A iconografia totalitária e cafona do petismo nos seus 10 anos de mistificação

Publicado em 18/02/2013 15:28 e atualizado em 17/05/2013 11:47
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por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

A iconografia totalitária e cafona do petismo nos seus 10 anos de mistificação

Vejam esta imagem:

Prestem atenção aos detalhes. Ainda voltaremos a ela. Antes, algumas considerações prévias. O PT começa a distribuir nesta quarta-feira a seus militantes um livrinho de 15 páginas com as conquistas ditas “gloriosas” do partido nestes 10 anos. O padrão de comparação é o governo FHC. Os petistas, claro!, dizem que tudo, sob a sua gestão, foi melhor. Na verdade, passam a impressão de que o Brasil foi criado há dez anos. No princípio, era o caos, depois veio Lula — e só então a luz…. Aí se criaram o céu, a terra, o mar, os passarinhos e Dilma Rousseff. Sobre mensaleiros, aloprados e peculatários, nada! Compreensível. Sabem como é… Até no mundo criado por Deus, o rival menor de Lula, existem ratos, sapos e baratas, mas que têm o seu lugar na ordem das coisas…

O PT vai se aproveitar, como é próprio aos de sua estirpe e àqueles que comungam de seu pensamento, para elencar algumas verdades que remetem a mentiras monumentais. Mas também há mentiras monumentais em si mesmas, como esta:
“Enquanto o salário médio dos trabalhadores caiu, aumentou a derrama contínua de recursos públicos para os segmentos mais ricos e enriquecidos por uma dívida em expansão e por taxas reais de juros incomparáveis internacionalmente”.

Houve uma forte recuperação do valor real do salário mínimo no governo FHC, e o rendimento médio do trabalhador, com o fim da inflação, subiu em vez de cair. De fato, o Brasil pagou “juros incomparáveis internacionalmente” durante a gestão tucana, mas também durante a gestão petista. Nos oito anos de governo Lula, o país teve a maior taxa de juros reais do mundo — e é uma das maiores ainda hoje. Foi Lula mesmo quem lembrou que os bancos, por exemplo, nunca ganharam tanto como em sua gestão. Estava falando a verdade nesse caso.

Já expliquei o que existe de picaretagem essencial nesse tipo de abordagem. Lula chegou ao governo com o setor financeiro saneado, sem risco de quebradeira dos bancos (essencial para enfrentar a grande crise), com a inflação domesticada e com algumas reformas feitas, que devolveram o Brasil ao mercado. Sem os investimentos em telefonia, por exemplo — que chegaram por causa da privatização —, teríamos ido à breca. O PT era contra. Como era contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Teremos muitas outras oportunidades de voltar a essas mistificações. Meu ponto agora é outro.

Volto à imagem lá do alto. É a capa do tal livrinho que será distribuído aos petistas. Essa estética cafona e autoritária tem história. Já foi empegada no Brasil durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, o ditador protofascista que caiu nas graças dos intelectuais de esquerda — o que é compreensível. O fascismo, no fim das contas, é de esquerda mesmo, já demonstrei aqui algumas vezes.

Mas foram os comunistas que elevaram esse tipo de mistificação à condição de uma estética. Conscientemente ou não, quem trabalhou a foto de Lula, agora só de bigode, o deixou muito próximo daquele bom Stálin, o que matava 40 milhões com ar de quem oferecia pirulitos às crianças. Lula, que eu saiba, não matou ninguém, a não sr a verdade.

Foram os anos da Revolução Cultural na China, cuja fase mais aguda e violenta se deu entre 1966 e 1969, que inundaram o mundo com essa estética asquerosa, do “bom líder” que esmaga o seu povo. Coincidiu com um momento de efervescência da cultura pop e atraiu intelectuais do miolo mole mundo afora.

Notem que, invariavelmente, os bons ditadores tem seus olhos postos no futuro, num horizontem que só eles divisam. E assim é, entre outros motivos, porque se elevam muito acima do povo, que eles conduzem. Afinal, um eram chamados “führer” (Hitler), “duce” (Mussolini), “O Grande Timoneiro” (Mao); “O Guia Genial dos Povos” (Stálin) e “O Grande Líder” (Kim il Sung). O Brasil teve “O Pai dos Pobres” (Getúlio), o “Grande Companheiro” (Lula) e agora a “Mãe dos Pobres” (Dilma).

Em qualquer dos casos, o povo é reduzido à minoridade. Não está à altura daqueles que o conduzem com olhos visionários. Seu papel é erguer as mãos para o alto e sorrir de satisfação.

A iconografia apenas reproduz o pensamento detestável de todos eles.

Mao e o povo: o

Stálin, o bom assassino, despertando a admiração das massas

Kim Sung-Il, primeiro líder da Coréia do Norte: todos como ele, como no petismo

Getúlio Vargas, o ditador, com o povo: os sindicatos chamavam o povo para apoiá-lo

Para encerrar
Voltem lá ao alto e fixem de novo a imagem de Lula. Agora vejam esta imagem famosa de Stálin, que era objeto de culto.

 

Quem trabalhou a imagem do Apedeuta tentou forçar a semelhança? Nessas coisas, pouco importa a intenção. O que importa é a filiação das ideias, ainda que, às vezes, involuntária. De toda sorte, autoritarismo no PT é sempre voluntário. Pode até acontecer de eles apostarem na democracia, mas ou será sem querer ou será por motivos puramente táticos. O livrinho do partido, diga-se, nada mais é do que uma adulteração da história, dos fatos. O carniceiro da foto acima, vocês devem saber, mandava mudar até as fotografias. À medida que ele ia matando às pessoas, dava ordem para que os homens do regime as apagassem também da história. O PT é um exímio assassino e ressuscitador de reputações.

Por Reinaldo Azevedo

Parabéns, Dilma! O governo federal vai erradicar a miséria… estatística!!!

Leiam abaixo um texto de Gabriel Castro, da VEJA.com, que demonstra os caminhos seguidos pelo governo federal para eliminar a miséria… no papel! Estamos sob a égide de uma espécie de universo paralelo, que hoje junta, por incrível que pareça, ex-esquerdistas convertidos em neomercadistas e velho-mercadistas convertidos em neo-esquerdistas. O que eles têm em comum? As tetas do estado! A carnavalização ideológica no Brasil sempre impediu a formação, digamos assim, de verdadeiros esquerdistas, realmente internacionalistas — os nossos comunistas sempre foram, por exemplo, nacionalistas, o que é uma piada no universo da ideologia. E alguns dos nossos liberais combatem o excesso de estado da economia apenas até a página 13. Na 14, aparece a graninha do BNDES, e aí eles não resistem. Volto ao assunto ainda hoje — hoje é um daqueles dias em que tenho muito mais temas do que tempo e mãos. Mas vamos lá.

Por Gabriel Castro, na VEJA.com:
O governo federal anunciou nesta terça-feira um passo importante para o que considera a erradicação da miséria no Brasil – pelo menos estatisticamente. Trata-se de um complemento ao valor recebido por 2,5 milhões de famílias que já são contempladas pelo Bolsa Família, mas permanecem na linha da pobreza extrema. Essas famílias receberão um acréscimo no benefício de modo que sua renda atinja os 70 reais per capta. Com isso, a presidente Dilma Rousseff dá corpo ao que pode ser uma poderosa arma eleitoral nas eleições de 2014.

O governo considera miseráveis aqueles que têm renda per capita abaixo de 70 reais por mês, seguindo uma classificação estipulada pelo Banco Mundial, que fala em um dólar diário por pessoa. Ou seja: pelo critério dos burocratas, bastam 280 reais mensais – menos de um salário mínimo – para tirar da miséria um casal com dois filhos. Com a nova medida, todas as famílias cadastradas, independentemente do número de integrantes e da renda atual, terão a garantia de que a faixa dos 70 reais per capita será alcançada.

Até hoje, essa garantia não existia: mesmo após a criação do programa Brasil Carinhoso, apenas as crianças e jovens com até 15 anos contavam para o cálculo do benefício. Com a mudança anunciada nesta terça, uma família de cinco pessoas e renda mensal de meio salário mínimo (339 reais) receberá um complemento de apenas onze reais por mês. É o que basta para sair da miséria estatística. Pelo critério do governo, um pai de família que recebe o salário mínimo (678 reais) pode sustentar outras oito pessoas sem entrar nas estatísticas da pobreza extrema.

O próprio governo ainda admite que, até 2014, será preciso incluir nos programas sociais federais cerca de 700.000 de famílias (2,5 milhões de pessoas) que ainda não recebem o benefício. São os miseráveis “invisíveis”.

“O Brasil vira uma página decisiva da nossa longa história de exclusão social”, afirmou a presidente Dilma Rousseff durante o anuncio da medida. Mais uma vez, Dilma fez críticas indiretas  seus adversários políticos: disse que os programas sociais anteriores ao governo do PT eram “precários”,  atacou o “disse-me-disse da pequena política”, fez menção aos “modelos ultrapassados”. “Vamos entrar para a história como um dos países que, de forma determinada, eliminou do seu território a pobreza extrema”.

O governo elaborou um decreto e uma Medida Provisória ao Congresso para formalizar as alterações no programa. Ambas as medidas serão publicadas no Diário Oficial desta quarta-feira.

Reeleição
A extensão do Bolsa Família significará um acréscimo de 773 milhões de reais aos gastos do governo em 2013. A erradicação da “pobreza extrema” é a principal promessa de campanha da presidente Dilma Rousseff, que pretende transformar o tema em uma arma para sua reeleição.

O material de divulgação elaborado pelo governo já deixa pronto o discurso para a campanha eleitoral de 2014: o governo Dilma retirou da miséria 22,1 milhões de pessoas. Dessas, 19 milhões deixaram a pobreza extrema como decorrência do programa Brasil sem Miséria, que fornece benefícios adicionais a participantes do Bolsa Família. Ainda assim, restavam 2,5 milhões de miseráveis integrados ao Bolsa Família – agora beneficiados pelo novo projeto do governo.

Por Reinaldo Azevedo

 

Eles são essencialmente ditadores fascistoides; só lhes falta a oportunidade. Ou: as falas de um deputado do “povo” e de um “intelectual”, ambos do PT e defensores da ditadura

 

Vejam este vídeo. Este é o deputado federal Valmir Assunção, do PT da Bahia. Ele está justificando e defendendo as violências de que Yoani foi vítima. Veja. É rápido. Volto em seguida.

Voltei
Ele é um velho conhecido dos leitores do blog.

Em 2011, o MST invadiu a Secretaria da Agricultura da Bahia e por lá foi ficando. O governador Jaques Wagner mandava comprar centenas de quilos de carne para aliumentá-los. Escrevi aqui um post óbvio, coisa que qualquer pessoa decente faria: todos os baianos pobres que quisessem comer carne todos os dias deveriam invadir um prédio público, ora. O tal Assunção se abespinhou e resolveu me mandar uma carta. Eu a publiquei neste blog com um título saboroso: “Querem dividir comigo um deputado baiano em postas, ao molho de dendê e muita pimenta? Sirvam-se.” Assunção, parece, confunde violência com democracia.

Aí alguém dirá: “Ora, Reinaldo, vê-se que é um homem do povo, sem muita instrução; certamente não é um intelectual do PT”. Muito bem! Então vamos a alguém que teve acesso a estudo, instrução, literatura política e que sabe distinguir, também no campo teórico, a democracia da ditadura — escolhendo a ditadura.

Ontem, no programa “Entre Aspas”, da GlobNews, Mônica Waldvogel mediou um debate entre dois jornalistas sobre os protestos — que chamo de atos delinquentes — contra a blogueira Yoani Sánchez: o sempre excelente Sandro Vaia, de sólidas tradições democráticas, e o petita Breno Altman, que é, assim, uma espécie de José Dirceu com um pouco mais de bibliografia, o que não melhora seus argumentos. Só os torna mais patéticos.

Vaia disse, com a clareza de sempre, o que tem de ser dito: ao “outro” (aquele que pensa diferente de nós), nos limites do que estabelecem e garantem a Constituição e as leis num regime democrático, tem de ser assegurado o direito à palavra. Impedir que se manifeste na base  da gritaria, da vaia e da ameaça de agressão é coisa típica de fascistas.

Não para Breno Altman, que expressou uma noção muito particular do que seja democracia: para ele, se não houver agressão física — vejam o programa quando estiver na rede —, tudo é permitido. Segundo o petista, as pessoas que impediram Yoani de falar estavam apenas “exercendo” a democracia. Demonstrando notável ignorância sobre o que estabelece a Constituição Brasileira — por que ele daria bola pra ela, não é mesmo? —, reiterou que só no caso de haver pancadaria é que estaria havendo desrespeito à lei.

