ 12 milhões. Dirceu disse, então, a Valério que Delúbio, quando negociava, o fazia em nome dele, Dirceu, e de Lula.

Advogado
Valério diz que é o PT que paga seus advogados. Esse depoimento, não custa lembrar, foi acompanhado por um deles, Marcelo Leonardo, que o defendeu no processo do mensalão no Supremo. Leonardo assina a transcrição escrita da fala de Valério. O partido já teria desembolsado até agora R$ 4 milhões nessa operação.

Ameaça de morte
VEJA já havia revelado que o interlocutor de Lula junto a Valério era Paulo Okamotto, aquele que, certa feita, afirmou ter pagado do próprio bolso um suposto empréstimo feito pelo chefe. É uma alma generosa. Okamotto é hoje presidente do Instituto Lula. Segundo Valério, o petista lhe disse essas duas frases sem ambiguidades: “Tem gente no PT que acha que a gente deveria matar você” e “Você se comporta ou morre”. Uma das reuniões em que se tratou desse assunto teria sido feita na casa de uma mulher chamada Adriana Cedrola, diretora de uma empresa de Okamotto.

Lula, Palocci e a Portugal Telecom
Lembram-se daquela ida de Marcos Valério a Portugal? Pois é… Já se sabe que foi àquele país em busca de dinheiro para alimentar o esquema. Segundo Valério, Lula negociou pessoalmente a dinheirama ilegal com Miguel Horta, então presidente da Portugal Telecom. O ex-presidente e o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, combinaram que uma fornecedora da Portugal Telecom de Macau enviaria os recursos. Eles chegaram ao PT por intermédio de outras agências de publicidade. A essa altura, pode ter muito publicitário nervoso por aí, além de Valério.

Luiz Marinho e o BMG
Luiz Marinho, então chefão da CUT, intermediou as facilidades criadas para o banco BMG na concessão de empréstimos consignados. Durante 90 dias, foi o único banco privado a operar na modalidade. Em pouco tempo, o banco fez 1,4 milhão de operações, no valor total de R$ 3 bilhões. Virou líder nessa modalidade e teve a carteira comprada, depois, pela Caixa Econômica Federal. Segundo o STF, também seus empréstimos ao partido eram fraudulentos. O caso está da Justiça Federal de Minas, e Lula ainda pode ser convocado a depor. Se há lambança que traz ato de ofício assinadinho, é essa!

O caso Celso Daniel
Valério afirma que o empresário Ronan Maria Pinto cobrava R$ 6 milhões para não implicar Lula e Gilberto Carvalho no caso do assassinato do prefeito Celso Daniel. Numa primeira reunião com Silvio Pereira, o publicitário disse que não se meteria no assunto. Mesmo assim, fez-se uma segunda, no hotel Pullman, com as presenças de Valério, Ronan, Pereira e Breno Altman. Não prosperou. Quem acabou conseguindo o dinheiro foi o pecuarista José Carlos Bumlai, único brasileiro que podia entrar no Palácio quando quisesse e na hora que quisesse. Bumlai teria acertado um empréstimo com o banco Schahin.

Humberto Costa
Valério diz que o esquema transferiu R$ 512.337,00 para a conta da campanha de Humberto Costa ao governo de Pernambuco, em 2002. O dinheiro foi repassado para tesoureira de Costa, Eristela Feitoza, que coordenou a campanha do petista também neste ano.

Concluindo
Pois é… Está tudo lá com o Ministério Público. Okamotto não quis comentar. Os demais negam envolvimento  por meio de seus advogados ou diretamente. A questão agora é apurar e cobrar mais detalhes. É evidente que é o caso dse considerar a hipótese de incluir Valério no programa de proteção a testemunhas desde que apresente informações consistentes. Ao país, ele vale muito mais vivo do que morto. Mas há certamente os que o prefeririam morto. E esses, por óbvio, não pensam no país. Tentam promover uma guerra suja de propaganda para livrar a própria pele.

Texto publicado originalmente às 6h05

Por Reinaldo Azevedo

 

O caso Santo André e o homem que tinha acesso livre ao Planalto

Não pensem que são apenas os pistoleiros disfarçados de jornalistas que recebem dinheiro de estatais, não. Também a Gamecorp, a emissora de games de Lulinha – falta de “incentivo” é que não foi – recebeu anúncios do Banco do Brasil no ano passado. Por que não, né? Segundo um diretor do Banco do Brasil, isso só aconteceu por pressão do megapecuarista José Carlos Bumlai, o mesmo que, sempre segundo Valério, conseguiu o dinheiro para Lula e Gilberto Carvalho pagarem a chantagem de que estavam sendo alvos. Será preciso investigar.

Uma coisa é certa. As relações de Lula com Bumlai não eram exatamente convencionais quando o Apedeuta estava na Presidência. Refresco a memória de vocês com texto e fotos de um post de 24 de maio de 2011. Se vocês clicarem aqui, terão acesso a outros textos sobre o amigo de fé, irmão, camarada. Relembremos o post de 2011:
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A VEJA desta semana traz uma reportagem impressionante de Rodrigo Rangel e Daniel Pereira. Ela diz respeito a este homem.

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Quem é ele. Leiam trechos. Volto em seguida:

O senhor da foto acima se chama José Carlos Bumlai. É um dos maiores pecuaristas do país, amigo do peito do ex-presidente Lula e especialista na arte de fazer dinheiro – inclusive em empreendimentos custeados com recursos públicos. Até o ano passado, ele tinha trânsito livre no Palácio do Planalto e gozava de um privilégio sonegado à maioria dos ministros: acesso irrestrito ao gabinete presidencial. Essa aproximação excepcional com o poder credenciou o pecuarista a realizar algumas missões oficiais importantes. Ele foi encarregado, por exemplo, de montar um consórcio de empresas para disputar o leilão de construção da hidrelétrica de Belo Monte, uma obra prioritária do governo federal, orçada em 25 bilhões de reais. Bumlai não só formou o consórcio – integrado pela Chesf e pelas empreiteiras Queiroz Galvão, Gaia e Contem, estas duas últimas ligadas ao Grupo Bertin, um gigante do setor de carnes – como venceu o leilão para construir aquela que será a terceira maior hidrelétrica do mundo. O homem das missões impossíveis, porém, se transformou num problema constrangedor.

(…) Ele gosta de contar a amigos que, certa vez, durante um sonho, uma voz lhe disse para se aproximar do então candidato Lula. Na campanha de 2002, por meio do ex-governador Zeca do PT, Bumlai conheceu o futuro presidente e cedeu uma de suas fazendas para a gravação do programa eleitoral. São amigos desde então. Seus filhos também se tornaram amigos dos filhos de Lula. Amizade daquelas que dispensam formalidades, como avisar antes de uma visita, mesmo se a visita for ao local de trabalho. Em 2008, após saber que o serviço de segurança impusera dificuldades à entrada do pecuarista no Planalto, o presidente ordenou que fosse fixado um cartaz com a foto de Bumlai na recepção do palácio para que o constrangimento não se repetisse. O pecuarista, dizia o cartaz com timbre do Gabinete de Segurança Institucional, estava autorizado a entrar “em qualquer tempo e qualquer circunstância”.

Voltei 

Lendo a reportagem, vocês verão que o amigão de Lula, com acesso livre ao Palácio do Planalto, foi diversificando seus interesses. No caso de Belo Monte, informa a revista, “o que era para ser uma missão de interesse exclusivamente público começou a derivar para o lado oposto. O governo descobriu que o pecuarista estava usando a influência e o acesso consentido ao palácio para fazer negócios privados. O Planalto foi informado de que Bumlai, por conta própria, estaria intermediando a compra de turbinas para a usina de Belo Monte com um grupo de chineses. A orientação do governo era exatamente contrária: em vez de importar peças, elas deveriam ser produzidas no Brasil, para criar empregos aqui.”

A reportagem informa que o negócio com os chineses foi abortado e que o atual governo cassou o livre acesso de Bumlai ao Planalto e aos ministérios. Um ministro afirma: “Em diversas ocasiões, Bumlai trabalhou em nome do ‘Barba’. Mas também usou o nome do ‘Barba’ sem que o ‘Barba’ tivesse autorizado”. O “Barba”, por metonímia, é o Apedeuta por epíteto… Há duas semanas, o grupo Bertin caiu fora de Belo Monte. O BNDES não aceitou as garantias oferecidas para conceder o empréstimo. Mas o amigão de Lula sempre contou com a generosidade do banco oficial. Informa a VEJA:

“Até pouco tempo atrás, o BNDES estava longe de ser um entrave para os planos de Bumlai. Alguns dos maiores negócios dos quais participou tiveram financiamento do banco. É o caso da Usina São Fernando, em Mato Grosso do Sul. Em 2008, o BNDES aprovou um financiamento de cerca de 300 milhões de reais para a usina. No papel, o empreendimento tem como proprietários os filhos de José Carlos Bumlai e o Grupo Bertin. A sociedade Bertin/Bumlai também é proprietária de um jato Citation, já utilizado algumas vezes pelos filhos do ex-presidente Lula, e de um apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que recebeu o ex-presidente e a família no Carnaval de 2009.”

Leiam a reportagem. Bumlai conseguiu, por exemplo, vender uma fazenda para o Incra com um sobrepreço, acusa o Ministério Público, de quase R$ 8 milhões. Empreiteiras reclamam da sua interferência na Petrobras… E vai por aí. Vejam esta imagem:

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É o cartaz que Lula mandara afixar na portaria do Palácio do Planalto dando acesso irrestrito a seu “amigo”. Os termos são inequívocos: “O sr. José Carlos Bumlai deverá ter prioridade de atendimento na portaria Principal do Palácio do Planalto, devendo ser encaminhado ao local de destino, após prévio contato telefônico, em qualquer tempo e qualquer circunstância”.Convenham: nem Marisa Letícia podia tanto! Esse é o tipo de licença que não se concede nem a um testa de ferro!

Por isso eles amam tanto um “estado forte”! Porque, num estado forte, a República costuma ser fraca!

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula, o sem-superego, tem um Freud só pra si!!!

Pois é… Vejam no post acima. Aparece de novo o nome de Freud Godoy. Lula, o único homem do mundo destituído de superego, tem, não obstante, um Freud só para si. E esse conhece a sua alma como o outro jamais conseguiria. Cumpre rememorar de quem estamos falando. Segue um trecho de uma reportagem de VEJA de 18 de outubro de 2006 (íntegra aqui). 

Nas últimas semanas, uma operação abafa foi deflagrada para tentar apagar as chamas mais destruidoras levantadas pelo escândalo da compra do dossiê. Nessa operação aparece o que pode ser a impressão digital de um personagem muito próximo do presidente Lula. Esse personagem é Freud Godoy, ex-segurança pessoal de Lula e que até sua demissão, há quase um mês, ocupava o cargo de assessor especial do presidente. Freud teve seu nome citado pelo ex-policial federal Gedimar Pereira Passos, aquele que trabalhava com ‘tratamento de informações’ na campanha de Lula e foi preso no dia 15 de setembro passado num hotel em São Paulo junto com o petista Valdebran Padilha. Gedimar e Valdebran foram flagrados com 1,7 milhão de reais para a compra do dossiê falso que serviria para ligar os tucanos à máfia dos sanguessugas. Depois de acusar Freud de ser o mandante da compra do dossiê em seu depoimento inicial, Gedimar recuou, retirando a única referência a Freud feita até agora na investigação do caso. Depois desse recuo, Freud tem desfilado por colunas jornalísticas e eventos sociais como um injustiçado. Tudo graças ao ‘novo’ Gedimar, que agora diz ter sido pressionado a entregar o nome de Freud por métodos de tortura psicológica praticadas pelo delegado que o prendeu – Edmilson Bruno, o mesmo que divulgou as fotos do dinheiro usado para comprar o dossiê. Bruno será alvo de uma investigação interna da Polícia Federal e pode ser demitido do cargo.

O que fez Gedimar mudar sua versão inicial e inocentar o assessor próximo do presidente da República? A apuração dos repórteres de VEJA mostra que a operação abafa seguiu um padrão mais ou menos constante na crônica policial do governo petista. Primeiro se comete um ilícito e depois se seguem outros ainda mais demolidores na tentativa de encobrir o primeiro. A operação faxina do dossiêgate contou com a colaboração jurídica do ministro Márcio Thomaz Bastos (sempre ele), da mãozinha financeira do tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, e da força bruta de um cidadão até agora distante do caso: José Carlos Espinoza – como Freud, um grandalhão que trabalhou como segurança de Lula e ganhou um emprego no governo. Espinoza trabalhou no escritório paulista da Presidência da República até se afastar para dedicar-se à campanha à reeleição de Lula. Nessa operação, coube a Márcio Thomaz Bastos conversar com Freud quando o escândalo estourou e indicar a ele um advogado de sua confiança (do ministro, é claro). Thomaz Bastos cobrou esforços diários de Freud, do advogado indicado por ele e do tesoureiro do PT no que parecia ser a tarefa mais urgente: convencer Gedimar a recuar.

Seguindo o mesmo padrão dos escândalos do mensalão e da quebra do sigilo do caseiro, a missão principal de Thomaz Bastos foi a de blindar o presidente da República colocando-o a salvo das ondas de choque das investigações. Tão logo Gedimar foi preso, o ministro telefonou para Geraldo José Araújo, superintendente da PF em São Paulo, para perguntar: “Isso respinga no presidente?”. Na semana passada, Thomaz Bastos mobilizou-se para defender o governo depois da notícia divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo dando conta de um depósito de 396.000 reais que teria sido feito pelo investidor Naji Nahas na conta bancária de Freud. Partiu do ministro Bastos a orientação final sobre a forma pela qual Freud e Nahas deveriam negar a história. Eles a cumpriram à risca. Não se tem a confirmação do depósito. Essas operações só são verificáveis com a quebra do sigilo dos envolvidos. Isso é uma violência. Ela foi praticada ilegalmente por um ministro (Antonio Palocci) contra um simples caseiro (Francenildo dos Santos Costa), e isso lhe custou o cargo e um processo criminal. Quebrar o sigilo bancário e telefônico de Freud Godoy é uma violência? Com base nos indícios levantados até agora, o Ministério Público Federal decidiu, na semana passada, fazer esse pedido à Justiça.
(…)
Segundo um relato escrito por três delegados da Polícia Federal e encaminhado a VEJA, Espinoza e Freud, acompanhados de dois homens não identificados, fizeram uma visita a Gedimar na noite de 18 de setembro, quando ele ainda estava preso na carceragem da PF em São Paulo. A visita ocorreu fora do horário regular e sem um memorando interno a autorizando. Um encontro com um preso nessas condições é ilegal. Ele pode ser encarado como obstrução das investigações ou coação de testemunha. De acordo com o relato dos policiais, o encontro foi facilitado por Severino Alexandre, diretor executivo da PF paulista. O encontro ocorreu logo depois da acareação regular entre Freud e Gedimar, um encontro de cinco minutos que, segundo o relato oficial, transcorreu em silêncio da parte de Gedimar. O mais interessante, no relato dos policiais, viria a seguir. Severino teria acomodado os petistas em seu gabinete e determinado a Jorge Luiz Herculano, chefe do núcleo de custódia da PF, que retirasse Gedimar de sua cela. Herculano resistiu, pretextando corretamente que o preso estava sob sua guarda e que não havia um “memorando de retirada”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Que pitoresco! Quantas divisões militares tem Marco Maia para fechar o Supremo?

Que pitoresco! O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), está pensando – tá, pessoal? – se vai ou não cumprir a decisão do Supremo Tribunal Federal. Ahhh… E se ele decidir não cumprir, acontece o quê? Deixem-me ver se entendi. O petista José Dirceu é condenado, por oito votos a dois, por corrupção ativa e formação de quadrilha e dá início a uma campanha de satanização do tribunal. Os ministros, por maioria, decidem que cabe ao Supremo dar a palavra sobre a cassação dos mandatos, e Maia, igualmente petista, sabem como é…, está pensando se cumpre ou não…

Os petistas perderam a noção da lei.
Os petistas perderam a noção do decoro.
Os petistas, por último, estão perdendo a noção do ridículo.

Leiam texto na VEJA Online:
Por Jean-Philip Struck e Marcela Mattos, na VEJA.com:
Na tarde desta segunda, a votação entre os ministros do STF estava empatada em quatro a quatro. A questão só deve ser decidida na quarta-feira. Falta apenas o voto do ministro Celso de Mello, que já se mostrou favorável à perda dos mandatos. Em jogo estão os mandatos de João Paulo Cunha (PT-SP), Valdemar da Costa Neto (PR-SP)  e Pedro Henry (PP-MT). “Se for tomada essa decisão, vamos encaminhar esse debate à mesa diretora da Câmara e vamos ver qual medida deverá ser tomada. Espero e defendo que o parlamento brasileiro não se curve a uma decisão dessa natureza”, disse Marco Maia, em São Paulo. O presidente disse que, até o STF decidir a questão, qualquer comentário é “especulação”. Segundo o presidente, caso a decisão do STF não seja seguida, o processo de cassação seguirá normalmente pela Câmara. “Isso não é desobedecer ao STF, é obedecer à Constituição”, disse. “Um mandato de alguém que foi eleito pelo povo só deve ser cassado por alguém que foi eleito pelo povo.”

Ainda segundo Maia o “conflito” com o STF “não está sendo gerado pela Câmara dos Deputados”. “Há uma situação de produzir um desequilíbrio, de afrontar o que prevê a Constituição. Não é legal, não é algo que fortalece a democracia. Espero que essa moda não pegue”, disse Maia. “O ideal é que um poder não se arvorasse de invadir o que é prerrogativa de outro. Nessa lógica, o Legislativo ali adiante pode querer também entrar nas prerrogativas do STF.”

Repercussão
Entre os deputados, impera a opinião de que a cassação tem de ser decidida pela Câmara.  Caso contrário, acredita a vice-presidente da Casa -  e candidata à presidência -, Rose de Freitas (PMDB-ES), pode se instalar uma crise entre os poderes Judiciário e Legislativo. “Quem cassa é o Congresso Nacional.”  Rose questiona ainda uma declaração do ministro relator Joaquim Barbosa, que disse esperar que a Câmara não proteja os deputados condenados. “Nós nunca dissemos ‘espero que o tribunal faça isso ou aquilo’. Nós escrevemos as leis que eles têm de seguir. Isso pode acabar em uma crise”, disse.  O presidente nacional do PMDB, Valdir Raupp, afirma que o partido “respeitará as prerrogativas das Casas, tanto da Câmara quanto do Senado”.

Terei de lembrar a pergunta que Stálin (que os petistas conhecem bem) teria feito a um interlocutor quando lhe disseram que o papa não havia gostado de uma decisão sua: “Quantas divisões [militares] tem o papa? É isto: quantas divisões têm a Câmara para ocupar o Supremo e dar um golpe, extinguindo o Poder Judiciário?

Há coisas que a gente sente vergonha de ler, embora eles não tenham vergonha de falar. 

Por Reinaldo Azevedo

 

Conviva de praia de José Dirceu era braço político da quadrilha, sustenta inquérito da PF

Em seu depoimento no Congresso, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que não havia quadrilha nenhuma instalada no governo federal e usou como evidência o fato de que a Polícia Federal não iria indiciar Rosemary Noronha, a dita “amiga íntima de Lula”, por formação de quadrilha. Pois é… Na sexta-feira a PF Indiciou Rose por esse e mais três crimes: corrupção ativa, tráfico de influência e falsidade ideológica. Em seu relatório, a PF considera que ela era o braço político da quadrilha. Reportagem da revista VEJA deste fim de semana, de Adriano Ceolin e Laura Diniz, evidencia que a mulher é bem menos, como direi?, parva do que alguns tentam dar a entender, buscando caracterizá-la apenas como uma coitada, que se deixou enredar pelas tramas do coração.