E Breno, acreditem, pontuava a fala de Vaia com perguntas em tom indignado: “Alguém saiu ferido? Alguém saiu espancado?”. Revelou ainda mais sobre a sua concepção do que é democracia. Não! Para ele, o regime democrático não é uma sociedade de direito, que respeita o que está escrito. Afirmou que, se houvesse um grupo maior que aplaudisse Yaoani, então esses aplausos superariam as vaias e pronto! Vence quem tem mais gente para fazer barulho. Breno Altaman não reconhece o direito que as pessoas têm de expressar uma opinião. Na sua concepção, quem pode mais chora menos; quem ganhar leva. Se você quiser falar, tem de ter uma tropa de choque maior do que a de seu adversário.

Ninguém disse a Breno Altman que a democracia é justamente o contrário disso, vale dizer: É O REGIME, SENHOR BRENO, EM QUE SE ASSEGURA A PALAVRA À MINORIA. A democracia, senhor Breno Altman, é o regime, perdoe-me o clichê, em que a força do argumento tem de superar o argumento da força. Altman, considerado um “intelectual” petista, acha que só fala quem tem a tropa de choque maior.

O que nos diz a história
Escrevi aqui um post muito reproduzido, inclusive fora do Brasil — enviaram-me traduções, o que me honrou —, sobre os 80 anos da chegada de Hitler ao poder. Nesse texto, partindo da indagação famosa — “Onde estava Deus diante daquele horror?” —, fiz uma outra: “Onde estavam os homens, que se calaram?” É concluí: “Não podemos mudar Deus, mas podemos mudar os homens”. A mim, pois, importa menos o que foi chamado o “silêncio de Deus” do que o silêncio dos homens. Reproduzo trecho (em azul).

Antes que [Hitler] se tornasse um homicida em massa, a França e a Inglaterra aceitaram que anexasse a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia. Assinaram com ele um “acordo de paz”. E se fez silêncio. No ano seguinte, ele entrou em Praga e começou a exigir parte da Polônia. Depois vieram Noruega, Dinamarca, Holanda, França… É que haviam feito um excesso de silêncios.
– Silêncio quando, em 1º de abril de 1933, com dois meses de poder, os nazistas organizaram um boicote às lojas de judeus.
– Silêncio quando, no dia 7 de abril deste mesmo ano, os judeus foram proibidos de trabalhar para o governo alemão. Outros decretos se seguiram — foram 400 entre 1933 e 1939.
– Silêncio quando, neste mesmo abril, criam-se cotas nas universidades para alunos não alemães.
– Silêncio quando, em 1934, os atores judeus foram proibidos de atuar no teatro e no cinema.
– Silêncio quando, em 1935, os judeus perdem a cidadania alemã e se estabelecem laços de parentesco para definir essa condição.
– Silêncio quando, neste mesmo ano, tem início a transferência forçada de empresas de judeus para alemães, com preços fixados pelo governo.
– Silêncio quando, entre 1937 e 1938, os médicos judeus foram proibidos de tratar pacientes não judeus, e os advogados, impedidos de trabalhar.
– Silêncio quando os passaportes de judeus passaram a exibir um visível “j” vermelho: para que pudessem sair da Alemanha, mas não voltar.
– Silêncio quando homens que não tinham um prenome de origem judaica foram obrigados a adotar o nome “Israel”, e as mulheres, “Sara”.

(…)

Voltei
Não! Não faço essa lembrança aqui porque Breno Altman é judeu. Se ele fosse alemão ou, a exemplo deste escriba, um vira-lata que mistura italiano, índio, francês e lá sabe Deus o quê nas estradas desse interiorzão, não seria diferente. A comunidade judaica me conhece o bastante para saber que não sou o tipo de provocador que acha que os judeus “têm” de pensar isso ou aquilo. Espero que todos os homens pensem como pessoas livres. De resto, eu e Breno não concordamos também sobre Israel. Ele já escreveu coisas como esta: “(…) considero inaceitável e indigno que o Holocausto sirva de álibi para que o Estado de Israel comporte-se com o povo palestino com a mesma arrogância e a mesma crueldade que vitimaram os judeus.” JÁ EU CONSIDERO INACEITÁVEL E INDIGNO ESSE PENSAMENTO para qualquer homem — judeu ou não. Infelizmente, nesse artigo, ele fez questão de lembrar a sua origem, como se isso tornasse menos detestável o que disse. É evidente que ele compara os palestinos de hoje aos judeus do Holocausto e o governo israelense aos nazistas. Viola, no meu entendimento, os fatos e a moral.

Lembro o texto que escrevi porque, boa parte das ações dos nazistas acima listadas foi perpetrada “sem violência física”. Respondendo às indagações de Breno no “Entre Aspas”, em boa parte delas, “ninguém saiu ferido”, “ninguém saiu espancado”. Tratava-se “apenas” de violações de direitos fundamentais — e expressar uma opinião é um direito fundamental. Seguindo o pensamento de Breno no “Entre Aspas”, os nazistas só avançaram porque os judeus da Alemanha não conseguiram mais “gente para vaiar” o governo do que as que havia para aplaudir. Seguindo o pensamento de Breno Altman no Roda Viva, boa parte das violências praticadas contra os judeus estaria, então, compreendida no escopo da democracia. E a gente viu em que resultou aquela coisa toda.

Contradição fundamental
Breno é um dos militantes inflamados em favor do “controle social” da mídia. Ontem, ele estava numa emissora da Rede Globo defendendo o que entendia ser “o direito” de um grupo de impedir alguém de expressar sua opinião. Dá para ter uma ideia do que faria Breno se, um dia, seus valores triunfassem e se tivesse, então, o tal controle social…  É claro que não haveria lugar para um Sandro Vaia numa TV que fosse comandada por ele.

Vale dizer: alguém como Breno Altman só fala numa emissora de TV porque aqueles que ele considera seus adversários não empregam com ele o critério que ele empregaria com eles.

Sei lá se um dia essa gente vai conseguir se impor pela força do berro, que Breno chama “democracia”.  Uma coisa é certa: eles nunca vencerão no argumento, porque o argumento nasce da aceitação tácita da divergência. E eles não querem vencer seus adversários. Querem é destruí-los, reduzi-los ao silêncio.

Querem é o fim da sociedade do argumento.

Por Reinaldo Azevedo

 

Yoani Sánchez vai ao Congresso Brasileiro nesta quarta a convite dos tucanos

 

Por Denise Madueño e João Domingos, no Estadão Online:
A blogueira Yoani Sánchez confirmou uma visita ao Congresso nesta quarta-feira, 20, para falar de sua luta pela liberdade em Cuba. Vítima de hostilidades organizadas pelo PT e pelo PC do B, que até impediram a exibição em Feira de Santana (BA) de um filme em que ela é protagonista, Yoani confirmou presença no Congresso depois de contatos com o deputado Otávio Leite (RJ) e com o senador Álvaro Dias (PR), ambos tucanos.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), comprometeu-se a pôr em votação na sessão desta quarta um requerimento solicitando que a Polícia Federal proteja a blogueira cubana durante sua permanência em território brasileiro. Henrique Alves levará ao plenário um texto alternativo ao requerimento original apresentado nesta terça pelo deputado Mendonça Filho (DEM-PE), que não foi aceito por setores governistas. “Essa não é uma questão de oposição ou de governo. (O tratamento a Yoani) está constrangendo o Brasil todo. Não é tradição do povo brasileiro (esse tipo de manifestação)”, afirmou Henrique Alves.

“Ela tem sido agredida no País e não aceitamos isso. Yoani Sánchez é uma cidadã estrangeira, dissidente do regime ditatorial cubano e que deve ter total proteção do Estado democrático brasileiro”, afirmou Mendonça Filho. No requerimento, o deputado também pediu à PF que investigue a atuação de Augusto Poppi Martins, assessor do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência), na participação de um suposto plano de espionagem e perseguição política à blogueira, em articulação com o governo de Raúl Castro.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), divulgou nota de apoio a Yoani, “símbolo da luta pela democracia em seu país”. Ele considerou “inadmissíveis” as manifestações como a ocorrida em Feira de Santana, quando militantes do PT e do PC do B impediram a exibição de um filme com um depoimento da blogueira.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

 

Deputado pede proteção da PF para Yoani; presidente da Câmara quer texto que não melindre parlamentares do PT e do PC do B…

 

O deputado federal Mendonça  Filho (DEM-PE) decidiu encaminhar à Mesa da Câmara um requerimento pedindo que a Polícia Federal assuma a proteção à blogueira cubana Yoani Sánchez durante sua estada no país e que investigue a atuação de um funcionário da Secretaria-Geral da Presidência — Ricardo Augusto Poppi — no plano de espionagem e perseguição política articulado pela embaixada de Cuba no Brasil.

Em seu texto, afirma Mendonça Filho:
(…)
Conforme denúncia publicada pela revista VEJA desta semana, integrantes do governo cubano e militantes do PT forjaram uma trama para desmoralizar Yoani Sánchez durante a visita da blogueira dissidente ao Brasil. A conspiração envolve até um assessor direto do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e a produção de um dossiê com 235 páginas. As denúncias da Veja dando de uma articulação de militantes de esquerda contra a blogueira vem sendo confirmadas com protestos promovidos por seguidores do PT e do PCdoB. (…)Desse modo entendemos que cabe a Polícia Federal fazer essa proteção à blogueira cubana para impedir agressões físicas e qualquer ato de intolerância política como a que impediu a exibição do documentário “Conexão Cuba Honduras” (…)  e investigar as denúncias formuladas pela VEJA, consideradas gravíssimas, uma vez que envolvem funcionários de área estratégica do Governo Brasileiro, numa ação de espionagem e perseguição política. Fato inaceitável para o Brasil, um Estado democrático de direito.”

Voltei
Tudo o que acima é absolutamente verdadeiro e factual, mas o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pediu a Mendonça Filho que espere até amanhã. Ele pretende apresentar um texto que não melindre os deputados do PT e do PCdoB. Sei. Os valentes se melindrariam exatamente com o quê? Com os fatos? Com a verdade?

Vamos ver o texto alternativo que o presidente da Câmara vai propor.

Por Reinaldo Azevedo

 

Poppi, o homem do Carvalho na reunião para difamar Yoani, recebeu mais de R$ 5 mil do nosso dinheiro para ir a Cuba

 

Sabem o tal Ricardo Augusto Poppi Martins, o assessor de Gilberto Carvalho que participou da reunião orquestrada pela embaixada de Cuba para difamar Yoani Sánchez? Pois é… Em seguida, ele viajou para Cuba para participar de uma “seminário” sobre o uso da Internet em ações políticas. Notável! Um homem de Carvalho vai a uma ditadura debater como usar as redes sociais na política… É asqueroso!

O site Contas Abertas revela que o rapaz recebeu R$ 5 mil de ajuda de custo para a sua viagem. Ficou com nojo, leitor? É compreensível.

Por Gabriela Salcedo:
O servidor da Secretaria Geral da Presidência, Ricardo Augusto Poppi Martins, recebeu da União R$ 5.095,10 para se hospedar em Havana, capital de Cuba, sete dias após ter participado de reunião na embaixada cubana em Brasília, quando foi distribuído CD com conteúdo difamatório sobre a bloggueira Yoani Sánchez.

Martins trabalha na Secretaria desde maio de 2011 e ganha cerca de R$ 6,8 mil brutos mensalmente para exercer o cargo de Coordenador de Novas Mídias e outras Linguagens de Participação. Ele viajou a Cuba no dia 10/02 e reservou hospedagem em hotel por oito dias, recebendo para tal diárias de U$ 320. Na ordem bancária obtida Siafi (Sistema Integrado de Administraçao Financeira da Secretaria do Tesouro Nacional) não está descrita a natureza da viagem.

A Secretaria confirmou que o servidor participou, quatro dias antes de viajar, no dia 6 de fevereiro, de uma reunião na embaixada cubana, em Brasilia, quando o foi entregue um CD que continha informações sobre Yoani Sánchez. Entretanto, conforme reportagem do periódico O Globo (19/02/13), o órgão não informou o conteúdo do disco e apenas se limitou a dizer que Martins foi a Cuba participar de um seminário sobre redes sociais, sem relação com a reunião.

O Contas Abertas solicitou à Secretaria Geral da Presidência uma cópia do CD entregue ao servidor, porém, até o fechamento desta reportagem, o material não foi encaminhado.

Já a revista Veja, que teve acesso ao CD, afirma que o conteúdo é difamatório e que a reunião foi coordenada pelo embaixador de Cuba, Carlos Zamora Rodríguez e pelo conselheiro político da embaixada, Rafael Hidalgo, junto a alguns representantes de organizações políticas do PT, PCdoB e CUT. A reunião teria como objetivo disseminar fatos supostamente negativos relacionados à blogueira.

A reunião, segundo a revista semanal, incentivou os participantes a organizarem campanha difamatória sobre Yoani, apoiada principalmente por meio de mídias sociais. Para tanto, distribuiu a cada um dos presentes uma cópia do CD contendo dossiê de 235 páginas a respeito da blogueira, composto por fotos pessoais, montagens e, inclusive, acusações de “mercenária” e de fazer uso de sua luta para conquistar uma vida luxuosa. Por fim, ambos os periódicos citados denunciaram suposto plano do governo de Cuba, para vigiá-la durante sua visita ao Brasil.

O Contas Abertas entrou em contato com a Embaixada Cubana para esclarecer a natureza da reunião realizada no dia 6 e para conhecer o conteúdo do CD distribuído na ocasião. Entretanto, a Embaixada informou que tanto Rodríguez como Hidalgo não se encontravam e não havia ninguém que poderia falar por eles. Até o fechamento desta reportagem, a Embaixada não retornou.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

As omissões da imprensa nos atos fascistoides contra Yoani, cujo planejamento contou com a presença de um assessor de Carvalho. Ou: Honre a faixa do peito, presidente, e chame a Polícia Federal! Ou ainda: Uma obrigação moral de deputados e senadores de oposição

Uma súcia de fascistoides recebeu a blogueira Yoani Sánchez com gritos, xingamentos e dólares nas mãos quando ela desembarcou, na madrugada de ontem, no aeroporto Guararapes, em Pernambuco. De lá, ela seguiu para Feira de Santana, na Bahia, onde assistiria à pré-estreia de um filme que trata justamente da agressão à liberdade de expressão. O evento, previsto para a noite de ontem, não aconteceu. Mais uma vez, uma tropa de choque formada por petistas e militantes do PC do B a hostilizou. Ela teve de se retirar para uma sala reservada para não ser agredida. Então ficamos assim: uma mulher que comete o crime de defender a liberdade de expressão numa ditadura é impedida de se pronunciar num país livre por gorilas do oficialismo, sob as ordens da embaixada de Cuba e com a conivência — o nome é esse mesmo! — do governo federal. Se Dilma Rousseff honra a faixa que enfeitou seu peito no dia da posse, dá um de seus supostamente famosos tapas da mesa, chama José Eduardo Cardozo, que é ministro da Justiça e não cavalo de parada para desfiles garbosos, e determina que a Polícia Federal faça a segurança da cubana e impeça a canalha fascista de rasgar a Constituição. Se assistir inerme a essa violência, Dilma estará dando razão prática àqueles que, no passado, também violaram a lei para constrangê-la. Aliás, presidente, Yoani vem de um governo em que se torturam e se matam pessoas na cadeia por crimes de opinião. É simples assim. Nos atos de selvageria, presidente, contra Yoani — que teve o cabelo puxado e o rosto tocado por notas de dólares —, há a marca vergonhosa e indelével do seu governo. Tudo é lastimável, inclusive o que vem agora: boa parte da grande imprensa brasileira se tornou moralmente corresponsável pelas violências de que Yoani foi e ainda pode ser alvo. Por quê?

VEJA chegou aos leitores na manhã do sábado. Nas primeiras horas do dia, este blog já publicava um post denunciando a reunião havida na embaixada de Cuba, em Brasília, sob o comando do embaixador Carlos Zamora Rodríguez. Vocês conhecem a história. Disquetes com um dossiê contra Yoani foram distribuídos, e se combinaram ali atos de protesto contra a presença da blogueira no Brasil. Yoani é acusada de coisas graves, como ser agente do imperialismo, estar sob a influência da CIA, tomar cerveja com amigos, ir à praia e comer bananas… Os totalitários, com o tempo, evoluem para o terreno demencial. Havia lá um funcionário graduado do governo Dilma. Trata-se do coordenador de Novas Mídias da Secretária-Geral da Presidência, Ricardo Augusto Poppi Martins, que viajou para Cuba em seguida. Voltou ontem. A pasta de Gilberto Carvalho emitiu uma nota espantosamente mentirosa sobre o caso, na qual havia uma única verdade: a confirmação de que o tal assessor participara mesmo da reunião. Rodríguez confessou uma outra ilegalidade: afirmou que agentes cubanos acompanham cada passo de Yoani no Brasil.

Reação pífia, mesquinha, indigna
A reação da chamada grande imprensa nestes três dias foi pífia, mesquinha, indigna. As TVs ignoraram o assunto até — se perdi alguma coisa antes, avisem-me — a reportagem levada ao ar pelo “Jornal da Globo” no começo da madrugada desta terça. Os grandes jornais dispensaram ao caso um tratamento frio, burocrático, ridículo. Nestes tempos de surrealismo noticioso, houve quem tivesse o capricho de dar como notícia a primeira nota da Secretaria-Geral da Presidência  (ela emitiu duas) sem ter informado antes o que trazia a reportagem de VEJA. Ou por outra: ganhou mais relevância o desmentido engrolado do governo do que os fatos gravíssimos que tinham acabado de vir à luz. E que se note: mesmo a reportagem do Jornal da Globo ignorou a questão dos agentes cubanos que estão no encalço da blogueira, o que é estupidamente ilegal. “Mas quem garante que está?” O embaixador cubano! É ele quem está confessando um crime contra as leis brasileiras e o direito internacional.

A verdade lastimável é esta: a grande imprensa brasileira está perdendo os parâmetros de como funciona, e deve funcionar, uma sociedade aberta e está se amesquinhando. Ontem, no Twitter, alguns tontinhos da profissão, supostamente alinhados com um jornalismo mais “moderno”, dispensavam ao caso um tratamento jocoso, irônico, como se, de fato, isso tudo não tivesse a menor importância. Toma-se o direito essencial do longo Artigo V da Constituição — uma cláusula pétrea — como matéria menor. Um jornalismo que avalia não ser precisar dar destaque à presença de um assessor ministerial numa reunião realizada numa embaixada de uma tirania com o objetivo de desqualificar uma militante dos direitos humanos; um jornalismo que avalia não ser preciso dar destaque à presença de agentes da polícia política de um país estrangeiro no encalço de alguém que entrou legalmente em nosso país, um jornalismo que comete essas omissões já está descolado de sua missão; já não merece mais esse nome;  já está perdido para a causa democrática. ESSE JORNALISMO NÃO PRECISA MAIS DO CONTROLE SOCIAL DA MÍDIA, COMO QUEREM OS FASCISTAS, PORQUE, INFELIZMENTE, JÁ ESTÁ CONTROLADO!

O que se passa? O setor perdeu o brio? A vergonha? As referências? Vive também ele sob a patrulha de um partido e, no fundo, desconfia que Yaani não seja, assim, flor que se cheire? Olhem aqui: aqueles vagabundos que foram impedir a blogueira cubana de falar não têm tanta importância; noticiar a bagaunça que armaram também serve para promove-los. Eles vão se sentir orgulhosos, como todo criminosa gaba a própria obra. A notícia relevante, que rendeu uma alentada reportagem de VEJA, era justamente as patas no governo cubano nessa mobilização, a presença de um assessor de Carvalho na reunião e a atuação de agentes estrangeiros em nosso país, ao arrepio da lei. Essa era a notícia!!! Essas eram as coisas que tinham de ser cobradas de Gilberto Carvalho e do governo Dilma.

Quais critérios explicam a omissão? Se alguém tiver alguma justificativa razoável, juro que publico aqui com destaque. Por que tanto silêncio? Por que tanta covardia? Os líderes da bagunça armada em Feira de Santana dizem que vão continuar — ENTENDEU, PRESIDENTE DILMA? Eles confirmam que vão seguir as ordens recebidas do embaixador cubano, contra o que estabelece a Constituição Brasileira.

Essa gritaria promovida contra Yoani revela, uma vez mais, a alma profunda dessa gente e diz, com clareza absoluta, quem são eles e quem foram no passado. Este é um país em que está em curso uma dita Comissão da Verdade, que procura avançar sempre um pouquinho mais na tentativa de rever, ao arrepio da Constituição, a Lei da Anistia. A comissão que está aí existe para tornar heróis os amigos e tornar bandidos os inimigos. Somos obrigados a ler, por exemplo, que os comunistas de então queriam democracia… Ninguém deveria ter sido torturado por isto, é evidente, mas democracia não queriam. Tanto assim era que não a querem até hoje. Por isso estão aí, impedindo Yoani de falar. E, dizem eles próprios, agem assim em “defesa da revolução socialista cubana”. Perfeito! Se os comunistas tornados heróis pela Comissão da Verdade tivessem vencido, teria vigido Brasil — e talvez estivesse ainda em vigência — um modelo como o… cubano! As esquerdas reivindicam o monopólio do direito de matar, o monopólio da censura, o monopólio da fala e, não poderia ser diferente, o monopólio da verdade.

Oposições
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) protocolou nesta segunda na Mesa Diretora do Senado requerimento para que os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-geral da Presidência) e Antonio Patriota (Relações Exteriores) prestem esclarecimentos aos parlamentares sobre a atuação do governo brasileiro no complô contra Yoani. Está certo. Mas os partidos de oposição precisam fazer mais. A partir desta terça,É UMA OBRIGAÇÃO MORAL HAVER REPRESENTANTES DO PSDB, DO PPS E DO DEM ACOMPANHANDO OS PASSOS DA BLOGUEIRA. É preciso que lhe emprestem apoio contra os gorilas nativos que a perseguem, contra os gorilas cubanos que a perseguem, contra o gorilismo oficial que a persegue.

Ontem, no Jornal da Globo, vi um senador Eduardo Suplicy (PT-SP) exaltado contra aqueles que hostilizavam Yoani. Aprecio o seu gesto. Mas não seria quem sou se tivesse a memória fraca. Em 2009, a blogueira foi convidada para o lançamento de um livro seu no Brasil, e o governo cubano não permitiu que deixasse a ilha. A Comissão de Constituição e Justiça aprovou, então, uma moção de repúdio ao governo cubano. Só um senador votou contra: Inácio Arruda (PCdoB-CE). E um se absteve: Suplicy afirmou que apoiava o protesto, mas que preferia ouvir antes o embaixador de Cuba… A atitude de ontem serviu para minorar aquela decisão lamentável.

Volto à imprensa para encerrar
Algo está fora do lugar em muitas áreas da imprensa. Há dias, o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez Averláiz, participou de um ato CONTRA A JUSTIÇA BRASILEIRA E CONTRA AS OPOSIÇÕES. Sim, era esse o teor da patuscada armada por José Dirceu. A exemplo de seu colega cubano, Averláiz desrespeitava as leis brasileiras e rasgava as leis internacionais sobre a representação diplomática. Na imprensa brasileira, com as exceções de praxe, parecia que ele estava dizendo um “hoje é terça-feira”…

“Ah, que importância tem isso? Meia dúzia de dinossauros comunistas, o que inclui até um palhaço fantasiado de Che Guevara, fazendo um barulhinho…” Errado! Um funcionário do Palácio do Planalto, assessor graduado do secretário-geral da Presidência, participou de uma conspirata numa embaixada estrangeira e ouviu do seu titular que agentes estrangeiros perseguem uma pessoa que entrou legalmente em nosso país e que está protegida, enquanto aqui estiver, pelas leis brasileiras. Se isso não é notícia, o que é notícia?

Coragem, jornalismo!
Coragem, senadores e deputados de oposição!

Por Reinaldo Azevedo

Silas Malafaia e a agressão à democracia – A Avaaz, o site internacional de petições, sob o comando, no Brasil, de Pedro Abramovay, está desmoralizado. Veja como e por quê. Ou: Como usar Renan Calheiros para ocultar algo… pior do que Renan: a ditadura do falso consenso!