E ela é, sim, pessoa da intimidade e da confiança de José Dirceu. O ex-ministro, todo mundo sabe, é o condenado pela Justiça mais buliçoso que se conhece. Nunca antes alguém sentenciado, em última instância, por corrupção ativa e formação de quadrilha vituperou tanto contra a Justiça e emitiu tantas opiniões. No feriado do dia 15 de novembro, uma quinta-feira, ele viajou para a casa de um empresário, em Camaçari, na Bahia. Fotos feitas por Edson Ruiz, do Estadão Conteúdo, foram publicadas pela imprensa. Uma delas foi esta aqui.

 

Nada de especial na imagem. Indica apenas tratar-se de um senhor de posses. A bermuda é da marca francesa Vilebrequin. No Brasil informa a VEJA, custa R$ 600. Certamente sem saber o que tinha à sua frente, Ruiz resolveu deslocar a lente um pouco para a sua esquerda e fez esta outro foto:

Esta senhora à esquerda, de óculos e chapéu de praia, é Rosemary, a amigona do Zé, em companhia da namorada do poderoso chefão petista, Evanise Santos, com óculos Prada. Vale para o Zé o que vale para todos nós: no mais das vezes, chamamos para compartilhar um feriado na praia pessoas com as quais temos intimidade, proximidade, amizade mesmo. Dirceu, vocês sabem e ele mesmo já disse, está a cada dia mais convencido da sua inocência; ele só tem a má sorte de os escândalos estourarem na sua vizinhança e envolverem pessoas de seu círculo de relações. Não que Rose não pudesse alcançar patamar ainda mais alto no petismo. Ocorre que o Zé certamente tem um senso se organização e disciplina que deve faltar a Lula. O Zé é o sistema operacional da máquina.

Rose deixou Camaçari em companhia do seu amigo da bermuda Vilebrequin no dia 18; na sexta, dia 23, a Polícia empreendeu a operação de busca e apreensão no gabinete da Presidência da República em São Paulo. Íntima, ela ainda tentou o socorro do companheiro com quem havia dividido o sol baiano. Foi inútil. E começamos a conhecer os detalhes do mais recente escândalo da República. Leiam um trecho da reportagem de VEJA:

“VEJA teve acesso a novos detalhes do inquérito da Operação Porto Seguro. Os papéis detalham o funcionamento do esquema de  corrupção e mostram o espraiamento da quadrilha por órgãos do governo federal, até chegar a gabinetes do primeiro escalão. Na  última sexta-feira, a Polícia Federal entregou à Justiça uma nova leva de documentos. São mais quarenta volumes, com uma descrição detalhada do conteúdo de arquivos de computadores, contratos, recibos e dinheiro apreendidos no escritório da Presidência em São  Paulo e nas casas dos suspeitos. É essa munição que mantém Lula e o PT calados. Além da intimidade com o ex-presidente, Rose usava como trunfo para suas ações a proximidade com o mensaleiro José Dirceu. Em conversas interceptadas pela PF com autorização  judicial, Rose revela a intimidade que tinha com o chefe da quadrilha. “Eu fui almoçar com o Zé na casa dele (…). Ele acha que tem  grandes chances de ser condenado a quatro anos e cumprir um terço da pena”, diz Rose. Paulo Vieira, seu interlocutor, procura tranquilizar a amiga, que se dizia “superpreocupada” com a possibilidade de Dirceu ir para a cadeia. “Preso ele não vai, não, Rose (…).  Sem chance”, afirma o chefe da quadrilha dos pareceres sobre o chefe da quadrilha do mensalão.”

Pois é…

Foi, no entanto, ao estabelecer uma parceria com Paulo Vieira, que a PF considera o chefe da quadrilha, que Rose foi ganhando vulto como braço político do grupo. Leiam outro trecho da reportagem, que traz à luz ninguém menos do que Rui Falcão, presidente do PT, outro que esforça para dizer que não tem nada com isso:
Em 2004, Paulo, filiado ao partido, ganhou uma senhora boquinha na administração: a nomeação para presidente do Conselho Fiscal  da Companhia Docas do Estado de São Paulo, a Codesp. Ele foi indicado pelo PT de São Paulo. Efetivado no cargo, Paulo Vieira atendeu a um pedido feito por telefone pelo deputado estadual Rui Falcão, atual presidente do partido, para que recebesse o empresário e ex- senador Gilberto Miranda (PMDB -AM ). Não era propriamente um pedido, mas uma “missão partidária”, conforme expressão usada  por Falcão. Ele nega: “Nunca pedi nada disso. Nunca tive qualquer relação com os citados”. O resto da história está contada no inquérito. Para a Polícia Federal, Vieira ajudou Miranda a conseguir pareceres favoráveis à ocupação de duas ilhas no litoral paulista.  As investigações dão a dimensão exata de como se misturam interesses públicos e privados no Brasil.

Retomo
Eis aí. Cumpre perguntar, a esta altura: será que o PT sabe como fazer as coisas de outro modo, à luz da lei, da Constituição e das regras republicanas? Uma coisa é certa: há uma cultura anti-institucional no partido. Em suas conversas singelas com Paulo Vieira, Rose se mostra inconformada com o STF. Vejam que mimo. Volto para encerrar.

 

Rose queria um protesto por transparência na Justiça! Rose queria parar o Brasil! O Zé bem que tentou. Mas até os petistas já começam a fugir da rodinha quando ele chega…

Por Reinaldo Azevedo

 

Dilma, a que brigou com a Economist, em luta contra o racionalismo alemão – contra o idealismo também…

Pois é… A revista britânica The Economist escreveu um texto com algumas críticas à política econômica da presidente Dilma Rousseff, demonstrando que certas intervenções que ela vem fazendo na economia são contraproducentes. Destaca o baixo crescimento do PIB brasileiro, o menor dos Brics, e o esgotamento do modelo ancorado no crédito e no consumo. Informa ainda que as medidas implementadas por Guido Mantega não têm dado resultado. E faz uma indagação retórica, num abordagem de pura ironia à inglesa: se Dilma é mesmo tão pragmática, por que não demite Mantega? Não chegava a ser uma sugestão.

Dilma, como se sabe, ficou furiosa. Reagiu como se a revista estivesse, sei lá, indo além dos limites aceitáveis, o que é uma tolice. Abaixo, segue texto publicado na VEJA.com. A Dilma que não aceita crítica de um veículo jornalístico, ficamos sabendo, está empenhada em mudar a política econômica da Zona do Euro e decidiu fazer carga contra as decisões da primeira-ministra alemã, Angela Merkel…

Então fica combinado: quando uma revista estrangeira critica a política econômica do Brasil, trata-se de um atentado à nossa soberania. Quando Dilma decide contestar a política econômica alemã, estamos diante da manifestação da Razão Pura. O que Dilma quer ensinar a Merkel? Como não crescer, torrar uma fábula de dinheiro público, derrubar o valor em Bolsa de algumas empresas e ainda influenciar pessoas? Tendo a achar que isso vai contra tanto o idealismo como o racionalismo alemães…

Leiam o que vai VEJA.com.
*
A presidente Dilma Rousseff está em Paris nesta segunda-feira para cumprir uma agenda de quadro dias um tanto peculiar. Avessa a eventos políticos internacionais e visitas fora do Brasil, a presidente decidiu fazer sua segunda viagem à Europa em pouco mais de 15 dias para tentar convencer o presidente francês, François Hollande, a se posicionar de maneira mais contundente contra a política de austeridade fiscal defendida pela Alemanha.

A investida indireta de Dilma contra a política da chanceler alemã Angela Merkel ocorre dias depois de a presidente se irritar com a revista britânica The Economist por sua sugestão de mudanças na equipe econômica do país – a começar pela demissão do ministro da Fazenda, Guido Mantega. A proposta causou a fúria da presidente, que chegou a dizer que o governo jamais seria influenciado por uma revista estrangeira.

Em Paris, segundo reportagem do jornal Le Monde, Dilma tentará uma aproximação mais estreita com Hollande para estruturar políticas econômicas para a Europa que sejam, ao mesmo tempo, menos recessivas e mais direcionadas ao crescimento. Segundo o diário, Paris e Brasília têm bons argumentos para buscar um caminho diferente do que vem sendo aplicado no continente, com foco em ajustes de gastos e sem estímulo à expansão do Produto Interno Bruto (PIB) da união monetária. “Não é de hoje que François Hollande e Dilma Rousseff estão afinados quando se trata de questões econômicas. Além disso, ambos também compartilham um estilo diplomático mais suave do que seus antecessores, Nicolas Sarkozy e Luiz Inácio Lula da Silva”, escreve o jornal.

No Brasil, não deu certo – Contudo, o jornal também argumenta que a defesa de uma política menos austera e mais desenvolvimentista por parte da presidente Dilma ainda não rendeu frutos ao próprio país que comanda. Prova disso é a dificuldade que o Brasil enfrenta para voltar a crescer de maneira significativa – sobretudo depois do resultado pífio do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, que cresceu apenas 0,6%.

Dilma, contudo, não está frustrada apenas com o resultado do PIB, diz o Le Monde. O jornal francês relata que a presidente também tem se decepcionado com a atuação de Hollande no contexto da crise do euro. “Ela esperava que Hollande fosse o indutor de uma outra política econômica europeia. E ela estaria decepcionada pela falta de vigor francesa na cena europeia e por sua fraca capacidade de resistência frente a atuação de Angela Merkel”, mostra a reportagem.

Petismo em Paris
A presidente da República também participará de uma agenda essencialmente petista na capital francesa. É convidada de honra de um fórum de discussão sobre questões sociais promovido pelo Instituto Lula e pela Fundação Jean-Jaurés – um centro de discussões políticas ligado ao partido Socialista da França.

Por Reinaldo Azevedo

 

E agora, Marco Maia? Os companheiros vão cercar o Supremo?

Marco Maia (PT-RS), na reta final de seu mandato como presidente da Casa, decidiu ver crise institucional onde não existe e, repetindo procedimento padrão dos petistas, achou que poderia intimidar o Supremo. Anteviu que, se o tribunal decidisse contra a sua pretensão – segundo ele, mandatos só podem ser cassados pelas respectivas casas do Congresso –, haveria um choque de Poderes ou algo assim.

Pois é… Então ele terá agora um choque. E como vai administrar? Pedirá a seus partidários que cerquem o Supremo? Maia se esqueceu de que os Poderes, numa República, são independentes e harmônicos, mas quem tem a última palavra em matéria constitucional é o Supremo, não a Câmara dos deputados.

E era disto que se cuidava e se cuida: de interpretar a Constituição. Sim, a Carta carrega ambiguidades no que diz respeito à cassação de mandatos, mas também apontava, como destaquei aqui, a solução.

E agora? De que modo Maia pretende descumprir uma decisão do Supremo?

Por Reinaldo Azevedo

 

Barbosa suspende a sessão no 4 a 4. Na quarta, Celso de Mello dará o 5º voto em favor da cassação dos mandatos pelo Supremo

Quando o ministro Marco Aurélio acerta, marca golaços. Dá um belíssimo voto, meticulosamente fundamentado, demonstrando por que os respectivos mandatos dos três deputados mensaleiros estão cassados e não dependem de deliberação da Câmara. Depois comento detalhes.

Não entendi por quê, Joaquim Barbosa, presidente do STF, encerrou a sessão, deixando para quarta-feira o voto de Celso de Mello, o decano, que já evidenciou que acompanhará o relator – ou seja, o próprio Joaquim.

Assim, já se tem a maioria de 5 a 4: os mandatos estão cassados pelo Supremo. Na quarta, Celso de Mello dará o quinto voto.

Só para lembrar: acham que a decisão cabe à Câmara os ministros Ricardo Lewandowski, Rosa Weber, Dias Toffoli e Carmen Lúcia. Afirmam que é tarefa do Supremo decidir os ministros Joaquim Barbosa, Luiz Fux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello. Na quarta-feira, Celso de Mello se junta formalmente a esse segundo grupo.

Por Reinaldo Azevedo

 

Dilma e Lula, “o guerreiro”, almoçam juntos em hotel em Paris

Por Rodrigo Vizeu, na Folha Online:
A presidente Dilma Rousseff almoçou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeira dia de visita oficial à França. O encontro foi no hotel em que a presidente está hospedada, em Paris. Lula entrou e saiu do local por uma entrada lateral, sem falar com a imprensa. Nem a assessoria da Presidência da República nem a de Lula deram detalhes do que os dois conversaram. Presente na comitiva, o ministro Aloizio Mercadante (Educação), disse que tem falado sempre com o ex-presidente.

Lula tem evitado falar com a imprensa desde que a Operação Porto Seguro da Polícia Federal teve como alvo Rosemary Noronha, ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo, que é ligada ao ex-presidente. Em evento em Berlim, na sexta-feira, Lula disse apenas que não ficou surpreso com a operação. Questionado sobre o estado de espírito do ex-presidente, Mercadante afirmou apenas que Lula “é um guerreiro”.

Dilma
Dilma passou o dia no hotel, sem compromissos públicos. Na terça e quarta-feira, ela se encontrará com o presidente da França, François Hollande, além de parlamentares e empresários franceses. A viagem, que tem status de visita de Estado, inclui ainda desfile da presidente pela avenida des Champs-Élysées. Com Lula e Hollande, Dilma participará de seminário sobre crescimento econômico organizado pelo Instituto Lula e pela Fondation Jean-Jaurès, ligada ao Partido Socialista francês.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Quer dizer que o Supremo nunca interpretou antes a Constituição? Ora…

Mais tarde, vou lembrar aqui um tema sobre o qual escrevi muito no passado. Quando o Supremo aceitou como constitucional a Lei da Ficha Limpa, houve ou não interpretação do texto constitucional? Quando aceitou o aborto de anencéfalos, houve ou não interpretação do texto constitucional? Quando aceitou as cotas raciais, houve ou não interpretação do texto constitucional? Quando aceitou a união civil de pessoas do mesmo sexo, houve ou não interpretação do texto constitucional?

E não, meus caros, não eram situações idênticas, não! Nos casos acima, os senhores ministros tiveram de ignorar o texto escrito em favor do que seria o seu espírito…  

Desta feita, os ministros não precisam fazer mágica nenhuma! Ao contrário: basta seguir o que está escrito. Fica para mais tarde.

Por Reinaldo Azevedo

 

O uso de um simples fax cassou um mandato. E o peculato de alguns milhões?

Gilmar Mendes está votando. O ministro lembra que o STF cassou o registro de candidatura de um prefeito – que tinha sido eleito!!! – porque este usara um fax da Prefeitura para comunicar a alguém a realização de um showmício. Cassado o registro, o prefeito perdeu o mandato.

Sim, cumpre lembrar – e chamo a atenção da ministra Carmen Lúcia, presidente do TSE, para tanto – que alguém pode perder um mandato eletivo por comprar um lanchinho para o eleitor se ficar caracterizado que o mimo está ligado ao voto. Um lanche ou a emissão de um fax podem cassar um mandato, mas o crime de corrupção passiva e peculato, envolvendo milhões de reais, não!? Que coisa!

Mais: Mendes destaca uma questão para a qual tenho chamado aqui a atenção dos leitores. Segundo a Lei da Ficha Limpa, uma condenação por um colegiado, com direito ainda a recurso, torna o indivíduo inelegível. Não será assim, então, com sentença já transitada em julgado? Pior: um simples conselho profissional pode cassar direitos políticos, segundo essa mesma lei. Mas um deputado condenado pelo Supremo preservaria o seu mandato, dependendo de decisão da Câmara? É ridículo!

É uma insanidade!

Mendes dá o terceiro voto pela cassação automática. Em seguida, votará Marco Aurélio Mello. É ele que vai decidir a favor de qual tese ficará o cinco a quatro.

Por Reinaldo Azevedo

 

MST, finalmente, invade uma área realmente improdutiva e ocupada pelo crime: o escritório da Presidência em SP

Ah, achei que o MST finalmente tivesse promovido uma ação verdadeiramente virtuosa, talvez uma das poucas realmente justas de sua história. Li na Folha o seguinte título: “Grupo ligado ao MST tenta invadir escritório da Presidência em SP”. Pensei cá comigo: “Vejam os sem-terra invadindo uma área realmente improdutiva”.

Mas não era bem assim. Reproduzo trecho da reportagem:
Um grupo de agricultores ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e de estudantes tentou invadir na manhã desta segunda-feira (10) o escritório da Presidência em São Paulo. (…) Cerca de 120 pessoas chegaram ao local por volta das 10h e subiram a até o segundo andar do prédio. Não houve confusão, e uma comissão formada por 18 pessoas foi recebida pelo secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, Rogério Sottile. Nos últimos dois anos, foi a terceira vez que os manifestantes tentaram invadir o escritório.
(…)
Os agricultores fazem parte do assentamento Milton Santos, que fica em Americana (SP). O assentamento onde vivem 68 famílias é alvo de uma disputa judicial. De acordo com o advogado do grupo, Vandré Paladini Ferreira, uma decisão da Justiça Federal determinou a reintegração de posse do terreno até quinta-feira (13). Eles querem que o governo faça uma desapropriação por interesse social para que possam continuar no assentamento.
(…)
O governo federal se comprometeu a conversar com o governo estadual para tentar adiar a reintegração de posse. Os manifestantes afirmam que irão resistir à reintegração. “Se eles insistirem, vai ser um conflito aberto. Vai acontecer um novo Pinheirinho”, disse o assentado Rodrigo Lima.

Voltei
Não, não é o que eu imaginava. Segundo entendi, o MST recorreu ao Executivo para que este desaproprie uma área e torne sem efeito uma decisão da Justiça. Segundo entendi, a pessoa que falou em nome do governo federal prometeu fazer coisa diferente: interceder junto ao governo do Estado para que este não cumpra uma decisão judicial, o que não é mera questão de gosto.

Achei que o MST havia decidido ocupar uma área improdutiva, que estava dedicada à delinquência criminal mesmo. Mas não! Se as coisas aconteceram como se relata acima, tudo se resolveu com a promessa de uma delinquência política.

Por Reinaldo Azevedo

 

Fascistoides em marcha

A fascistada a soldo, como sempre, está na rede para xingar, difamar, tentar desmoralizar os seus desafetos. Contam com farto financiamento para isso – de bancos públicos e de outras estatais. Como vocês estão constatando, não reconhecem limite. Tentam atrair as disputas intelectuais e ideológicas para a lama, onde costumam se dar bem. Não é a primeira vez que me colocam no seu radar nem será a última. Meu blog tinha alguns meses de vida, nem hospedado estava ainda no site da VEJA.com, e eles já previam que não duraria mais de alguns meses porque ninguém estaria interessado no que escrevo. 

Pois é… O resultado está aí. Isso não me assusta nem me intimida. Há certas coisas que não cabem no debate político; devem ser remetidas para o terreno apropriado, a Justiça, que há de decidir se estamos no regime do vale-tudo. Ainda que esta venha a dizer que sim, o meu parâmetro de debate continuará a ser outro.