Caros leitores, vai um texto longo. Mas prestem muita atenção porque ele trata de uma questão cada vez mais relevante no Brasil: a qualidade da nossa democracia, que está sendo assaltada pelos capitães do mato do politicamente correto

Não, eu não sabia que Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça e defenestrado por Dilma da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas porque defendeu a não prisão de “pequenos traficantes” (???), é agora “diretor de campanhas”, no Brasil, da Avaaz, uma entidade internacional de petições online. A campanha mais bem-sucedida do grupo é a que pede o impeachment do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Eu mesmo publiquei aqui muitos posts a respeito, com link para a petição. É evidente que a gente pode ser contra a permanência de Renan na presidência do Senado sem precisar se alinhar com Pedro Abramovay. E eu não me alinho com ele por uma penca de motivos. Gosto de clareza e rejeito gente que faz tráfico de ideias. Acho que este rapaz é partidário do totalitarismo ilustrado. E vou dizer, mais uma vez, por quê — há um motivo novo, estupefaciente! Entendo, agora com mais detalhes, por que a petição contra Renan penetrou tão facilmente nos grandes veículos. O moço tem “contatos na mídia” — mais do que muitos imaginam. Sabe ser “de confiança” para a esquerda e para setores do que já se chegou a chamar “direita”. É um bico doce! Bem, resta uma conclusão neste primeiro parágrafo: se Abramovay é um dos comandantes da Avaaz, isso quer dizer que parte da pressão para derrubar Renan Calheiros — ainda que isso possa ser justo — parte do próprio… PT! Não, isso não me fará apoiar Renan. Mas convém não ser ingênuo. Se Abramovay é filiado ou não ao partido, isso é irrelevante. O fato é que se trata de um seu fiel servidor. A entidade que ele dirige fez um troço escandaloso. Ele não tem como se desmoralizar; a Avaaz, sim! Antes que entre no caso, um pouco mais de memória.

Abramovay ainda estava na Secretaria Nacional de Justiça e de malas prontas para se transferir para a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas quando concedeu uma entrevista ao Globo defendendo o fim da prisão para pequenos traficantes. Seus amigos tentaram negar que o tivesse feito. Fez. Dilma o demitiu — uma decisão correta; eu a apoiei então. Procurem nos arquivos e encontrarão. Esse moço é o inspirador de uma campanha que foi parar na televisão chamada “é preciso mudar”, que defende, na prática, a descriminação do consumo de drogas, ainda que tente edulcorar a proposta. Num tempo em que o país se vê às voltas com o flagelo do crack, os valentes acham que essa é um boca causa…

Não só isso. Abramovay também está entre aqueles que acham que o Brasil prende demais —  os números demonstram que prende é de menos. Quando um surto de violência tomou conta de São Paulo, ele preferiu voltar as suas baterias contra o governo estadual, não contra os bandidos. É que ele era um dos divulgadores da tese — e disse isso em entrevista ao jornal O Globo (de novo!) — de que a taxa de homicídios no estado estava entre as mais baixas do país porque quem continha os assassinatos era o PCC… Também deixava entrever a suspeita de que haveria uma espécie de pacto entre a Secretaria de Segurança e o crime organizado. Como setores da imprensa afinados ideologicamente com ele lhe dão trela, a cobertura jornalística viveu um momento notavelmente esquizofrênico: de um lado, o governo do estado era acusado de patrocinar uma guerra cega contra os bandidos; de outro, era acusado de ter feito um pacto com eles. Em qualquer dos casos, quem apanhava era a polícia. Abramovay fez parte — e, em certa medida, foi seu articulador intelectual (dou crédito a quem merece!) — da campanha que resultou na queda de Antônio Ferreira Pinto, então secretário da Segurança Pública. Vejam que não acuso este rapaz de cometer crime nenhum. É possível alimentar ideias moralmente dolosas, pelas quais não se pode nem se deve ser punido. Mas o debate? Ah, esse tem de ser feito.

Vai acima uma pequena síntese das causas deste valente e de sua inegável influência na imprensa. Nem poderia ser diferente. Apareceu como um geniozinho do direito pelas mãos de Márcio Thomaz Bastos, aquele que era ministro da Justiça quando explodiu o caso do mensalão e que depois se tornou o advogado da fatia mais abastada, sem trocadilho, dos mensaleiros. Havendo alguma inverdade nesta breve síntese sobre o doutor sênior, ouvirei com cuidado. Mais: Abramovay é tido como gênio sem que precise demonstrá-lo. É porque dizem que é… Cadê a obra?

Vamos ao caso de agora
Todos conhecem o pastor Silas Malafaia. Ele é formado em psicologia e tem o devido registro profissional. Muito bem! Malafaia tem algumas opiniões que, de modo absoluto e irrecorrível, não coincidem com as minhas. E, evidentemente, concordamos em muita coisa. Destaco a concordância: ambos somos defensores radicais da liberdade de expressão e críticos severos do tal PLC 122 (a suposta lei anti-homofobia), que, se aprovado, pode mandar alguém para a cadeia por motivos meramente subjetivos. Já escrevi a respeito e não vou me alongar. E destaco uma das radicais discordâncias: Malafaia acredita que homossexuais possam ser reorientados — como deixou claro em recente entrevista a Marília Gabriela, que bombou no YouTube. Eu não acredito. As pessoas são o que são — e acho que permanece um mistério a causa. Acho, sim, que cada indivíduo pode disciplinar a sua sexualidade e, então, fazer escolhas.  Assim, eu não aprovo, não endosso nem defendo o trabalho de psicólogos que se dedicam a reorientar a sexualidade de seus pacientes.

Proibir, no entanto, que psicólogos atuem na “reorientação” junto àqueles que, voluntariamente, queiram se submeter a ela é uma violência antidemocrática, que fere a Constituição. Já escrevi um longo texto a respeito. O Conselho Federal de Psicologia aprovou uma resolução no dia 22 de março de 1999. Há lá coisas corretas e de bom senso e alguns absurdos. Reproduzo em azul trecho daquele post, em que transcrevo o Artigo 3º:
(…)
“Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”

Ora, isso é só bom senso. Quem poderá defender que alguém, no gozo pleno de suas faculdades mentais, possa ser submetido a um tratamento contra a sua vontade? Convenham: isso nem é matéria para um conselho profissional. Mas me parece evidente que a resolução avança o sinal e joga no lixo o Artigo 5º da Constituição quando determina, por exemplo, o que segue:
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Qual é o principal problema desses óbices? Cria-se um “padrão” não definido na relação entre o psicólogo e a homossexualidade. Esses dois trechos são tão estupidamente subjetivos que se torna possível enquadrar um profissional — e puni-lo — com base no simples achismo, na mera opinião de um eventual adversário. Abrem-se as portas para a caça às bruxas. Digam-me cá: um psicólogo que resolvesse, sei lá, recomendar a abstinência sexual a um compulsivo (homo ou hétero) como forma de livrá-lo da infelicidade — já que as compulsões, segundo sei, tornam infelizes as pessoas —, poderia ou não ser enquadrado nesse texto? Um adversário intelectual não poderia acusá-lo de estar propondo “a cura”? Podemos ir mais longe: não se conhecem — ou o Conselho Federal já descobriu e não contou pra ninguém? — as causas da homossexualidade. Se um profissional chega a uma determinada terapia que homossexuais, voluntariamente, queiram experimentar, será o conselho a impedir? Com base em que evidência científica? Há uma diferença entre “verdade” e “consenso da maioria influente”. Ademais, parece-me evidente que proibir um profissional de emitir uma opinião valorativa constitui uma óbvia infração constitucional. Questões ligadas a comportamento não são um teorema de Pitágoras. Quem é que tem o “a²= b²+c²” da homossexualidade? A resolução é obviamente autoritária e própria de um tempo em que se impõe a censura em nome do bem.

Retomo
Caras e caros, estão percebendo o que distingue uma sociedade democrática de uma sociedade totalitária, que, nos tempos modernos, se impõe com as vestes da democracia? Eu discordo de Silas Malafaia; eu discordo daqueles que acreditam na reorientação de homossexuais, mas me parece absurdo que um conselho profissional queira se imiscuir, desse modo, na relação entre paciente e psicólogo. Não existe isso em nenhum lugar do mundo!!! “Ora, Reinaldo, a Organização Mundial de Saúde não considera a homossexualidade uma patologia…” E daí? Ter o nariz torto, grande demais, pequeno demais ou o queixo arrebitado não são patologias também. Mas as pessoas podem estar infelizes com isso. Há gente que sofre porque é bonita demais, rica demais, famosa demais, essas coisas que, à primeira vista, parecem desejáveis aos feios, aos pobres e aos anônimos… O mundo é complexo.

O que pretendem? Um Esquadrão do Psicologicamente Correto a invadir consultórios para saber se o profissional está fazendo o trabalho como deve? POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, PRETENDEM, SIM, FAZER ALGO PARECIDO. E agora, finalmente, depois dessa longa explanação, chego a Pedro Abramovay.

Silas Malafaia e a Avaaz
Alguém lançou na página da Avaaz uma petição propondo a cassação do registro profissional de Silas Malafaia. Razão? As suas opiniões sobre a homossexualidade e a defesa que faz do que chama trabalho de “reorientação”. O próprio Conselho Federal de Psicologia já o ameaçou com isso, o que é, reitero, uma barbaridade. Debates assim não teriam a mínima chance de prosperar em países de cultura democrática consolidada.

Muito bem! No dia 9 deste mês, Ricardo Rocha lançou no mesmo site uma petição contra a cassação do registro. Ora, não é assim que as coisas devem funcionar? No escopo da democracia, alguns fazem petição a favor de terminadas causas, outras, contra. Pois bem: anteontem, aconteceu o que certamente a patrulha não esperava: os signatários favoráveis à manutenção do registro profissional de Malafaia (eu teria assinado com gosto se tivesse sabido a tempo, mesmo discordando radicalmente dele nesse particular) superaram, em número, os que queriam cassá-lo: 65.786 contra 55.000. E então se deu o ato indigno.

Ricardo Rocha, o criador da petição favorável à manutenção do registro de Malafaia, recebeu a seguinte mensagem da Avaaz, DIRIGIDA E DESMORALIZADA, NO BRASIL, por Pedro Abramovay (leiam com atenção!):
*
Olá RICARDO 
Obrigado por criar uma petição no site da Petições da Comunidade da Avaaz. Como está dito nos nossos Termos de Uso, nós somos uma comunidade não lucrativa baseada em valores e 100% financiada por pequenas doações de nossos membros. Como resultado, nós somos requeridos por lei e pela nossa comunidade a apenas promover campanhas que visam a nossa missão. Para ter a certeza de que estamos fazendo isso, nós enviamos petições para nossa comunidade todos os dias para pesquisar e checar se elas são apoiadas pela comunidade ou não.
Infelizmente, a maioria dos membros da Avaaz não apoiaram sua petição e, seguindo nossos Termos de Serviço, tivemos que removê-la de nosso site. Nós sentimos muito por isso e esperamos que isso não impeça sua participação ou criação de outras campanhas.
O texto da sua petição está abaixo desta mensagem. Você pode considerar recomeçá-lo num site comercial que não possui restrições legais sobre qual tipo de campanha eles podem promover como Care2.com, petitionsonline.com ou change.org.
Nossas sinceras desculpas,
A equipe da Avaaz

Voltei
Ah, bom! Então tá!

Atenção, meus caros! A primeira petição não era “favorável aos gays”, mas a favor da cassação do registro profissional de Malafaia. A segunda petição não era “contra os gays”, mas contra a cassação daquele registro.

Quando a Avaaz diz que só faz campanhas que visam “à sua missão”, cabe perguntar: uma de suas missões é cassar registros profissionais de pessoas das quais a “comunidade do site” discorda? A entidade, cuja sede é nos EUA, tem uma página gigantesca em que expõe os termos de uso, as questões legais e coisa e tal. Ali está escrito que a direção pode, sim, consultando seus membros, retirar ou recusar petições — desde que elas ofendam, segundo entendi, os princípios gerais ali expostos.

Ora, se alguma transgressão existe aos fundamentos da Avaaz, ela está justamente na petição que demoniza Silas Malafaia. Trata-se de uma agressão dupla: à sua formação de psicólogo e à sua condição de pastor. Estamos diante de uma soma de intolerâncias. Estamos falando de pessoas que não conseguem conviver com a divergência.

Não sei como se comporta a Avaaz no resto do mundo. Vou tentar saber. O que é certo é que o Pedro Abramovay, o chefe de “campanhas” da entidade no Brasil, acaba de desmoralizá-la. Não duvidem: se os que querem cassar Malfaia tivessem ganhando de goleada, a outra petição não teria sido retirada. É que, no jogo de que Abramovay é “árbitro”, só um lado pode vencer.

Concluindo
O caso ilustra esta era do fascismo do consenso. Embora, como se demonstrou até o momento em que a petição foi retirada do ar, a maioria estivesse contra a cassação do registro de Silas Malafaia, ficou valendo a voz da minoria que quer puni-lo, numa agressão óbvia à Constituição. O consenso vira a voz da minoria! Assim, no Brasil, a Avaaz deixa de ser um site de petições que vocaliza a opinião da sociedade civil, como eles pretendem, para se transformar num grupo de pressão que tem uma agenda política.

Eu não esperava outra coisa de uma entidade comandada por Pedro Abramovay ou que o tem como “diretor de campanhas”.

“Ah, mas e a causa meritória contra Renan Calheiros?” Bem, trata-se apenas de um caso em que a virtude serve para ocultar os vícios.

Lamento! A Avaaz está desmoralizada. Enquanto Pedro Abramovay for seu “diretor de campanha”, este blog não mais reproduzirá as suas petições, ainda que sejam feitas contra o demônio… De algum modo, o rabudo estará se beneficiando. Este blog encontrará formas certamente mais sinceras — e democráticas — de se opor ao Coisa Ruim. De resto, não sou tolo e sei que o site pode muito bem sobreviver sem mim. Não vou coonestar totalitários em pele de cordeiro.

No Brasil, a Avaaz deixou de ser a voz da sociedade civil para ser a dona de uma agenda política, como é o petista, pouco importa se só de coração ou também de carteirinha, Pedro Abramovay. A democracia de um lado só é a forma mais virulenta de ditadura. E eu dou um pé simbólico no traseiro de ditadores desde os 14 anos. Na prática, Abramovay e a Avaaz, no Brasil, não são diferentes desses delinquentes políticos e intelectuais que saem por aí agredindo Yoani Sánchez. Há a uni-los a intolerância com a divergência.

Por Reinaldo Azevedo

(relembre...):Yoani chega ao Brasil e é hostilizada por gorilas ideológicos pró-ditadura; assessor de Carvalho que participou de conspirata contra blogueira volta ao país

Yoani Sánchez, ao lado do cineasta Dado Galvão, chega ao Brasil: militantes pró-ditadura no encalço (Edmar Melo/EFE)

A blogueira Yoani Sánchez desembarcou na madrugada desta segunda no Aeroporto Internacional Guararapes, no Recife. Um bando de gorilas ideológicos —  é só metáfora; não pretendo ofender os bichos — resolveu hostilizá-la. Pertencem ao “Fórum de Entidades de Solidariedade a Cuba” e gritavam “Fora, Yoani”, acusando-a de ser agente da CIA. Um dos delinquentes tentou esfregar notas de dólares em seu rosto. A súcia cumpria as ordens do embaixador cubano no Brasil, Carlos Zamora Rodríguez, conforme relata reportagem de VEJA desta semana.

Quem também deve chegar hoje ao país é Augusto Poppi Martins, um dos coordenadores da Secretaria-Geral da Presidência. É auxiliar direto do ministro Gilberto Carvalho. Poppi esteve presente à reunião havida na embaixada de Cuba em que se organizou uma tramoia para desqualificar Yoani. O rapaz saiu de lá levando um disquete com um dossiê contra a cubana. Uma de suas especialidades é justamente a guerra na Internet. Poppi estava fora do Brasil porque participava de um seminário sobre o tema. Onde? Ora, em Cuba! Na reunião havida na embaixada, Rodríguez afirmou ainda que agentes cubanos estarão no encalço da blogueira enquanto ela estiver no Brasil. Tanto a reunião como a perseguição são ilegais. Trata-se de uma ofensa à soberania brasileira.

Vamos ver o que o que dirá a Secretaria-Geral da Presidência. As oposições já se mobilizaram para cobrar explicações do governo. Leiam texto sobre a chegada de Yoani publicado na VEJA.com.
*
Após cinco anos e 20 negativas do regime cubano de viajar para o exterior, a dissidente, jornalista e blogueira Yoani Sánchez chegou na madrugada desta segunda-feira ao Brasil, primeira parada de uma viagem de 80 dias que a levará a uma dezena de países da América e da Europa.

Depois de pegar um voo na Cidade do Panamá, Yoani, de 37 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional Guararapes, no Recife, onde foi recebida por amigos e pelo diretor Dado Galvão, que convidou a cubana para vir ao Brasil participar da exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras na noite desta segunda, em Feira de Santana (BA). Yoani é uma das entrevistadas do filme, que trata da falta de liberdade de expressão nos dois países. 

Acostumada a enfrentar a perseguição do regime comunista em seu país natal, onde já foi presa e torturada por escrever sobre as dificuldades do povo cubano provocadas pela ditadura dos irmãos Fidel e Raúl Castro, Yoani Sanchéz foi surpreendida no aeroporto por um protesto de um pequeno grupo de militantes em defesa da ditadura castrista e contra sua presença no Brasil.

No saguão, a militância do chamado “Fórum de Entidades de Solidariedade a Cuba” recebeu a blogueira com gritos de “Fora Yoani” e a acusou de ser agente da CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos. Em um ato grosseiro, um integrante do grupo tentou esfregar notas falsas de dólar no rosto da cubana, que reagiu de modo a valorizar a liberdade de expressão inexistente em Cuba: “Isso é a democracia. Queria que em meu país pudéssemos expressar opiniões e propostas diferentes com esta liberdade”.

Nos sete dias em que ficará no Brasil, no entanto, Yoani Sánchez não está livre das perseguições do regime cubano, como revela reportagem de VEJA desta semana. O governo de Havana escalou um grupo de agentes para vigiá-la e recrutou outro com a missão de desqualificar a ativista por meio de um dossiê com características patéticas – o documento a acusa de ir à praia em Cuba, tomar cerveja e aceitar premiações internacionais concedidas a defensores dos direitos humanos. O plano para espionar e constranger Yoani Sánchez foi elaborado pelo governo cubano, mas será executado com o conhecimento e o apoio do PT, de militantes do partido e de pelo menos um funcionário da Presidência da República.

Turnê
Do Recife, Yoani seguirá inicialmente em avião para Salvador e, de lá, irá de carro até Feira de Santana, cidade de 557.000 habitantes, a 116 quilômetros da capital baiana. A viagem da blogueira, uma das vozes mais críticas da ilha, foi possível devido à reforma migratória vigente desde o dia 14 de janeiro em Cuba.

No ano passado Yoani tentou visitar o Brasil para participar da apresentação do documentário e, apesar de receber o visto de entrada brasileiro, as autoridades cubanas voltaram a negar-lhe a permissão de saída. A blogueira terá no Brasil uma intensa agenda que inclui sua participação em conferências e debates sobre liberdade de expressão e direitos humanos, e também vai divulgar o livro De Cuba, com Carinho, uma coletânea de seus textos sobre o triste cotidiano do povo cubano.

Na quarta-feira ela fará turismo em Salvador e depois virá a São Paulo, onde tem atividades até sábado. A viagem de Yoani Sánchez pelo mundo também inclui México, Peru, Estados Unidos, República Tcheca, Alemanha, Suécia, Suíça, Itália e Espanha, onde entre outros eventos participará na cidade de Burgos de um congresso sobre internet entre 6 e 8 de março.

Por Reinaldo Azevedo

 

Direto ao Ponto

Celso Arnaldo: ‘A imagem de Yoani desembarcando no Recife vale mais que mil palavras que nunca foram ditas em Cuba’

Os manifestantes alugados para hostilizar a blogueira Yoani Sánchez trouxeram de volta à coluna o jornalista Celso Arnaldo Araújo. Único brasileiro especializado em dilmês, nosso grande caçador de cretinices deixou momentaneamente de lado a presidente que não diz coisa com coisa para cuidar das nulidades escaladas para berrar idiotices em aeroportos. Confira. (AN)

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Faltou destacar a pretensão imbecil desses esbirros de fanfarra cooptados pelo esquema petista-cutista-castrista para a desmoralização de Yoani Sánchez no Brasil. Imagine: eles tentaram intimidar uma moça que há mais de 15 anos não faz outra coisa além de arrostar, de cara lavada, e só munida de seu computador quase desconectado do mundo, uma das mais longas, impenetráveis, impermeáveis e sanguinárias ditaduras da história moderna.

Todo esse tempo, ela enfrentou burocratas suados e gorilas de verde oliva treinados para reprimir, calar, prender, torturar, arrancar e, em nome dos ideais do socialismo, castrar vozes e espíritos dissidentes – esta, a verdadeira especialidade dos Castros. Nunca cedeu, nunca esmoreceu. E, ironia da história: o governo de Cuba, ao finalmente autorizar a saída pacífica de Yoani, depois de dezenas de tentativas frustradas, pelo menos aparentemente demonstrou ser hoje mais tolerante à dissidência que esses cubanos falsificados que quase agrediram a moça na chegada ao Brasil.

Por isso, a imagem de Yoani Sánchez desembarcando no Recife vale mais que mil palavras que nunca foram ditas em Cuba. Para quem conhece a história de Yoani, não causou surpresa a indiferença altiva e serena com que ela reagiu às manifestações da turba mal ensaiada — que talvez tenha até contido sua agressividade natural, já que capaz de coisas muito piores, diante da revelação, na véspera, do complô contra ela. Escalados há tempos para a missão, não quiseram perder a viagem. Mal sabiam esses tipinhos à toa — ofensivos à nossa inteligência, mas inofensivos à ordem geral das coisas — que, aos ouvidos de Yoani, vozes discordantes, mesmo quando pífias e desafinadas, chegam a soar como uma cantata de Bach. Nesses 50 anos, quando ouvidas em Cuba, custaram aos donos das laringes emitentes uma longa temporada numa masmorra imunda e silenciosa.

A recepção vulgar e tacanha a uma jovem dissidente que luta pela liberdade de denunciar a falta de liberdade em Cuba não perturbou Yoani. Pelo contrário: com uma elegância democrática que chega a ser sensual, disse ter gostado até dos insultos que recebeu. E, assim que pisou aqui, mostrou-se deslumbrada com a rapidez da nossa banda larga. De seu celular, obteve conexão imediata. Tweet transmitido ontem de madrugada a seus 410 mil seguidores:

“Créanme que la experiencia de internet me tiene asombrada. Cómo es posible que mi país siga condenado a la desconexión?”.

Em seguida:

“Ahora ya entiendo mejor por qué tantos remilgos, demoras y censuras para abrir el acceso a internet para los cubanos”

Ok, algumas frases mais ressonantes impressionaram Yoani ao chegar ao Brasil — mas definitivamente não foram os xingamentos dos idiotas que tentaram esfregar notas falsas de dólar em sua cara e chegaram a puxar sua linda cabeleira. Tuitou Yoani, ao respirar e a escutar liberdade depois de tantos anos:

“Me asombró ver a varios empleados aeropuertarios de Brasil hablar en voz alta y francamente de política. Em Cuba hablan en un murmullo”.

O murmullo de Yoani finalmente ganhou corpo – a despeito dos sussurros trocados entre os prepostos dos Castros e dos Carvalhos, que tramaram contra ela, contra a liberdade, na Embaixada de Cuba em Brasília.

 

 Direto ao Ponto

Yoani sonha com o dia em que também os cubanos poderão manifestar-se livremente

A coluna transcreve o primeiro post de Yoani Sánchez sobre a viagem ao Brasil, enviado pelo nosso Reynaldo-BH. (AN)

“Llevar una bitácora de viaje es tan difícil como tratar de estudiar para un examen de matemáticas en el interior de una discoteca. Atenta a la nueva realidad que se muestra ante mis ojos desde que salí de Cuba, me he visto ante la disyuntiva de si vivir o narrar lo que me ocurre, actuar como protagonista de este itinerario o como periodista que lo cubre. Ambas ópticas son difíciles de llevar a la par, dada la velocidad y la intensidad de cada suceso, por lo que trataré de ir poniendo por escrito algunas impresiones. Hilachas de lo que me sucede, fragmentos a veces caóticos de lo que experimento.

La primera sorpresa en el programa fue en el aeropuerto José Martí de La Habana, cuando después de atravesar la taquilla de emigración varios pasajeros comenzaron a acercarse y a darme sus muestras de solidaridad. El afecto fue creciendo en la medida que el trayecto avanzaba y en Panamá encontré a unos venezolanos también muy cariñosos… aunque me pidieron de favor que no subiera la foto con ellos a Facebook… para no tener problemas en su país. Después de esa escala, vino el vuelo más largo hacia Brasil, con una sensación mental y física de descomprensión. Como si hubiera estado sumergida demasiado tiempo sin poder respirar y lograra tomar ahora una bocanada de aire.

El aeropuerto de Recife un lugar para el abrazo. Allí encontré a muchas personas que durante años me han apoyado en mi empeño de viajar fuera de las fronteras nacionales. Hubo flores, regalos y hasta un grupo de gente insultándome que me gustó mucho ─lo confieso ─porque me permitió decir que yo soñaba con que “algún día en mi país la gente se pudiera expresar públicamente así en contra de algo, sin represalias”. Un verdadero regalo de pluralidad, para mí que llego de una Isla a la que han intentado pintar con el monocromático color de la unanimidad. Más tarde me asomé también a una Internet tan rápida que casi no comprendo, sin páginas censuradas ni funcionarios mirando por el hombro la página que visito.

Así que hasta ahora todo va muy bien. Brasil me ha dado el regalo de la diversidad y del cariño, la posibilidad de apreciar y narrar tantos asombros.