Chamarei a idiotia política de “idiotia política” sempre que assim considerar. E o mesmo farei com a genialidade quando assim considerar também. E não me furtarei, como fiz, a expor os meus motivos. Escrevo para leitores que querem argumentos. Sou atacado pelos que recusam, como princípio, a divergência. Que tentem provar que meus argumentos ou eu mesmo sejamos “idiotas”, isso é aceitável no confronto de ideias. Mas não é isso o que faz a máquina de desqualificação: com o dinheiro que pertence a todos os brasileiros, dedica-se pura e simplesmente à injúria, à difamação e, frequentemente, à calúnia.

Continuarei a fazer o que tenho feito ao longo de seis anos de blog: seguir o meu passo. Tenho um compromisso com os fatos e com alguns valores e crenças. E não abrirei mão deles. Não por “heroísmo” ou qualquer tolice do gênero, mas porque entendo que só vale a pena fazer esse trabalho se for assim.

Tomem como exemplo o debate que se trava hoje no Supremo. Basta cotejar o que se andou escrevendo aqui com o embate de ideias estabelecido entre os ministros. Há uma diferença entre jornalismo e propaganda. E digo mais: há uma diferença entre a propaganda honesta, que tenta convencer os consumidores das qualidades reais de um produto, e a pilantragem. Os pilantras estão de mãos dadas com forças políticas que se apoderaram do estado e tentam silenciar, com ações criminosas, os que não rezam segundo a sua cartilha.

Por Reinaldo Azevedo

 

A caminho da prisão, Dirceu não consegue mobilizar nem os petistas

Por Jean-Philip Struck, na VEJA.com:
Condenado a mais de dez anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha e corrupção ativa, o ex-ministro José Dirceu já conhece seu destino – e não se conforma. Antes de começar a cumprir sua pena, que deve ser iniciada em regime fechado, o petista tenta há semanas organizar eventos com militantes do partido em sua defesa. Mas o que Dirceu não esperava era que seu prestígio estivesse tão baixo dentro da legenda onde construiu sua trajetória política e onde alcançou posto de líder influente. Os três primeiros atos organizados até agora foram esvaziados e não produziram nenhum barulho.

O golpe de misericórdia veio na reunião do Diretório Nacional do PT na última sexta-feira, em Brasília. Representando Dirceu, Serge Goulart, da tendência radical O Trabalho, apresentou uma moção sugerindo que o partido fosse às ruas para promover atos contra o STF e que não reconhecesse o julgamento do mensalão, segundo informou o jornal O Globo. Porém, a proposta nem chegou a ser votada. A direção do PT não ousou dar início a um confronto com o órgão que encabeça um dos poderes da República – e também não quis submeter os mensaleiros a mais uma derrota pública. Após o encontro, o partido divulgou uma nota, mas nenhuma linha fazia referência ao mensalão.

Os apoiadores de Dirceu tentaram reunir militantes em atos em São Paulo, Osasco (SP) e Curitiba. Na próxima semana, deverão ser feitas novas tentativas em Guarulhos (SP) e Porto Alegre (a menos que a decisão do diretório nacional enterre de vez os planos de Dirceu).

Em Osasco, o anfitrião do encontro realizado em uma escola foi outro condenado no mensalão, o deputado João Paulo Cunha. Ao grupo, também juntou-se o ex-presidente do PT José Genoino. Na plateia, entretanto, os políticos mais ilustres eram vereadores e prefeitos de pequenos municípios paulistas, como Bofete e Jaboticabal, além de representantes de partidos nanicos como o PSDC e PTN. O presidente do PT, Rui Falcão, e os deputados Jilmar Tatto (PT-SP), líder do PT na Câmara, e Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo, que haviam sido inicialmente anunciados como participantes do evento, não foram. Ao explicar as ausências, os organizadores culparam o “trânsito de São Paulo”.

O ex-chefe do PT e ex-homem forte do governo Lula, acostumado a agendas requisitadas e à tribuna da Câmara dos Deputados, teve dificuldade para reunir 150 pessoas em Curitiba, a maioria estudantes no último dia 3. O organizador foi o deputado federal Zeca Dirceu (PT), seu filho.  No Paraná, o partido conta com quadros nacionais, como o casal de ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e o deputado federal Dr. Rosinha. Mas apenas o secretário nacional de comunicação do PT, o paranaense André Vargas, compareceu.

Em São Paulo, um novo encontro reuniu Dirceu e Genoino na sede do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, no dia 24. A única cara conhecida na plateia era o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), e o encontro foi preenchido por militantes do Fórum do Diálogo Petista, criado por filiados de correntes consideradas radicais do PT. No discurso, Dirceu repetiu a ladainha de que sua condenação foi um golpe da elite e da imprensa, falou em “martírio” e chegou a afirmar que só não foi “fuzilado porque num Estado democrático de Direito não há pena de morte”.

Suplicy afirma que participou do encontro esvaziado para ouvir Dirceu. “Eu conheço os três (Dirceu, Genoino e João Paulo Cunha) há 32 anos. Fui lá para ouvir, refletir. Fui para isso. Acho que é uma questão dolorosa. Sobre ausências eu prefiro só responder por mim. Cada um é cada um”, disse Suplicy.

São essas correntes petistas que têm pressionado o partido para que a direção nacional seja mais enérgica ao defender os réus. Dirigente da tendência O Trabalho, Markus Sokol disse em novembro que existe “insatisfação na base do partido” com a forma com que o partido tem lidado com o resultado do julgamento –  tímida, na sua opinião. “Se ficar sem resposta, outras organizações que incomodam a elite dominante não poderão se sentir garantidas”, disse o dirigente.

“Falta solidariedade no nosso partido. É na hora ruim que se conhece o companheiro. Eles [Dirceu, Genoino e Cunha] merecem mais do nosso carinho”, afirmou em Osasco o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), um dos petista que saiu em defesa do ex-ministro publicamente. A desculpa de petistas para não comparecer tem sido de que os atos não são eventos oficiais do partido e não contam com a chancela dos diretórios locais.

O PT  fará de tudo para minimizar os danos do julgamento do mensalão. Tentará reescrever a história, afirmando que não se valeu de métodos criminosos para assegurar o poder. Mas, no momento ao menos, não existe apoio irrestrito aos condenados pelo STF. Se isso representará a derrocada definitiva de José Dirceu, uma das figuras mais poderosas do PT – e também do país, no início da década passada – é uma história a se acompanhar de perto.

Por Reinaldo Azevedo

 

Chávez anuncia que câncer não foi curado e, pela primeira vez, trata da possibilidade de vice assumir o poder

A saúde do ditador venezuelano Hugo Chávez pode afastá-lo definitivamente do comando do país. E agora é ele mesmo quem admite essa hipótese. Não se pode dizer, desta feita, que tudo não passa de boataria alimentada por seus opositores. Atenção! Este blog faz críticas POLÍTICAS, sim, digam elas respeito a vivos ou a mortos. Mas não celebra o infortúnio pessoal de ninguém. Por isso, nos comentários, peço que não se confundam os desejos de boa sorte ao povo venezuelano com qualquer sentimento que remeta à ideia de vingança, punição divina ou sei lá o quê.

Não é uma posição recente. Basta ver o que se publicou aqui quando Dilma Rousseff e Lula anunciaram suas respectivas doenças. Nem Deus nem o destino punem ninguém por nada. Isso é bobagem. Não é porque este ou aquele são nossos adversários que a doença lhes é bem-vinda, merecida ou uma justa recompensa por aquilo que neles reprovamos. Até porque isso faz supor que possamos, nós também, padecer as mesmas dificuldades só porque nos opomos a eles. Acho que fui claro. A possibilidade do fim da ditadura na Venezuela deve ser saudada, não a doença do ditador. Deixemos esses baixos sentimentos para aqueles que se especializaram na baixaria. Não é o nosso caso. Segue o texto da VEJA.com. Os comentários que fugirem desse fundamento não serão publicados, A EXEMPLO DO QUE JÁ SE FEZ NO PASSADO.

Segue texto publicado na VEJA.com.
*
O ditador venezuelano, Hugo Chávez, ainda enfrenta o câncer. Sem aviso prévio, Chávez apareceu no sábado à noite em cadeia de rádio e televisão, vestido de azul e acompanhado por vários de seus colaboradores mais próximos, para informar que viaja neste domingo a Cuba para se submeter à quarta cirurgia em 18 meses. “Decidimos com a equipe médica antecipar exames, antecipar uma nova revisão. Infelizmente, nessa revisão foi detectada a presença, na mesma área, de algumas células malignas novamente”, disse o ditador. “É absolutamente necessário, é absolutamente imprescindível submeter-me a uma nova intervenção cirúrgica e isso deve ocorrer nos próximos dias.”

O presidente assinou, perante as câmeras, a solicitação à Assembleia Nacional da permissão para se ausentar do país durante mais de cinco dias e imediatamente indicou que o vice-presidente, Nicolás Maduro, comandará o país, apontando-o como herdeiro e sucessor no caso de algo lhe acontecer. “Em todos esses processos há risco, toda operação desse tipo e contra este mal implica um risco, isso é inegável”, assinalou o caudilho, olhando para seus ministros. “Devo dizer uma coisa que, embora soe difícil, eu quero e devo dizê-la: se, como diz a Constituição, se apresentar alguma circunstância que me desabilite de seguir à frente da Presidência, Maduro deve concluir o período atual.”

O atual período termina no dia 10 de janeiro, com a chegada do novo mandato para o qual o próprio Chávez foi eleito em 7 de outubro. O artigo 233 da Constituição venezuelana indica: em caso de “falta absoluta do presidente eleito ou presidente eleita antes de tomar posse, se procederá a uma nova eleição universal, direta e secreta dentro dos 30 dias”. “Nicolás Maduro, nessa situação, deve concluir, como manda a Constituição, o período. Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável e absoluta, é que nesse cenário que obrigaria a convocar eleições presidenciais vocês elejam Nicolás Maduro como presidente”, acrescentou. É a primeira vez que Chávez contempla um final fatal desde que, em junho do ano passado, foi-lhe diagnosticou em Cuba um câncer do qual só se sabe que está na zona pélvica, mas não sua localização exata nem seu grau.

Assim são as circunstâncias da vida. Eu, no entanto, aferrado a Cristo, aferrado a meu senhor, aferrado à esperança e à fé, espero, assim o peço a Deus, dar-lhes boas notícias nos próximos dias para que possamos juntos continuar construindo o que agora temos”, acrescentou. “Com o favor de Deus como nas ocasiões anteriores sairemos vitoriosos”, disse Chávez, antes de partir para o que denominou uma “nova batalha”.

As dificuldades de Maduro
Apontado pelo ditador da Venezuela, Hugo Chávez, como seu possível sucessor, o ministro das Relações Exteriores e vice-presidente venezuelano Nicolás Maduros Moros, 50 anos, é considerado um moderado. Mas entenda-se: moderado para um chavista. Como chanceler, ele adotou ao pé da letra o discurso anti-imperialista do caudilho e agiu para expandir o raio de ação do bolivarianismo. Em julho, por exemplo, Maduro foi flagrado em conversa com militares paraguaios em meio à crise que resultou na perda de mandato do presidente Fernando Lugo. O encontro serviu para incitar os oficiais a resistir ao impeachment que estava em curso – um processo realizado de pleno acordo com a Constituição paraguaia.

Oposição ao golpe

x-motorista de ônibus em Caracas e líder sindical com formação em Cuba, Maduro já contrariou a vontade de seu atual padrinho. No início dos anos 1990, o atual vice venezuelano se opôs à tentativa de golpe liderada por Chávez contra o então presidente Carlos Andrés Pérez. Mais tarde, após unir-se ao Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200), criado por Chávez, Maduro contrariou novamente as pretensões do ditador: fez parte do grupo que defendia a abstenção da organização nas eleições presidenciais de 1998. Foi voto vencido. Mas, considerado um “homem de partido”, Maduro aceitou a derrota e passou a trabalhar pela eleição de Chávez. E, de acordo com o jornal venezuelano El Universal, ganhou sua total confiança – e a presidência do então partido chavista, o Movimento da V Repúlica (MVR), hoje incorporado ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Ascensão foi rápida
A partir de então, sua ascensão foi rápida: tornou-se chefe do MVR no Congresso, presidente da Comissão de Cidadania da Assembleia Nacional Constituinte e, em 2005, foi nomeado presidente da Assembleia Nacional. No ano seguinte, foi nomeado chanceler, com a missão de tornar o serviço exterior mais comprometido com o chavismo. Em outubro passado, logo após a terceira reeleição de Chávez, o caudilho apontou Maduro como vice-presidente, sem tirá-lo do Ministério das Relações Exteriores.

Na Venezuela, é o chefe de estado quem aponta o vice. O artigo 233 da Constituição indica que, em caso de falta absoluta do presidente eleito antes de tomar posse ou nos quatro primeiros anos de seu mandato, deve ser realizada uma nova eleição, direta e secreta, dentro de 30 dias. “Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável e absoluta, é que, nesse cenário que obrigaria a convocar eleições presidenciais, vocês elejam Nicolás Maduro como presidente”, disse Chávez neste sábado, ao anunciar na TV o retorno de seu câncer.

Chavismo em crise
A vontade do ditador, porém, não parece ser algo tão simples de concretizar. A vitória do caudilho foi apertada no último pleito. E o fato de Chávez ter sempre trabalhado mais para se perpetuar no poder do que para construir um sucessor pode cobrar seu preço. “Todos os potenciais sucessores de Chávez são pessoas que costumam polarizar, que possuem uma personalidade de confronto”, disse Michael Shifter, presidente de uma organização de estudos interamericanos com sede em Washington, em entrevista à rede CNN no início deste ano. “Eles são leais a Chávez, mas não têm a mesma capacidade de se conectar com a maioria dos venezuelanos”. As pesquisas indicaram ainda que, embora Chávez tenha forte apoio de seus partidários, outros nomes não gozam do mesmo prestígio. Uma pesquisa feita em fevereiro pela empresa Datanálisis mostrou Maduro com o apoio de apenas 9,8% dos militantes do PSUV, indicou neste domingo a rede CNN.

Por Reinaldo Azevedo

 

Brasil pode ser destino do dinheiro sujo de Assad e de seu bando; em 2007, PT assinou um acordo de cooperação com partido do ainda ditador sírio

O Estadão publica hoje uma reportagem de Lourival Sant’Anna que merece ser lida com cuidado. Vocês vão entender por quê. Reproduzo um trecho. Prestem atenção!

Assessora de Assad esteve secretamente no Brasil
Bussaina Shaaban, principal assessora pessoal do presidente sírio, Bashar Assad, esteve secretamente em São Paulo, no Rio e em Buenos Aires, no fim de novembro. Não cumpriu nenhuma agenda oficial, nem com o governo brasileiro nem com os diplomatas sírios nem com as entidades que representam a comunidade síria no Brasil. Bussaina conversou com grandes empresários sírios no Brasil – alguns com atividades legais, outros, mais obscuras – sobre a possibilidade de transferir pessoas e grandes quantidades de dinheiro da Síria para cá. A missão secreta de Bussaina coincide com a notícia, publicada pelo jornal israelense Haaretz, de que o vice-chanceler sírio, Faiçal Mekdad, esteve na semana retrasada em Cuba, Venezuela e Equador, averiguando a possibilidade de Assad exilar-se em um desses países.

Em comum com o Brasil e a Argentina, os governos das três nações ostentam simpatia pelo regime de Assad, embora o Itamaraty tenha, nos últimos meses, mantido uma posição mais reservada sobre o tema. A própria Rússia, parceira do Brasil nos Brics (junto com Índia, China e África do Sul), e aliada da Síria, onde mantém sua última base naval no Oriente Médio, está distanciando-se de Assad, diante das evidências de que seus dias estão contados.

Duas fontes, uma de oposição e outra favorável ao regime, confirmaram ao Estado a vinda secreta de Bussaina. De acordo com a fonte que apoia Assad, a assessora do presidente veio fazer tratamento médico em São Paulo. O que não explicaria por que ela esteve também no Rio e em Buenos Aires. (…) Os movimentos de Assad e de seu círculo íntimo na direção de uma fuga da Síria coincidem com avanços do Exército Sírio Livre (ESL) sem precedentes em 21 meses de rebelião na Síria, que resultam numa asfixia econômica do governo e num cerco militar das forças leais. De acordo com fontes sírias ouvidas pelo Estado, o ESL tomou entre 30 e 35 bases do Exército perto de Damasco, num raio de 30 a 5 km do centro da capital, 3 bases aéreas e 12 instalações antiaéreas. Na avaliação dessas fontes, as forças terrestres leais ao regime estão muito reduzidas, a ponto de “200 combatentes” serem capazes de ocupar, pelo menos por um tempo, uma instalação estratégica. Os insurgentes já chegaram a até 500 metros da pista do Aeroporto de Damasco, que está fechado, e forma forçados a recuar, mas mantêm um cerco a seu redor. Com o uso de granadas e foguetes portáteis, neutralizaram 37 aviões no solo.
(…)

Voltei
Como o mundo era muito complexo e depois foi ficando mais complicado, sabem os leitores que não sou exatamente um entusiasta do que se passa na Síria – o que se estende a toda a dita “Primavera Árabe”. Assad já era! O melhor – ai, ai… – que pode acontecer ao país é cair nas mãos da Irmandade Muçulmana, depois que esta vencer o embate interno, e vencerá, com os jihadistas. Dito isso, avancemos. Assad, qualquer que seja a motivação e os métodos dos que se opõem a ele, é um tirano asqueroso, um facínora. A sua queda é uma boa notícia em si, sem que isso implique uma visão otimista sobre o que virá depois. O risco de um confronto religioso também sangrento no país é grande. De volta ao cerne da notícia do dia.

Como se vê, o Brasil é um potencial destino do dinheiro sujo de Assad e de seu bando. Vejam as demais nações que estão no grupo: Cuba, Venezuela, Equador e… Argentina! São países governados hoje por delinquentes políticos. O que Banânia faz aí? Bem, o governo petista andou ajustando suas posições em relação ao governo sírio, mas Assad tem Dilma Rousseff – na verdade, o PT – como uma aliada. E essa proximidade não é de hoje.

Em 2007, o então presidente do PT, Ricardo Berzoini, assinou um acordo de cooperação com o partido Baath, de Assad, cujo nome completo é “Partido Baath Árabe Socialista”. O tal acordo com o partido do carniceiro incluía sete compromissos, dentre os quais se destacavam os seguintes: incentivar a troca de visitas,  coordenar os pontos de vista quando os partidos estiverem presentes em congressos e fóruns regionais e internacionais, promover a troca de publicações e de documentos partidários importantes e fortalecer a cooperação entre organizações populares e representantes da sociedade civil para intercâmbio de experiências.

É isso aí… Assad, como a gente nota, sempre foi considerado um “bom companheiro”. Imaginem se chegar, então, com as malas cheias de dinheiro…

Por Reinaldo Azevedo

 

Arquitetura da destruição. Ou: A banalidade do mal e da morte

Em 1998, a Bertrand Brasil publicou em português a tradução da monumental biografia do arquiteto alemão Albert Speer (1905-1981), escrita por Gitta Sereny, que traz o subtítulo “Sua Luta com a Verdade”. Monumental também no tamanho: 1005 páginas. Leva tempo, sim, mas não é leitura pedregosa. Resenhei o livro à época, mas não consigo achar o texto. Speer também era metade muito competente (“gênio” seria exagero) e metade idiota – só que a sua metade idiota era nazista, não comunista. Ele teve a má sorte de as circunstâncias se casarem perfeitamente com sua inclinação ideológica e com o seu talento. E ele se tornou um dos homens fortes do Terceiro Reich. Foi julgado em Nuremberg, escapou da morte, mas pegou 20 anos de cadeia, de onde saiu só em 1966. No período, escreveu dois livros “Por Dentro do Terceiro Reich” e “Spandau”, o nome da prisão em que ficou. Em 1981, numa viagem a Londres, teve um AVC e morreu.