Segue-se o texto em português:

Carregar um caderno de viagem é tão difícil como estudar para uma prova de matemática no interior de uma discoteca. Atenta a nova realidade que se mostra ante meus olhos desde que saí de Cuba, vi-me ante a alternativa de viver ou narrar o que me ocorre, atuar como protagonista deste itinerário ou como a jornalista que o cobre. Os dois pontos de vista são difíceis de serem postos lado a lado, dado a velocidade e a intensidade de cada acontecimento, portanto tratarei de ir colocando por escrito algumas impressões. Linhas do que me sucede, fragmentos às vezes caóticos do que experimento.

A primeira surpresa do programa foi no Aeroporto Jose Martí de Havana quando depois de atravessar a porta da emigração vários passageiros começaram a se acercar e a me dar suas mostras de solidariedade. O afeto foi crescendo na medida em que o trajeto avançava e no Panamá encontrei uns venezuelanos também muito carinhosos… Apesar de me pedirem o favor de que não subisse a foto com eles para o Facebook… Para não terem problemas em seu país. Depois dessa escala veio o vôo mais longo até o Brasil, com uma sensação mental e física de descompressão. Como se houvesse estado submersa muito tempo sem poder respirar e conseguisse agora ter uma inspiração de ar.

No aeroporto de Recife um lugar para o abraço… Ali encontrei muitas pessoas que durante anos têm apoiado meu empenho de viajar para fora das fronteiras nacionais. Houve flores, presentes e até um grupo de gente me insultando que muito gostei – confesso – porque me permitiu dizer que eu sonhava com que “algum dia em meu país as pessoas pudessem expressar publicamente dessa forma contra algo, sem represálias”. Um verdadeiro presente de pluralidade para mim que chego de uma Ilha que tentaram pintar com a monocromática cor da unanimidade. Mais tarde tive aceso a uma Internet tão rápida que quase não compreendo, sem páginas censuradas nem funcionários olhando por cima do ombro a página que visito.

Desse modo que até agora vai tudo muito bem. Brasil tem me dado o presente da diversidade e do carinho, a possibilidade de apreciar e narrar tantos assombros.

(Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto)

(POR AUGUSTO NUNES).

 

Como? A “verdadeira direita” está me atacando por causa do que escrevi sobre Yoani Sánchez, que eles acham ser “agente de Fidel”? Não me digam!

Eu não tenho tempo — porque tenho muito trabalho — de ficar respondendo a todos os que me atacam na Internet. Há pessoas aí que se querem “a verdadeira direita” — CONDIÇÃO QUE NUNCA REIVINDIQUEI — que consideram Yoani Sánchez mera agente do regime cubano. Parece que a tese é a seguinte: ela ocuparia o lugar que caberia à real oposição  e coisa e tal. Como toda teoria conspiratória, esta também se alimenta da ausência de provas.

Não vou ficar batendo boca com a “verdadeira direita”. Eu lhe concedo as batatas. Ok! Essas pessoas são “a verdadeira direta”. Pronto! Eu sou apenas o verdadeiro Reinaldo. Se esses caras querem se juntar ao PT, à CUT, ao PC do B e ao assessor do Gilberto Carvalho para pichar Yoani, que fique à vontade. Cada um na sua. Que façam comigo o que faço com eles: ignorar.

Segundo entendi, eles me acusam também, por vias tortas, de ser uma espécie de representante da “Geração Y” à brasileira; também eu estaria roubando o lugar que lhes caberia por direito (conquistado quando e ode?): eles seriam “os verdadeiros” opositores do petismo, não eu. Podem ficar com esse galardão também! Eu não pertenço a partido ou rupo nenhum — político, religioso, estético ou o que seja. E nunca me quis o “real” opositor do PT. Outro dia recebi um comentário, cheguei a publicá-lo aqui, de alguém que diz conhecer um “professor” que assegura que sou um agente petista, uma espécie de “Yuri” do Comunismo Internacional. Uau!!! Fazer o quê? Não existe nem deve existir manicômio para pessoas que têm ideias exóticas.

Meu partido é formado por uma única pessoa: eu! Às vezes transito na mão da metafísica influente; com grande frequência, na contramão. Nunca pergunto o que pensam este ou aquele antes de me posicionar. Se o Marcola e o José Sarney escreverem textos asseverando a sua crença na Lei da Gravidade, não passarei a me opor à Lei da Gravidade por isso. Se o Papa Bento XVI passar a atacar o uso de remédios para curar doenças, certamente eu o criticarei. Se o REnan Calheiros propuser algo que considero bom para os brasileiros, eu apoiarei — a proposta, não o Renan Calheiros. Sim, essas escolhas são óbvias. Outras nem tanto.

Yoani Sánchez é uma perseguida política em seu país. Se ela integra ou não este ou aquele grupo radicados em Cuba, em Miami ou em Osasco que se consideram “a verdadeira oposição cubana”, pouco me importa. Eu não tenho nem pauta nem agenda para Cuba. Eu me oponho àqueles que tentam impedir os outros de dizer o que pensam. Eu me oponho àqueles que tentam se impor pela força. Eu me oponho àqueles que transformam gritaria em argumento.

Se alguém acha que a “conspiração” do regime cubano passa por Yoani, por Gilberto Carvalho e por aqueles que a estão perseguindo no Brasil, lambuzem-se na sua teoria, ora essa! Façam o seguinte: paramentem-se e saiam por aí também vaiando a Yoani. De uma lado, ela seria atacada pelo PT e pelo PC do B; de outro, pela “verdadeira direita”. No fim, os dois lados se congraçam entre tapas e beijos. Mas tenham ao menos a cara de pau daqueles brucutus que se fantasiam de Che Guevara e mostram a cara; não ficam se escondendo na Internet, pichando alguém que, até que se prove o contrário, só tem pedido democracia em Cuba.

De resto, os meus leitores conhecem a tática: quando aquela turma financiada por estatais precisa de tráfego, recorre ao “Procedimento Nº 1” de seu Manual para Criar Onda na Internet: “Vamos xingar o Reinaldo Azevedo. Aí os petralhas  migram pra cá, e até alguns leitores deles aparecem para defendê-lo…” Aliás, caras e caros, não façam isso. Não caiam no truque. Não acessar as páginas da esgotosfera é a saída correta. Estes se querem a “verdadeira esquerda democrática”. Quando a “verdadeira direita” quer mostrar que existe, costuma ter uma ideia original: “Vamos atacar o Reinaldo Azevedo…” O máximo de risco que essa gente corre é arrumar também um patrocínio estatal.

Faço aqui, então, uma exortação aos homens da área de publicidade das estatais: “Existe uma ‘verdadeira direita’ que também me ataca. Essa gente já faz por merecer um dinheirinho, pô!”

Por Reinaldo Azevedo

O PT e a desonestidade como essência e método. Ou: Não adianta! O que define a vida de Lula é tentar eliminar FHC da história

A desonestidade intelectual no PT é um método. Mais do que isso: é uma essência. O partido dará início aos tais seminários para comemorar os dez anos no poder.  Leio na Folha de hoje o que segue. Volto em seguida.

A comparação de dados com as gestões do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) na Presidência vai nortear os seminários que o PT fará, a partir desta quarta-feira, para exaltar os dez anos do partido à frente do Palácio do Planalto. O PT elaborou o documento confrontando indicadores sociais e econômicos do governo “neoliberal” do PSDB aos dos mandatos “desenvolvimentistas” de Lula e Dilma Rousseff, estrelas do evento inaugural, em São Paulo, onde a cartilha será distribuída. “O objetivo, além de resgatar o que foi realizado nos últimos dez anos, é comparar e mostrar como o Brasil mudou a partir de um outro modelo de desenvolvimento”, diz o presidente do PT, Rui Falcão.

Serão usados dados oficiais de órgãos como o Banco Central e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Na lista, índices de inflação, desemprego, dívida pública, desigualdade e o valor do salário mínimo. Após o seminário de quarta, debates ocorrerão em dez Estados até maio, sempre com a presença de Lula. A ida de Dilma a todos os atos ainda não está confirmada.
(…)

Voltei
É impressionante! Lula existe para tentar se provar melhor do que FHC e para destruir a obra do antecessor. A esses seminários, vocês verão, comparecerão muitos “intelectuais do partido” — como se essas coisas pudessem se juntar numa só pessoa… Tivessem um mínimo de vergonha na cara e respeito pela academia (a que muitos deles pertencem), jamais endossariam uma patuscada como essa. Por quê?

Justamente porque se trata de uma desonestidade com a história e com o pensamento. Antes que avance, lembro que o PT, nesse cotejo, costuma mentir bastante e trabalhar com dados selecionados, dando destaque apenas àqueles que lhe são favoráveis. ATENÇÃO! Ainda que dissesse só a verdade e ainda que todos os indicadores fossem favoráveis ao petismo, faz sentido comparar os dois períodos?  A resposta, obviamente, é “não!” Qual era a realidade do país quando cada um deles chegou ao poder?

Se Lula tivesse vencido a eleição de 1994, por exemplo, o Plano Real teria ido para o vinagre, e Deus sabe em que estado miserável estaríamos hoje. As condições, muito especialmente as externas, em que FHC governou foram muito mais inóspitas do que as destes dez anos de petismo, por exemplo. A balança comercial sorriu para  PT não porque o Brasil começou a exportar muito mais, mas porque o preço das commodities disparou.

Uma coisa é recompor o valor real do salário mínimo, por exemplo, como fez FHC, no curso de um esforço para debelar a inflação; outra, distinta, é manter essa recomposição com as principais variáveis da inflação já domadas. O assunto é longuíssimo. Teremos muitas outras oportunidades de voltar ao tema à medida que as mistificações forem sendo propagadas. Notem bem: partidos têm todo o direito — e até o dever — de puxar a brasa para a sua sardinha. Mas é preciso um mínimo de decoro nessas coisas.

A rigor, o PT jogou no lixo o seu próprio programa quando chegou ao poder, fazendo do estelionato eleitoral uma categoria de pensamento, e governou, como disse então Luiz Carlos Mendonça de Barros, com o software que roubou do inimigo. O país começou a se encalacrar sob a gestão de Guido Mantega porque a realidade do mundo mudou, e os petistas não conseguiram criar o seu próprio software. Eram e são muito mais talentosos como piratas — inclusive da biografia alheia.

Por Reinaldo Azevedo

A pesquisa sobre as cotas raciais e o falso consenso. Ou: “Você é contra a bondade ou a favor? Você é contra o câncer ou a favor?”

Os países condenados ao atraso não o foram da noite para o dia. Para tanto, concorrem o esforço de gerações e a dedicação de muitas pessoas — como já afirmou alguém sobre  subdesenvolvimento. Quem disse que uma estupidez não pode contar com o apoio da esmagadora maioria da população? Quem dera só as coisas boas fossem endossadas pela torcida! Tantos desastres teriam sido evitados na história humana, né? A maioria é um bom critério para formar governos — é um dos requisitos da democracia (seu irmão gêmeo e espelhado é o respeito às minorias), mas não é critério de verdade. Ainda que a maioria acredite que é o Sol que gira em torno da Terra, a Terra continuará a girar em torno do Sol.

O Estadão publicou neste domingo dados de uma pesquisa Ibope segundo a qual 62% dos brasileiros apoiam cotas para negros, pobres e egressos das escolas públicas nas universidades. Só 16% se mostram contrários a qualquer expediente do gênero. Alguns bananas resolvem encher o seu saco: “E aí? O que você vai dizer agora?”. Ora, vou dizer o óbvio: os 62% estão errados, e os 16%, certos. Simples, não? Nem por isso sou contra a democracia e a eleição de governos pela maioria. Confesso: antes, eu era contra as cotas; depois, mudei um pouco: fiquei mais contra ainda.

Eu explico. Vários fatores formam a nossa opinião, certo? No homem racional, o preponderante é sempre o mérito da coisa e, nas matérias que ensejam escolhas, a sua moralidade intrínseca — a noção que temos de “certo” e de “errado”. Mas não é só isso: a opinião dos outros também influencia a nossa. Há ainda a qualidade do debate. Os embates intelectuais sobre cotas nas universidades são marcados por tal grau de vigarice intelectual e de patrulha — com a demonização dos argumentos dos que se opõem à medida — que aquela minha oposição de mérito se radicalizou: agora eu sou contra cotas porque as considero uma estupidez em si (a minha oposição de origem) e porque se transformaram em proselitismo obscurantista e irracionalista.