No texto de ontem à tarde sobre a reportagem de capa de VEJA e a falsa polêmica criada pela rede petralha por causa dos posts que publiquei sobre Oscar Niemeyer, escrevi: “Num outro post, que fica para mais tarde, eu vou explicar o que livrou o nosso maior arquiteto de ser um autor de ruínas. Eu vou explicar por que a derrota da metade idiota preservou, para o bem da arquitetura, a metade gênio.”

Fazia justamente uma alusão a Speer, um homem de grande talento, sem dúvida, que caiu nas graças de Hitler e projetou algumas das obras do Terceiro Reich – quase nada sobrou –, tornando-se, depois, ministro do Armamento. O documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen (existe em todas as locadoras; é brilhante!), fala de Speer e acaba atribuindo a Hitler uma fixação que era, na verdade, do arquiteto: ele dizia que obras arquitetônicas também deveriam ser pensadas como futuras ruínas, mil anos adiante. Elas seriam evidências da grandeza alcançada pelo Terceiro Reich porque é assim que vemos o que restou das civilizações grega e romana…

Oscar Niemeyer era adepto de uma ideologia felizmente minoritária no Brasil. Se, por qualquer razão, o comunismo houvesse vencido, certamente seria o arquiteto do regime, que se exerceria, claro!, segundo os rigores que ele próprio tanto apreciava em Stálin – o homem que, segundo disse, fazia julgamentos “justos” antes de fuzilar seus desafetos.

A biografia de Speer é fascinante porque afasta a ideia um tanto infantil, pautada pelo cinema, que fazemos de lideranças nazistas: seres sempre irascíveis, ignorantes, violentos, arrogantes. No trato pessoal, fica evidente, as relações podiam ser suaves, até doces. Como é que o mal, no entanto, ganhou tal dimensão? Na página 260 do livro, Gitta Sereny escreve (prestem bastante atenção!):

“Entre 1933 e 1937, a maior parte do mundo admirou as ideias pioneiras de Hitler. Durante os seus primeiros quatro anos como chanceler, ele expandiu o sistema de saúde e de previdência social, bem como os benefícios aos idosos iniciados pioneiramente por Bismarck e depois adotados pela República de Weimar. Seu complexo sistema de obras públicas incluiu uma malha deAutobahnen, inovações como centros urbanos livres da presença de tráfego, com rigorosos controles de poluição, além da ampliação de parques e áreas verdes. (…) John Toland escreveu em seu ‘Afolf Hitler’: ‘Se ele tivesse morrido em 1937, certamente teria sido enterrado como uma das maiores figuras da história da Alemanha”.

Pouca gente se lembra ou sabe, mas Gertrude Stein – sim, ela mesma! – afirmou que Hitler deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Outro que o defendeu com paixão foi Bernard Shaw. “Hitler é um líder nato, uma personalidade dinâmica, com uma vontade de ferro e um espírito indômito, e tem a confiança dos velhos e a idolatria dos jovens”, escreveu David Lloyd George no Daily Express depois de assistir aos Jogos Olímpicos de 1936.

E Hitler, no entanto, nesses anos ainda iniciais do desastre, já havia dado mostras da barbárie a que poderia conduzir a Alemanha – e o mundo, dadas as circunstâncias – se pusesse em prática, como pôs, as suas ideias. Em 1926, os dois volumes de “Mein Kampf” já haviam sido publicados. Em 1935, entraram em vigor as Leis de Nuremberg, que cassaram a cidadania dos judeus alemães, banidos de qualquer função pública. Não obstante, era admirado por seus “espírito inovador”…

Como pôde Speer, um homem de talento, servir ao horror com tanta dedicação? Ele só deixou de obedecer à ordem final de Hitler, o “Decreto Nero”, que mandava que as forças alemãs literalmente incendiassem o país, destruíssem toda a infraestrutura, muito especialmente as pontes, para dificultar a ocupação pelos Aliados. Speer fez justamente o contrário: tomou providências para que não acontecesse – pelo menos na área sob sua influência.

Por quê?
Por que os homens de gênio podem servir ao terror? Niemeyer não foi o nosso Speer porque não tivemos o nosso Hitler, mas não houve facínora comunista a quem não tenha emprestado seu apoio. Afinal de contas, a sua ideologia, a exemplo da do arquiteto do Reich, lhe impunha que ignorasse o horror presente em nome de uma visão de futuro.

Na página 646 do livro, Gitta Sereny transcreve um trecho de “Por Dentro do Terceiro Reich”. Ali fica evidente que Speer sabia, sim, da “solução final”, embora preferisse não pensar no assunto. E cumpriria perguntar: “Como não saber”? Um fio de dignidade lhe coube. Escreveu: “(…) declarei à Corte Internacional de Nuremberg, durante o julgamento, que, como um importante membro do escalão de liderança do Reich, eu tinha de arcar também com toda a responsabilidade por tudo o que havia acontecido (…). E até hoje eu me sinto totalmente responsável, em termos pessoais, pelo que aconteceu em Auschwitz”. Speer foi o único da cúpula nazista que não procurou ou negar os eventos ou alegar a obediência devida.

Um parágrafo do livro, à página 987,  é perturbador: “Speer, por si mesmo, não matou ninguém nem sentiu nenhuma animosidade, ódio ou até mesmo aversão pelos milhões de europeus orientais, cristãos e judeus que foram sistematicamente aniquilados; ele não sentiu nada”. Depois, tudo indica, passou um bom tempo sendo corroído pela culpa.

Eis aí: temamos a capacidade que têm certos homens – ainda que geniais – de não sentir nada diante do horror. Speer, de fato, serviu a Hitler, e Niemeyer não serviu pessoalmente a Stálin. Mas integrou uma geração de intelectuais mundo afora que esconderam ou justificaram sistematicamente os crimes cometidos pelo comunismo. Mas os crimes de Stálin eram conhecidos desde sempre? Só para registro: o escritor francês André Gide, por exemplo, denunciou a tirania já em 1934, depois de uma viagem ao país – “Retour de l’URSS” – e foi tratado como escória pelos intelectuais de esquerda. Como era homossexual, sua crítica foi tomada apenas como chiliques de uma bicha…  Vocês sabem como os esquerdistas são incapazes de ser preconceituosos, não é mesmo?

O arquiteto brasileiro, como resta evidente por seus textos escritos até os momentos finais, não viveu a fase da remissão. Ao contrário: Stálin morto, o homicida em massa lhe restou como uma referência de “homem fantástico”. Não faz tempo, fiel à sua luta, Niemeyer recebeu um representante dos narcoterroristas das Farc para colaborar com a causa.

Speer, que não matou ninguém com as próprias mãos, pergunta-se até onde ele poderia ter ido, naquele ambiente, sob uma ordem de Hitler. Ele se pergunta, mas não responde.

Se um dia vocês lerem “Stálin – A Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore, prestem especial atenção ao capítulo 26, intitulado “A Tragédia e a Depravação da Família Iejov”(página 319 e seguintes), que mostra a que extremos podia chegar o poder absoluto do “homem fantástico”, que Niemeyer tanto admirava. Há passagens que remetem a “Salò ou os 120 dias de Sodoma”, o filme-limite, quase impossível de ver, de Pasolini.

Nada tenho a fazer com a estupidez dessa canalha que fica babando seu fel na rede – e que, de fato, não está nem aí para o que escrevi sobre Niemeyer. Trata-se apenas de um pretexto para me atacar por causa de mensalão, Rosegate e outros lambanças com dinheiro público praticadas pelo petismo.

Niemeyer teve a grande sorte de ver suas ideias políticas derrotadas no Brasil. Por aqui, foi a democracia que encomendou e ergueu as suas obras. Mas emprestou, sim, infelizmente, o seu talento para a tirania e para tiranos. E essa sua metade idiota não merece nem admiração nem perdão. Porque, sob ela, jazem muitos milhões de cadáveres. E eu tenho um compromisso com a vida, com a liberdade e com os valores da democracia, não com fascistas, de esquerda ou de direita.

PS – A baixaria nas redes sociais atinge níveis inéditos. Sites financiados por estatais abrem suas respectivas áreas de comentários para o xingamento puro e simples. Nada que seja incompatível com essa gente, mas espantoso ainda assim. Não entrem no jogo. Na lama, eles têm mais habilidade.

Texto publicado originalmente às 6h40

Por Reinaldo Azevedo

 

Metade gênio e metade idiota – Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o Bloco dos Sujos diz agora?

Até a madrugada deste sábado, o Bloco dos Sujos da Subimprensa, a que eventualmente podem aderir subatores e até sub-radialistas, fazia um escarcéu na rede atribuindo à VEJA o que EU havia escrito sobre Niemeyer: “metade gênio e metade idiota”. Só recorri a essa expressão porque ela vem pronta de Millôr Fernandes ao qualificar um de seus amigos do “Pasquim”. A metade de Niemeyer que justificava os crimes do stalinismo, das Farc e de outros bandidos não era propriamente “idiota”. O termo é muito sereno para qualificar a sua militância e tem apelo quase poético quando a gente lembra que ele considerava “um homem fantástico” o segundo maior assassino do planeta em todos os tempos. Voltemos: os sujos gritavam: “Olhem o que a VEJA disse; olhem o que VEJA disse…”.

Até então, a revista VEJA não havia dito nada nem escrito nada porque não havia chegado ainda aos leitores! Aquela afirmação e aquele ponto de vista eram de Reinaldo Azevedo, que também é “metade idiota”, segundo alguns; que é “inteiramente idiota”, segundo outros; havendo, claro!, um número considerável de pessoas que têm um juízo mais ameno deste que escreve. A VEJA.com, o site, fazia a cobertura jornalística correta do evento, registrando as reações no país, lembrando seu legado à arquitetura, o que se disse mundo afora a respeito etc.

Tão logo a revista VEJA começou a chegar aos assinantes e às bancas neste sábado, com a capa dedicada ao arquiteto; uma frase sua que ecoa a Teoria da Forma, de Platão (“A função da forma é a beleza”); um texto bastante eloquente de Gabriela Carelli sobre o que significou o seu trabalho para a arquitetura mundial; fotos realmente espetaculares de suas “esculturas” monumentais – um trabalho jornalístico de primeira que, em suma, exalta as virtudes do artista –, aí os mesmos vigaristas que atribuíram à revista VEJA o que EU havia escrito inverteram a chave: “Olhem lá, nem a VEJA apoia Reinaldo Azevedo”; “a VEJA elogia Niemeyer; e agora, Reinado Azevedo?”.

Com efeito, a VEJA fez o melhor trabalho jornalístico que se poderia fazer sobre o que EU, e nunca a revista, chamei a “metade gênio” de Niemeyer. E o fez sem se descuidar – tema ausente na maioria das coisas que li sobre o arquiteto – da crítica pertinente que se faz ao desconforto proporcionado por suas obras de arte; sem ignorar que há uma tensão permanente nas escolhas de Niemeyer entre a… função e a forma. É inegável que o conjunto do que publica a VEJA (10 páginas, incluindo a capa) resulta favorável a Niemeyer. Há um pecado que o texto de Gabriela Carelli tem o bom gosto adicional de não cometer: em nenhum momento, como cansei de ler nestes dias, a ideologia professada pelo arquiteto foi considerada uma outra expressão de sua generosidade intelectual. A revista optou por dar mais relevo, mais forma, mais volume, mais espaço e mais voo interpretativo para o que eu, e não a revista, chamei de “metade gênio” de Niemeyer.

E foi a primeira vez?
O site “Comunique-se”, que se ocupa de questões relativas à imprensa, publicou um texto a respeito do barulho que provocou meu primeiro post. Fui procurado nesta sexta pelo repórter Anderson Scardoelli. Ele queria saber como eu via as reações etc. e tal. Afirmei o óbvio: tratava-se de uma polêmica artificial, ideologicamente orientada, provocada por aqueles que não gostam mesmo é das coisas que escrevo sobre política, sobre o mensalão, sobre o Rosegate (“Rose is a rose ia a rose is a rose”, não é mesmo, Lula?). Até porque, lembrei ali uma outra vez, eu não havia, em momento nenhum, questionado a obra de Niemeyer. Critiquei, sim, o fato de ele ter colocado seu gênio a serviço de teorias homicidas.

Mas lembrei outra coisa na conversa com Scardoelli, que ele reproduziu assim (em azul):
A voz da Veja? Não só em relação à “metade idiota”, mas também em outras ocasiões, uma questão que incomoda Azevedo é ver sua opinião em determinados temas ser elevada, por parte dos críticos, a posicionamento oficial da publicação da Editora Abril. “Nesse caso, por exemplo, nem sei o que a Veja vai escrever sobre o Niemeyer. Se vão dar ou não ênfase ao lado comunista dele”, diz ao comentar casos em que sua análise se opõe à da revista. “A legalização do aborto de fetos anencéfalos: fui e sou contra, a Veja mostrou-se favorável”.

Que coisa, não? Até hoje de manhã, eu seria apenas o verbo armado da VEJA para dizer coisas horríveis sobre o bem, o belo e o justo. Como a revista traz uma grande reportagem que destaca as qualidades da obra de Niemeyer, aí, então, deixo de ser o mero pau-mandado para ser aquele “que ficou isolado”. Já há petralhas prevendo a minha demissão porque, dizem, a “alta direção da revista” considerou que o “Reinaldo foi longe demais”. Ora sou um estafeta que faz o que mandam; ora sou aquele que foi muito longe por conta própria.

O que essa gente odeia, mesmo!, é a liberdade e a pluralidade.

Vamos lá. Eu, de fato, na conversa com o “Comunique-se”, citei o caso da legalização do aborto de anencéfalos como uma das diferenças que tenho com a VEJA, que a considerou uma decisão correta. Também divergimos quando surgiu o debate sobre pesquisa com células-tronco embrionárias. Há outros temas na área de comportamento, costumes, religião etc. que nos distinguem. E daí? E NUNCA, NUNCA MESMO!, a direção da revista tentou fazer qualquer gestão para que eu mudasse de ideia. Da mesma sorte, jamais me senti desconfortável por ler na revista pontos de vista com os quais não concordo. Eu estou preparado para conviver com os que pensam de modo diferente. 

Se o meu trabalho consistisse em apenas reproduzir aquelas que são as escolhas da revista ou do site, por que a VEJA.com abrigaria o meu blog? A minha página pessoal está no site, agora sim, porque a revista, o site e eu  partilhamos de valores que são anteriores a essas escolhas: defesa da liberdade de expressão, defesa dos valores da democracia representativa, defesa das liberdades individuais, defesa do estado de direito, defesa da liberdade de mercado. Nesse particular, de alcance geral, eu e VEJA convergimos, sim, sem ressalvas. Pode haver alguma diferença no tom, o meu mais contundente, o que é sempre mais fácil quando se é um só.

Ódio à liberdade
Os que estimularam a campanha do ódio contra mim na Internet têm mesmo é ódio à liberdade. Com raras exceções, os que se apresentaram para liderar o linchamento são os mesmos que estão atacando o Supremo Tribunal Federal, que decidiu mandar José Dirceu dormir uns dias na cadeia – por coisas que ele fez, não por coisas que ele não fez. Os líderes dos linchadores são os mesmos que não se conformam com o fato de eu ter feito com Lula o que a imprensa sempre fez com os que não eram Lula: chamar amante de “amante”, não de “amiga íntima”.

Essa gente tem é ódio da liberdade. São os mesmos que estão a pedir o tal “controle social da mídia”. Sonham com um mundo em que um jornalista jamais diria que “Niemeyer é metade gênio e metade idiota”, mas estaria igualmente proibido de dizer que José Dirceu foi condenado por liderar uma quadrilha e por corromper pessoas. Niemeyer, para essa gente, foi só o pretexto da hora.

A VEJA.com não abriga a minha página para que eu escreva o que pensa a VEJA.com. Haveria pessoas com mais competência e conhecimento de causa do que eu para expressar, se fosse o caso, as opiniões oficiais do site, da revista ou da Editora Abril.

Rastejantes e violentos
É claro que essa gente não está acostumada a esse padrão. No mundo deles, as coisas se dão de outro modo. O “comando” avisa qual é a causa do dia, do mês, do ano, da década; decide quem tem de ser fuzilado. E é esse comando que diz quem deve morrer – seguindo, aliás, o modelo de “Comitê Central” das antigas organizações comunistas, tão admiradas por Niemeyer. O dado nada desprezível dessa organização criminosa é o farto financiamento com dinheiro público. É o conjunto dos brasileiros que arca com o custo dessa militância. Porque são, a um só tempo, violentos e servis, imaginam que aqueles que têm por inimigos agem e reagem da mesma forma.

Voltando à questão central
Endosso pessoalmente a quase totalidade do que vai publicado na VEJA sobre o que eu (e nunca a revista) havia chamado a “metade gênio” de Niemeyer. Eu admirava essa metade, adicionalmente, por não ceder a, como direi?, “modismos naturebas”; havia nele, parece-me, a noção muito clara de que a arte é mesmo uma segunda natureza. É o que eu penso no particular. Talvez pudesse dizer: “O mundo faça as árvores, que eu vou plantar alegorias em concreto armado”.

Para saber o que escreveu “A VEJA”, é preciso ler o que está na revista. Como sempre. A publicação não tem porta-vozes. Para saber o que Reinaldo escreve sobre Niemeyer, aborto de anencéfalos, pesquisas com células-tronco embrionárias, Rosegate, lei anti-homofobia, furacões, comida japonesa, “Bolero” (o de Ravel) ou a Pipoca Corintiana, aí é preciso ler o blog. Dele já saíram três livros, todos, felizmente, muito bem-sucedidos. E está claro lá que os textos são MEUS, não da revista VEJA.

Eu exaltei, nunca é demais lembrar, já no texto original, aquele de 2006 (!!!), a “metade gênio” de Niemeyer. E deplorei a metade idiota. Os que decidiram mover uma campanha contra mim na Internet o fizeram porque não admitem a hipótese de que o entusiasta de Stálin – um homicida fanático – pudesse, por isso, ser chamado de “idiota”. Não é que achem que sua obra o perdoa, não! É que, na maioria das vezes, também eles acreditam que o normal, afinal de contas, é matar os inimigos.

Eu existo porque existe a liberdade de imprensa e porque a ideologia de Niemeyer perdeu. Eles existem porque existem os que querem destruir a liberdade de imprensa. Num outro post, que fica para mais tarde, eu vou explicar o que livrou o nosso maior arquiteto de ser um autor de ruínas. Eu vou explicar por que a derrota da metade idiota preservou, para o bem da arquitetura, a metade gênio.

Por Reinaldo Azevedo

 

O que faz essa multidão diante de um míssil? Ou: “Cada árvore e cada pedra gritará: ‘Oh, Muçulmanos! Oh, servos de Alá! Há um judeu atrás de mim, venha e mate-o’”

Milhares na praça para saudar os 25 anos de Hamas e… o fim de Israel. Majestoso, um foguete assistia a tudo!

Khaled Meshaal, o líder mais importante do Hamas, que vive no Catar – esta estranha tirania que dá apoio à dita Primavera Árabe… –, visitou neste sábado a Faixa de Gaza. Falando a uma multidão, que se estimou em 500 mil pessoas, sob as bênçãos de um foguete M75, de fabricação iraniana, Meshaal deu a sua contribuição à paz: afirmou que o Hamas jamais reconhecerá Israel, que todo o território é palestino “do rio ao mar, do Sul para o Norte”, referindo-se ao Rio Jordão e ao Mar Mediterrâneo. Segundo ele, os palestinos não darão um centímetro de terra a Israel – que, nessa hipótese, desapareceria. “Nunca vamos reconhecer a legitimidade da ocupação israelense e, portanto, não há legitimidade para Israel”. Volto a ele daqui a pouco. Vamos lembrar aqui algumas coisinhas.

A ONU
Enquanto todos os progressistas e as pessoas boas do mundo, inclusive do Brasil, aplaudiam de pé a admissão da Autoridade Palestina como estado observador da ONU, eu, que não sou nem progressista nem bom (segundo os sábios da militância ao menos), advertia que as consequências caminhariam num sentido oposto ao pretendido. Haveria mais dissabores do que soluções. Aliás, fui mais longe do que isso e afirmei que mais lucrariam os terroristas do Hamas do que Mohamed Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Reproduzo um trecho do artigo publicado no dia 30 de novembro: 
“É uma tolice supor que a decisão de ontem vá fortalecer a sua posição [de Mohamed Abbas] contra o Hamas. A facção que governa Gaza também comemorou o resultado (…) É evidente que as nações que votaram em favor do reconhecimento expressaram uma espécie de censura ao país que se defende, o que é um escândalo moral. Como é o Hamas a força que hoje se apresenta para o confronto, mais os terroristas lucraram com o evento aloprado de ontem do que Abbas.”

Pois é…

Não tenho bola de cristal, só lógica elementar. Era, como se vem mostrando, estupidamente imprudente aceitar a existência de um estado que, por razões que nem preciso demonstrar, estado não é. Quando menos, seria necessário que esse ente estivesse sob um só comando, o que é falso. Os terroristas do Hamas governam a Faixa de Gaza; a Cisjordânia é governada pelo Fatah. Em seu discurso, Khaled Meshaal pregou a união das duas correntes. Como o Hamas não abre mão de sua forma de luta, o acordo só acontecerá se Abbas voltar ao terrorismo.

Pois é… Que sentido faz a ONU reconhecer a Palestina como estado, ainda que observador, se essa condição depende, necessariamente, de negociações bilaterais – no caso, com Israel? É evidente que se tratou de uma ação hostil, e isso sempre enseja reações. O governo israelense cortou repasse de recursos à Autoridade Palestina e decidiu construir mais três mil residências em Jerusalém Oriental, na Cisjordânia.

Ouvi certo alarido: “Você não vai condenar Israel? Não vai?”. É inegável que a decisão não colabora com a paz, mas me pergunto se alguém, de fato, esperava que não houvesse uma reação… Ora, se a Autoridade Palestina acha que o interlocutor não é Israel, por que Israel deve achar que é a Autoridade Palestina? Tem início a escalada da irracionalidade. E antevi alguma grande bobagem palestina como fruto da excitação. Pimba! Antes que continue, uma lembrança: o governo brasileiro, seguindo os passos de alguns outros, chamou o embaixador de Israel para cobrar explicações. Dos companheiros do Hamas, ninguém vai cobrar nada…

Os terroristas não querem negociar, deixa claro seu líder máximo. Querem a destruição de Israel e fim de papo! Eu sei disso faz tempo porque já li o Estatuto do Hamas, publicado neste blog.  O Artigo 2º é de lascar! Eis aí o que o PT gostaria de ser (em vermelho):
“Art. 2º O Movimento de Resistência Islâmica é um dos ramos da Irmandade Muçulmana na Palestina. A Irmandade Muçulmana é uma organização global (universal) e é o maior movimento islâmico nos tempos modernos. Ela se distingue por seu profundo entendimento e sua precisão conceitual e pelo fato de englobar a totalidade dos conceitos islâmicos em todos os aspectos da vida, em ideias e crença, na política e na economia, na educação e assuntos sociais, em matérias judiciais e em matérias de governo, na pregação e no ensino, na arte e nas comunicações, no que deve ser secreto e no que deve ser transparente, bem como em todas as áreas da vida.”

Uau! É o que o PT quer ser quando crescer: cuidar de tudo! O que vai acima é a síntese de uma ditadura religiosa. Pois bem! A cada vez que leio sugestões para que Israel negocie com o Hamas, eu me lembro das palavras do seu estatuto. Logo na introdução, a gente lê:
“Israel existirá e continuará existindo até que o Islã o faça desaparecer, como fez desaparecer a todos aqueles que existiram anteriormente a ele.”

Leiam agora o que diz o Artigo 7º:
Art. 7º Em todos os países do mundo encontram-se muçulmanos que seguem o caminho do Movimento de Resistência Islâmica, e tudo fazem para apoiá-lo, adotando seu  posicionamento e reforçando a sua Guerra Santa (jihad). Por isso, é um Movimento universal, qualificado para esse papel devido à clareza de sua ideologia, superioridade de seus fins e sublimidade de seus objetivos. Nessas bases é que deve ser visto e avaliado, e é nessas bases que seu papel deve ser reconhecido.
(…)
o Movimento de Resistência Islâmica aspira concretizar a promessa de Alá, não importando quanto tempo levará. O Profeta, que as bênçãos e a paz de Alá recaiam sobre ele, disse: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los e mesmo que os judeus se abriguem atrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: “Oh, Muçulmanos! Oh, Servos de Alá, há um judeu atrás de mim, venha e mate-o”.

Voltei
Esse é o Hamas que muitos pretendem que esteja se tornando menos radical. Quando a ONU reconhece o estado palestino como observador, queira ou não, está admitindo tanto esse horizonte como os métodos empregados para alcançá-lo.

Assim, saibam os senhores, enquanto o Hamas estiver no comando de uma parte do povo palestino, não há nem o que negociar. E o tal Khaled Meshaal deixou isso bastante claro! Ele foi mais longe: anunciou que o movimento pretende praticar novos sequestros de soldados israelenses para obter a liberação de terroristas palestinos presos.

Não obstante, quem é chamado a dar “explicações” no Brasil e em alguns outros países é Israel. O Hamas, como se nota, não precisa explicar nada. Basta tentar matar judeus atrás de pedras e árvores e cultuar um míssil com devoção quase religiosa.

Eis aí um dos desdobramentos práticos daquela votação irresponsável, que contou com o apoio entusiasmado do governo Dilma: em vez da paz, bomba!

Por Reinaldo Azevedo

 

Netanyahu reage a declaração de líder do Hamas. Ou: Querem que Israel negocie as condições de seu próprio fim? Não acontecerá!

Em 2005, o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, odiado como o símbolo do que a “direita israelense” teria produzido de pior, decidiu sair unilateralmente de Gaza. Comprou briga com alguns colonos israelenses e os retirou da região, à força.  Sharon enfrentou a resistência de seu então partido, o Likud, hoje no poder, e contou com apoio dos trabalhistas. Pouco depois fundou o Kadima, um partido que pretendia centrista, entre, então, o Likud e o Trabalhista (mais à esquerda).

Pois bem. Israel saiu, e o resto é conhecido. O Hamas deu um golpe em Gaza, expulsou o Fatah à bala e transformou a região em base de lançamento de mísseis contra Israel, como aquele que adornou, num simbolismo impressionante, a manifestação do grupo terrorista no sábado, que reuniu, segundo o movimento, 500 mil pessoas.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, reagiu neste domingo ao discurso feito por Khaled Meshaal, líder do Hamas (ver post da manhã): “Fomos expostos à verdadeira face de nossos inimigos. Eles não têm a intenção de se comprometer conosco. Eles querem destruir o nosso país”. Ele deixou claro que não cometerá o erro de sair unilateralmente da Cisjordânia e afirmou sobre a pressão internacional que sofre hoje o país: “Estou sempre consternado com as desilusões dos outros, que estão preparados para seguir nesse processo e chamá-lo de paz”.

Chamo a atenção de vocês para o silêncio internacional que se seguiu à declaração de guerra do Hamas – incluindo o anúncio de que o grupo pretende sequestrar novos soldados israelenses para trocar por terroristas presos. E agora? O mais impressionante é que o blog recebeu alguns comentários culpando, pasmem!, o primeiro-ministro israelense pelas declarações de Meshaal. Um deles sustenta: “Tudo o que Netanyahu queria era um discurso como aquele; agora ele pode fazer o que bem entende e culpar os palestinos”. Epa! Parece lógica, mas é outra coisa. O israelense agora tem de responder por aquilo que diz o palestino? Tenham paciência!

A manifestação do Hamas é consequência direta da decisão absurda da Assembleia Geral das Nações Unidas, que elevou a Autoridade Palestina à condição de “estado”, ainda que “observador”. Como é o Hamas a força que lidera a resistência armada a Israel, é evidente que o grupo considera que sua luta tem sido bem-sucedida até aqui. Pior: Mohamed Abbas pediu a mudança de status da Autoridade Palestina, inicialmente contra a vontade de seus inimigos internos, que eram contrários à iniciativa. Quando estes perceberam que havia chances de sucesso, não hesitaram e se colocaram como os principais beneficiários do processo.

Quem não quer a paz? Quem pode ser a favor da guerra? A resposta a essas perguntas vai ao cerne da questão. Como estado organizado, é evidente que o fim das hostilidades interessa a Israel, que tem outras coisas de que cuidar: saúde, educação, saneamento básico, varrição de rua, arrecadação de impostos etc – essas coisas de que costumam se ocupar os governos. A guerra permanente interessa a quem só existe por causa da guerra permanente: ao Hamas, que não tem, como é sabido, nenhuma daquelas outras preocupações. Afinal, seu horizonte não é deste mundo.

Aqueles que defendem com tanta energia, mundo afora e no Brasil também, que Israel negocie com o Hamas – negociar o quê??? – poderiam tentar dar uma interpretação alternativa ao que disse Meshaal. Eu sempre fico encantado quando tentam provar que o diabo não é tão feio como se pinta, a despeito de sua cara, de suas intenções, de seu programa. Foi Meshaal a reunir 500 mil pessoas, sob os auspícios de um míssil, para anunciar que o destino de Israel é um só: o fim.

O que querem que Israel negocie com o grupo? As condições de seu próprio extermínio? Acho que isso não acontecerá.

PS – Na era da estupidez militante, cumpre observar: é claro que sou favorável à criação do estado palestino! Por que não seria? Se critico a ONU, é porque não faz sentido uma decisão como aquela fora de uma negociação entre palestinos e israelenses. O entendimento bilateral vem primeiro. Sem ele, o que se faz, argumentei então, é incentivar o confronto. Eu estava obviamente certo, como se vê: dadas as ações posteriores ao “reconhecimento”, os palestinos estão agora mais longe de um estado de verdade do que antes. Verdade ou mentira?  DE RESTO, É FÁCIL PROPOR A PAZ FAZENDO A GUERRA. QUERO VER É PROPOR A PAZ FAZENDO A PAZ.

Por Reinaldo Azevedo

 

Presidente do Egito anula decreto que lhe dá poderes ditatoriais, mas tensão continua; Constituição abrirá caminho para a islamização da vida política

O presidente do Egito, Mohamed Mursi, anulou o decreto que lhe conferia poderes ditatoriais. É uma coisa boa em si, mas é um truque. O pior está por vir: a Constituição que será submetida a referendo no dia 15 e que abre caminho a islamização da vida política – uma ditadura religiosa… light!!! Ou, como querem alguns tontos, um “jeito egípcio” de viver a democracia…

Leiam o que informa a VEJA Online:
O presidente egípcio, Mohamed Mursi, anulou neste sábado um decreto do mês passado através do qual ampliava e blindava seus poderes, disse o político islamita Selim al-Awa no Cairo. “O decreto constitucional está anulado a partir de agora”, afirmou durante uma entrevista coletiva. Apesar disso, o projeto de Constituição – que é alvo de protestos populares e que vinha recebendo pressão para que fosse adiado – será submetido a referendo em 15 de dezembro, como previsto, disse Al-Awa. A decisão foi tomada em reunião entre Mursi e líderes políticos.

Nas últimas duas semanas, a oposição vinha pedindo a anulação do decreto e o adiamento da consulta constitucional. O decreto, adotado pelo chefe de Estado em 22 de novembro, provocou uma forte onda de contestação no Egito, acompanhada de manifestações que em alguns momentos descambaram para a violência, com a morte de sete pessoas na noite de quarta para quinta-feira no Cairo. As lideranças oposicionistas também criticam o projeto de Constituição. Elas acusam o texto de abrir caminho para uma islamização mais ampla da legislação e de não apresentar garantias às liberdades individuais, principalmente de expressão e de religião. Para tentar reduzir a tensão, Mursi encarregou neste sábado uma comissão composta por juristas e personalidades políticas “de modificar a declaração constitucional”.

Mudança
Horas antes, a imprensa internacional chegou a noticiar que Mursi teria aprovado neste sábado uma legislação que instituiria a ‘Lei Marcial’. Por meio dela, o presidente conclamava as Forças Armadas a manter a ordem no país e autorizava soldados a prender civis arbitrariamente. De acordo com o jornal norte-americano The New York Times, que citava os meios de comunicação egípcios, a medida só não teria entrado em vigor porque Mursi adiou sua publicação. Seria uma tática de ameaça. Somente sua preparação era suficiente para exasperar a crescente batalha política entre novos líderes islâmicos egípcios e seus oponentes seculares em torno da proposta de nova constituição nacional Ainda segundo o jornal americano, se Mursi publicasse a medida, a decisão representaria uma reviravolta histórica. Agora, com a decisão de anular o decreto que ampliou seus poderes no mês passado, fica a impressão de que o presidente deu um passo atrás.

O conflito
Em 22 de novembro, Mursi divulgou o decreto que ampliava, sobremaneira, seus poderes. A proposta foi aprovada a despeito do boicote de vários integrantes da Assembleia Constituinte. Liberais, socialistas, cristãos e muçulmanos seculares não suportaram a intransigência da bancada fundamentalista islâmica e ficaram fora da elaboração do texto.

Pelas regras do país, o presidente tem prazo até 15 de dezembro para submeter a nova constituição a um referendo popular. Ante a onda de descontentamento que tomou conta de todo o país, ele chegou a avaliar a possibilidade de adiar a consulta. Agora, com a anulação do decreto, voltou a insistir na data. As eleições parlamentares devem ser realizadas dois meses após o referendo constitucional.

Por Reinaldo Azevedo

 

Uma metade do PT é petista, e a outra também. Ou: E escrever que Getúlio Vargas era metade suicida e metade homicida, pode?

O Diretório Nacional do PT conclui hoje, em Brasília, uma reunião iniciada ontem para debater, ai, ai, a suposta criminalização do partido, que uniria forças tão díspares como a direita (alguém tem o endereço da direita brasileira pra gente mandar uma carta?), o Supremo Tribunal federal – especialmente na pessoa do ministro Joaquim Barbosa!!! – a “mídia” e, pasmem!, até a Polícia Federal, que está sob o comando do partido há dez anos. Até parece que alguém precisa empurrar petistas para ações criminosas… O que é do gosto regala a vida, a gente diz lá em Dois Córregos.

Neste sábado, os petistas divulgam uma resolução. Segundo o Estadão, o documento trará esta pérola:
“Sabe-se que denúncias de corrupção sempre foram usadas por conservadores no Brasil para desestabilizar governos populares (…) Vargas foi levado ao suicídio por insidiosa campanha de forças políticas, meios de comunicação e outros agentes inconformados com sua política nacionalista e de fortalecimento do estado. Dez anos depois, por razões semelhantes, esses mesmos atores se reuniram para derrubar o governo João Goulart e impor 20 anos de ditadura no país”.

A que vem essa síntese bucéfala da história brasileira? Ah, os petistas estão incomodados com os desdobramentos do processo do mensalão – todas as tramoias tentadas para melar o julgamento deram com os burros n’água – e com a operação Porto Seguro, que conduziu para o centro do escândalo uma amante, ou ex, de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele a havia instalado na chefia do escritório da Presidência em São Paulo. Uma vez lá, segundo a PF, aquela senhora passou a integrar uma quadrilha. Na mesma reunião, os petistas não esqueceram de demonizar o PSDB…

Vamos ver. Se a questão fosse voltar ao regime de 1964, seria o caso de lembrar que um dos entusiastas do AI-5, Delfim Netto, é hoje um lulista roxo. Figura de escol da ditadura, como se dizia naquele tempo, é Paulo Maluf, que se juntou aos petistas na cidade de São Paulo para cantar “Lula lá”.  Fernando Haddad, o prefeito eleito, já anunciou que uma parte da Prefeitura ficará sob os cuidados daquele condenado a devolver US$ 22 milhões aos… cofres na Prefeitura!!! José Sarney, ex-presidente do PDS e homem que comandou o partido na resistência à emenda das diretas, tornou-se, sob o petismo, vice-rei do Brasil.

O PSDB, demonizado no encontro – eu gostaria de saber por quê… O partido andou fazendo oposição, e eu nem percebi? Não incluo o senador Álvaro Dias (PR) na ironia, deixo claro. Ora, se o PT quer voltar àquela divisão antiga, resta evidente que o que se chamou impropriamente de “direita” no Brasil está com o… petismo! O PSDB, em muitos aspectos, está à esquerda dos companheiros.

A UDN
Mas gostei mesmo foi da referência à UDN e a Getúlio Vargas. A UDN que apelava a quartéis, com efeito, tem de ser condenada, mas a que denunciava a corrupção – que, de resto, era real – não! O governo de Getúlio estava, sim, infiltrado por larápios e destrambelhados! E não! Não foi a UDN que, como escreverei isso?, o “suicidou”. Ele próprio tomou a decisão porque, como se sabe, a tentativa de matar Carlos Lacerda partiu das entranhas de seu palácio. Era Getúlio quem havia decidido se cercar de gente capaz de conduzir o país à ruína institucional.

A propósito: haverá também comoção se eu disser que Getúlio era metade homicida e metade suicida? A segunda metade, exerceu-a quando governou como ditador; quando veio a democracia, ele se matou. A lógica elementar indica que, se tivesse ainda os instrumentos de exceção que tinha sob o Estado Novo, ele continuaria a matar os outros. É realmente interessante o fascínio que essa gente xexelenta tem por tiranetes e tiranossauros. A minha escolha é sempre a democracia. É por isso que as obras as mais fabulosas de Oscar Niemeyer me impedem de deixar de apontar que o gênio, muitas vezes, foi posto a serviço do idiota.

De fato, o que temos? Os petistas estão deixando claro que as instituições atrapalham os planos do partido. Percebam: eles querem, a todo custo, controlar a imprensa. Aliás, a legenda divulgou ontem uma resolução de apoio a Cristina Kirchner, aquela que está conduzindo a Argentina, de maneira célere e inexorável, para o buraco. Segundo a gente entende, a investida da Doida de Buenos Aires contra a imprensa deveria servir de modelo ao Brasil…  Os patriotas também estão inconformados com o STF. E ontem aproveitaram para esconjurar a Polícia Federal por causa da Operação Porto Seguro.

O Zé Caroço estava lá, é evidente! E anunciou, mais uma vez, que pretende percorrer as capitais para acusar a injustiça do julgamento etc. Que preguiça me dá esse cara!