As cotas foram transformadas em sinônimo de justiça social — e, por óbvio, ninguém vai se opor a isso, ainda que essa seja uma das expressões de sentido mais aberto e incerto de que se tem notícia. Oferecer uma escola decente aos pobres, por exemplo, é fazer “justiça social”? Caso se entenda por isso a garantia de condições para que os indivíduos possam aprender e progredir na vida, então respondo: “É!”. A implementação da política de cotas jogou as três esferas de governo para a zona do conforto. Em vez de incentivar a melhoria da escola pública, vai acabar retardando o processo. É mera questão de lógica elementar.

Ora, as cotas são vistas — e com razão — como um benefício para os mais pobres. É certo que a maioria vai dizer “sim”. Imaginem o ibope a fazer esta pergunta: “Você é favorável a que todos os brasileiros comam carne todo dia?”. Creio que só alguns vegetarianos diriam “não”. É claro que uma larga maioria dirá “sim” ao que entende ser um fator de correção de injustiças.

A questão, desde sempre, é saber se o melhor lugar para responder à ineficiência da escola pública é a universidade, lugar em que o único critério válido a distinguir as pessoas tem de ser o saber. O Ibope poderia testar esta pergunta: “Você e favorável a que um aluno que sabe menos ocupe, na universidade, o lugar de aluno que sabe mais?”. Qual vocês acham que seria a resposta? O único critério de acesso justificável numa universidade é o saber, pouco importa qual seja o método de seleção: o vestibular propriamente dito ou o megavestibular chamado Enem.

Encerro notando que nem poderia ser outra a opinião da maioria. Nos últimos anos, bem poucas vozes ousaram se insurgir contra a medida. As oposições passaram longe do tema, com raras exceções, como o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Pior: um dos críticos da proposta no Senado era Demóstenes Torres. Lembro isso porque a desonestidade intelectual desse debate chega a tal ponto que se procurou associar o envolvimento do então senador com um bicheiro à sua opinião sobre cotas raciais. Na cabeça perturbada de alguns, esses elementos estavam associados. Ou por outra: ser a favor de cotas é coisa “do bem”; ser contrário é “coisa do mal”. E assim será por muitos anos.

Por Reinaldo Azevedo

Vistam o pé de pato e o escafandro! O Supercoxinha sumiu!

Tenho leitores no Brasil inteiro — e fora também —, e falar sobre a realidade paulistana pode parecer bairrista e coisa e tal. Os frequentadores deste blog sabem que o bairrismo mexe com os meus instintos mais primitivos. Já escrevi aqui que não sou nem brasileiro nem paulista. A rigor, não sou nem mesmo dois-correguense. Eu sou é da Fazenda Santa Cândida, onde nasci, no meio da estrada… Comento algumas coisas sobre a cidade de São Paulo porque, afinal, elas se passam bem aqui. Há mais: a capital paulista não está sendo governada exatamente por um político, mas por um projeto. Fernando Haddad é uma espécie de tese — primeiro, de Lula; depois, de amplos setores da imprensa paulistana, que o adotaram. Criei até um personagem para ele, o Supercoxinha. Ler os jornais paulistanos chega a ser engraçado. As promessas do prefeito — construir piscinões, enterrar fios, fazer corredores de ônibus — viram manchetes de página, ainda que ele não tenha prazo para cumpri-las. De toda sorte, o nome do prefeito sempre é evocado como aquele que resolve tudo. Cheguei a convidar os leitores para que fizessem desenhos e charges do Supercoxinha. Vejam, a propósito, o trabalho enviado por Boopo . Volto depois.

Voltei
Tem chovido muito na cidade de São Paulo, com os transtornos conhecidos. A imprensa sempre foi implacável com o prefeito de turno, pouco importando se ele estava no poder havia dois dias, dois meses ou dois anos… Quando menos, buscavam-se as evidências de que o trabalho de prevenção não havia sido bem feito, de que faltara eficiência nessa ou naquela área etc. Maluf, Pitta, Marta, Serra, Kassab… O rigor era, digamos assim, ecumênico. Até a chegada do Supercoxinha! A coisa mudou.

O PT, vamos convir, é bom de marketing — e tudo fica mais fácil quando se conta com a simpatia do jornalismo. A cidade ficou algumas vezes debaixo d’água, mas Fernando Haddad desapareceu. Segue, nesse particular, os passos da presidente Dilma Rousseff. O marqueteiro João Santana criou para ele a figura da Rainha Muda — é aquela que não fala porque austera demais, mas que distribui broncas, exige competência, dá murro na mesa se preciso. É uma construção de Santana, que também cuida da imagem de Haddad. O Supercoxinha, o Príncipe Mudo, zela por nós. Como não quer correr o risco de associar a sua imagem às enchentes, mobilizou seu secretariado para sair por aí distribuindo culpas.

Leiam trecho de uma reportagem publicada na Folha na sexta-feira. Retomo em seguida:
A gestão Fernando Haddad (PT) concluiu que a cidade teve um bom comportamento em relação ao temporal que alagou ruas anteontem. Segundo sua assessoria, o prefeito avaliou que a resposta da cidade foi “boa” e que ele não falaria sobre isso.

A chuva de cerca de 90 minutos deixou mais de 80 pontos de alagamento -metade intransitáveis-, ilhou pessoas em bairros da zona oeste e causou pane em semáforos. Mas, na visão da gestão Haddad, os problemas foram resolvidos rapidamente devido ao trabalho de prevenção.

“Minha avaliação é que as águas escoaram mais rápido do que anteriormente, e a limpeza foi realizada. Nós limpamos 90 mil bocas de lobo desde que o prefeito anunciou um plano de prevenção das enchentes”, disse o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Chico Macena.
(…)

Retomando
Com a chegada de Haddad ao poder, surgiu uma personagem nova na política — e, acreditem, na imprensa: “A cidade”. Até 31 de janeiro, a capital paulista era fragmentada. A imprensa e as esquerdas peroravam sobre as desigualdades e as várias “São Paulos” dentro de São Paulo. Isso mudou. Agora, temos uma nova prosopopeia influente: “A cidade” — e bem-comportada!

Haddad, vê-se ali, não fala sobre o assunto. Chamem-no para a hora do aplauso. Problema é com os outros.

Mas nada é comparável a esta fala: “Minha avaliação é que as águas escoaram mais rápido do que anteriormente, e a limpeza foi realizada. Nós limpamos 90 mil bocas de lobo desde que o prefeito anunciou um plano de prevenção das enchentes”.

Todas as gestões anteriores limpavam bocas de lobo, é claro! Ocorre que, agora, com o PT no poder, “as águas escoaram mais rápido do que anteriormente”. Na cidade que “se comporta bem”, o aguaceiro da enchente também adquiriu uma nova moralidade.

Por Reinaldo Azevedo

 

Vinte minutos de chuva, e o caos se instala em São Paulo. Mas fiquem tranquilos: na gestão do Supercoxinha mudo, tanto as águas como o jornalismo têm consciência social…

Bastaram vinte minutos, se tanto, de uma chuva forte — bem distante do dilúvio; já se viram coisas bem piores em duração e intensidade —, e o caos se instalou em São Paulo. Viram-se barcos circulando no Vale do Anhangabaú. A cidade colapsou. Não procurem Fernando Haddad. O Príncipe Mudo, por óbvio, não fala. Daqui a pouco, seus secretários saem por aí a afirmar que tomaram todas as providências, que “a cidade” se comportou bem, que a culpa é das administrações passadas — segurando a tentação de acusar diretamente Gilberto Kassab porque Dilma Rousseff não deixa e vai precisar do PSD…

Jilmar Tatto, o secretário de Transportes, vai fazer mais umas 35 promessas — e pelo menos uma duas renderão a matéria principal dos cadernos de “cidades” dos jornais paulistanos. Na sexta, viu-se desordem semelhante. Chico Macena, secretário de Coordenação de Subprefeituras, o mais, como direi?, divertido dos secretários do Príncipe Mudo, deu um declaração fabulosa à Folha: “Minha avaliação é que as águas escoaram mais rápido do que anteriormente, e a limpeza foi realizada. Nós limpamos 90 mil bocas de lobo desde que o prefeito anunciou um plano de prevenção das enchentes”.

Rende um tese de pós-doutorado sobre discurso político. Parece que as águas, sob a gestão petista, adquiriram uma inédita consciência social… E, como o prefeito mandou limpar os bueiros (fica a impressão de que isso nunca tinha sido feito…), então o caos transcorreu na mais absoluta normalidade.

É evidente que…
É evidente que não estou culpando os petistas pelas enchentes — eles é que têm o hábito de transformar tragédias, mesmo as naturais, em política. Estou é identificando um comportamento de marketing diante da chuva e informando — é informação mesmo! — que os setores antes tão vigilantes da imprensa paulistana agora deram para praticar indignação a favor, desenvolvendo um estilo muito peculiar, que eu classificaria de “oficialismo de contestação”.

Podem reparar: é raro o texto que trate dos problemas da cidade que não tenha, digamos, uma “pegada” de longo prazo, sobre a necessidade de reorientar o desenvolvimento, redescobrir a cidade, mudar o eixo sei lá do quê… Quando os não petistas estavam no poder, era pau puro. Agora, a enchente está sendo vista como parte de um processo, entendem?

Buzinaço (sei lá por quê, essa gente acha que buzina espanta as águas…), sirenes, gritaria… É a cidade “viva” — ou a “viva a cidade”, como vejo pichado por aí — se manifestando. Como na Teogonia de Hesíodo, antes da chegada do PT ao poder, reinava o Caos (o deus sem tempo, sem antes nem depois). Agora, a história começou!

Por Reinaldo Azevedo

 

Governo do Rio omitiu 35 dias ao informar viagens de Cabral

Por Italo Nogueira, na Folha:
O governo do Rio omitiu 35 dias de viagens do governador Sérgio Cabral (PMDB) ao prestar esclarecimentos sobre as viagens internacionais que ele fez em seu primeiro mandato à frente do Estado. Documentos obtidos pela Folha com base na Lei de Acesso à Informação mostram que, de 2007 a 2010, o governador ficou pelo menos 134 dias no exterior ao participar de 27 missões oficiais. Em maio do ano passado, nota preparada pela assessoria de Cabral informou que o governador passara 99 dias fora do país -ou seja, 35 dias a menos do que revelam os documentos obtidos agora. A nota divulgada no ano passado foi uma resposta a um questionamento feito pela Folha na época em que foram divulgadas fotos de Cabral com o empresário Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, em Paris.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

 

Modelo lulo-dilmista – Indústria reduz participação nas exportações, perdendo US$ 14 bilhões

Por Gabriela Valente, no Globo:
O ano de 2013 será crucial para o posicionamento dos países no xadrez do comércio mundial. Os emergentes devem tomar a liderança nas vendas, enquanto a crise assola as nações desenvolvidas. Nessa arrancada, o Brasil pode estar fadado a continuar um grande vendedor de commodities (produtos básicos com cotação global, como soja, minério de ferro e petróleo), já que a apatia da indústria faz o país perder cada vez mais espaço em destinos prioritários. Desde o início das turbulências, em 2008, até 2011, a falta de agressividade do setor custou US$ 14 bilhões ao país, segundo levantamento feito pelo GLOBO. O montante equivale à fatia do mercado de exportações perdida nesse período nos principais destinos.

O dado não leva em conta 2012, porque as estatísticas dos outros países ainda não foram fechadas. Por aqui, o total das vendas externas caiu, bem como as exportações do setor industrial. E o cenário tende a piorar neste momento decisivo já que, apesar de ser a sétima maior economia do mundo, o Brasil está em 112º lugar no ranking de investimentos feito pela Agência de Inteligência Americana (CIA). É o pior colocado dos Brics — sigla para o grupo de emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Já entre os sul-americanos, só está à frente do Paraguai. O Brasil investe 18,9% do Produto Interno Bruto.

Com falta de investimentos e, consequentemente, queda de competitividade, o Brasil tem diminuído sua participação no comércio mundial. Nos anos de 1950, chegou a absorver 2,2% dos gastos globais. Hoje, tem cerca de 1% na projeção dos especialistas para 2012.

A participação da indústria despenca na pauta de exportações. Antes da crise, os produtos do setor representavam 71% do que o país vendia para fora. Agora está em 61%. O peso da indústria de transformação nos dez principais mercados passou de 54%, em 2008, para 52,5% no ano passado.

Perdas para China e Peru
Somente para os Estados Unidos, o grande parceiro comercial, o Brasil abriu mão de vendas que chegariam a US$ 3,6 bilhões. Esse seria o faturamento, se o país tivesse mantido a sua participação nesse mercado. Já na Argentina, que compra basicamente produto industrializado, a perda equivale a US$ 1,3 bilhão.