Um pedido aos petistas
Peço aos companheiros que façam a lista da imprensa que consideram confiável. É muita sacanagem com o jornalismo adesista, que faz um esforço danado para puxar o saco do PT, ficar fazendo essa acusação genérica. Vejam, por exemplo, o caso de Ideli Salvatti. A mulher, com aquela retórica bailarina de sempre, confessou ontem que Dilma “nunca saiu do palanque” e que o tal plano elétrico é mesmo eleitoreiro e tem como alvo atingir a oposição. Não obstante, a sua fala praticamente sumiu da edição dos jornais, não vai para as rádios e ficará longe da TV.

Eu insisto: a acusação genérica dos petistas contra a imprensa é injusta com quem está de joelhos e injusta com quem está de pé. Pô, a coisa chegou a tal ponto que aprendi nestes dois dias que até o comunismo é uma das expressões da generosidade humana. Isso tem de ser valorizado pelos companheiros, né?

É que o PT não tem jeito… Uma metade do partido é petista, e a outra também…

Por Reinaldo Azevedo

 

PF decide indiciar Rosemary também por formação de quadrilha

Ao falar no Congresso, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, negou que uma quadrilha operasse no seio do governo – em particular na Presidência da República, onde estava lotada Rosemary Nóvoa Noronha, a chefe de gabinete da representação presidencial em São Paulo.

Pois é… Pelo visto, a Polícia Federal discorda. Segundo informa o estadão, a PF decidiu indiciá-la também por formação de quadrilha. Ela já era investigada por tráfico de influência, corrupção ativa e falsidade ideológica.

O “amigo íntimo” de Rose, Lula, está na Alemanha para uma palestra a sindicalistas. Foi indagado por jornalistas se ficou surpreso com a operação. Disse que não. Pois é… Quem conhece, pelo visto, não tem por que se surpreender, né?

Por Reinaldo Azevedo

 

Gente como ele ajuda a sujar a imagem do Brasil no exterior e, diz a imprensa internacional, prejudica o país

José Dirceu, chefe da quadrilha do mensalão que vem sendo julgada pelo STF (Ueslei Marcelino/FuturaPress)

Na VEJA.com:
A economia do Brasil tem sido prejudicada pela corrupção e por problemas de infraestrutura, afirma o jornal britânico The Independent’, em artigo publicado nesta quinta-feira. A corrupção também é tema de uma reportagem da revista americana Time, que compara Brasil e México, afirmando que, apesar de o último ser um lugar mais fácil para se fazer negócios, o primeiro é mais transparente.

Segundo o The Independent, a infraestrutura pobre, preocupações sobre intervenção excessiva do governo na economia e dados fracos do Produto Interno Bruto (PIB) são alguns dos ventos contrários que ameaçam o maior país da América Latina. O jornal destaca ainda que, com a proximidade da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o Brasil tem um trabalho difícil a fazer se quiser atingir seu potencial total.

Outro problema citado pelo jornal britânico foi a corrupção. A publicação destacou a Operação Porto Seguro da Polícia Federal que prendeu seis pessoas e indiciou 19 acusados de atuarem em vários órgãos do governo federal, intermediando interesses de empresas privadas mediante pagamento de propina.

A revista Time, por sua vez, afirma que, embora o país tenha ficado em 9º lugar entre os mais corruptos dos 26 países da América Latina e do Caribe no ranking anual de percepção de corrupção da organização não-governamental Transparência Internacional, e o México tenha ficado em 16º, o Brasil ainda tem longo caminho a percorrer. Uma evidência disso, diz a revista, é o escândalo do mensalão, que envolveu milhões de dólares em propinas a membros do Congresso e que resultou no maior julgamento de corrupção na história nacional.

A Transparência Internacional divulgou na quarta-feira o ranking anual de percepção de corrupção em que o Brasil subiu quatro posições, para 69º lugar, de 73º no ano passado. A nota do país melhorou para 43 neste ano, de 38 em 2011, onde zero significa “altamente corrupto” e 100 pontos mostra um país “muito limpo”. Foram analisados 176 países.

A ’Time ressalta que, apesar de os negócios e a burocracia serem considerados mais fáceis no México, no Brasil esses fatores são, segundo o Banco Mundial, mais transparentes. De acordo com a publicação, o fato de 38 acusados no caso do mensalão terem sido julgados e a maioria deles, incluindo José Dirceu, braço direito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ter sido condenada “ajudou a campanha anticorrupção da atual presidente Dilma Rousseff”.

Segundo a revista, o México, enquanto isso, ainda pode ser visto como um país que se nega a reconhecer a corrupção enraizada, que, segundo o Banco Mundial, custa 9% de seu PIB a cada ano.

Por Reinaldo Azevedo

 

Carlinhos Cachoeira é condenado e preso novamente

Por Jean-Philip Struck, na VEJA.com:
Duas semanas depois de ser libertado, o bicheiro Carlinhos Cachoeira foi preso novamente na tarde desta sexta-feira em Goiânia (GO). A prisão ocorre após a Justiça Federal de Goiás ter condenado também nesta sexta o contraventor a 39 anos e oito meses de prisão. O mandado de prisão foi expedido pelo juiz Alderico Rocha Santos, da 5ª Vara Federal. Cachoeira foi levado para a sede da sede da superintendência da Polícia Federal na capital goiana. De acordo com a sentença expedida pela Justiça, o bicheiro foi condenado pelos crimes de corrupção ativa, formação de quadrilha e peculato.

O Ministério Público Federal havia pedido 80 anos de prisão para Cachoeira. Além do bicheiro, outros sete réus investigados na operação Monte Carlo foram condenados. Lenine Araújo de Souza, primo de Cachoeira e apontando pela PF como sendo o braço-direito do bicheiro, foi sentenciado a 24 anos e quatro meses de prisão.

O araponga Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, foi condenado a 19 anos e três meses. Já o ex-presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia Wladmir Garcez, apontado pela PF como o braço político de Cachoeira foi condenado a sete anos. José Olímpio Queiroga Neto, apontado pela procuradoria como o responsável pelo controle dos jogos ilegais no entorno do Distrito Federal, foi condenado 23 anos e quatro meses de prisão. Seu irmão, Raimundo, recebeu sentença de 12 anos e oito meses. O auxiliar Gleyb Ferreira da Cruz foi condenado a 7 anos e 8 meses. Já o contador Geovane Pereira da Silva, que atualmente está foragido, recebeu pena 13 anos e quatro meses. Todos os réus podem recorrer da sentença. 

Soltura
Cachoeira havia sido solto no dia 21 de novembro, após passar 265 dias encarcerado. O bicheiro foi o principal alvo da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que desmontou uma quadrilha que explorava jogos ilegais. O caso também desencadeou a abertura de uma CPI no Congresso

Na ocasião, o alvará de libertação foi expedido após a juíza Ana Claudia Barreto, da 5ª Vara Criminal do Distrito Federal,  ter confirmado a condenação de Cachoeira a cinco anos de reclusão em regime semiaberto pelos crimes de formação de quadrilha e tráfico de influência. A sentença se refere às atividades do contraventor em esquemas criminosos no Distrito Federal, investigados pela Operação Saint Michel, da Polícia Civil do DF. Segundo a polícia, o bando de Cachoeira tentou fraudar o sistema de bilhetagem eletrônica do transporte público na capital federal, tentando infiltrar uma empresa sul-coreana na empresa pública de transporte do Distrito Federal e, com isso, obter 50% dos lucros do contrato de bilhetagem. 

Monte Carlo
Carlinhos Cachoeira foi o protagonista da Operação Monte Carlo, que revelou que o esquema de contravenção que atuava para corromper empresas e governos estaduais em proveito do esquema criminoso. Os braços da quadrilha envolviam a construtora Delta, empreiteira que detém diversos contratos com o governo federal.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ideli Salvatti, a grosseira sincera, prova que eu estava certo: plano elétrico de Dilma está de olho nas urnas, não no país

A canalha petralha aproveita para me atacar até quando escrevo uma obviedade sobre Oscar Niemeyer porque sabe que eu conheço a sua natureza. E isso os deixa um pouco irritados. Se eu não tivesse leitores, tudo bem pra eles… Ocorre que são muitos milhares, né? Nesta sexta, lá vai o blog passar de 200 mil acessos de novo…

Na quarta-feira, escrevi um texto cujo título era este: Populismo Elétrico de Dilma agora está claríssimo, se combina com plano para aniquilar a oposição. Demonstro no texto que a presidente havia preparado uma armadilha para os governos tucanos de São Paulo, Minas e Paraná. Ou as grandes geradoras desses estados aderiam ao “plano” de barateamento da energia de Dilma e quebravam, ou faziam o certo, resistiam e seriam acusadas de estar contra o povo. Desde o início, o plano tinha laivos de aberta conspiração contra a economia desses três estados, de olho em 2014.

Fui acusado, claro!, de paranoico, de alimentar teorias conspiratórias infundadas (porque existem as com fundamento, é evidente!), de deixar o meu antipetismo subir à cabeça, essa bobajada… Quem é que vem a público para provar que eu estava certo? Quem é que vem a público para demonstrar – lamento, desafetos! – que Tio Rei enxerga longe e com aguda vista (apesar da miopia)? Quem é que vem a público para provar a cobertura vergonhosa que setores consideráveis da imprensa dispensam ao tema?

Ela! A musa da delicadeza, do pensamento sofisticado, da elegância de argumentos, do charme do convencimento: IDELI SALVATTI, que vem a ser ministra das Relações Institucionais. Eu adoro o nome dessa pasta. Faz supor que existam as “relações não institucionais”. Bem, existem, né? São aquelas de que cuidavam ou cuidam José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Rosemary Noronha, Paulo Vieira… Leiam o que informa a Folha Online. Negrito algumas coisas por minha conta.

Prestem atenção ao vocabulário de beira de estrada de Ideli. Vejam como se comporta, entre os seus, uma ministra de Estado. Reparem como ela confessa que o plano de Dilma para o setor elétrico é, sim, eleitoreiro e como se trata de uma ação deliberada para ferrar a oposição. Volto depois:
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Por Daniela Roncaglia:
A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) admitiu, nesta sexta-feira (7), que a presidente Dilma Rousseff poderá enfrentar na eleição de 2014, além da oposição, um candidato da base aliada. “Nós não devemos estar desatentos a candidaturas alternativas, que começam a se desenhar”, afirmou a ministra. Nesta semana, o governador Eduardo Campos (PSB-PE), que é apontado como presidenciável, fez duras críticas à política econômica de Dilma.
Segundo Ideli, a eleição de 2014 já está na rua. “Dizem que a Dilma já subiu no palanque. Ora, a Dilma não saiu do palanque. A Dilma é a nossa candidata e tenta a reeleição em 2014, obviamente”, afirmou a ministra. Questionada quem seria esse possível candidato, a ministra disse que ainda é cedo. Ideli discursou de um evento do PT paulista com prefeitos e vereadores eleitos, que acontece em um hotel em Embu das Artes (Grande SP).
Chumbo
Na sua fala, a ministra relacionou à eleição presidencial a decisão da Cemig e da Cesp, companhias energética de Minas Gerais e São Paulo, de não renovar concessão de todas as suas geradoras. Ambos os Estados são governados pelo PSDB. Na quarta, Dilma atacou a “falta de sensibilidade” dos governos tucanos e sinalizou que está disposta a bancar a redução de 20,2% da tarifa de energia. De forma indireta, Ideli criticou também o senador Aécio Neves (MG), provável candidato do PSDB à Presidência, pela decisão da estatal mineira. “O cara parece mais o presidente da Cemig do que candidato a presidente do Brasil”, disse. Segundo ela, a presidente deu uma “chapuletada” no senador tucano.

Para a ministra, os tucanos irão tomar “chumbo” do PT na eleição. “A eleição já está na rua. E eles já tomaram chumbo em 2002, 2006 e 2010. E neste modelito, tucano bico longo, em 2014 tem a possibilidade bastante grande de tomar chumbo”, disse. Ideli ainda afirmou que o PT não pode ficar desatento aos ataques da “direita e seus adeptos”.

“Eles não vão dar trégua. É muito importante saber com quem conta, onde está, porque está. E saber também quem é que vai nos atacar. Nós vamos ser permanentemente atacados”, disse.

Voltei
Eis aí. Segundo a ministra de estado, a presidente nunca desceu do palanque. Se é assim, então não governa, mas apenas faz política eleitoreira. Mais: ela própria se encarrega de deixar claro que a questão elétrica serve para o confronto partidário. Não se trata de pensar no bem do país, mas no resultado das urnas. Ideli fala a verdade. Como se pensaria no país tentando quebrar três empresas, né?

Com Ideli é assim: a oposição não vai perder, mas “levar chumbo”, expressão que vem do mundo dos pistoleiros.  Um possível candidato do PSDB à Presidência é chamado de “o cara”. Dilma não critica, mas dá “chapuletada”. Um dos partidos adversários é nada menos do que “modelito tucano bico longo” – seja lá o que isso signifique, ela não acha bom.

Ideli é, de hábito, grosseira esteja falando a verdade ou não. No caso em questão, a grosseria vem acompanhada da sinceridade. Dilma já está em plena campanha eleitoral, e seu plano de energia será seu cavalo de batalha. Ela esperava que os tucanos fizessem a coisa certa (e eles fizeram), resistindo ao desmonte das geradoras de energia para ter, então, um palanque.

Por Reinaldo Azevedo

 

Do ateísmo e do ecumenismo no instante final

Vejo na televisão a cerimônia de sepultamento de Oscar Niemeyer. Representantes de diversas religiões, uma mensagem comovida dos irmãos homicidas que governam Cuba, a Banda de Ipanema (ou algo assim), saudação de “companheiros comunistas”, o Cristo ao fundo, braços abertos sobre a Guanabara. No Rio, até enterro termina em cartão-postal.

Não sei se Niemeyer deixou alguma instrução pedindo uma cerimônia ecumênica. Se deixou, acho bacana. Falo sério. Não há hora para aceitação de Deus, ainda que seja só “em homenagem ao nosso povo crente”. Se não deixou, então é um desrespeito – este, sim! Um ateu tem o direito de viver e de morrer segundo as suas convicções.

É preciso ter um mínimo de rigor nessas coisas. Ateísmo não é sinônimo de ecumenismo. Este implica reconhecer que todas as religiões, ou um grupo delas, têm uma base mística comum ou, ao menos, estão movidas pelo mesmo impulso e pelas mesmas intenções. Eu, por exemplo, que acho que a tolerância religiosa é expressão necessária de civilidade, não sou ecumênico.

Niemeyer, o que deixou expresso mais de uma vez, não acreditava no deus de nenhum daqueles senhores que lá estavam paramentados. Muitas convicções religiosas juntas não são suficientes para converter um homem vivo. E, por óbvio, não convertem um morto. Se, reitero, ele não deixou instruções a respeito em defesa da solenidade, tratou-se de uma arbitrariedade.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula já conseguiu decorar um verso do poema de Gertrude Stein

Abaixo, citei a ontologia da rosa, de Gertrude Stein. Consta que Lula anda estudando inglês e se interessou pelo poema “Sacred Emily”. Já conseguiu decorar um verso:

“Rose is a rose is a rose is a rose.”

Por Reinaldo Azevedo

 

Por que Dilma deve aplicar a ontologia da Rosa, de Gertrude Stein, para ser mais tolerante com a divergência. Ou: Não chame as Forças Armadas contra a Economist, Soberana!

A presidente Dilma Rousseff precisa aprender que a opinião de uma revista é a opinião de uma revista é a opinião de uma revista. A presidente Dilma Rousseff precisa aprender a aplicar a ontologia da rosa, de Gertrude Stein, aos debates que se travam na imprensa internacional sobre a economia dos países, ora.

A The Economist, com efeito, classificou o crescimento brasileiro de “moribundo”, sustenta que Guido Mantega perdeu a parada para a realidade e sugere sua demissão. Diz ainda que a presidente Dilma está se metendo demais na economia e que isso tem sido contraproducente.

A revista britânica já deu conselhos aos governantes do Reino Unido, a Barack Obama, a dirigentes africanos… A Economist, a exemplo do jornalismo do mundo inteiro, é assim: analisa, opina, debate… Ora acerta, ora erra. Sua reputação certamente se deve ao fato de mais acertar do que errar. Mas já cometeu das suas… É velha o bastante para ter dito que não havia como os carros tomarem o lugar dos cavalos. Também se perguntou, certa feita, quem seria estúpido o bastante para passar muito tempo diante daquilo a que chamavam “televisão”… Pois é.

O bom de erros assim é que eles são, na verdade, irrelevantes. Já os erros dos governos podem significar a boa ou a má sorte de milhões de pessoas. Eis um bom motivo para que a imprensa sugira coisas ao governo, mas não o governo à imprensa. Fui muito sutil?

Dilma, vocês lerão na reportagem de Laryssa Borges e Tai Nalon, da VEJA.com, ficou furiosa com a Economist e resolveu evocar fundamentos da soberania nacional… Menos, presidente, menos! Se Vossa Excelência me permite uma opinião, isso é arrogância de pequenos. Por qualquer bobagem, vão longo botando a tropa na rua. Trata-se apenas da análise de… uma revista!

O que deve preocupar a presidente, aí sim, é o fato de que ela sabe que a Economist toca em problemas importantes da economia, para os quais não há resposta. O crescimento brasileiro será pífio neste ano (1,5%, por aí) e não dá sinais de que seja um portento no ano que vem. O estoque de medidas do governo parece esgotado – e sem dar os resultados esperados. O consumo como motor do crescimento parece ter batido no teto. A forte intervenção do estado na economia, em várias frentes, também está longe de produzir números vistosos.

Aí, então, é preciso mudar de rumo e de prosa. E a Economist não vê, a exemplo da esmagadora maioria dos brasileiros que lidam com o assunto, como pode ser Mantega a propor uma saída.

Espero que Dilma não chame as Forças Armadas. A revista não quer sabotar o Brasil, não, viu, excelência!? Quanto ao pito que a presidente dá na economia da Zona do Euro (algo como: “Os europeus que olhem para a própria cauda”…), não custa lembrar que o Reino Unido não pertence à… Zona do Euro!

Ademais, foi uma revista que criticou a condução da política econômica brasileira, não a comunidade europeia inteira. Ou o que devo fazer? Descer para brigar com o dono de um mercadinho aqui do bairro, que é espanhol? “E tem mais: o seu país tem um desemprego muito maior do que o meu…”. É preciso ter senso de proporção e de ridículo. Segue reportagem da VEJA.com.
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A presidente da República, Dilma Rousseff, rapidamente saiu em defesa do seu governo um dia após reportagem da revista britânica The Economist pedir a exoneração do ministro da Fazenda, Guido Mantega, devido ao frustrante resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre – que mostrou um crescimento de apenas 0,6%

Depois da Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, a presidente disse que não aceitará ser influenciada pela imprensa internacional, em uma referência direta ao artigo publicado pela revista nesta quinta-feira. A The Economist também sugeriu que ela indicasse uma nova equipe econômica “capaz de recuperar a confiança dos empresários”.

 No contra-ataque, Dilma afirmou que a situação econômica da zona do euro e dos Estados Unidos é muito pior que a brasileira e que, nem por isso, existe pressão para queda das cúpulas financeiras dos países desenvolvidos. “Vocês não sabem que a situação deles é pior que a nossa? Pelo amor de Deus, (é pior) desde 2008. Nenhum banco, como o Lehman Brothers, quebrou aqui. Nós não temos crise de dívida soberana, nossa relação dívida-PIB é de 35%, nossa inflação está sob controle. Temos 378 bilhões de dólares de reserva”, esbravejou.

Irritação
A presidente, mostrando clara irritação, ainda alfinetou a publicação dizendo que “em hipótese alguma o governo brasileiro, eleito pelo voto direito e secreto do povo brasileiro, vai ser influenciado pela opinião de uma revista que não seja brasileira”, afirmou.

Mais cedo, ao lado de presidentes sul-americanos, Dilma havia defendido a integração de países do continente, incluindo membros associados do Mercosul, como forma de enfrentar as turbulências internacionais. “Há razões de sobra para que estejamos preocupados com a situação econômica mundial em um quadro de menor crescimento e de recessão. Devemos nos precaver contra essas condições”, afirmou na ocasião.

Em reportagem intitulada “Quebra de confiança: Se quer mesmo um segundo mandato, Dilma Rousseff tem de mudar a equipe econômica”, publicada na edição desta semana, a revista britânica pede a demissão do ministro da Fazenda. “Ela insiste que é tão pragmática. Se é mesmo, deveria demitir Mantega, cujas previsões exageradamente otimistas implicaram a perda de confiança dos investidores”, diz a publicação. A Economist classificou a economia brasileira de “moribunda” e atribuiu a Mantega sucessivos fracassos econômicos no ano. “Dilma deve designar uma nova equipe econômica capaz de conquistar a confiança do mercado”, disse a publicação.

Por Reinaldo Azevedo

 

Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens

Esta é a Universidade de Constantine, em Argel, na Argélia. A obra, independentemente do ambiente político que a cerca, que não é bom, é a prova do que pode o gênio humano. Foi projetada por Oscar Niemeyer e é, na minha opinião, um de seus mais belos trabalhos.

Mas…
Mas há os fatos. E não me importo em instruir os ignorantes. As reportagens das TVs e dos portais estão fazendo do “comunismo” de Niemeyer uma dimensão de sua generosidade. Como sabemos, ele achava Stálin um “líder fantástico”.

A partir de 1930, o dirigente soviético promove a coletivização forçada do campo. Isso implicava, como política de estado, a destruição dos “kulaks como classe”, a saber: dos camponeses que ainda eram proprietários de terras. Não, nem se tratava de latifundiários: era gente que produzia para a sua sobrevivência e que vivia da venda do excedente.

O principal alvo foram as terras férteis da Ucrânia. Stálin, o grande humanista de Niemeyer, decretou a expropriação de toda a produção rural e a coletivização da terra. Os camponeses resistiram. Morreram assassinadas ou de fome, nesse período, entre cinco milhões e sete milhões de pessoas. Segundo Niemeyer, “a revolução era mais importante”.

Abaixo, reproduzo um trecho da página 70 do livro “Stálin – A Corte do Czar Vermelho”, do respeitado historiador Simon Sebag Montefiore (Companhia das Letras). Vão se instruir, vagabundos!!! Era este homem que Niemeyer cultuou até o fim da vida como exemplo do humanismo comunista. Depois do texto, algumas fotos.
*
(…)
Em janeiro de 1930, Molotov planejou a destruição dos kulaks, que foram divididos em três categorias: “primeira categoria [...] a ser eliminada imediatamente”; a segunda deveria se aprisionada em campos de trabalho; a terceira, 150 mil famílias, deveria ser deportada. Molotov supervisionava os esquadrões da morte, os trens, os campos de concentração, como um comandante militar. Entre 5 e 7 milhões de pessoas caíram nas três categorias. Não havia maneira de selecionar um kulak (…).

Durante 1930-31, cerca de 1,68 milhão de pessoas foram deportadas para o Leste e o Norte. Em poucos meses, o plano de Stálin e Molotov levara a 2.200 rebeliões envolvendo mais de 800 mil pessoas. Kaganóvicth e Mikoian comandaram expedições ao campo com brigadas de soldados da OGPU e trens blindados como se fossem senhores da guerra. Suas cartas manuscritas a Stalin estão marcadas pela emoção fraternal de sua guerra, pelo aperfeiçoamento humano contra os camponeses desarmados: “Tomando todas as medidas quanto a alimentos e grãos”, relatou Mikoian a Stálin, citando a necessidade de acabar com os “sabotadores”: “Enfrentamos grande resistência [...]. Precisamos destruir a resistência”.

No álbum de fotografias de Kaganóvitch, o vemos indo para a Sibéria com o seu pelotão armado de facínoras de jaqueta de couro interrogando camponeses, investigando suas pilhas de feno, descobrindo os grãos, deportando os acusados e avançando novamente, exausto, caindo no sono entre paradas. “O trabalho de Molotov é realmente duro e muito cansativo”, contou Mikoian a Stálin: “O volume de trabalho é tão vasto que precisa de cavalos-vapor”.
(…)

Voltei
Stálin era tão obcecado pelos campos de concentração que andava com uma caderneta no bolso, que trazia a sua localização, quantidade pessoas etc. A inteligência não é incompatível com a canalhice intelectual. O escritor Máximo Gorki, comunista de carteirinha, visitou alguns em companhia do grande líder.

Abaixo, fotos dos corpos que os homens de Stálin foram deixando por onde passavam no processo de coletivização da agricultura. Retomo depois.

Na foto abaixo, os homens de Stálin em ação nas terras férteis da Ucrânia, com seus comboios que iam sequestrando a produção agrícola. A ordem, a depender da área,  era não deixar com os camponeses nem mesmo o suficiente para a sua subsistência. Matá-los de fome era uma determinação. Como é mesmo, Niemeyer: “A revolução era mais importante”.

Aqui, mais uma obra de Niemeyer: a Catedral de Brasília. Por isso separei o gênio do idiota; por isso separei o homem que celebrava a vida do homem que celebrava a morte. Sou um humanista.

 

Perguntem a Ricardo Boechat o que ele pensa a respeito. Perguntem a outros de sua espécie o que há de grandioso e heroico em tudo isso. Se Niemeyer admirasse Hitler, certamente não tentariam salvar do lixo nem mesmo a sua obra. Stálin só viria a ser superado em cadáveres por outro dos heróis do arquiteto: Mao Tsé-tung. O bigodudo matou uns 40 milhões. O tirano chinês quase dobrou a aposta: 70 milhões.

Ninguém quer tocar no assunto? Eu toco. Vejam de novo a catedral e o que pode o gênio humano. Niemeyer fez uma bela catedral sem acreditar em Deus. Não era preciso crer para ser bom. Niemeyer, no entanto, acreditava em Stálin e seus métodos.

E eu lembrei as duas coisas. 

Por Reinaldo Azevedo

 

Aeroportos para a Copa, “prioridades” do governo Dilma, têm só 36% dos gastos prometidos

Na VEJA.com:
A apenas seis meses de receber a Copa das Confederações de 2013 (e a um ano e meio de sediar a Copa do Mundo de 2014), o Brasil continua fazendo menos do que poderia para melhorar sua infraestrutura para os megaeventos esportivos dos próximos anos. Nos aeroportos, por exemplo, as promessas do governo seguem não se confirmando na prática. Apesar das repetidas garantias de que o país terá uma infraestrutura aeroportuária muito melhor para o Mundial, os gastos no setor ainda não deslancharam. Mesmo com grande urgência, até outubro de 2012 a Infraero investiu apenas 39,1% dos recursos previstos no orçamento deste ano, indica levantamento feito pela ONG Contas Abertas. Do total de 2 bilhões de reais autorizados, só 787,1 milhões foram de fato aplicados. Do total orçado para a Infraero, uma fatia de 60% é destinada aos aeroportos das cidades-sede da Copa, um montante de 1,2 bilhão de reais. Até outubro, no entanto, apenas 441 milhões foram aplicados (o equivalente a só 36,7% dos recursos prometidos). Os dados são do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

Conforme a Infraero, a baixa execução se deve aos atrasos registrados nos primeiros meses do ano, em decorrência de fortes chuvas e de problemas nos processos de contratação. “Esses atrasos deverão ser compensados nos próximos meses”, explica nota do órgão – que ressalta que, historicamente, as obras da Infraero costumam apresentar maior índice de execução no segundo semestre do ano. “Em 2011, por exemplo, 70% dos investimentos realizados pela empresa foram executados no segundo semestre.” O órgão ainda trabalha com a possibilidade de executar integralmente o orçamento aprovado e revisado de 2012. A estatal ressaltou que a realização de investimentos no primeiro, segundo e terceiro trimestres de 2012 foi superior ao realizado nos mesmos períodos de 2011. Em valores corrigidos, o montante investido até o quinto bimestre de 2012 representou um recorde para os últimos treze anos. Os valores investidos nos dez primeiros meses do ano têm aumentado em todos os exercícios desde 2008, já que a Infraero sabe que precisa trabalhar muito para que a capacidade do setor seja compatível com o aumento da demanda.

Apesar disso, a execução das obras ainda é considerada insuficiente. Para Adyr da Silva, especialista em aviação civil da Universidade de Brasília, a situação do sistema aeroportuário brasileira é uma tragédia. “Os aeroportos estão subcapacitados. Atualmente, temos condições de atender apenas 50% da demanda de 200 milhões de passageiros por ano. Se fizermos uma comparação, a curva de crescimento da demanda é muito maior do que a de crescimento da capacidade. E essa situação só tende a se agravar”, avisa ele. De acordo como ele, faltam gerenciamento e planejamento para projetos e execução de obras, o que implica diretamente nos resultados dos investimentos. “A capacidade de gastar da Infraero fica prejudicada.” Para Silva, o ponto crítico dos problemas do setor é a baixa capacitação. “Pessoas com nenhuma experiência estão ocupando cargos na Infraero.” Essa, segundo ele, deve ser a principal preocupação da estatal para conseguir executar os orçamentos e finalmente começar a corrigir a grande defasagem entre a demanda – já existente e que deve aumentar ainda mais – e a capacidade dos aeroportos.

“Problema angustiante”
O caso dos aeroportos das sedes da Copa é emblemático. Nas obras de construção da Torre de Controle no Aeroporto Internacional de Congonhas, de adequação do Aeroporto de Guarulhos e do Aeroporto Internacional de Viracopos, todas em São Paulo, foram aplicados apenas 50% dos 321 milhões de reais orçados para este ano. Em situação semelhante encontram-se as ações de adequação do Aeroporto Internacional de Confins, em Minas Gerias, e do Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília. No Rio de Janeiro, na reforma e ampliação do Terminal de Passageiros e do Sistema de Pistas e Pátios do Aeroporto Santos Dumont e adequação do Aeroporto Internacional do Galeão foram investidos apenas 18,6% do orçamento para 2012. Para Adyr da Silva, a Copa de 2014 é uma situação limite para a qual, apesar de ter havido movimentação, o Brasil não está preparado. “Na África do Sul, em 2010, nos momentos de pico houve cerca de 580 aviões num mesmo dia em um aeroporto. Nenhum aeroporto brasileiro suportaria tal demanda atualmente. É um problema angustiante”, alerta.

Apesar disso, na visão da Infraero, a baixa execução das obras não significa que o país esteja enfrentando dificuldades nos investimentos no setor. A assessoria do órgão ressaltou que outras obras já estão acontecendo e “vão beneficiar passageiros e demais usuários do transporte aéreo”. Em fórum sobre a Copa promovido pela revista Exame, da Editora Abril, que também publica VEJA, na segunda-feira, em São Paulo, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, se disse satisfeito com o andamento dos trabalhos nessa área e mostrou confiança na capacidade brasileira de receber bem todos os visitantes que chegarão para o evento em 2014. “Não teremos nos aeroportos nenhum problema que inviabilize a Copa”, assegurou ele. Mesmo com as necessidades claras do país nessa área, a Infraero deve diminuir o valor dos investimentos no orçamento de 2013. Os gastos prometidos pela estatal deverão atingir a cifra de 1,5 bilhão de reais, meio bilhão a menos que o valor liberado para 2012. Para 2014 e 2015, no entanto, os valores devem voltar a crescer: a previsão é de que 3,5 bilhões de reais sejam investidos em cada ano.

Por Reinaldo Azevedo

 

Os detalhes do imbróglio que resultou na demissão de Ricardo Boechat, então um jornalista respeitado, da Globo e da TV Globo

Leitores ficaram curiosos para saber detalhes do imbróglio que resultou na demissão de Ricardo Boechat, então um jornalista respeitado, do jornal O Globo e da Rede Globo. Ela se seguiu a uma reportagem da VEJA, publicada em junho de 2001. Boechat me ataca na rádio sem ler o que escrevi. Eu leio o que ele fez e não o ataco. Apenas constato… Acompanhem.
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O empresário Nelson Tanure é conhecido por se meter em grandes negócios. Baiano, 50 anos, formado em administração de empresas, em pouco mais de uma década já se aventurou por vários setores da economia nacional – quase sempre deixando atrás de si um rastro de polêmica. Foi assim com a Sade, produtora de turbinas para geração de energia elétrica. Em 1990, num controvertido episódio da era Collor, um grupo de fundos de pensão de estatais enterrou 11 milhões de dólares na empresa, que vivia em dificuldades financeiras. Por trás da compra da companhia de Tanure, estaria a mão forte da amiga do peito do empresário e então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, que teria pressionado os fundos a aderir à operação. Em sua meteórica trajetória ao olimpo dos grandes empresários, Tanure chegou a ser dono de três grandes estaleiros, que detinham 80% de toda a capacidade instalada da indústria naval do Brasil. Acumulou dívidas tão pesadas que, em 1997, afundou em sua megalomania, sendo obrigado a retalhar seu latifúndio. No ano passado, estima-se que tenha botado no bolso 100 milhões de reais, numa transação espetacular: foi o preço para acertar os ponteiros com os antigos proprietários do Banco Boavista, contra quem vivia em guerra judicial – estes por sua vez tiveram de aceitar o acordo com Tanure para conseguir vender o banco ao Bradesco, que queria comprá-lo sem nenhuma pendência judicial. Recentemente, Nelson Tanure comprou um dos mais tradicionais diários do país, o centenário Jornal do Brasil, estreando no ramo da comunicação.

Nos últimos três meses, Tanure tem-se dedicado de corpo e alma a outro negócio. Coisa de grande vulto e intrincada, como parece ser do seu gosto. Uma empreitada que, segundo se comenta nos meios empresariais, poderá engordar sua conta bancária em até 40 milhões de dólares, caso seja bem-sucedido. Trata-se de uma negociação para o grupo de telecomunicações canadense TIW, sócio de duas empresas de telefonia celular no Brasil: a Telemig Celular e a Tele Norte Celular, avaliadas em 2 bilhões de dólares. A tarefa de Tanure é desfazer o nó em que a TIW se embolou ao formar uma complicada e nada amigável sociedade com o Banco Opportunity, de Daniel Dantas, outro baiano não menos polêmico. A sociedade foi formada na privatização do sistema Telebrás, em 1998, e tem ainda como parceiros cinco grandes fundos de pensão. O embaraço está no acordo de acionistas que Dantas conseguiu produzir, numa jogada de mestre. A TIW, por exemplo, uma operadora de telefonia que, pelo menos em tese, deveria intervir na gestão de uma companhia telefônica, não tem poder nem para nomear um contínuo. Por causa desse acordo, há quase três anos os sócios se engalfinham numa disputa sem tréguas pelo controle das empresas. 

Agora surge mais um ingrediente nesse enredo. Uma série de fitas, que mostram com crueza impressionante a montagem de uma operação de guerra para derrubar um adversário do mundo dos negócios. Nas últimas semanas, a existência dessas fitas, ao que tudo indica gravadas ilegalmente entre os meses de março e abril, tornou-se o rumor da hora entre jornalistas bem informados, empresários e políticos. VEJA teve acesso ao material gravado. Ali se apresenta um exemplo extraordinário de como funcionam os bastidores de algumas grandes negociações. Dos diálogos saltam estratégias secretas e ataques pesados, que permaneceriam para sempre camuflados pelos discursos oficiais, obviamente mais polidos, articulados. Pela primeira vez os bastidores de um caso concreto são revelados em estado bruto. As fitas mostram apenas um lado atuando, e o leitor deve levar essa peculiaridade em consideração.

As gravações reproduzem diálogos de Tanure com o presidente mundial da TIW, o canadense Bruno Ducharme, definindo estratégias de atuação contra o Banco Opportunity, de Daniel Dantas. Foram flagradas também conversas do principal assessor de Tanure, Paulo Marinho, uma peça ativa nas negociações em favor dos canadenses. Marinho, que até o ano passado trabalhava para Daniel Dantas, é um personagem bastante conhecido na sociedade carioca. Está sempre próximo de cabeças coroadas do mundo dos negócios e de mulheres bonitas, como a atriz Maitê Proença, com quem foi casado. As gravações envolvem também um dos mais influentes e respeitados jornalistas do país, o colunista Ricardo Boechat, do jornal O Globo.

Na fita, ele aparece participando de uma operação para ajudar Tanure. Em um dos diálogos, ocorrido em 15 de abril, Boechat conta a Marinho os termos da reportagem que está escrevendo para revelar manobras do Opportunity e que seria publicada no dia seguinte em O Globo. Pela conversa, fica evidente que a direção do jornal não foi informada sobre o grau de ligação do jornalista com Nelson Tanure e sobre o fato de que a reportagem foi minuciosamente discutida com Paulo Marinho (veja a reprodução de trechos). Não há nenhuma menção a favor, pagamento e outras práticas irregulares de compensação. Boechat e Marinho são, aliás, compadres e amigos de longa data. Curiosamente, a reportagem acabou sendo usada, dez dias depois, como peça de processo na ação judicial dos fundos de pensão – aliados da TIW – contra o Opportunity. Advogados utilizam com frequência reportagens para embasar ações que impetram. No caso de Boechat, a combinação anterior pelo telefone com Marinho – e, muito especialmente, os termos usados na conversa – é que torna a história constrangedora. “Minhas fontes não são o cardeal Eugênio Sales nem o presidente do Supremo Tribunal Federal. Já negociei matérias com Daniel Dantas também. Não levo vantagem financeira com isso”, diz Boechat. “O que quero é a notícia.” Em outro diálogo, não reproduzido nesta reportagem, o jornalista instrui Tanure sobre como agir e o que falar numa conversa com João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, para passar a imagem de um empresário sem ambições políticas nem projeto de poder – características que a Globo não veria com simpatia no concorrente dono do Jornal do Brasil. Uma análise feita na semana passada, a pedido de VEJA, pelo perito Ricardo Molina concluiu que “todas as evidências indicam que, acima de qualquer dúvida razoável, a voz analisada é do jornalista Ricardo Boechat”. Molina afirma também que “não existe nenhum indício de manipulação que possa representar tentativa de montagem”.

É evidente que o mundo dos negócios não vive permanentemente nesse clima de ataques abaixo da linha da cintura. Mas quando um dos personagens da briga é Daniel Dantas, um economista de 45 anos, considerado um dos mais brilhantes de sua geração, dificilmente se pode esperar um cenário de calmaria. O dono do Opportunity é um operador audacioso como poucos. Em apenas seis anos transformou seu banco num colosso que administra fundos de investimento no valor de 3,4 bilhões de dólares. Seus domínios se estendem a setores tão diversos quanto saneamento, transportes, telecomunicações, portos, metrô, internet e futebol. Tem uma capacidade para fazer inimigos tão espetacular quanto seu talento para os negócios. A briga pela Telemig Celular e pela Tele Norte Celular é a mais perfeita tradução do jeito Daniel Dantas de atuar.