Com a indústria paralisada, as exportações do setor caíram 3,6% só no ano passado. A China vem ocupando o espaço brasileiro. Na América Latina, as vendas brasileiras têm perdido terreno para produtos peruanos e colombianos. O Peru investe 25,4% do PIB e a Colômbia, 24,1% do PIB. Além de investir aquém do necessário para impulsionar as exportações, o Brasil vê o empresariado se voltar para o mercado interno. O país já teve 30 mil empresas exportadoras, e esse número caiu para 18 mil. Resultado: o embaraçoso 24º lugar na lista de economias que mais exportam.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Marina Silva é a personagem política mais reacionária e arrogante do país; nesse particular, ela venceu Lula!

Perguntaram a Marina Silva se a “Rede da Sustentabilidade”, partido que pretende criar, será oposição ou situação. Ela respondeu: “Nem oposição nem situação, precisamos de posição”.

Perguntaram a Marina Silva se o partido que pretende criar será utópico ou pragmático. Ela respondeu: “Será sonhático”.

Neste sábado, ela reuniu os “marineiros” para dar largada à criação da legenda que não é nem oposição nem situação, mas “posição”; que não é nem pragmático nem utópico, mas “sonhático”… Estava no melhor da sua forma, e isso quer dizer, então, que ninguém entendeu quase nada do que ela disse, mas todos acharam genial. Como diria Gabriel Chalita aos oito anos (segundo seu testemunho), aos devolver a uma mitológica professorinha um livro de Sartre (!?!?!?) que ela lhe emprestara: “Não entendi nada, mas adorei!”. Adorar sem entender parece ser uma vocação destes tempos…

Sim, Marina falou bastante. Um dos trechos mais encantadores da sua fala é este:
“Estamos vivendo uma crise civilizatória e não temos o repertório necessário para enfrentá-la. A crise política e de valores faz com que a gente separe a crise política da crise econômica”…

Vamos pensar.

Estamos vivendo uma crise civilizatória??? Eu sei que pode parecer estranho afirmar isso, leitores, mas, como comunidade humana, nunca fomos tão felizes — ainda que possa haver muita infelicidade no mundo, é certo. Vamos ver.
1: nunca antes na história deste mundo tantos homens viveram sob regime democrático;
2: nunca antes na história deste mundo os seres humanos tiveram vida tão longa;
3: nunca antes na história deste mundo houve tanta comida e tão barata;
4: nunca antes na história deste mundo tivemos tantos remédios para nossos males;
5: nunca antes na história deste mundo houve tantas crianças com acesso à educação;
6: nunca antes na história deste mundo houve tantos humanos com saneamento básico;
7: nunca antes na história deste mundo houve tão poucas guerras;
8: nunca antes na história deste mundo, as guerras mataram tão pouco como nos últimos 50 anos…

Ao contrário do que diz Marina, nunca antes na história deste mundo tivemos, como espécie, um repertório tão grande para responder aos desafios que nos impõem a natureza e a civilização. Marina andou abusando de algum creme “anti-idade”, como se diz hoje em dia? Do que ela está falando?

Uma fala tonta como essa soa verdadeira para a geração maluco-natureza, que gosta mais de matinho e de bichinho do que de gente. Não! Eu não quero acabar com o matinho nem matar o bichinho, mas a minha medida para avaliar a “civilização” — já que esta senhora pretende ser, assim, grandiosa — ainda é o ser humano. Não existe a civilização dos sapos. Não existe a civilização dos bagres. Não existe a civilização dos jacarés. Mas existe a civilização dos homens.

Arrogância
Essa história de que a humanidade não tem o “repertório necessário” para enfrentar a suposta “crise civilizatória” é uma das bobagens mais arrogantes que ela já disse. Até porque esse “nós”, em falas com esse grau de generalização, costuma excluir quem fala. Traz o sotaque inconfundível dos profetas. Marina acha, de fato, que os outros — o resto do mundo — não têm o repertório, mas ela… Ah, ela tem, sim! Ela viu “a” coisa! Tomou o lugar de Moisés e recebeu as novas Tábuas da Lei no Sinai. 

O que me espanta — e isto, sim, é sintoma de uma formidável crise de ignorância que toma conta da imprensa e dos meios acadêmicos — é que não se constate o caráter obviamente reacionário dessa fala. Quando alguém diz que “vivemos uma crise e não temos repertório”, afirma, de modo oblíquo, que, nas crises passadas, o tal repertório existia. O que parece “progressista” no discurso de Marina é, no fim das contas, regressista. Ela tem saudade de um passado que nunca houve.

Existe uma crise civilizatória, e Marina pretende enfrentá-la não sendo nem situação nem oposição, mas posição; não sendo nem utópica nem pragmática, mas sonhática.

Entendi.

Como disse neste sábado a minha mulher, “deem uma crise civilizatória para Marina que ela sabe como responder ao desafio: criando um novo trocadilho”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Wandercleysson e Valdisnei conversam sobre o novo partido de Marina, que não será nem de situação nem de oposição…

Na madrugada, voltarei a Marina Silva. Este ser “sonhático” sempre me inspira. Neste sábado, seus seguidores, os “marineiros”, realizaram um ato em Brasília para marcar, simbolicamente, a criação do novo partido — que ainda não tem existência legal. Já estão definidos o nome fantasia — “Rede Sustentabilidade” — e aquele de registro na Justiça Eleitoral: “Rede” apenas. É que aquele substantivo soa esquisito e quase etéreo para os não pós-graduados do ciclismo de Ipanema, Leblon, Vila Madalena e Alto de Pinheiros…

Diálogo ouvido na obra:
— Vai votar em quem, Wandercleysson?
— Não voto em “quem”, não, Valdisnei! Eu voto no “quê”, no projeto sonhático. Ou a ação política se deixa transformar pela transversalidade, que rompa com os limites do puramente pragmático, alargando as fronteiras do possível, de modo a que o impossível seja primeiro um devir, depois um horizonte plausível, até que seja realidade, ou não sairemos da crise civilizatória, compreendeu? Pega o cimento.
— Ichi! Não entendi foi nada! Esse tal sonhático é uma coisa, assim, punhética? Ói o cimento aqui.
— É mais do que isso, porque imaginar alguma coisa já é pôr um limite na coisa, entendeu? A política, até agora, foi por demais aristotélica. Precisamos de mais Platão, mas um Platão mudado pelo espírito da floresta. Tá bom de cimento já. Pode mexer.

Certo!

Marina falou e definiu assim a “Rede”: “Nem oposição nem situação, precisamos de posição”. Wandercleysson concorda. Valdisnei está pensando no assunto. Leiam o que informam Laryssa Borges e Marcela Mattos na VEJA.com.

Na madrugada, volto a Marina e à tal “Rede”. Antes, preciso tirar algumas dúvidas com Wandercleysson.
*
Por aclamação, o novo partido político da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi oficializado neste sábado como o nome de Rede Sustentabilidade. Na justiça eleitoral, no entanto, a legenda apresentará registro apenas com o nome de Rede.

Ao anunciar a escolha, Marina explicou a preferência por adotar a denominação e voltou a criticar as conveniências políticas e o que ela classifica como alianças partidárias espúrias. “É insustentável sermos tomados por uma ética de circunstância, em que não se faz aquilo que precisa ser feito, se faz aquilo que é conveniente”, disse após sacramentar o nome do partido.

A ex-ministra, que busca com a nova legenda mecanismo para se lançar como candidata a presidente nas eleições de 2014, defendeu a mobilização de simpatizantes como forma de angariar votos e de demonstrar a força política do grupo. Ela citou os cerca de 20 milhões de votos que teve na corrida presidencial de 2010 e lembrou as dificuldades de construir uma campanha sem uma larga base de sustentação parlamentar e administrativa.

“Tivemos quase 20 milhões de votos com um minuto e 20 segundos de tempo de televisão, sem comunicação e sem uma base política de prefeitos, governadores, deputados federais. [Não teríamos todos os votos] Sem a rede das Casas de Marina [comitês domiciliares na campanha de 2010], sem os sonhadores e sonhadoras que resolveram canalizar tantos sonhos capazes de se transformar em realidade”, disse ela.

“Estamos dizendo que somos aquilo que nós já somos. Somos uma rede. Se não fôssemos uma rede, não teríamos aqui hoje mais de mil pessoas que se organizaram nesse país para chegar aqui pagando sua própria passagem”, completou Marina.

Mais cedo, na abertura da plenária que debate a criação do novo partido, a ex-ministra informou que a futura agremiação não será “nem de oposição nem de situação”, admitiu que a sigla fará “alianças pontuais” e que o apoio e a rejeição às políticas do governo federal serão analisados caso a caso.

Coreografia
Logo após a oficialização do nome Rede, simpatizantes de Marina Silva estenderam tiras coloridas de tecido e ensaiaram o entrelaçamento dessas tiras para simbolizar a nova legenda. Na celebração do partido, uma imensa bola em formato de planeta Terra foi jogada de um lado para outro ao som da música A Rede, do cantor Lenine. Um pequeno grupo presente ao Encontro Nacional da Rede Pró-Partido ensaiou gritos de “Marina presidente”.

Por Reinaldo Azevedo

 

Guerra pela comissões

Na briga

Às vésperas do fim do recesso parlamentar, de fato – porque até agora, o Congresso continua às moscas – há uma guerra aberta pelo comando das comissões do Senado.

Gim Argelo está travando uma batalha com o PSDB para tentar garantir Fernando Collor na presidência da Comissão de Infraestrutura. Ciro Miranda, por sua vez, não quer nem ouvir falar nisso. Outro front envolve a Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle.

O ruralista Blairo Maggi anda espalhando que criará todo tipo de problema se não for escolhido para capitaneá-la. Enquanto isso, o PT trabalha para entregar a cadeira ao PSB, que indicaria Antônio Carlos Valadares para presidi-la.

Até terça-feira, quando tudo terá que ser definido, ainda haverá muito tiroteio.

Por Lauro Jardim

 

Esportes

Vaias para o ministro

Alvo dos protestos

O público da final do do Brasil Open de tênis, realizada ontem em São Paulo, vaiou o camarote onde pontificavam o ministro Aldo Rebelo e Tiririca.

Por Lauro Jardim

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

4 comentários

  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Essa tal de Avaaz deveria encabeçar um abaixo assinado exigindo que os aumentos de vereadores, deputados, senadores, justiça, etc., ficassem amarrados a indices de inflação mais alguma coisa a tituto de reposição e que não ficasse ao sabor desses politicos safados; a exemplo do que fazem para dar aumentos do salário mínimo e para aposentados.

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  • Maurício Carvalho Pinheiro São Paulo - SP

    Esse cara deveria se tocar !! Com voz de marreco se afogando e uma cara de mexicano que morre em filme de faroeste no 1º tiro, não dá !!! Outra coisa ! O pessoal do PSDB deveria fazer um outro livreto e distribuir para a população. Contando o toma lá da cá de nomeação politica de parentes e amigos em troca de apoio na camara e senado (substituindo o mensalão), as promessas não cumpridas, as pesquisas de popularidade que ultrapassaram 100%, e entrevistaram só 1/2 duzia de pessoas; a mentira do pré-sal (descobriram outro poço a 3.000 metros ontem), o enterro de um tatuzação em um tunel em Caraguatatuba de R$ 51 milhões, as obras quase paradas da PAC, a Transposição abandonada, a ferrovia Brasil num sei o que, o estouro de 45% acima da meta de inflação (+2 pontos), o navio que não vai ao alto mar p/ não afundar e outras cositas mas !!!

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  • Anilton Souza Rodrigues Manzano Amambai - MS

    Esse pessoal do PT foram eleitos para gestões e não governo, veja bem, que não estamos presenciando governo, e estão subordinados ás leis que regem esse PAÍS, e no entanto, estão misturando Partido, ideologias com o Governo de pessoas sérias que não concordam com essas algazarras Petistas, essas mesmas pessoas que estão estão observando tudo isso e não concordam, logicamente, estão sendo levadas de roldão como se todos concordassem com essas patifarias Petistas.Infelizmente todos os brasileiros estão sendo representados por essa minoria que desrespeitam as nossas LEIS e cuidam de direcionar o dinheiro dos impostos que todos pagam. Sou á favor de que cada um escolha sua turma, Petistas vão ter o Presidente que queiram, e nós brasileiros que não concordamos com essas badernas Petistas vamos escolher o nosso Presidente. Assim todos viverão felizes para sempre. Espero não ser importunado por esses vizinhos.

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  • Nadir Razini VILHENA - RO

    Parabens Sr. Reinaldo Azevedo. A sua matéria sobre as mentiras descaradas destes ativistas pro ditadura e a falta de vergonha dos nossos governantes e ainda a omissão da imprensa nos revolta. Sou solidario a tudo que o senhor escreveu.

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