Para participar do leilão de privatização das duas empresas, em 1998, o Opportunity se associou à TIW e aos fundos de pensão. A TIW entrou com 49% dos recursos necessários para a compra das empresas. Os fundos de pensão, por sua vez, entraram com 24% de investimento direto, mais 27% através de recursos aplicados em um fundo de investimento do Opportunity, que colocou ali uma parcela correspondente a menos de 1% do valor da operação. No leilão, o sócio canadense desembolsou, sozinho, 380 milhões de dólares, com a promessa de ter participação na gestão das empresas adquiridas. Foi feita uma carta de intenções estabelecendo essas bases para o contrato. Tudo ficou só como intenção. 

Batido o martelo, começou a confusão. Quinze dias depois do leilão, Dantas sinalizou para os canadenses que o acordo inicial não valia mais. Num estranho acerto com os presidentes dos fundos de pensão, o Opportunity montou uma sociedade totalmente diferente da desenhada inicialmente com os parceiros estrangeiros. Na época, os fundos eram capitaneados por Jair Bilachi, da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, e por Francisco Gonzaga, da Petros, o fundo de pensão da Petrobras, que deixaram o cargo sob suspeita de má gestão dos recursos dos fundos. A estratégia de Dantas foi juntar os recursos dos fundos de pensão em uma só empresa, a Newtel, que passou a deter 51% das ações da Telpart, holding da Telemig e da Tele Norte. Embora tivessem maioria das ações, os presidentes dos fundos concordaram em passar para Dantas o poder de gerir a companhia, incluído aí o direito de escolher todos os dirigentes das duas celulares e de definir todos os fornecedores. Assinaram ainda uma cláusula bizarra, em que os conselheiros dos fundos se obrigam a votar com o Opportunity, qualquer que seja a decisão do banco. Caso votem contra, são imediatamente destituídos. Dantas conseguiu manter-se forte enquanto teve os fundos do seu lado. No entanto, as novas diretorias dos fundos de pensão começaram a questionar os acordos feitos por seus antecessores. A briga esquentou quando os dois sócios se uniram contra Dantas. Os fundos e os canadenses querem que a Newtel seja desfeita e que, em seu lugar, seja criada uma sociedade em que os três sócios tenham pesos iguais.

Foi em março, no meio dessa confusão, que Nelson Tanure surgiu na história como a figura que poderia salvar os canadenses. O presidente da TIW, Bruno Ducharme, vislumbrou a chance de encontrar um competidor à altura de seu adversário. Tanure era o homem. O que fica claro nessa história é que os canadenses, que entendem quase nada de Brasil, acharam que Tanure conhece suficientemente as artimanhas do adversário para jogar um jogo de igual para igual. A manobra parece ter começado a dar resultado. Há cerca de um mês os sócios conseguiram uma vitória em cima do parceiro indesejado. Emplacaram o novo presidente da Telemig e da Tele Norte, que passou a ser o executivo Gunnar Vikberg. A manobra para a escolha do novo executivo foi montada com a ajuda de Tanure, que combinou a operação com Ducharme, por telefone. “Nosso foco é para tentar tirar o diretor (escolhido por Dantas)”, explica Tanure, num dos trechos grampeados. Deu certo, embora seja uma vitória provisória, questionada na Justiça pelo Opportunity, que já conseguiu destituir Vikberg da presidência da Telpart.

Enquanto os dois sócios se armam para tentar enfraquecer Daniel Dantas nas duas telefônicas, o banqueiro baiano tenta garantir as conquistas obtidas. Nos últimos meses, tem feito ofertas aos fundos para a compra das empresas. Quanto aos canadenses, embora sejam o maior acionista individual, suas ações não têm o mesmo poder de fogo sem o controle das empresas, que continua nas mãos de Dantas. Até o final da contenda, as entranhas dessa guerra bilionária deverão ficar cada vez mais à mostra. Mesmo porque o jogo de poder entre Dantas, Tanure, canadenses e fundos de pensão está longe do epílogo. Estão todos operando os meios à disposição com ferocidade.

*
Leiam este diálogo de Boechat com Paulo Marinho, assessor de Nelson Tanure:
Síntese:
 Nesta conversa que teve com Paulo Marinho, braço direito de Tanure, Boechat relata os detalhes de uma reportagem que escreveu e seria publicada no jornal O Globo no dia 16 de abril contando as manobras planejadas por Daniel Dantas para uma assembléia. O jornalista leu a reportagem inteira para o assessor de Tanure, que aprovou. “Tá ótima”, comentou Paulo Marinho. “A matéria diz tudo que a gente queria falar.” Dez dias depois, a reportagem de Boechat integraria os documentos de uma ação judicial (reproduzidos acima) movida pelos fundos de pensão contra o Opportunity. Tanure e os fundos estão do mesmo lado da trincheira.

Secretária – Pronto.
Boechat – Oi, o Paulo, por favor.
Secretária – Quem deseja?
Boechat – Ricardo Boechat.
Secretária – Um momento…
Boechat – Obrigado.
Paulo Marinho – Oi.
Boechat – Oi.
Paulo – Diga lá…
Boechat – Seguinte: primeiro acho que a matéria talvez saia assinada…
Paulo – Hum, por você?
Boechat – É…
Paulo – Tá…
Boechat – E aí temos que ver o seguinte… Eu estive pensando… Esta é uma possibilidade que eu preferi não perguntar. Vou te dizer o seguinte: eu também meio que descobri que não adianta muito tentar dissimular esta relação, não.
Paulo – Entendi.
Boechat – Eles já identificaram esta relação, certo?
Paulo – Certo.
Boechat – …que acabou sendo meio escancarada com este convite pra eu ir pro JB.
Paulo – Perfeito.
Boechat – E, por mais que eu tenha dado como uma iniciativa do Mario Sérgio (Conti, diretor de redação do JB)… Ninguém… ficou aquela… o João Roberto, o Merval, o Luiz Eduardo (integrantes da cúpula do jornal O Globo)… Todo mundo sabe que o Nelson (Tanure) tem uma relação de amizade pessoal.
Paulo – Certo.
Boechat – Eu pensei em dizer ‘não assina, não’. Mas preferi ficar calado.
Paulo – Acho que você dizer pra não assinar eu acho um erro. Tu não pode dar esta montaria pra esses caras…
Boechat – Sabe o que mais? O último detalhe é o seguinte: aquela última nota nossa do dia 3, quando a gente… quando teve a reunião do conselho, que eu dei a história da demissão, lembra? Da demissão do Arthur(Carvalho, cunhado, braço direito de Daniel Dantas no Opportunity e o representante do banco nos conselhos de administração das telefônicas)…
Paulo – Lembro.
Boechat – Eles… quando deu, eu assinei. Eu dei na Agência Globo sem assinar.
Paulo – Eu sei, você disse que eles identificaram em dois minutos que era sua a nota…
Boechat – Eles botaram no ar um desmentido com meu nome. Então é ridículo eu ficar dissimulando…
Paulo – Claro.
Boechat – Se fosse uma coisa clandestina.
Paulo – Também acho, você tem razão.
Boechat – Conheço o cara e… ele é uma fonte e tá me dando uma notícia…
Paulo – Exatamente. Aliás, é um erro dissimular isso. Agora também é o seguinte, quer dizer…
Boechat – …(inaudível) escancarar.
Paulo – Mas também se os caras não colocarem com seu nome, você não vai reclamar por causa disso.
Boechat – Não, de jeito nenhum. Enfim, outra coisa, diferentemente do seu material é preciso falar com o Nelson: “Nelson, a adjetivação não é uma característica da notícia. Não tem como adjetivar”.
Paulo – Perfeito.
Boechat – Então, o texto que eu mandei pro Duda, o cara que tá fechando a edição pra amanhã…
Paulo – Rãrã…
Boechat – Me disse que tá dando bem. Então, suponho que ele vá dar a matéria na íntegra, pá-pá-pá. Não sei que título ele vai dar. Seguinte: o texto que eu mandei, eu disse assim pro Mineiro (Luiz Antonio Mineiro, editor de Brasil de O Globo): ’Mineiro, aí vai a matéria. Eu não consegui falar com o pessoal da Economia, mas tentarei mais tarde. Estou no telefone tal. Se for preciso peça à telefonista… Acho que este assunto vai dar um bom caldo. A intenção de demitir os conselheiros dos fundos consta da ata da assembléia convocada pelo Opportunity no dia 17 no Monitor Mercantil (jornal carioca de economia). E a estréia do ex-governador (Antônio) Britto (que acabara de ser contratado pelo Opportunity) no fascinante mundo do lobby financeiro, quem diria?, ainda não foi revelada por ninguém’. Aí vai o texto…’. Um abraço, Boechat’ e tal. Aí, começei da seguinte maneira. É um texto curto e tal. Dizendo assim: (O jornalista lê na íntegra a reportagem que foi publicada em O Globo no dia seguinte.)
Paulo – Tá ótima a matéria, diz tudo o que a gente queria falar.
Boechat – Agora, não dá pra dizer que a atitude é ilegal, entendeu? Mas é isso aí.
Paulo – A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p… nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (…)
Boechat – Os caras disseram que vão dar bem a matéria, vamos ver. (…)
Paulo – Amanhã, eu te ligo pra te dar notícia da matéria.
Boechat – Pra saber se deu certo

Por Reinaldo Azevedo

 

Niemeyer usou seu talento para apoiar as causas mais asquerosas. Como não sou comunista e não misturo as coisas, preservei a sua arquitetura do lixo do seu pensamento. Ou: A marcha da imbecilidade: sites petralhas incentivam os zurros. Ou: “Niemayer, Nielmayer, Noelmayer, Niermaier…”

É claro que a repercussão do que escrevi sobre Niemeyer é desproporcional. Até porque eu fiz o que deve ser feito: a devida distinção entre a obra e o homem. Tomar uma coisa por outra ou outra por uma pode piorar o que é bom e melhorar o que não tem conserto. O Niemeyer que assinou um manifesto em favor de José Dirceu e contra o STF, por exemplo, não criava edifícios; só depredava a ordem democrática.

Comigo não, violão!

A obra de Niemeyer, no mais das vezes, era boa, ainda que eu veja com maus olhos o seu lado cortesão, excessivamente grudado a governos. No caso da Brasília de Juscelino, vivia-se uma democracia. Mas ele também produziu para ditaduras, sem constrangimento. Ainda assim, destaco outra vez, tinha um compromisso com a beleza, com a gratuidade estética, que, entendo, deve ser o primeiro compromisso de um criador. Artista que tem agenda é militante político.

Já o pensamento político de Niemeyer era puro lixo autoritário e não tem conserto. Alguém que, no pleno gozo de suas faculdades mentais – e ele as conservou, consta, até o fim, o que é uma graça divina, embora ele não acreditasse nela –, chama um homicida como Stálin de “fantástico” e trata as Farc como força patriótica não está contribuindo para um mundo melhor, não! A SUA ARQUITETURA FAZIA O ELOGIO DA BELEZA E DA VIDA; SUAS IDEIAS POLÍTICAS ESTAVAM ASSENTADAS NUM TERRENO ONDE JAZIAM MILHÕES DE MORTOS.

Niemeyer tem ao menos uma obra hedionda: o Memorial da América Latina, em São Paulo, com aquela mão aberta em que o desenho do subcontinente simula o sangue escorrendo. Acho arte menor o que fica no meio do caminho da representação simbólica e da literalidade. É o caso. Só falta ao autor cutucar o braço do “receptor” para perguntar: “Entendeu o que eu quis dizer?”.

No sangue que escorre naquela mão estão, por exemplo, os 100 mil mortos pela ditadura dos Castro em Cuba (perto de 20 mil fuzilamentos; o resto morreu afogado tentando sair daquele paraíso…)? A resposta é “não”. Porque Niemeyer morreu “fidelista”. No post desta manhã, registro suas palavras considerando necessários e corretos os fuzilamentos determinados por Stálin. No sangue que escorre naquela mão estão milhares de pessoas assassinadas pelas Farc? Não! A julgar pelo apoio que ele dava à causa e por analogia com o que diz sobre Stalin, supõe-se que também esses eram “mortos necessários” porque, como é mesmo?, “a revolução era mais importante”.

Petralhas ensandecidos
A reação é coisa organizada, inclusive por blogs e sites que estão por aí, COM DINHEIRO PÚBLICO, a incentivar o linchamento do STF e dos ministros que votaram contra os mensaleiros. Como conhecem a minha opinião a respeito, querem usar a minha suposta e jamais havida “agressão ao gênio” para se vingar. Minutos depois que publiquei o primeiro post, quem já se manifestava no Twitter e, na prática, abria a temporada de “caça ao Reinaldo” era José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT, diretor sei lá de quê da Petrobras e um dos que Dilma apelidou de “Os Três Porquinhos”.

Podem mandar brasa. Ontem, a página quase bate recorde de visitas num único dia. Quem sabe seja hoje… Os jumentos estão nos cascos. Enviam-me mensagens exaltando a obra de um certo “Niemayer”. Esses se deixam trair pelo ouvido apenas. Mas há também elogios a “Nielmayer”, “Noelmayer” e “Niermaier”, entre outras variações. Vale dizer: algumas mulas não conseguiram usar direito nem as orelhas.

Dizem que um coroa que faz programa de rock numa rádio – Deus do Céu! – me xingou e ameaçou me processar. Que bom! Que faça isso! Deve alegar que o meu crime é ter uma opinião diferente da dele…

Não concedo a nenhum homem, tenha 20 anos ou 105, a licença para fazer poesia sobre a morte. Niemeyer, aliás, disse certa feita que “a arquitetura não tem importância; o que tem importância é a vida”. É uma frase tonta porque, de fato, não quer dizer nada. Como foi dita por um ancião, supõe-se que haja alguma sabedoria secreta embutida. Não há! A arquitetura tem importância quando se precisa dela e traduz aspirações humanas; reflete um estado da cultura; expressa, sim, um momento da política e dos valores ideológicos etc. É o caso de Brasília.

Sim, o Brasil vivia uma democracia. É razoável a hipótese de que algo como aquilo só se fez porque o sonho das elites ilustradas e deslumbradas – de que Niemeyer fazia parte – tomou o lugar de algumas urgências que tinha (e ainda tem… urgências que duram no tempo!) o povo brasileiro.  O “sonho” de Brasília foi sonhado sobre indicadores sociais que faziam do país um dos piores lugares do mundo para se viver então. Poucos se dão conta disso. Mas “o povo” está presente na obra, entenderam?

No que concerne à cultura e ao ambiente para o debate, o país raramente esteve tão próximo do fascismo como está hoje. Hordas mobilizadas por vigaristas financiados por dinheiro público são mobilizadas para partir para a depredação, sem nem mesmo saber por que estão batendo. Felizmente, também há milhares de pessoas dispostas a ouvir os apelos da razão.

Niemeyer dizer que o que tinha importância “era a vida”? Por que escolheu, então, ser um justificador da morte? O jornalismo baba-ovo pretende fazer de seu “comunismo” uma parte da sua utopia, traduzida nos seus edifícios? Que vá em frente! Houvesse um pouco de decência E INFORMAÇÃO, a abordagem seria outra: foi um bom arquiteto APESAR DA SUA IDEOLOGIA. Não será com o meu silêncio. Ainda que eu fosse o único a considerar detestável seu pensamento; ainda que eu fosse o único a reconhecer que sua ideologia se assentava num terreno sangrento, não abriria mão de dizê-lo.

Um homem e sua obra também são suas circunstâncias. O único erro que posso ter cometido é o de proporção. Uma das mais recentes manifestações políticas de Niemeyer foi assinar – e estava absolutamente lúcido – um “manifesto de intelectuais” em apoio a José Dirceu. Isso, por si, diminui a metade cabida ao gênio e aumenta a parcela do idiota.

Resumo: Niemeyer usou a sua arquitetura para apoiar as causas mais asquerosas. Como não sou comunista e não misturo as coisas, eu preservei a sua arquitetura do lixo do seu pensamento.

Por Reinaldo Azevedo

 

O dono da opinião e a opinião que tem dono. Ou: Um tal Boechat

Fiquei sabendo que Ricardo Boechat, na rádio (acho que é na Band), me atacou, mas sem citar o nome porque não valeria a pena e coisa e tal. Chegou a fazer especulações sobre o que vai acontecer quando eu morrer. Tudo por causa, claro!, das mentiras que contei sobre o pensamento de Niemeyer. Como sou um homem bom, chamei a defesa que o arquiteto fazia de alguns homicidas de seu “lado idiota”. É claro que merecia qualificação mais dura.

Boechat não fala o meu nome, mas eu falo o dele. Abaixo, segue uma reportagem de 2001 da VEJA explicando por que ele foi sumariamente demitido do jornal O Globo e da TV Globo.

Pois é, Boechat… Você pode não gostar das minhas opiniões, mas são minhas. Sobre as suas, com quem se deve falar no momento?
*
Escândalo no setor de telefonia faz Globo demitir Ricardo Boechat

O jornalista Ricardo Boechat, que assinava a coluna mais lida do jornal O Globo, foi demitido neste domingo, depois que uma reportagem de VEJA revelou bastidores da guerra entre o grupo canadense TIW e o presidente do Banco Opportunity, Daniel Dantas, pelo controle de das empresas de telefonia celular Telemig Celular e Tele Norte Celular. Nesta segunda-feira, o jornal carioca não explica a saída de Boechat, mas informa na capa que a coluna Swann volta a ser publicada. O jornalista também foi afastado do Bom Dia Brasil, da Rede Globo.

Reportagem de VEJA desta semana divulga uma série de ligações telefônicas que desvenda a guerra entre dois grupos pelo controle de empresas de telefonia móvel. Em uma das ligações, Boechat conversa com Paulo Marinho, assessor de Nelson Tanure, aliado da TIW e acionista majoritário do Jornal do Brasil. Em um telefonema de 15 de abril, o jornalista conta a Marinho o teor do texto que seria publicado no dia seguinte sobre a disputa no setor de telefonia e explica detalhes dos procedimentos internos do jornal.

Pela conversa, fica claro que a direção de O Globo não sabia sobre o grau de ligação do jornalista com Tanure nem que a reportagem havia sido discutida com Marinho. Não há menção a favor, pagamento ou outras práticas irregulares de compensação. Dez dias depois da publicação, o texto foi usado como peça de processo na ação judicial dos fundos de pensão, aliados da TIW, contra o Opportunity.

Bastidores
De acordo com o Jornal do Brasil, Boechat conversou na manhã de domingo com o editor-chefe do jornal, Rodolfo Fernandes. O jornalista perguntou se deveria escrever um artigo explicando seu diálogo ou apresentar pedido de demissão. Como resposta, escutou que sua situação já estava insustentável. À noite, o diretor-executivo do jornal foi até a casa de Boechat e oficializou a demissão.

A decisão de demitir o jornalista foi unânime, ainda segundo o Jornal do Brasil. Os responsáveis pelo jornalismo das Organizações Globo consideraram que a conduta de Boechat feriu as normas do código de ética da empresa. Eles concordaram que o jornalista não poderia ter lido seu texto para Marinho nem discutir questões internas do jornal.

Instrução
As conversas gravadas sugerem que a participação de Boechat foi além da reportagem por encomenda que acabou por derrubá-lo. Em outro diálogo, não reproduzido por VEJA, Boechat instruiu Tanure sobre como agir e o que falar em uma conversa com o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O objetivo era passar a imagem de um empresário sem ambições políticas nem projeto de poder, o que seria visto com maus olhos no concorrente dono do Jornal do Brasil. Análise feita pelo perito Ricardo Molina comprova que a voz gravada na fita é de Boechat e aponta que não há indícios de que a gravação tenha sido editada.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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